terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Keith Jarrett - “Tokyo Solo 2002”


Keith Jarrett  - "Tokyo Solo 2002"
Kaname Kawachi - (Japão - 2005) - (111 min. / Cor)
ECM Records

Este concerto de Keith Jarrett, realizado por Kaname Kawachi, é uma verdadeira pérola musical que merece ser referida e dada a conhecer aos amantes do cinema, já que cineastas como Jean-Marie Straub com a sua “Crónica de Anna Magdalena Bach” e Ingmar Bergman e a sua “Flauta Mágica” abordaram o universo da música, já para não falar em Jean-Luc Godard e o seu “Sympathy for The Devil” ou “One Plus One”, ou seja temos aqui a música barroca através de Bach/Straub, a Ópera pela mão de Bergman/Mozart e o rock através da leitura de Godard/Rolling Stones. Chega assim a altura de olhar o jazz através da visão de Kawachi/Jarrett.


“Tokyo Solo 2002” representa o 150º concerto a solo de Keith Jarrett no Japão, onde o mágico do piano nos oferece um dos seus melhores concertos e Kaname Kawachi nos dá uma magnífica lição de como realizar um concerto solo, num grande auditório, no caso concreto o Metropolitan Festival Hall de Tokyo (ou Tóquio se preferirem). E aqui encontramos a forma sublime como a câmara se aproxima do músico em plena improvisação, oferecendo-nos o pulsar da arte do artista, mas também o respirar do seu instrumento, sempre de uma forma perfeita com deambulações lentas onde o grande plano e o traveling habitam em perfeita harmonia com o raccord. Estamos assim perante a arte de dois mágicos, recorde-se que Kaname Kawachi convive com a música de Keith Jarrett já há longos anos e são diversos os concertos a solo e a trio já registados por ele.


Para aqueles que não são dados a estas andanças do jazz (recorde-se que a música de Keith Jarrett ultrapassa as fronteiras do jazz), basta olhar a memória cinéfila e o filme de Nanni Moretti “Caro Diário”, onde encontramos o cineasta nas suas deambulações na sua vespa pelo território onde Pier Paolo Pasolini encontrou a violência da morte e então escutarmos os célebres acordes do “Koln Concert” / “Concerto de Colónia”, para sermos invadidos pela sensibilidade pianística do compositor/intérprete. Esse mesmo tema surge também no início desse esquecido filme realizado por Nicolas Roeg, intitulado “Bad Timing”.


Já essa obra barroca intitulada “Spheres”, onde o piano dá lugar ao órgão, invadiu obras como “Fandango” de Kevin Rynolds e “Sorcerer” de William Friedkin, assim como no filme “Bella Martha” de Sandra Nettelbeck. Mas será na película “I Remember Me”, um documentário de Kim A. Snyder, onde poderemos escutar com mais profundidade a obra de Keith Jarrett numa banda sonora, já que a obra aborda a doença que atingiu o pianista denominada como “sindroma da fadiga crónica” que o impediu de tocar durante alguns anos, pensando muitos na época que ele nunca mais voltaria a pisar um palco, como Gary Peacock e Jack DeJohnette (seus companheiros do trio de jazz Standards) que o confessaram no documentário da BBC, tendo Keith Jarrett regressado às gravações com a obra mais intimista da sua carreira, intitulada “The Melody At Night With You”, que ele inicialmente gravou numa cassete-audio com imensas dificuldades físicas, já que não conseguia tocar seguido pouco mais de uns breves minutos, tendo oferecido esse “registo caseiro” à sua mulher Rose Anne no dia do seu aniversário, gravações essas compostas por “standards” que seriam editadas em 1999 pela sua editora de sempre, a alemã ECM de Manfred Eicher.


Este pianista, nascido a 8 de Maio de 1945 em Allentown, desde miúdo que se apaixonou pelo piano e foi até um dos seus irmãos, Scott Jarrett (compositor), que no documentário “Keith Jarrett: The Art of Improvisation” que a BBC lhe dedicou, recordou que por vezes iam dar com ele a dormir debaixo do piano. Hoje, Keith Jarrett é considerado por unanimidade como o maior pianista de jazz vivo e sempre com o seu estilo inconfundível e basta ver neste filme a forma como a música brota não só das suas mãos, mas também do seu corpo, para entendermos como a sua arte de improvisação em concerto solo é única.


Foi em 1973, com a edição dos “Solo-Concerts" Bremen/Lausanne”, que o mundo descobriu esta sua faceta, mas seria dois anos mais tarde, em 1975, que todos nós ficaríamos em transe após escutarmos o célebre “Koln Concert”, que ficou para sempre como o disco mais vendido da história do jazz. Convém também referir que Keith Jarrett é um músico que estudou composição com Nadia Boulanger em Paris e que foi um concerto de Dave Brubeck a que assistiu como espectador que lhe abriu os horizontes, começando a tocar nessa célebre “escola” dos Jazz Messenger de Art Blakey, passando depois pelo quarteto de Charles Lloyd (um dos grupos de jazz mais acarinhados por outras tendências - rock/folk - nos finais dos anos sessenta na Califórnia), bastando recordar o célebre trabalho “Forrest Flower” como símbolo de uma geração. Depois, como não podia deixar de ser, passou pelo grupo de Miles Davis onde tocou piano e órgão eléctricos, embora seja sempre no piano que a sua arte se irá expandir pelo universo.


Hoje em dia, o trio de jazz standards composto por Keith Jarrett, Gary Peacock e Jack DeJohnette, é o mais célebre trio de jazz do mundo, quem os viu no CCB sabe do que falamos e por outro lado nunca é demais referir que Keith Jarrett também tem abordado o universo clássico da música com grande sucesso, não só como intérprete (Bach, Handel, Mozart, Shostakovich, entre outros), mas também como compositor. Por tudo isto aqui fica o nosso convite para descobrirem este maravilhoso registo de Kaname Kawachi de “Tokyo Solo 2002” e entrarem no universo deste grande pianista chamado Keith Jarrett.

Nota: “Tokyo Solo 2002” está editado pela ECM. O concerto está dividido em duas partes onde as cores da improvisação brilham como um verdadeiro arco-íris. A terminar temos três "encores": o mais que famoso "Danny Boy" que todos conhecemos mal escutamos os primeiros acordes e dois "standards" dessa maravilhosa Bíblia intitulada "The Great American Song Book": "Old Man River" de Jerome Kern e "Don't Worry About Me" de Rube Bloom.

2 comentários:

  1. Embora reconheça toda a maestria do génio no improviso ou na música clássica, "The Melody at Night with You" é o meu favorito!

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  2. Cara Paula Lima, obrigado pelo comentário. O álbum que refere do Keith Jarrett, a nível de registo em Estúdio, também é o meu favorito.
    Beijinhos

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