sábado, 20 de fevereiro de 2016

Paul Bley – “Open To Love”


Paul Bley
"Open to Love"
ECM Records

A entrada de Paul Bley no universo musical não se fez através do piano, como muitos poderão pensar ao escutar os seus discos, mas sim através do violino, surgindo com apenas cinco anos a tocar em recitais. A sua adolescência será passada em Montreal e quando chegou essa idade mágica dos 18 anos, decidiu partir para New York, essa grande metrópole, onde irá estudar durante quatro anos na célebre Julliard School, formando durante esses anos um grupo de jazz na companhia de Jackie MacLean, Donald Byrd, Arthur Taylor e Doug Watkins, ao mesmo tempo que se cruza com os geniais Charlie Mingus e Art Blakey, que lhe irão abrir os horizontes da estrada perfeita.

Em 1957 parte para a Califórnia, onde permanece durante dois anos, tocando com Ornette Coleman, Don Cherry e Charlie Haden, entre outros, regressando depois à Big Apple. Começa a tocar com o incomparável Jimmy Giuffre, que lhe dará a oportunidade de conhecer a Europa na companhia de Steve Swallow, começando a gravar para etiquetas de renome como a Verve e CBS. Depois desta espantosa experiência, de inícios de sessenta, junta-se a Sonny Rollins e parte em tournée pelo Japão. Ao regressar do continente asiático forma finalmente o seu próprio trio, com Gary Peacock no contrabaixo e Paul Motion na bateria, que irá de imediato dar nas vistas.


Em finais de sessenta, mais concretamente em 1968, nesse ano da criatividade ao poder, descobre o sintetizador e começa a trabalhar todas as suas potencialidades, tornando-se rapidamente num entusiasta desse instrumento que tantos caminhos haveria de abrir no vasto universo musical. Será no entanto em 1973 que Paul Bley irá surpreender o mundo, ao gravar o seu primeiro trabalho em piano solo, para a editora ECM, de Manfred Eicher, nesse dia 11 de Setembro, que ficará para sempre como um marco fundamental da sua carreira.
A modernidade passa por “Open To Love”, já que estamos perante um trabalho profundamente inovador, onde o lirismo do seu piano navega ao longo do álbum, embora o swing não esteja ausente (basta escutar “Harlem” e fica tudo dito), oferecendo-nos passagens por territórios que nos convidam a uma profunda meditação.

“Closer”, da autoria de Carla Bley, oferece-nos um passeio pelo universo, onde o free espreita a cada esquina. Já o tema seguinte, “Ida Lupino”, também da autoria de Carla Bley, é dedicado à famosa actriz de cinema, uma das primeiras mulheres realizadoras (sendo a sua obra como cineasta, infelizmente, pouco conhecida), neste maravilhoso tema o swing navega nos dedos de Paul Bley, como se se tratasse do movimento sereno e cristalino das águas do rio, a caminho da foz, mergulhando muitas vezes em cascatas mágicas, repletas de cor. “Seven” é outro tema de Carla Bley, também incluído neste álbum.


“Started” é o primeiro de dois temas da autoria do pianista a surgir no disco, sendo o segundo essa pérola intitulada “Harlem”, que nunca nos cansamos de escutar, com um swing mais-que-perfeito, que nos invade a alma de forma contagiante.
Já “Open To Love”, da famosa Annette Peacock, que dá título ao álbum, navega por esse território do free, nunca abdicando Paul Bley do seu lirismo, encerrando-se este disco com o hoje famoso “Nothin Ever Was, Anyway”, também gravado por diversas vezes por Annette Peacock, para além dessa extraordinária leitura da composição feita pelo trio de Marilyn Crispell, (piano), com o Gary Peacock no contrabaixo e o Paul Motion na bateria.

Paul Bley, que nos deixou recentemente, oferece-nos em “Open To Love” o seu melhor trabalho em piano solo, um verdadeiro testamento da sua genialidade.

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