segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

John Ford - “Mogambo”


John Ford – "Mogambo"
(EUA – 1953) – (115 min. / Cor)
Clark Gable, Ava Gardner, Grace Kelly, Donald Sinden, Philip Stainton, Eric Pohlmann.



Quando se fala do Cinema Clássico Norte-Americano por terras de África, de imediato nos vêm à memória três filmes de outros três Mestres. São eles “A Rainha Africana” / “The African Queen” de John Huston, de 1951, “Mogambo” de John Ford datado de 1953 e “Hatari” de Howard Hawks realizado em 1962. Por outro lado também sabemos que tanto Ford como Huston decidiram fazer estes filmes para usufruírem de tempo para os seus safaris, como se fossem ambos caçadores brancos de coração negro, como de certa forma nos demonstrou Clint Eastwood, nessa maravilhosa película intitulada precisamente “White Hunter, Black Heart”, que nos relata os bastidores das filmagens de “A Rainha Africana”.



No entanto são os filmes de Ford e Hawks que se aproximam mais um do outro, pela comunhão do tema, já que ambos retratam um grupo de homens que se dedica à captura de animais para os jardins zoológicos, sendo o filme de Hawks bastante diferente do de John Ford. A razão e simples: o facto de “Mogambo” se tratar de um “remake” de “Terra Abrasadora” / “Red Dust”, essa obra-prima realizada por Victor Fleming em 1932, tendo também Clark Gable (aqui sem bigode) como protagonista. E se o filme de Fleming respira erotismo por todos os poros, o de John Ford segue-lhe as pisadas, embora de forma mais subterrânea.


Em “Red Dust” iremos descobrir uma Jean Harlow de uma sensualidade avassaladora, enquanto em “Mogambo”, apesar de todos entendermos o que a Honey Bear Kelly (Ava Gardner) pretendia do Marajá, o assunto é apresentado numa forma mais “soft”.
O modo como Ford filma Ava Gardner, oferecendo-nos o seu lado de “fera amansada”, revela-se quando vemos a forma como ela age com Victor Marswell (Clark Gable), porque ambos sabem que são feitos da mesma carne e são donos de cicatrizes bem fundas, provocadas pelo amor. Essas mesmas cicatrizes que John Brown-Pryce (Philip Stainton) percebe existirem por debaixo da branca pele de Honey. Ela é uma mulher em busca de um espaço para sobreviver e Marswell percebe isso mesmo, mas prefere recusar a sua companhia dando-lhe dinheiro para a viagem de regresso a Nova Iorque.


Embora não sejam carne da mesma carne, Marswell (Clark Gable), ao conhecer a esposa do antropólogo Donald Nordley, sente-se de imediato atraído por ela, apesar da sua relação inicial ser conturbada. Vejam a forma como ele gostou de levar aquela bofetada de Linda Nordley (Grace Kelly), que ainda os irá aproximar mais um do outro.
Mas quando tudo parecia correr sobre carris, com a partida de Honey Bear Kelly (o nome fala por si), eis que ela regressa, depois de o barco onde seguia se ter avariado. Nasce de imediato um triângulo verdadeiramente explosivo, que John Ford dirige com mão de Mestre. Os diálogos entre Linda e Honey são de uma inteligência profunda, ao mesmo tempo que estão recheados de subentendidos, que todos escutam em silêncio.
E se Victor Marswell segue com atenção aquele duelo feminino, tal como os seus colegas de aventura, já Donald Nordley, o marido de Linda, parece estar mais interessado em estudar o habitat dos gorilas do que proteger a mulher da tentação. Mas será mesmo isso ou estaremos perante um homem extremamente inteligente, que só age no momento certo?

“Mogambo” de John Ford oferece-nos o duelo de duas mulheres tão diferentes e distantes, pela posse do mesmo homem, como se estivéssemos num “western”. Homem esse que prefere optar por alguém diferente dele, porque acredita que os contrários se atraem. Aliás ele explica a Linda (Grace Kelly), que a razão de nunca se ter casado pode muito bem ser ela. E aqui temos que reconhecer que a beleza de Grace Kelly, nesta película, se encontra no seu auge. Ela é na verdade um vulcão pronto a explodir. Já Ava Gardner, essa “fera amansada”, surge aqui como a mulher certa para viver naquele ambiente, porque sabe melhor do que ninguém como sobreviver na selva da vida, lutando até ao limite das suas forças pelo homem que ama.


Apesar de “Terra Abrasadora” nos oferecer um conflito mais melodramático (convém dizer que a acção do filme de Fleming se desenrola na Indochina), em “Mogambo” temos também esse género a respirar no interior dos fotogramas, em virtude de John Ford optar pela chegada desses momentos de solidão e silêncio, para os revelar ao espectador em todo o seu esplendor. Veja-se quando Honey vai “passear” à chuva pela selva, depois de descobrir que Marswell e Linda se encontram perdidamente apaixonados; o encontro de Linda (Grace Kelly) e Marswell (Clark Gable) nas cataratas; ou esse momento sublime em que Honey (Ava Gardner) se confessa ao padre da missão e nós não ouvimos as suas palavras, mas conhecemos os seus pensamentos.


John Ford, nesta obra-prima do cinema, dá-nos um retrato avassalador das relações humanas, através da luta de duas mulheres na conquista do mesmo homem. Luta essa que, como iremos ver, até poderá conduzir a um “crime”. Um crime calculado e pensado ao pormenor, como se fosse um acidente. Mas quando Donald Nordley (Donald Sinden) fala de Linda de forma apaixonada, Marswell perde a coragem das palavras e refugia-se no silêncio.
E nessa mesma noite em que Linda (Grace Kelly) se decide oferecer a Marswell, irá encontrá-lo com Honey Bear Kelly (Ava Gardner) nos braços, perdido de bêbado, porque na verdade, ele sente que perdeu a sua oportunidade de ficar com Linda Nordley e ela não lhe irá perdoar o seu fracasso.


Atingimos assim o clímax do filme, com Linda a disparar sobre Marswell e o marido dela a chegar ao acampamento para pedir justificações do que se está a passar.
A civilizada e tímida Linda Nordley (Grace Kelly), mostra aqui o seu rosto de felina a lutar pela posse do corpo amado, esse território chamado Marswell (Clark Gable), que a tinha atraiçoado, ao desistir de lutar por ela, depois de perceber que os seus mundos eram muito mais distantes do que ele pensava.

E será mais uma vez essa aguerrida fera amansada chamada Honey Bear Kelly (Ava Gardner), que dará as explicações mais esfarrapadas para salvar a honra da dama ferida, perante todos, acusando o homem que ama de ser o responsável pelos acontecimentos. Percebemos assim, mais uma vez, como por vezes são insondáveis os caminhos que conduzem ao amor.


Esta obra-prima chamada “Mogambo”, que é filmada num esplendoroso Technicolor, oferece-nos personagens em carne viva, que nos agarram do primeiro ao último minuto do filme, revelando que o território do melodrama pode ser trabalhado num registo fora do habitual, como mais uma vez se prova, pelo génio desse cineasta chamado John Ford.

2 comentários:

  1. Este é, sem sombra de dúvida, um dos meus favoritos!

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  2. Cara Paula Lima, obrigado pelo comentário. Na filmografia de John Ford "Mogambo" é uma película incontornável, mas tamb+em recomendo a descoberta do filme original, já que este é um "remake".
    Beijinhos

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