sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Edwin S. Porter - “The Great Train Robbery”


Edwin S. Porter - "The Great Train Robbery"
(EUA – 1903) – (13 min. – Mudo - P/B)
Tom London, George Barnes, Bronco Billy Anderson, Walter Cameron, Marie Murray.


Ver este filme mudo numa sala de cinema foi um prazer só igualável quando descobrimos, também em sala, essa obra dos irmãos Lumière “L' arrivé du train en gare” que, no dia 28 de Dezembro de 1895 no Grand Café, situado no nº.14 do Boulevard des Italiens, provocou o pânico nos espectadores que assistiam ao nascimento de uma nova Arte, com a aproximação “perigosa” da locomotiva originando a debandada geral para não serem trucidados pelo comboio ou ainda essa obra mágica criada pelo mestre da truncagem Monsieur George Méliés e a sua célebre "Viagem à Lua" / "Le Voyage dans la lune".

Referimo-nos a estas três obras porque todas elas marcam momentos fundamentais na História do Cinema. Os Lumiére com a invenção do Cinema, Méliès e o nascimento dos “Efeitos Especiais” e Edwin S. Porter realizando o primeiro “Western”, criando um género cinematográfico, ao mesmo tempo que dava um famoso passo nessa arte criativa que é a montagem. E dizemos isso porque, no final do filme, surge-nos um grande plano do rosto do bandido, com os seus enormes bigodes, o chapéu e a disparar o revolver na direcção do espectador, estávamos em 1903.

Curiosamente, quando o filme foi exibido, foi dada indicação aos projeccionistas que poderiam colocar este plano em qualquer momento do filme, provocando desta forma não só a atenção do espectador, como criando uma linguagem profundamente cinematográfica, demonstrando a capacidade e a importância do plano.Estamos assim nesse território tão característico da América, o “western”, um género tipicamente americano e convém lembrar que, na época em que este filme foi rodado, ainda o grupo de Butch Cassidy e Sundance Kid eram uns temíveis foras-da-lei, aliás muito bem retratados no cinema por Sam Peckinpah, por outro lado a memória do bando de Jesse James ainda estava bem fresca de todos e como sabemos são inúmeros os filmes rodados sobre estas personagens do “western”.

Ora com este “The Great Train Robbery” entramos decididamente no Oeste Americano, com os respectivos preparativos para o assalto por parte dos fora-da-lei, com o ataque à estação de comboio, imobilizando o telegrafista, impedindo desta forma ser conhecida a presença do bando no território por parte das autoridades. Na cidade encontramos os habitantes divertindo-se num baile, incluindo o xerife e os seus homens e depois somos levados até ao assalto ao comboio, com mortos e feridos e a consequente fuga desta quadrilha selvagem com o dinheiro do saque. Mas, como não podia deixar de ser, Edwin S. Porter convoca para a famosa perseguição o xerife e os seus homens que irão defrontar a perigosa quadrilha, criando-se aqui as regras para milhares de duelos travados ao longo de cem anos de cinema.

A homenagem de Martin Scorsese a este filme em "Tudo Bons Rapazes"
Um dos aspectos importantes nesta fase em que o cinema dava os primeiros passos era o facto de o mesmo actor desempenhar diversos papéis, como sucede aqui. Por outro lado o trabalho de Edwin S. Porter inclui a realização, fotografia, montagem e argumento, demonstrativo da preparação destes pioneiros do cinema que já tinham por detrás uma equipa de produção e, no caso dos Estúdios de Edison, essas equipas trabalhavam simultaneamente em diversas películas, mas será esta em concreto que se irá tornar histórica, não só por ter criado um novo género cinematográfico, mas também devido ao êxito alcançado aquando da sua apresentação junto do grande público.

Edwin S. Porter

Edwin S. Porter (o "S" significa Stanton) nasceu em Connellsville, Pensilvânia, em 1870 e desde muito cedo se inicia no cinema, primeiro como mecânico e depois como realizador, tendo sido ele a dar a conhecer a esse grande génio chamado David Wark Griffith essa nova arte chamada cinema, recorde-se que Griffith trabalhou durante alguns anos como actor para os Estúdios de Edison, tendo mais tarde abraçado a arte da realização criando nos seus filmes a linguagem cinematográfica, como todos sabemos. Mary Pickford, a primeira “namorada da América” também foi dirigida por Porter em películas como “A Good Little Devil” ou “Hearts Adrift” mas, se olhamos para a filmografia de Porter, será sempre de destacar a sua versão cinematográfica dessa famosa obra literária intitulada “A Cabana do Pai Tomás”.


Se desejar ter uma pequena ideia de como eram os tempos do cinema nos seus primórdios recomendamos vivamente essa homenagem prestada pelo grande Peter Bogdanovich aos pioneiros do cinema na película “Nickleodeon” / “O Vendedor de Sonhos”, com interpretações inesquecíveis de Burt Reynolds e Ryan O’Neal, vivendo nesses conturbados tempos da guerra das patentes, em que se deitava fogo ao armazém do vizinho para este não poder divulgar os seus filmes. Aqui deixamos a memória de “The Great Train Robbery” de Edwin S. Potter, que fez nascer um género, “O Western”, para delícia de milhões de espectadores já lá vai um século.

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