segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Alfred Hitchcock - "Rebecca"


Alfred Hitchcock – "Rebecca"
(EUA -1940) – (130 min.- P/B)
Laurence Olivier, Joan Fontaine, Judith Anderson, George Ssanders.

Quando Alfred Hitchcock realizou “Pousada na Jamaica” / “Jamaica Inn”, já tinha um desejo interior de adquirir os direitos de “Rebecca” para fazer a adaptação literária da célebre obra de Daphne du Maurier, mas quando pretendeu fazer essa compra, percebeu que a verba exigida era demasiado elevada para a sua bolsa e seria esse grande produtor de Hollywood, chamado David O’ Selznick, que acabaria por comprar os direitos, para depois propor ao cineasta a realização do projecto.
Recorde-se que David O’Selznick, cujo “O” não tinha qualquer significado, ou seja não existia no nome, surgindo mais como um toque aristocrático tão ao gosto do futuro produtor de “E Tudo o Vento Levou” / “Gone With the Wind”, sempre gostou de intervir nas filmagens dando as suas sugestões sobre a realização, muitas vezes não como simples recados, mas como ordens a seguir, tendo Hitchcock sempre sabido contornar este poderoso obstáculo.


Ao partir para os Estados Unidos em 1939 a convite de Selznick, Hitchcock iria marcar encontro com o sucesso porque, como devem estar recordados, “Rebecca” conquista o Oscar para o Melhor Filme. Alfred Hitchcock iniciava assim uma longa carreira no Novo Mundo, que seria repleta de obras-primas, sendo esta “Rebecca” precisamente uma delas.
Manderley, a célebre Mansão de Max de Winter, irá ter ao longo do filme uma presença constante, tal como a famosa Rebecca de quem apenas iremos conhecer o retrato, como se ela permanecesse viva no interior daquela casa, vigiando todos os passos da frágil e submissa Mrs. de Winter (Joan Fontaine, de uma beleza avassaladora).


Quando Max de Winter (Laurence Olivier) conhece a futura esposa está a contemplar o mar, mas nunca saberemos se ele se encontra a meditar perante a paisagem ou se prepara para se suicidar, devido ao passado recente que o atormenta. Esse passado que se chama Rebecca, a bela esposa que o traía e o desprezava, recusando-se sempre a ser mãe, ostentando uma beleza perturbante e sedutora para todos os que conviveram com ela. Aliás Mrs. Danvers (Judith Anderson), a governanta da casa, que tinha um amor profundo pela patroa, nunca irá perder uma ocasião para criticar a intrusa Mrs. de Winter (Joan Fontaine), ao mesmo tempo que irá manter sempre viva a memória da sua senhora, como se tratasse de uma relação de amor entre duas mulheres.


Por outro lado, o argumento do filme teve que ser alterado devido aos códigos de produção então vigentes, porque no livro de Daphne du Maurier Max de Winter mata a mulher, enquanto no filme ela se suicida quando descobre que se encontra gravemente doente, embora Alfred Hitchcock nos consiga oferecer o sentimento de culpa através da forma de agir de Max de Winter, aliás bem patente quando começa a ser investigado e vai a tribunal, sempre debaixo do olhar cínico de Jack Favell (George Sanders, esse fabuloso actor que nos ofereceu das maiores interpretações na história do cinema e que acabaria por se suicidar num quarto de hotel em Barcelona).


“Rebecca” possui assim todos os ingredientes que caracterizaram o cinema de Alfred Hitchcock, onde iremos acompanhar o duelo entre duas mulheres: a nova Mrs. Winter (Joan Fontaine) e Mrs. Danvers (Judith Anderson), bastando recordar esse momento em que Mrs Denvers convence a nova Mrs. de Winter a vestir-se como Rebecca para grande consternação de todos os presentes na casa. Duelo esse que só poderá terminar com a morte de uma delas, como irá suceder quando o incêndio consome Manderley e Mrs. Danvers decide ali morrer, para assim partir para a sua tão amada Rebecca, transformando-se Manderley num monte de cinzas onde a memória do passado permanecerá viva, para todos os antigos habitantes da Mansão.

Alfred Hitchcock, Joan Fontaine e Laurence Olivier

Alfred Hitchcock realiza assim de forma perfeita a sua primeira obra-prima em território americano, não resistindo a uma breve aparição (cameo), como passará a ser apanágio do cineasta ao longo da sua carreira.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Tony Scott - “Imparável” / “Unstoppable”


Tony Scott – "Imparável" / "Unstoppable"
(EUA – 2010) – (97 min. / Cor)
Denzel Washington, Chris Pine, Rosario Dawson, Kevin Dunn, Ethan Suplee.

Os britânicos Tony Scott e Ridley Scott marcaram ao longo dos anos o cinema contemporâneo com o seu estilo inconfundível e se alguns não gostam deles, nós por aqui somos fans dos seus filmes. E a derradeira película assinada por Tony Scott, o excelente e incisivo “Imparável” / “Unstoppable” possui uma eficácia narrativa memorável, ao levar ao grande écran a história verídica ocorrida em 2001 nos Estados Unidos da América de um comboio de mercadorias descontrolado, com matérias altamente inflamáveis (combustível e gás venenoso), rumo aos subúrbios de Filadélfia.


Curiosamente se Ridley Scott tem eleito como o seu actor preferido o australiano Russell Crowe, já o seu irmão Tony Scott optou, com enorme sucesso, pelo contributo sempre excelente do actor norte-americano Denzel Washington, que mais uma vez dá bem conta do recado em “Unstoppable”.
Tony Scott começa o seu último filme por, no início da película, introduzir o espectador no interior da vida familiar de cada um dos protagonistas, ambos a trabalharem numa companhia ferroviária e de imediato nos apercebemos como eles são dois homens comuns. 


Frank (Denzel Washington) é um viúvo com duas filhas adolescentes e com uma carta de dispensa (ou se preferirem despedimento) da companhia onde trabalha há vinte e oito anos, já Will (Chris Pine) vive com o irmão depois do tribunal o proibir de se aproximar da casa da esposa, encontrando-se impedido de ver o filho. Por outro lado o ambiente laboral não é o melhor com o desemprego a rondar os mais antigos maquinistas.


Tony Scott

Frank e Chris, que nem morrem de amores um pelo outro. irão trabalhar juntos nesse dia e quando tudo parece decorrer normalmente, para além de algumas pequenas questiúnculas, são alertados para a existência de um comboio descontrolado, sem maquinistas, com materiais inflamáveis a bordo, que se dirige na mesma linha onde eles se encontram, a uma velocidade superior ao normal. 
Apesar de todos os esforços despendidos pelos controladores das vias para fazer parar o perigo que se aproxima da cidade, a composição torna-se imparável aumentando a sua velocidade à medida que o tempo passa e serão estes dois maquinistas que, contra todas as ordens em contrário dos seus superiores hierarquicos, irão tentar impedir o desastre iminente.


Tony Scott, após nos introduzir na vida familiar dos dois protagonistas de forma perfeita, como referimos no início,  irá incidir a sua acção na luta travada por todos para impedir a catástrofe que se anuncia e a forma como ele nos oferece os acontecimentos, quase em tempo real e as opções que toma na filmagem da poderosa composição em movimento imparável possui um rigor absoluto.


Ao vermos “Imparável”, a memória evocou-nos esse maravilhoso filme da autoria de Andrei Konchalovsky intitulado “Comboio em Fuga”, com Jon Voigt e Eric Roberts nos protagonistas, sendo curioso vermos como foram bem diferentes a forma como os dois cineastas retrataram o movimento do conhecido “cavalo de ferro”, já que se trata de dois realizadores de escolas bem diferentes, mas cuja eficácia e genialidade ficaram bem patentes em ambas as películas.


“Imparável” de Tony Scott afigura-se como um dos melhores trabalhos do cineasta de “Déjà Vu”, que aqui revela uma eficácia e uma contenção na forma como trabalha o material cinematográfico em todas as suas vertentes. Após o final do filme, só poderemos dizer: Isto é Cinema!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Ridley Scott - “Blade Runner” / "Perigo Iminente"





Ridley Scott – "Blade Runner"
(EUA – 1982) – (117 min. / Cor)
Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Darryl Hannah, William Anderson, Edgar James Olmos, Joanna Cassidy, Brion James, Emmet Walsh.


Em 1982 o cineasta britânico Ridley Scott realizou um memorável filme de ficção-cientifica intitulado “Blade Runner”, que deixou os espectadores estupefactos, tornando-se ao longo dos anos um dos maiores “cult-movies” de sempre, também devido ao facto de o realizador ao longo dos anos continuar a amar a sua obra, tendo surgido muitos anos depois um “Director’s Cut” e por fim o “Final Cut”, com uma montagem diferente e uma nova sequência.


Curiosamente, na época da sua estreia, o filme não foi um grande sucesso e a crítica cinematográfica até se dividiu na apreciação da obra e se ainda hoje essa divisão permanece até entre nós, mas “Blade Runner” continua a ser uma obra incontornável no género. E nestas coisas convém sempre recordar que o célebre “Alien” tinha sido o filme anterior do cineasta, uma obra que gelou de medo as plateias e deu origem a esse duelo/saga entre a Tenente Ripley e o célebre monstro (nasceram quatro “movies”). Para aqueles que desejam conhecer o labor do cineasta, gostaríamos de referir duas obras anteriores de Ridlay Scott que merecem uma visita: “The Duellist”, um filme baseado num conto de Joseph Conrad, datado de 1977, cuja acção se passa no tempo de Napoleão e que tem como protagonistas Harvey Keitel e Keith Carradine e esse conto gótico, tão desconhecido, intitulado “Legend” com Tom Cruise no protagonista. Filmes que merecem ser redescobertos, agora que o dvd e a fibra óptica já fazem parte do nosso quotidiano.


O visionamento de “Blade Runner” é uma experiência única, quando essa Los Angeles do ano 2019 surge no écran largo, acompanhada por aquela que será a melhor banda sonora de Vangelis, e entramos nesse universo em que o sol parece ausente para sempre, enquanto uma chuva quase permanente invade a cidade, por entre o fumo e a publicidade de uma sociedade profundamente capitalista, que usa replicantes para as piores tarefas no espaço, onde a lei é uma simples recordação do passado. Se pensarmos que quem nos governa é essa entidade sem rosto denominada Mercados e o politicamente correcto é a ideologia à qual “juramos fidelidade”, sem conhecer também o rosto dos seus “filósofos”, poderemos pensar que até estamos muito próximos deste futuro.


Na primeira versão que vimos, aquando da estreia de “Blade Runner”, o filme apresentava um final imposto pelos produtores (Bud Yorkin, também realizador) em que vimos Deckard (Harrison Ford) e Rachel (Sean Young) a partir para um outro território numa fuga em busca do direito a uma vida, ao mesmo tempo que no início da película podíamos escutar Deckard a narrar a sua história. Estas duas partes foram retiradas no “Director’s Cut” e introduzida a célebre sequência do unicórnio, esse sonho implantado na memória do detective, terminando as versões do cineasta com a saída dos protagonistas do bloco de apartamentos que albergava a bela Rachel, uma replicante em busca da existência.


Ao introduzir a sequência do unicórnio, Ridley Scott abriu uma porta que se encontrava quase fechada para o espectador: seria Deckard também um replicante muito mais evoluído construído para combater o crime possuindo, como Rachel, as memórias de alguém já morto? Ao longo dos anos Ridley Scott foi falando sobre o filme, deixando as suas pistas e se Rachel era possuidora das memórias da sobrinha de Tyrell, esse mestre da genética, já Deckard seria na realidade a sua obra-prima, daí o ter sido convocado por Bryant para matar os replicantes que chegaram à Terra em busca dessa pergunta que nos atormenta ao longo da nossa existência, quando pensamos nela: quanto tempo nos resta de vida?

Philip K. Dick, esse génio da Literatura de ficção-cientifica, "beatnick" de gema a viver na sua “caravana” na costa Californiana, criou um conto profético que nos conduz à meditação. Porque o que buscam os replicantes não é a imortalidade mas um pouco mais de vida e quando nós sabemos que a duração deles é de apenas quatro anos, compreendemos a angústia de Roy (Rutger Hauer), o líder do grupo de replicantes “subversivos”.
Roy (Rutger Hauer), nesse duelo final com Deckard (Harrison Ford) no prédio onde habitava J.F. Sebastian (William Sanderson), trava o derradeiro combate para que foi programado, sabendo já a resposta para as suas dúvidas existenciais. Ao vermos na película a morte a tomar conta de Roy, ele larga essa pomba branca que segura na mão, deixando-a seguir o seu rumo, como se ela fosse portadora da sua alma, transportando no seu voo as suas memórias implantadas pelo criador, sempre tão presentes através dessas fotografias que todos eles guardam religiosamente.


Se olharmos o universo de “Blade Runner”, percebemos que ele é demasiado negro e doloroso, mas se pensarmos no mundo que hoje nos rodeia, tantos anos após a feitura da película e recordarmos essa esperança de paz anunciada com a chegada do novo Milénio, percebemos que os avanços da humanidade se traduzem em um passo em frente e dois à retaguarda.
Por outro lado, nunca poderemos esquecer que Roy ao encontrar-se com o seu criador, o poderoso Tyrell, termina por matar quem o concebeu esmagando-lhe o rosto, ao mesmo tempo que lhe dá o beijo da compaixão. E será essa mesma compaixão transformada no gesto que perdura, que o levará a salvar Deckard de cair no abismo, após o confronto final.
“Blade Runner” de Ridley Scott permanece uma das mais belas obras-primas da Sétima Arte, nesse género tão difícil que é a ficção-cientifica, continuando a surpreender e a maravilhar gerações de espectadores.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

John Ford - “Mogambo”


John Ford – "Mogambo"
(EUA – 1953) – (115 min. / Cor)
Clark Gable, Ava Gardner, Grace Kelly, Donald Sinden, Philip Stainton, Eric Pohlmann.




Quando se fala do Cinema Clássico Norte-Americano por terras de África, de imediato nos vêm à memória três filmes de outros três Mestres. São eles “A Rainha Africana” / “The African Queen” de John Huston, de 1951, “Mogambo” de John Ford datado de 1953 e “Hatari” de Howard Hawks realizado em 1962. Por outro lado também sabemos que tanto Ford como Huston decidiram fazer estes filmes para usufruírem de tempo para os seus safaris, como se fossem ambos caçadores brancos de coração negro, como de certa forma nos demonstrou Clint Eastwood, nessa maravilhosa película intitulada precisamente “White Hunter, Black Heart”, que nos relata os bastidores das filmagens de “A Rainha Africana”.



No entanto são os filmes de Ford e Hawks que se aproximam mais um do outro, pela comunhão do tema, já que ambos retratam um grupo de homens que se dedica à captura de animais para os jardins zoológicos, sendo o filme de Hawks bastante diferente do de John Ford. A razão e simples: o facto de “Mogambo” se tratar de um “remake” de “Terra Abrasadora” / “Red Dust”, essa obra-prima realizada por Victor Fleming em 1932, tendo também Clark Gable (aqui sem bigode) como protagonista. E se o filme de Fleming respira erotismo por todos os poros, o de John Ford segue-lhe as pisadas, embora de forma mais subterrânea.


Em “Red Dust” iremos descobrir uma Jean Harlow de uma sensualidade avassaladora, enquanto em “Mogambo”, apesar de todos entendermos o que a Honey Bear Kelly (Ava Gardner) pretendia do Marajá, o assunto é apresentado numa forma mais “soft”.
O modo como Ford filma Ava Gardner, oferecendo-nos o seu lado de “fera amansada”, revela-se quando vemos a forma como ela age com Victor Marswell (Clark Gable), porque ambos sabem que são feitos da mesma carne e são donos de cicatrizes bem fundas, provocadas pelo amor. Essas mesmas cicatrizes que John Brown-Pryce (Philip Stainton) percebe existirem por debaixo da branca pele de Honey. Ela é uma mulher em busca de um espaço para sobreviver e Marswell percebe isso mesmo, mas prefere recusar a sua companhia dando-lhe dinheiro para a viagem de regresso a Nova Iorque.


Embora não sejam carne da mesma carne, Marswell (Clark Gable), ao conhecer a esposa do antropólogo Donald Nordley, sente-se de imediato atraído por ela, apesar da sua relação inicial ser conturbada. Vejam a forma como ele gostou de levar aquela bofetada de Linda Nordley (Grace Kelly), que ainda os irá aproximar mais um do outro.
Mas quando tudo parecia correr sobre carris, com a partida de Honey Bear Kelly (o nome fala por si), eis que ela regressa, depois de o barco onde seguia se ter avariado. Nasce de imediato um triângulo verdadeiramente explosivo, que John Ford dirige com mão de Mestre. Os diálogos entre Linda e Honey são de uma inteligência profunda, ao mesmo tempo que estão recheados de subentendidos, que todos escutam em silêncio.
E se Victor Marswell segue com atenção aquele duelo feminino, tal como os seus colegas de aventura, já Donald Nordley, o marido de Linda, parece estar mais interessado em estudar o habitat dos gorilas do que proteger a mulher da tentação. Mas será mesmo isso ou estaremos perante um homem extremamente inteligente, que só age no momento certo?

“Mogambo” de John Ford oferece-nos o duelo de duas mulheres tão diferentes e distantes, pela posse do mesmo homem, como se estivéssemos num “western”. Homem esse que prefere optar por alguém diferente dele, porque acredita que os contrários se atraem. Aliás ele explica a Linda (Grace Kelly), que a razão de nunca se ter casado pode muito bem ser ela. E aqui temos que reconhecer que a beleza de Grace Kelly, nesta película, se encontra no seu auge. Ela é na verdade um vulcão pronto a explodir. Já Ava Gardner, essa “fera amansada”, surge aqui como a mulher certa para viver naquele ambiente, porque sabe melhor do que ninguém como sobreviver na selva da vida, lutando até ao limite das suas forças pelo homem que ama.


Apesar de “Terra Abrasadora” nos oferecer um conflito mais melodramático (convém dizer que a acção do filme de Fleming se desenrola na Indochina), em “Mogambo” temos também esse género a respirar no interior dos fotogramas, em virtude de John Ford optar pela chegada desses momentos de solidão e silêncio, para os revelar ao espectador em todo o seu esplendor. Veja-se quando Honey vai “passear” à chuva pela selva, depois de descobrir que Marswell e Linda se encontram perdidamente apaixonados; o encontro de Linda (Grace Kelly) e Marswell (Clark Gable) nas cataratas; ou esse momento sublime em que Honey (Ava Gardner) se confessa ao padre da missão e nós não ouvimos as suas palavras, mas conhecemos os seus pensamentos.


John Ford, nesta obra-prima do cinema, dá-nos um retrato avassalador das relações humanas, através da luta de duas mulheres na conquista do mesmo homem. Luta essa que, como iremos ver, até poderá conduzir a um “crime”. Um crime calculado e pensado ao pormenor, como se fosse um acidente. Mas quando Donald Nordley (Donald Sinden) fala de Linda de forma apaixonada, Marswell perde a coragem das palavras e refugia-se no silêncio.
E nessa mesma noite em que Linda (Grace Kelly) se decide oferecer a Marswell, irá encontrá-lo com Honey Bear Kelly (Ava Gardner) nos braços, perdido de bêbado, porque na verdade, ele sente que perdeu a sua oportunidade de ficar com Linda Nordley e ela não lhe irá perdoar o seu fracasso.


Atingimos assim o clímax do filme, com Linda a disparar sobre Marswell e o marido dela a chegar ao acampamento para pedir justificações do que se está a passar.
A civilizada e tímida Linda Nordley (Grace Kelly), mostra aqui o seu rosto de felina a lutar pela posse do corpo amado, esse território chamado Marswell (Clark Gable), que a tinha atraiçoado, ao desistir de lutar por ela, depois de perceber que os seus mundos eram muito mais distantes do que ele pensava.

E será mais uma vez essa aguerrida fera amansada chamada Honey Bear Kelly (Ava Gardner), que dará as explicações mais esfarrapadas para salvar a honra da dama ferida, perante todos, acusando o homem que ama de ser o responsável pelos acontecimentos. Percebemos assim, mais uma vez, como por vezes são insondáveis os caminhos que conduzem ao amor.


Esta obra-prima chamada “Mogambo”, que é filmada num esplendoroso Technicolor, oferece-nos personagens em carne viva, que nos agarram do primeiro ao último minuto do filme, revelando que o território do melodrama pode ser trabalhado num registo fora do habitual, como mais uma vez se prova, pelo génio desse cineasta chamado John Ford.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Edwin S. Porter - “The Great Train Robbery”


Edwin S. Porter - "The Great Train Robbery"
(EUA – 1903) – (13 min. – Mudo - P/B)
Tom London, George Barnes, Bronco Billy Anderson, Walter Cameron, Marie Murray.


Ver este filme mudo numa sala de cinema foi um prazer só igualável quando descobrimos, também em sala, essa obra dos irmãos Lumière “L' arrivé du train en gare” que, no dia 28 de Dezembro de 1895 no Grand Café, situado no nº.14 do Boulevard des Italiens, provocou o pânico nos espectadores que assistiam ao nascimento de uma nova Arte, com a aproximação “perigosa” da locomotiva originando a debandada geral para não serem trucidados pelo comboio ou ainda essa obra mágica criada pelo mestre da truncagem Monsieur George Méliés e a sua célebre "Viagem à Lua" / "Le Voyage dans la lune".

Referimo-nos a estas três obras porque todas elas marcam momentos fundamentais na História do Cinema. Os Lumiére com a invenção do Cinema, Méliès e o nascimento dos “Efeitos Especiais” e Edwin S. Porter realizando o primeiro “Western”, criando um género cinematográfico, ao mesmo tempo que dava um famoso passo nessa arte criativa que é a montagem. E dizemos isso porque, no final do filme, surge-nos um grande plano do rosto do bandido, com os seus enormes bigodes, o chapéu e a disparar o revolver na direcção do espectador, estávamos em 1903.

Curiosamente, quando o filme foi exibido, foi dada indicação aos projeccionistas que poderiam colocar este plano em qualquer momento do filme, provocando desta forma não só a atenção do espectador, como criando uma linguagem profundamente cinematográfica, demonstrando a capacidade e a importância do plano.Estamos assim nesse território tão característico da América, o “western”, um género tipicamente americano e convém lembrar que, na época em que este filme foi rodado, ainda o grupo de Butch Cassidy e Sundance Kid eram uns temíveis foras-da-lei, aliás muito bem retratados no cinema por Sam Peckinpah, por outro lado a memória do bando de Jesse James ainda estava bem fresca de todos e como sabemos são inúmeros os filmes rodados sobre estas personagens do “western”.

Ora com este “The Great Train Robbery” entramos decididamente no Oeste Americano, com os respectivos preparativos para o assalto por parte dos fora-da-lei, com o ataque à estação de comboio, imobilizando o telegrafista, impedindo desta forma ser conhecida a presença do bando no território por parte das autoridades. Na cidade encontramos os habitantes divertindo-se num baile, incluindo o xerife e os seus homens e depois somos levados até ao assalto ao comboio, com mortos e feridos e a consequente fuga desta quadrilha selvagem com o dinheiro do saque. Mas, como não podia deixar de ser, Edwin S. Porter convoca para a famosa perseguição o xerife e os seus homens que irão defrontar a perigosa quadrilha, criando-se aqui as regras para milhares de duelos travados ao longo de cem anos de cinema.

A homenagem de Martin Scorsese a este filme em "Tudo Bons Rapazes"
Um dos aspectos importantes nesta fase em que o cinema dava os primeiros passos era o facto de o mesmo actor desempenhar diversos papéis, como sucede aqui. Por outro lado o trabalho de Edwin S. Porter inclui a realização, fotografia, montagem e argumento, demonstrativo da preparação destes pioneiros do cinema que já tinham por detrás uma equipa de produção e, no caso dos Estúdios de Edison, essas equipas trabalhavam simultaneamente em diversas películas, mas será esta em concreto que se irá tornar histórica, não só por ter criado um novo género cinematográfico, mas também devido ao êxito alcançado aquando da sua apresentação junto do grande público.

Edwin S. Porter

Edwin S. Porter (o "S" significa Stanton) nasceu em Connellsville, Pensilvânia, em 1870 e desde muito cedo se inicia no cinema, primeiro como mecânico e depois como realizador, tendo sido ele a dar a conhecer a esse grande génio chamado David Wark Griffith essa nova arte chamada cinema, recorde-se que Griffith trabalhou durante alguns anos como actor para os Estúdios de Edison, tendo mais tarde abraçado a arte da realização criando nos seus filmes a linguagem cinematográfica, como todos sabemos. Mary Pickford, a primeira “namorada da América” também foi dirigida por Porter em películas como “A Good Little Devil” ou “Hearts Adrift” mas, se olhamos para a filmografia de Porter, será sempre de destacar a sua versão cinematográfica dessa famosa obra literária intitulada “A Cabana do Pai Tomás”.


Se desejar ter uma pequena ideia de como eram os tempos do cinema nos seus primórdios recomendamos vivamente essa homenagem prestada pelo grande Peter Bogdanovich aos pioneiros do cinema na película “Nickleodeon” / “O Vendedor de Sonhos”, com interpretações inesquecíveis de Burt Reynolds e Ryan O’Neal, vivendo nesses conturbados tempos da guerra das patentes, em que se deitava fogo ao armazém do vizinho para este não poder divulgar os seus filmes. Aqui deixamos a memória de “The Great Train Robbery” de Edwin S. Potter, que fez nascer um género, “O Western”, para delícia de milhões de espectadores já lá vai um século.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

"Glenn Gordon Caron -“O Amor da Minha Vida” / "Love Affair"


Glenn Gordon Caron – "O Amor da Minha Vida" / "Love Affair"
(EUA- 1994) – (108 min. - Cor)
Warren Beatty, Annette Bening, Katherine Hepburn, Pierce Brosnan, Kate Capshaw, Garry Shandling.




Quando Leo McCarey realizou “Love Affair” / “Ele e Ela” em 1939, nunca pensou que mais de uma década depois iria ele mesmo fazer o “remake” desta película que teve como protagonistas Charles Boyer e Irene Dunne, convém desde já referir que o facto de em 1957 Leo McCarey refazer a história através de “An Affair to Remember” / “O Grande Amor da Minha Vida” não é inédito, recorde-se que Alfred Hitchcock fez o mesmo com “O Homem Que Sabia Demais” / “The Man Who Knew Too Much”, em que temos a versão inglesa com Leslie Banks e Edna Best nos protagonistas e na americana, a mais célebre, encontramos James Stewart e Doris Day.



Mas regressemos à história de Mike Gambril (Warren Beatty) e Terry McKay (Annette Bening) em “Love Affair”, sem antes deixar de referir que este projecto foi uma prenda de Warren à sua mulher Annette, como devem estar recordados os actores encontraram-se no set de “Bugsy” realizado por Barry Levinson, a paixão invadiu as suas almas e o mais famoso “playboy” de Hollywood rendeu-se aos encantos de Annette Bening, tornando-se num dos casais mais mediáticos do mundo do cinema.


Um dos aspectos mais curiosos deste “O Amor da Minha Vida” é encontrarmos as imagens que vemos surgir na TV (relatando o mais recente “affair” do ex-jogador de futebol americano Mike Gambril) se reportarem aos diversos romances que Warren teve precisamente na vida, devidamente mediatizados pela imprensa sensacionalista. Vamos assim encontrá-lo a embarcar para Sidney com o seu inefável agente (Garry Shandling) a levá-lo ao aeroporto e de imediato nos apercebemos que o esquecimento do relógio de Mike na mesa de montagem possui um outro significado.


A viagem para Sidney apresenta-se enfadonha até ao momento em que trava conhecimento com o casal Stillman (interpretado pelo cineasta Paul Mazursky e a esquecida Brenda Vaccaro) e desta forma consegue meter conversa com Terry McKay (Annette Bening). No entanto, devido ao mau tempo que se faz sentir, o avião tem uma avaria e é obrigado a aterrar num atol, terminando os passageiros por serem recolhidos por um navio e regressar mais tarde de avião a New York.



Durante este período iremos conhecer a vida de Mike e Terry e perceberemos que eles habitam universos diferentes mas pouco distantes, já que se ele vive no” conforto” de Lynn Weaver (Kate Capshaw – mulher de Steven Spielberg) uma poderosa produtora de televisão e ela é a companheira de Ken Allen (Pierce Brosnan), um poderoso homem de negócios de Wall Street.


Ao longo da viagem Mike terá que se ver livre do habitual “paparrazzi”, ao mesmo tempo que aproveitando uma paragem do navio leva Terry a conhecer a sua tia Ginny (Katherine Hepburn, no seu último trabalho no cinema) e aqui temos a passagem de testemunho de Hepburn para Bening, já que como todos sabemos Annette Bening é uma verdadeira herdeira dessa grande actriz chamada Katherine Hepburn, em tempos idos considerada pelos produtores como um “veneno de bilheteira”. Será ainda de referir que toda a sequência passada na ilha entre Annette Bening e Katherine Hepburn foi dirigida por Warren Beatty.


Nasce então esse grande amor entre Terry e Mike, sendo marcado encontro para daí a três meses no alto de “Empire State Building” e depois já todos sabemos a história, essa história que tantas lágrimas fez correr na América e que leva Meg Ryan em “A Sintonia do Amor” a consumir tantos lenços de papel sempre que vê o filme de Leo McCarey.

“Love Affair”, versão de 1994, surge assim como a “gift” de Warren Beatty para Annette Bening, num primeiro plano, mas depois à medida que o argumento vai sendo desenvolvido encontramos o amor pelas personagens, repare-se na conversa no convés do barco, a chuva que cai e a dança que surge e por fim esse momento mágico nos últimos vinte minutos da película, com os actores a deixarem de interpretar as suas personagens para oferecerem um ao outro a mais bela declaração de amor.


"Love Affair" / “O Amor da Minha Vida” surgiu no território do melodrama, nos anos noventa (século passado), como um verdadeiro “outsider”, envolvido por uma das mais belas partituras de Ennio Morricone, que dedica um dos temas, precisamente, aos dois protagonistas: Warren Beatty e Annette Bening.

Manuscritos da Galaxia


Manuscritos da Galaxia é um blogue que aborda a memória do cinema, recordando autores que deixaram a sua marca no universo, assim como todos aqueles que vão surgindo na auto-estrada da Galaxia cinematográfica seja qual for o seu Planeta ou Sistema Solar.