quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Francis Ford Coppola – “Dracula” / “Bram Stoker’s Dracula”


Francis Ford Coppola – “Dracula” / “Bram Stoker’s Dracula”
(EUA – 1992) – (128 min. / Cor)
Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves.



Quando o motorista que conduzia a viatura onde seguia o cineasta G. W. Murnau se despistou, o Cinema perdeu um dos seus maiores génios e também o autor dessa obra única intitulada “Nosferatu”. Depois a personagem criada por Bram Stoker na literatura seria adaptada ao cinema por um outro génio desconhecido de muitos, de seu nome Tod Browning.
Aquando da retrospectiva do cineasta na Cinemateca em que foram descobertas as preciosidades esquecidas de Tod Browning, autor do célebre “Freaks”, foi-nos também oferecida a descoberta de Lon Chaney o actor dos mil rostos. O “Drácula” de Tod Browning ficou também famoso para a história do cinema pelo seu protagonista e é com profunda nostalgia que recordamos o Conde com a sua capa, na figura de Bela Lugosi e também aquele microfone que inadvertidamente surge no écran (a célebre “girafa”) e que rapidamente sai do enquadramento, logo no início da película.


Anos mais tarde a “Hammer” britânica tomou bem conta do mito e Christopher Lee foi um verdadeiro Gentleman ao vestir a pele do famoso Conde Drácula sempre perseguido por Van Helsing (o célebre Peter Cushing). O mito do Conde da Transilvânia tinha chegado ao grande écran para ficar ao longo de diversas gerações, navegando de continente para continente, nesse barco cinéfilo do nosso contentamento, ora era Roman Polanski que decidia jogar a comédia com o mito em “Por Favor Não Me Mordam o Pescoço” / “Dance of the Vampires”, enquanto por outro lado Werner Herzog, então no seu apogeu, retomava a herança de Murnau e realizava um novo “Nosferatu” com um Klaus Kinski inesquecível, para já não falarmos nessa versão em 3D, que em Portugal passou sem os famoso óculos, assinada pela dupla Andy Wahrol/Paul Morrissey, intitulada “Sangue Virgem para Drácula” / “Blood For Dracula”, com um Udo Kier desesperado em busca da sua virgem, aqui decididamente o humor jogava com o mito com um sabor a “underground”.


Perante uma herança tão repleta de referências e estilos foi com espanto que muitos ficaram surpreendidos quando no início dos anos noventa Francis Ford Coppola anunciou uma nova versão do mito.
Com “Bram Stoker’s Dracula” deFrancis Ford  Coppola não estamos perante mais uma versão do famoso romance de Bram Stoker, mas sim com uma obra fiel à literatura gótica, já que Francis optou por um olhar profundamente barroco, contando com um soberbo guarda-roupa da responsabilidade de Eiko Ishioka e para aqueles que desconhecem, a segunda equipa de filmagens foi dirigida por Roman Coppola o futuro cineasta de “GQ”. E desta feita a Winona Ryder até aguentou a pressão das filmagens (o que não sucedera com o derradeiro filme da série “O Padrinho”), talvez devido ao sentido tranquilo de Keanu Reeves, perante a turbulência controlada de Gary Oldman, num Dracula cheio de maneirismos (no bom sentido da palavra), já que tenta também retomar o mito do gentleman, perante a inocência da sua jovem presa. Já o Van Helsing criado por Anthony Hopkins, termina por fazer a diferença, de muitos surgidos anos depois, na sua loucura de caçador do Príncipe das Trevas, já que a sua personagem é de tal intensidade, que nos obriga quase a estar do lado da noite, perante o romantismo barroco oriundo desse castelo maldito perdido na obscuridade da Transilvânia.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Anton Corbijn – “O Americano” / “The American”


Anton Corbijn – “O Americano” / “The American”
(EUA – 2010) – (105 min. / Cor)
George Clooney, Violante Placido, Thekla Euten, Paolo Bonacelli, Johan Laysen.

Anton Corbijn o cineasta de “Control”, que retratou como ninguém o grupo pop Joy Division, atirou-se de armas e bagagens à realização de um “thriller” bem diferente do que é habitual nos tempos presentes, tendo como protagonista esse fabuloso actor chamado George Clooney, que, cada vez mais, nos surge como um homem que gosta de cinema com letra grande, assumindo também o papel de produtor.


“O Americano” / “The American” conta-nos a história de um gangster especialista no fabrico de armas, mas que após um atentado de que será vítima, perde a mulher amada, decidindo retirar-se do meio perigoso que frequenta. Mas nem sempre a vontade de sair é possível e como não podia deixar de ser o seu patrão pede-lhe um último trabalho numa aldeia perdida no interior da Itália.


A forma como Anton Corbijn nos narra a solidão do gangster é soberba, revelando desde logo traços muito próximos do cinema de Bernardo Bertolucci, veja-se aliás a forma como ele filma o corpo da prostituta Clara (Violante Plácido) nos encontros no quarto da pensão com o gangster (George Clooney), assim como a forma como nos são apresentados os habitantes da aldeia, incluindo a relação de amizade que se estabelece entre o padre (Paolo Bonacelli) e o perigoso gangster, padre esse que esconde um terrível segredo no seu interior.


Como não podia deixar de ser o americano percebe desde início que não vai ser fácil deixar a sua profissão, ao mesmo tempo que prepara o seu último trabalho: fabricar uma arma que será recolhida por uma bela rapariga e que se destina inevitavelmente a um assassinato, desconhecendo-se o alvo.
“O Americano” / “The American” com os seus silêncios e contenção, a par de mais uma excelente interpretação de George Clooney, revela-se uma verdadeira lufada de ar fresco no interior do cinema contemporâneo, permitindo ao espectador manter em alta, as expectativas criadas em torno desse cineasta chamado Anton Corbijn.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Joel Coen e Ethan Coen – “O Quinteto da Morte” / “The Ladykillers”


Joel Coen e Ethan Coen – “O Quinteto da Morte” / “The Ladykillers”
(EUA – 2004) – (104 min. / Cor)
Tom Hanks, Irma P. Hall. Marlon Wayans, J. K. Simmons, Ryan Hurst, George Wallace.

“O Quinteto Era de Cordas” / “The Ladykillers” de Alexander Mackendrick, com Alec Guinness e Peter Sellers nos protagonistas, é uma das mais belas comédias oferecidas pelo Cinema Britânico à Sétima Arte, uma obra que todos guardamos na memória com agrado e ternura.
Quando em 2005, cinquenta anos depois, Joel e Ethan Coen decidiram oferecer-nos o “remake” desta delirante comédia da História do Cinema, um género que têm sabido cultivar como ninguém, nunca deixando de pontuar a sua marca genuína de verdadeiros autores, as expectativas foram bem altas.


Como não podia deixar de ser, a nova versão de Joel e Ethan Coen do filme de Alexander Mackendrick, “The Ladykillers”, irá seguir as regras dos irmãos Coen no interior da comédia, que mais uma vez irão alterar a localização da história original, situando-a no Sul profundo da América.
O professor G. H. Dorr (Tom Hanks) irá apresentar-se à dona da casa, Marva Munson (Irmã P. Hall), como um professor de Latim e Grego, que se encontra a gozar um período sabático, ao mesmo tempo que cultiva uma paixão musical, pretendendo alugar-lhe o quarto, que se encontra disponível na residência.


O simpático e bem-falante professor G. H. Dorr irá pedir à velha viúva que lhe ceda a cave da sua casa para ensaiar com os amigos as obras musicais que tocam pelo país fora.
Este estranho quinteto amador de música constrói, durante os famosos “ensaios”, um túnel que os irá conduzir ao Casino, para assaltarem o cofre-forte, contando com o auxílio do célebre infiltrado, um jovem cuja linguagem termina por nos ferir os ouvidos, tal é a forma como ele utiliza o calão, de forma inconsequente e sem humor, surgindo aqui uma das fraquezas da película. Já Tom Hanks não consegue agarrar a personagem que interpreta, revelando-se um verdadeiro erro de casting.


O assalto, apesar de bem sucedido, depois de diversos contratempos, provoca uma série de acidentes que irão levar à morte todos os seus membros, assistindo o espectador atónito à forma como as mortes se vão sucedendo, terminando Marva Munson por ficar na posse do recheio do assalto, mas como é uma pessoa séria e religiosa, decide ir entregá-lo à polícia, mas na esquadra não lhe aceitam o dinheiro e ela termina por doar o produto do roubo à caridade.


Se na película de Alexander Mackendrick os corpos sem vida eram atirados de uma ponte para a linha do comboio, quando este passava na noite, no filme dos irmãos Coen os corpos são atirados ao rio, no momento em que passa uma barcaça, uma ideia bem engenhosa.

No entanto, ao vermos “O Quinteto da Morte”, o “remake” de “The Ladykillers”, acabamos por perceber que ele se encontra bem distante da magia hilariante do original, não conseguindo atingir os objectivos inicialmente traçados, terminando por ficar uns furos bem abaixo daquilo a que nos habituaram Joel e Ethan Coen.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Mike Newell – “Viagem Sentimental” / “Enchanted April”


Mike Newell – “Viagem Sentimental” / “Enchanted April”
(Inglaterra – 1992) – (95 min. / Cor)
Miranda Richardson, Joan Plowright, Alfred Molina, Josie Lawrence, Michael Kitchen, Polly Walker.

Mike Newell é um cineasta que, como é habitual em Inglaterra, fez a sua aprendizagem na televisão, mais concretamente na Granada Television, especializando-se em adaptações teatrais que lhe cimentaram a reputação. Depois, como seria inevitável, partiu para o cinema atingindo uma visibilidade sem precedentes com a película “Quatro Casamentos e Um Funeral” / “Four Weddings and a Funeral”, que relançou a nível mundial a carreira de Hugh Grant, ao mesmo tempo que surgiam de imediato convites dos Estúdios norte-americanos para trabalhar no novo mundo, o que aceitou, sendo de destacar o seu “Donnie Brasco” e “O Sorriso de Mona Lisa” / “Mona Lisa Smiles” com Julia Roberts. Mike Newell revelou-se um cineasta que adora navegar no território romântico, como sucede em “Enchanted April” / “Viagem Sentimental”. Curiosamente, foi o primeiro cineasta britânico a abordar as aventuras de Harry Potter já que, como se sabe, os primeiros filmes baseados nas aventuras mágicas do famoso herói juvenil tiveram Cris Columbus no comando das operações, embora nunca se deva esquecer o papel fundamental de Steve Kloves na adaptação do livro, leia-se argumento. Só para terminar esta pequena viagem convém referir que a sua obra “Dance With a Stranger” / “Dança Fatal” é a mais bela película da sua filmografia britânica.


“Viagem Sentimental”, baseado no livro de Elizabeth von Arnim, é uma obra onde as actrizes brilham em todo o seu esplendor e basta ver o nome das protagonistas para ficar tudo dito, já que Miranda Richardson surge aqui no seu melhor, reparem na forma como ela trabalha o olhar, enquanto Joan Plowright nos oferece todo o seu saber de actriz, na figura da viúva que não tem paciência para aturar os caprichos amorosos das suas companheiras de férias, ao mesmo tempo que Polly Walker, sempre de uma beleza perturbante, nos surge na figura da “vamp”, oriunda da alta sociedade, que conhece bem a sua beleza e sabe como a sua fortuna cativa todos os seus pretendentes, já Josie Lawrence cumpre de forma perfeita o papel que lhe foi destinado.


Estas quatro mulheres decidem alugar e partilhar no sul de Itália um pequeno castelo, para desta forma se afastarem um pouco do quotidiano das suas vidas (recorde-se que estamos no período do pós-guerra) e durante as suas estadias irão entender como afinal poderão ser importantes na vida que escolheram, tornando-se estas férias num verdadeiro reencontro amoroso.
Mas, como não podia deixar de ser, terão primeiro de enfrentar as suas dúvidas e incertezas, especialmente Lotte Wilkins (Josie Lawrence) que irá romper o pacto acordado entre todas e convidará o marido Mellersch (Alfred Molina) a fazer-lhe companhia no maravilhoso castelo medieval, nunca pensando que este irá ficar fascinado pela beleza da jovem Lady Caroline (Polly Walker), começando a fazer-lhe a corte. E também o marido de Rose, o inenarrável Frederick Arbuthnot (Jim Broadbent), irá passar por lá para descobrir finalmente o amor da sua esposa. Já Carolina Dexter (Polly Walker), ao conhecer o dono do maravilhoso local em que se encontram, o míope George Briggs (Michael Kitchen), encontrará naquele homem alguém bem distante e diferente de todos aqueles que a rodeiam nas festas, o interesse dele por ela revela-se bem diferente dos seus pretendentes que apenas cobiçam a sua fortuna. E assim a história destas três mulheres irá de certa forma ser visionada por essa viúva mais que sabedora da vida, chamada Mrs. Fisher (Joan Plowright), que nunca perde uma oportunidade para dar a sua opinião.


Mike Newell constrói nesta “Viagem Sentimental” uma obra que possui diversos pontos de contacto com o célebre “Quarto com Vista” / “Room With a View” de James Ivory mas, como todos sabemos, o romance de Forster é uma obra-prima da literatura, enquanto a novela de Elizabeth Arnim é uma daquelas histórias que se lê, simplesmente, com agrado. Porém Mike Newell retira dos actores todo o seu saber, construindo um filme que acaba por cativar o espectador, captando todas as potencialidades da paisagem onde se desenrola a película oferecendo-nos uma obra dentro dos parâmetros a que nos habituaram as famosas séries da BBC, embora neste caso concreto ultrapasse essa fronteira da caixa que mudou o mundo e entre, de forma bela e discreta, no território da Sétima Arte.
“Viagem Sentimental” / “Enchanted April” surge assim como um filme que se vê com bastante agrado e onde poderemos sempre descobrir a maravilhosa Arte das actrizes que compõem o elenco, tendo como pano de fundo a Bella Itália.

domingo, 13 de agosto de 2017

Steven Spielberg – “Parque Jurassico” / “Jurassic Park”


Steven Spielberg – “Parque Jurassico” / “Jurassic Park”
(EUA – 1993) – (127 min. / Cor)
Sam Neil, Laura Dern, Jeff Goldblum, Richard Attenborough, Samuel L. Jackson.

No início da década de noventa, do século xx, a Academia de Hollywood reconhecia em Steven Spielberg um excelente “movie-maker” e um fabricante perfeito de “Blockbusters”, mas para ela o mago ainda não tinha chegado ao “ponto desejado” para ser reconhecido pelos seus membros. Como todos sabemos as decisões da Academia produzem sempre polémicas e basta citar o caso de Alfred Hitchcock, que nunca recebeu o Óscar para o Melhor Realizador enquanto esteve em actividade no meio cinematográfico, para ficar tudo dito e se falarmos nesse “maverick” chamado Orson Welles, então talvez a tinta se gaste por aqui….


Mas Steven Spielberg também achava que ainda não tinha chegado o momento para colocar a Academia entre a espada e a parede e ao adaptar o romance de Michael Crichton, “Jurassic Park”, decide levar ao grande écran a aventura dos dinossauros, através da história de cientistas que a partir de ADN tirado de insectos, que continha no seu interior sangue de dinossauro, devidamente preservado, têm a ambição de construírem um Parque Temático, no qual fosse possível ver como os famosos dinossauros, dominavam a face da terra.


Apostando, mais uma vez, na “Industrial Light and Magic” nos efeitos especiais, Steven Spielberg constrói um filme que se irá tornar no “Blockbuster” mais que perfeito, criando uma verdadeira história de terror provocada por cientistas, que perdem o controlo dos elementos que manipulam, ao mesmo tempo que mais uma vez o vector familiar, sempre tão característico dos seus filmes, surge em perfeita “harmonia”, com os elementos do período Jurássico.


Steven Spielberg com “Parque Jurássico” / “Jurassic Park” irá triunfar nas bilheteiras, mas a sua película seguinte iria mudar para sempre, a leitura que certa crítica de cinema fazia dos seus filmes, ao mesmo tempo que a Academia de Hollywood iria ser obrigada a dar a “mão à palmatória”, após a feitura e o sucesso estrondoso de “A Lista de Schindler” / “Schindler’s List”, a todos os níveis.

sábado, 12 de agosto de 2017

Bob Balaban – “Bernard e Doris” / “Bernard and Doris”


Bob Balaban – “Bernard e Doris” / “Bernard and Doris”
(EUA/Inglaterra – 2007) – (103 min. / Cor)
Susan Sarandon, Ralph Fiennes, Peter Asher.

O canal de televisão norte-americano HBO tem-nos oferecido filmes, ao longo da sua existência, que nos convidam a uma visita, alguns até obtiveram tal êxito que mais tarde acabaram por surgir nas salas de cinema, como foi o caso de “A Segunda Guerra Civil Norte-Americana” / “The Second Civil War” de Joe Dante.


“Bernard and Doris” é uma outra obra que merece ser visitada, não só pela interpretação fabulosa dessa dupla de actores constituída por Susan Sarandon e Ralph Fiennes, mas também pelo trabalho cuidado do realizador Bob Balaban, também ele um actor, quase a tempo inteiro. E para o situarmos na nossa memória cinéfila basta recordar que ele é o tradutor de François Truffaut em “Encontros Imediatos de Terceiro Grau” / “Close Encounters of Third Kind”, papel que ele conseguiu obter, depois de ter dito aos produtores que falava francês, o que na realidade não correspondia totalmente à verdade.
Bob Balaban, na sua actividade de realizador, tem feito da televisão a sua tarimba, tendo até assinado alguns episódios de “Twilight Zone” e não se tem saído mal, como prova este “Bernard e Doris”, em que a direcção de actores é o ponto forte, ao mesmo tempo que filma com um cuidado digno de nota, oferecendo-nos o intimismo das personagens de forma perfeita e cativante.


Doris Duke (Susan Sarandon) é uma milionária da indústria tabaqueira, que não deixa os seus caprichos por mãos alheias e mal a conhecemos, descobrimos que ela é uma mulher que não possui qualquer amor pelos que lhe estão próximos. A forma como ela despede o mordomo, que a serviu durante uma vida, devido a uma pequena falha, fala por si. E será essa situação que levará precisamente Bernard Lafferty a trabalhar na Mansão da milionária. Bernard, esse homem tímido e secreto, com o vício da bebida, irá conseguir sobreviver aos ataques de fúria da sua patroa, transformando-se num fiel mordomo, que tudo fará para cuidar da sua dela.



Lentamente começa a instalar-se uma certa amizade entre ambos e mesmo quando um empregado da casa decide denunciar o vício que consome Bernard, ela irá continuar com ele ao seu serviço, despedindo o delator. Doris decide então abrir o seu quarto a Bernard e este é obrigado a confessar que ambos amam o mesmo sexo, saindo desta forma desse “armário”, em que a sua vida se encontrava secretamente escondida. Doris, apesar de surpreendida, compreende Bernard e a partir de então ele começa decididamente a viver a vida, ao lado da caprichosa Doris, acompanhando-a nas viagens, para grande escândalo de todos os que rodeiam a milionária. E será ele que estará sempre ao seu lado, tanto nas suas loucuras, como quando a doença a atinge, cuidando dela até ao último minuto de vida.Antes de morrer, Doris Duke deixou a sua fortuna e a Instituição que possuía ao cuidado de Bernard Lafferty, para escândalo de muitos, que acabaria por falecer poucos anos depois, vítima do consumo exagerado de álcool.

Bob Balaban e Ralph Fiennes
durante as filmagens de "Bernard e Doris".

A forma como estes dois grandes actores vivem no papel das personagens que interpretam é um verdadeiro convite, para revermos o seu talento, porque como todos sabemos estamos perante dois nomes grandes, dessa Arte chamada de Sétima.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Christian Carion – “O Caso Farewell” / “L’Affaire Farewell”


Christian Carion – “O Caso Farewell” / “L’Affaire Farewell”
(França – 2009) – (113 min. / Cor)
Guillaume Canet, Emir Kusturica, Alexandra Maria Lara, Ingeborga Dapkunaite, Fred Ward, Willem Dafoe, Aleksey Gorbunov.

O cineasta francês Christian Carion que se estreou na longa-metragem com “Une hirondelle a fait le printemps” (2001) e que quatro anos depois iria surpreender tudo e todos com o fabuloso “Joyeux Noel” / “Feliz Natal”, decidiu mais uma vez fazer um filme contra a corrente dos tempos, e em boa hora o fez, porque este “L’Affaire Farewell” / “O Caso Farewell”, baseado em factos verídicos, tal como sucedia no seu filme anterior, convida-nos a visitar a famosa guerra-fria entre o Ocidente e o Bloco Soviético, narrando-nos a história dos protagonistas do “Caso Farewell”, que iria promover uma profunda machadada nos serviços de informação do KGB, mais concretamente nos seus agentes a trabalharem ocultos no Ocidente.


A feitura deste filme levantou tanta polémica no interior da Rússia que, durante a pré-produção da película, o Ministro da Cultura Alexander Avdeev proibiu as filmagens que deveriam ser feitas em Moscovo, ao mesmo tempo que aconselhava o cineasta Nikita Milkakov a retirar-se do elenco porque o filme, no seu entender, “tratava de forma heróica um traidor da pátria”. Recorde-se que Alexander Avdeev, na época em que foi conhecido “O Caso Farewell”, trabalhava na Embaixador Soviética em Paris. Por esta mesma razão, a produção da película foi obrigada a deslocar as filmagens previstas para Moscovo para a sua vizinha Ucrânia.


Mais uma vez Christian Carion nos irá surpreender pela sua perfeita “mise-en-scéne”, nunca sendo demais destacar a sobriedade interpretativa do bem conhecido cineasta Bósnio Emir Kusturica, que aqui veste a pele do Coronel Sergei Gregoriev, membro do KGB, que se encontra descontente com o futuro previsível com que se depara a sua nação, decidindo começar a passar informações privilegiadas para o Ocidente para minar assim, por dentro, os poderosos serviços de espionagem de que faz parte.
Ao engenheiro francês Pierre Froment (Guillaume Canet) é pedido, por Paris, para se encontrar com um homem cuja identidade desconhece para receber um pacote contendo documentos, não sabendo este amador de espião que está prestes a protagonizar um dos mais estranhos e famosos casos de espionagem, que irá alterar para sempre a relação de forças dos então dois blocos.


“O Caso Farewell” vai-nos demonstrar como o famoso mundo dos espiões e dos serviços secretos é bem diferente daquele que vimos diariamente no cinema porque, na realidade, os descuidos e as falhas são muitas, assim como a sorte é sempre passageira.
Porém o mais importante do filme, segredo do cineasta, é a forma como ele nos oferece o quotidiano dos dois homens, o russo com um profundo amor por França, onde vivera anteriormente, durante alguns anos, tendo-se apaixonado pela cultura deste país, veja-se aliás a forma como ele fala dos poetas e da música, muito em especial desse enorme vulto chamado Léo Ferre: esse momento sublime da película que dança com a esposa ao som de “La Melancolie”. Já Pierre Forment (Guillaume Canet) luta pelo equilíbrio familiar do seu lar, após a esposa (Alexandra Maria Lara em mais uma magnifica interpretação) saber que ele se encontra envolvido em espionagem, “armado em James Bond, colocando a vida de todos em risco”.


Por outro lado, em contraponto, Christian Carion oferece-nos a estupefacção dos serviços secretos franceses à medida que as informações vão chegando, ao mesmo tempo que, em Washington, Ronald Reagan (Fred Ward) e os seus colaboradores andam perfeitamente alarmados com a vitória nas eleições francesas de François Miterrand (Philippe Magnan), que aceita integrar no seu governo personagens oriundas do Partido Comunista Francês. No entanto a colaboração entre os dois homens, de visões tão diferentes, irá transformar-se um sucesso, comungando ambos das informações inacreditáveis que vão recebendo secretamente da capital soviética. Recorde-se que esta operação foi denominada “Farewell”, para o KGB pensar que se tratava de uma acção da CIA, dando assim algum tempo aos franceses para prepararem a retirada perante um possível revés.


“O Caso Farewell” / “L’Áffaire Farewell” revela-nos um cineasta que gosta de interrogar a história nesses territórios em que a verdade permanece submersa, oferecendo-nos relatos que nos transmitem uma nova visão acerca do mundo em que vivemos. Christian Carion é, sem dúvida alguma, um cineasta a seguir com toda a atenção, porque nele vive a famosa marca do cinema de autor!