quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Fernando Pessoa - "O Banqueiro Anarquista"


Fernando Pessoa
"O Banqueiro Anarquista"
Assírio & Alvim, Pag. 112

O conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado em 1922 na Revista Contemporânea, sendo assinado por Fernando Pessoa e não por nenhum dos seus heterónimos. Ao longo dos anos têm surgido diversas edições da obra e uma das mais recentes foi dada à estampa pela “Assírio e Alvim”, sendo a responsável pela edição Manuela Parreira da Silva, que nos apresenta o texto tal como foi publicado na época, juntando em anexo os diversos acrescentos feitos pelo escritor, numa tentativa posterior de desenvolver mais o texto, para uma possível edição em Inglaterra, o que não veio a suceder.

Recorde-se que na época em que foi escrito o Movimento Anarquista tinha grande influência nos meios operários portugueses, editando-se o famoso jornal diário “A Batalha”.
“O Banqueiro Anarquista” oferece-nos o diálogo entre duas pessoas que, ao lermos os textos em anexo, iremos descobrir que se encontram num restaurante, possivelmente na Rua dos Douradores, essa célebre rua onde um dia se irão cruzar Fernando Pessoa e o seu heterónimo Bernardo Soares.


Apresentando-se como um texto reflexivo e satírico no verdadeiro sentido da palavra, já que ninguém imagina ser possível haver um banqueiro a defender o anarquismo, iremos acompanhar o raciocínio do banqueiro que nos irá contar a sua história de sucesso, desde os tempos em que nasceu numa família humilde, passando pela época em que acompanhou os anarquistas, até perceber que o verdadeiro anarquismo só poderia ser encontrado por si próprio numa luta contra o capital, usando os mesmos expedientes do capitalismo para obter sucesso e dinheiro, podendo assim defender em tranquilidade a verdadeira doutrina anarquista, sem chefes nem patrões.

Ao longo da conversa, o banqueiro anarquista com o seu charuto e cognac irá desenvolver a sua teoria, em contraponto às doutrinas existentes na época, já que o socialismo começava a ter os seus adeptos e os acontecimentos da revolução russa faziam inevitavelmente eco no nosso país e aqui o banqueiro anarquista irá desmontar tanto o capitalismo como o socialismo, usando o primeiro para demonstrar como subiu na escala social, enquanto o segundo só irá atrasar a libertação do homem, porque também ele possui os seus patrões em torno de uma doutrina, que necessita de ter sempre essa voz de comando, tão contrária ao movimento anarquista.

Ao longo do conto percebemos como Fernando Pessoa se encontra bem informado politicamente usando o humor com imenso saber, à medida que vai desmontando as reflexões do seu interlocutor.

“O Banqueiro Anarquista”, que possui um excelente posfácio da responsabilidade de Manuela Parreira da Silva, ao ser lido nos dias de hoje, continua a possuir um enorme fascínio, esse mesmo fascínio que a incontornável obra de Fernando Pessoa transmite a quem a lê.

2 comentários:

  1. Mister Vértigo, o Sr. tem um tanto de Fernando Pessoa....

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cara Simone Madeira, obrigado pelo seu amável comentário e também os meus agradecimentos por se ter tornado seguidora do blogue "Manuscritos da Galaxia".
      Os meus melhores cumprimentos

      Eliminar