domingo, 20 de agosto de 2017

Philippe Haim - “ Os Irmãos Dalton” / “Les Dalton”


Philippe Haim - “ Os Irmãos Dalton” / “Les Dalton”
(França – 2004) – (85 min./ Cor)
Eric Judor, Ramzy Bedia, Sais Serrari, Romain Berger, Til Schweigner, Javivi, Marthe Villalonga
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A banda desenhada franco-belga tem em Tintin, Asterix e Lucky Luke as suas mais famosas personagens, bem conhecidas de todos nós. Ao longo de gerações, eles têm feito as delícias de miúdos e graúdos, passando as gerações mais velhas esse mesmo testemunho às gerações mais novas. E, como não podia deixar de ser, o apelo do cinema não se fez esperar. Se, por um lado, o cinema de animação nos tem oferecido deliciosas histórias com estes intervenientes, explorando o sucesso destas personagens da banda desenhada, já a transposição das suas aventuras para esse lado mais realista obteve com os filmes de Asterix um sucesso enorme, basta recordarmos Gerard Depardieu a vestir a pele de Obélix ou Alain Delon como Júlio César para ficar tudo dito.


Mas seria Tintin o primeiro a vestir esse realismo, com a película “O Mistério das Laranjas Azuis” / “Tintin et les oranges blues”, realizado por Philippe Condroyer, um filme hoje em dia um pouco esquecido, enquanto as aventuras de Asterix e Obélix continuam a arrastar multidões. E será o cineasta Phillipe Haim a oferecer-nos as aventuras de Lucky Luke no cinema, ou melhor dizendo as desventuras desse quarteto famoso conhecido pelos irmãos Dalton, essa quadrilha de desesperados que atormenta o “far-west”, sempre perseguidos e derrotados pelo “cow-boy”, que dispara mais rápido que a sua própria sombra, oferecendo-nos em “Les Dalton” momentos sublimes nesta questão de rapidez.


As célebre personagens criadas por Morris e Goscinny, como não podiam deixar de ser, encontram-se na prisão sempre vigiados por Rantanplan, o cão menos inteligente do Oeste, para não dizermos pior, porque gostamos bastante dele. E, mais uma vez, o cérebro do grupo, o pequeno e neurótico Joe Dalton (Eric Judor) revela-se o artífice de mais uma espectacular fuga do presídio, sempre bastante irritado com as sugestões dadas pelo seu irmão Averell (Ramzy Bedia).
O destino da fuga destes verdadeiros “desesperados” será o México, onde irão conhecer o perigoso El Tarlo (Javivi) , que tem um “sombrero” que o torna invencível nos seus assaltos. E após terem roubado o famoso “sombrero”, decidem assaltar o banco mais bem guardado do Oeste, mas mais uma vez Lucky Luke (Til Schweiger) se irá intrometer fracassando a célebre golpada deste perigoso bando de assaltantes.


Philippe Hain oferece-nos um filme cheio de ritmo, basta repararem na banda sonora, ao mesmo tempo que nos vai introduzindo diversas personagens bem famosas das aventuras de Lucky Luke, onde nem falta a famosa Mamã Dalton (Marthe Villalonga), sempre satisfeita com os assaltos dos filhos.
Estamos assim num território onde a banda desenhada bebe na fonte a mitologia do Oeste, com os seus duelos, as perseguições e fugas e o quotidiano sempre turbulento desse México, pátria dos foragidos, onde a lei do mais forte se impõe através da sua destreza nas armas.
“Les Dalton” oferece-nos momentos verdadeiramente hilariantes, com as fúrias do pequeno Joe e os raciocínios sempre muito pouco inteligentes de Averell, que aqui também nos revela a sua arte culinária. Embota o célebre protagonismo dos irmãos Dalton termine por suplantar Lucky Luke, o solitário “cow-boy” sai mais uma vez vitorioso do duelo: “I’m a poor lonesome cowboy and a long way from home…” 


sábado, 19 de agosto de 2017

Christopher Nolan – “O Cavaleiro das Trevas” / “The Dark Knight”


Christopher Nolan – “O Cavaleiro das Trevas” / “The Dark Knight”
(EUA – 2008) – (152 min. / Cor)
Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Maggie Gyllenhall, Gary Oldman, Morgan Freeman, Eric Roberts.



“O Cavaleiro das Trevas” / “The Dark Knight” cumpriu em pleno a aposta dos Estúdios Americanos ao tornar-se num dos filmes mais rentáveis de sempre, batendo “Spider-Man 3” e conquistando uma enorme lista de admiradores, ao mesmo tempo que até se  chegou a falar num Oscar póstumo para Heath Ledger pela sua interpretação na figura de “The Joker”, vilão anteriormente interpretado por Jack Nicholson, no primeiro filme realizado por Tim Burton, o que não viria a suceder. Christopher Nolan o cineasta de “Memento”, que ainda em criança começou a usar a câmara de Super 8 do pai, surge assim como um dos autores de um dos filmes mais rentáveis de sempre.


No entanto, os dois filmes de “Batman” realizados por Tim Burton permanecem os nossos favoritos e, claro, preferimos muito mais o “Joker” criado por Jack Nicholson, do que aquele a que deu corpo Heath Ledger, infelizmente falecido em circunstâncias trágicas. Recorde-se que até James Dean, que nunca viu nenhum dos filmes que protagonizou em vida, recebeu a famosa estatueta e só esse grande actor chamado Peter Finch, recebeu o Oscar postumamente pela sua interpretação em “Network” / “Escândalo na TV” de Sydney Lumet, aliás bem merecedor desse prémio.


Quando Tim Burton foi substituído por Joel Schumacher ao leme de “Batman”, porque os Estúdios temiam a terceira realização de Burton, o resultado foi uma banda desenhada pensada a preto e branco passar a ter cor e melhor do que ninguém Tim Burton foi fiel ao “comic” criado por Bob Kane. Por outro lado o Batman de Christian Bale fica a milhas de distância do criado por Michael Keaton. É certo que os irmãos Nolan carpinteiraram de forma perfeita o argumento, criando esse clima de pânico e terror que assalta os habitantes de Gotham City (muitas das cenas foram filmadas em Chicago), como espécie de metáfora do sucedido após os acontecimentos do 11 de Setembro na América. Mas a falta de “glamour” com que nos é oferecida a personagem de Rachel (Maggie Gyllenhall), não contribuiu em nada para adensar o clima negro que se pretendia dar ao filme. É claro que Michael Caine e Morgan Freeman cumprem nos seus papéis, embora tenham muito pouca visibilidade, já Gary Oldman veste de forma perfeita o comissário Gordon, enquanto Aaron Eckhart cumpre em pleno o papel oferecido pelo realizador.O Joker de Heath Ledger, símbolo perfeito do mal e do caos, terá sempre a sombra do sorriso sarcástico desse outro Joker interpretado por Jack Nicholson e, embora Heath Ledger tenha dado o seu melhor na criação da personagem a que deu vida, investindo todo o seu saber, nunca poderemos dizer que estamos perante um “Charles Foster Kane”.

Christopher Nolan

“O Cavaleiro das Trevas” de Christopher Nolan oferece-nos um filme em que esse Justiceiro chamado Batman luta contra os seus próprios demónios, transformando-o num verdadeiro “out-sider” da lei, que termina por perder a sua amada em nome de um combate contra o crime, que ele já parece não dominar, vendo até os seus aliados de sempre a fugir-lhe e tornando-se “persona non grata” para os habitantes de Gotham City, ao mesmo tempo que obtém um novo inimigo, o célebre “Two Face”.
O Batman, realizado por Christopher Nolan, cineasta que irá ficar ao “comando” da série, é inegável que possui o seu interesse, mas se Tim Burton permanecesse a realizar os filmes e Michael Keaton continuasse a vestir a pele do homem-morcego, o rumo futuro teria sido certamente muito mais interessante.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Sam Raimi – “Rápida e Mortal” / “The Quick and the Dead”


Sam Raimi – “Rápida e Mortal” / “The Quick and the Dead”
(EUA – 1995) – (107 min. / Cor)
Sharon Stone, Gene Hackman, Russell Crowe, Leonardo DiCaprio, Woody Strode.

Sam Raimi é um cineasta oriundo do cinema independente, que desde criança sempre nutriu uma profunda paixão pelo cinema e com apenas dez anos já andava pelo quintal de sua casa a “criar” filmes com a sua câmara de 8 mm. Depois, com o passar dos anos, tornou o seu sonho realidade, aliás quem se lembra dele como actor em “Um Verão no Lago” / “Indian Summer”, na figura do desastrado assistente de Alain Arkin, no outrora famoso campo de férias? Mas será como cineasta que irá dar nas vistas com “The Evil Dead” / “A Noite dos Mortos-Vivos”, a que se seguiu “Darkman” / “Vingança Sem Rosto”, começando a criar uma legião de fans e quando assinou “A Simple Plan” / “O Plano”acabaria por realizar a sua obra-prima, na época comparada com “Fargo” dos irmãos Coen e poucos anos depois irá aceitar o desafio dos Estúdios para realizar as aventuras de “O Homem-Aranha” / “Spider Man”. Mas, antes da feitura de “A Simple Plan” / “O Plano”, ele realizou “Rápida e Mortal” / “The Quick and the Dead”, um “western” feito de propósito para uma estrela chamada Sharon Stone brilhar.


Neste filme de duelos, na rua principal, o dono da cidade John Herod (Gene Hackman) organiza uma vez por ano um concurso de duelos em que o único sobrevivente recebe uma quantia avultada. Iremos assim mergulhar num espaço em que o sangue e a carne convivem com a pólvora e o pó, para alegria de John Herod. Mas desta vez vão surgir dois candidatos que irão transfigurar a habitual matança anual: um jovem que se intitula The Kid (Leonardo DiCaprio) que Herod pensa tratar-se do seu próprio filho e uma mulher bela e felina de nome Ellen (Sharon Stone) a quem todos chamam The Lady. Para além de Cort (Russell Crowe, que aqui começou a dar nas vistas), um antigo pistoleiro, que se tornou Pregador e que John Herod deseja ver morrer nos duelos, obrigando-o a participar no torneio.


Gene Hackman mais uma vez demonstra todo o seu talento, sendo a sua personagem uma espécie de cópia do Little Bill Daggett a quem ele deu vida na obra-prima de Clint Eastwood,  “Imperdoável” / “Unforgiven”, realizada em 1992.
A sua relação com Ellen nasce da suspeita e do desconhecimento das razões da jovem e bela pistoleira, que fuma e age como um homem, dominando a arte do revólver com enorme saber e perícia. E será por essa mesma razão que ele a convida para a sua Mansão no intuito de a convencer a desistir do concurso mortal, que todos os anos, no dia em que organiza o duelo, às 12 horas em ponto, deixa sempre um rasto de sangue na rua principal do povoado. Já em The Kid ele irá reconhecer uma espécie de herdeiro, o filho, que não irá obedecer às suas ordens e encontrará a morte após as badaladas fatais do relógio da povoação.


Curiosamente, Sam Raimi decidiu homenagear o “western”, convocando para o elenco o célebre Sargento Negro de John Ford, ou melhor o actor Woody Strode, enquanto o seu director de fotografia, Dante Spinotti, filma os duelos e as trajectórias das balas como se tratasse de um filme de Sam Peckinpah.
Porém este “Rápida e Mortal” não passa de um veículo para a estrela Sharon Stone brilhar e embora Sam Raimi nunca perca a mão, este filme nunca será recordado como um grande “western”, mas sim como aquela película em que Sharon Stone visitou o Oeste Americano.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Francis Ford Coppola – “Dracula” / “Bram Stoker’s Dracula”


Francis Ford Coppola – “Dracula” / “Bram Stoker’s Dracula”
(EUA – 1992) – (128 min. / Cor)
Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves.



Quando o motorista que conduzia a viatura onde seguia o cineasta G. W. Murnau se despistou, o Cinema perdeu um dos seus maiores génios e também o autor dessa obra única intitulada “Nosferatu”. Depois a personagem criada por Bram Stoker na literatura seria adaptada ao cinema por um outro génio desconhecido de muitos, de seu nome Tod Browning.
Aquando da retrospectiva do cineasta na Cinemateca em que foram descobertas as preciosidades esquecidas de Tod Browning, autor do célebre “Freaks”, foi-nos também oferecida a descoberta de Lon Chaney o actor dos mil rostos. O “Drácula” de Tod Browning ficou também famoso para a história do cinema pelo seu protagonista e é com profunda nostalgia que recordamos o Conde com a sua capa, na figura de Bela Lugosi e também aquele microfone que inadvertidamente surge no écran (a célebre “girafa”) e que rapidamente sai do enquadramento, logo no início da película.


Anos mais tarde a “Hammer” britânica tomou bem conta do mito e Christopher Lee foi um verdadeiro Gentleman ao vestir a pele do famoso Conde Drácula sempre perseguido por Van Helsing (o célebre Peter Cushing). O mito do Conde da Transilvânia tinha chegado ao grande écran para ficar ao longo de diversas gerações, navegando de continente para continente, nesse barco cinéfilo do nosso contentamento, ora era Roman Polanski que decidia jogar a comédia com o mito em “Por Favor Não Me Mordam o Pescoço” / “Dance of the Vampires”, enquanto por outro lado Werner Herzog, então no seu apogeu, retomava a herança de Murnau e realizava um novo “Nosferatu” com um Klaus Kinski inesquecível, para já não falarmos nessa versão em 3D, que em Portugal passou sem os famoso óculos, assinada pela dupla Andy Wahrol/Paul Morrissey, intitulada “Sangue Virgem para Drácula” / “Blood For Dracula”, com um Udo Kier desesperado em busca da sua virgem, aqui decididamente o humor jogava com o mito com um sabor a “underground”.


Perante uma herança tão repleta de referências e estilos foi com espanto que muitos ficaram surpreendidos quando no início dos anos noventa Francis Ford Coppola anunciou uma nova versão do mito.
Com “Bram Stoker’s Dracula” deFrancis Ford  Coppola não estamos perante mais uma versão do famoso romance de Bram Stoker, mas sim com uma obra fiel à literatura gótica, já que Francis optou por um olhar profundamente barroco, contando com um soberbo guarda-roupa da responsabilidade de Eiko Ishioka e para aqueles que desconhecem, a segunda equipa de filmagens foi dirigida por Roman Coppola o futuro cineasta de “GQ”. E desta feita a Winona Ryder até aguentou a pressão das filmagens (o que não sucedera com o derradeiro filme da série “O Padrinho”), talvez devido ao sentido tranquilo de Keanu Reeves, perante a turbulência controlada de Gary Oldman, num Dracula cheio de maneirismos (no bom sentido da palavra), já que tenta também retomar o mito do gentleman, perante a inocência da sua jovem presa. Já o Van Helsing criado por Anthony Hopkins, termina por fazer a diferença, de muitos surgidos anos depois, na sua loucura de caçador do Príncipe das Trevas, já que a sua personagem é de tal intensidade, que nos obriga quase a estar do lado da noite, perante o romantismo barroco oriundo desse castelo maldito perdido na obscuridade da Transilvânia.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Anton Corbijn – “O Americano” / “The American”


Anton Corbijn – “O Americano” / “The American”
(EUA – 2010) – (105 min. / Cor)
George Clooney, Violante Placido, Thekla Euten, Paolo Bonacelli, Johan Laysen.

Anton Corbijn o cineasta de “Control”, que retratou como ninguém o grupo pop Joy Division, atirou-se de armas e bagagens à realização de um “thriller” bem diferente do que é habitual nos tempos presentes, tendo como protagonista esse fabuloso actor chamado George Clooney, que, cada vez mais, nos surge como um homem que gosta de cinema com letra grande, assumindo também o papel de produtor.


“O Americano” / “The American” conta-nos a história de um gangster especialista no fabrico de armas, mas que após um atentado de que será vítima, perde a mulher amada, decidindo retirar-se do meio perigoso que frequenta. Mas nem sempre a vontade de sair é possível e como não podia deixar de ser o seu patrão pede-lhe um último trabalho numa aldeia perdida no interior da Itália.


A forma como Anton Corbijn nos narra a solidão do gangster é soberba, revelando desde logo traços muito próximos do cinema de Bernardo Bertolucci, veja-se aliás a forma como ele filma o corpo da prostituta Clara (Violante Plácido) nos encontros no quarto da pensão com o gangster (George Clooney), assim como a forma como nos são apresentados os habitantes da aldeia, incluindo a relação de amizade que se estabelece entre o padre (Paolo Bonacelli) e o perigoso gangster, padre esse que esconde um terrível segredo no seu interior.


Como não podia deixar de ser o americano percebe desde início que não vai ser fácil deixar a sua profissão, ao mesmo tempo que prepara o seu último trabalho: fabricar uma arma que será recolhida por uma bela rapariga e que se destina inevitavelmente a um assassinato, desconhecendo-se o alvo.
“O Americano” / “The American” com os seus silêncios e contenção, a par de mais uma excelente interpretação de George Clooney, revela-se uma verdadeira lufada de ar fresco no interior do cinema contemporâneo, permitindo ao espectador manter em alta, as expectativas criadas em torno desse cineasta chamado Anton Corbijn.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Joel Coen e Ethan Coen – “O Quinteto da Morte” / “The Ladykillers”


Joel Coen e Ethan Coen – “O Quinteto da Morte” / “The Ladykillers”
(EUA – 2004) – (104 min. / Cor)
Tom Hanks, Irma P. Hall. Marlon Wayans, J. K. Simmons, Ryan Hurst, George Wallace.

“O Quinteto Era de Cordas” / “The Ladykillers” de Alexander Mackendrick, com Alec Guinness e Peter Sellers nos protagonistas, é uma das mais belas comédias oferecidas pelo Cinema Britânico à Sétima Arte, uma obra que todos guardamos na memória com agrado e ternura.
Quando em 2005, cinquenta anos depois, Joel e Ethan Coen decidiram oferecer-nos o “remake” desta delirante comédia da História do Cinema, um género que têm sabido cultivar como ninguém, nunca deixando de pontuar a sua marca genuína de verdadeiros autores, as expectativas foram bem altas.


Como não podia deixar de ser, a nova versão de Joel e Ethan Coen do filme de Alexander Mackendrick, “The Ladykillers”, irá seguir as regras dos irmãos Coen no interior da comédia, que mais uma vez irão alterar a localização da história original, situando-a no Sul profundo da América.
O professor G. H. Dorr (Tom Hanks) irá apresentar-se à dona da casa, Marva Munson (Irmã P. Hall), como um professor de Latim e Grego, que se encontra a gozar um período sabático, ao mesmo tempo que cultiva uma paixão musical, pretendendo alugar-lhe o quarto, que se encontra disponível na residência.


O simpático e bem-falante professor G. H. Dorr irá pedir à velha viúva que lhe ceda a cave da sua casa para ensaiar com os amigos as obras musicais que tocam pelo país fora.
Este estranho quinteto amador de música constrói, durante os famosos “ensaios”, um túnel que os irá conduzir ao Casino, para assaltarem o cofre-forte, contando com o auxílio do célebre infiltrado, um jovem cuja linguagem termina por nos ferir os ouvidos, tal é a forma como ele utiliza o calão, de forma inconsequente e sem humor, surgindo aqui uma das fraquezas da película. Já Tom Hanks não consegue agarrar a personagem que interpreta, revelando-se um verdadeiro erro de casting.


O assalto, apesar de bem sucedido, depois de diversos contratempos, provoca uma série de acidentes que irão levar à morte todos os seus membros, assistindo o espectador atónito à forma como as mortes se vão sucedendo, terminando Marva Munson por ficar na posse do recheio do assalto, mas como é uma pessoa séria e religiosa, decide ir entregá-lo à polícia, mas na esquadra não lhe aceitam o dinheiro e ela termina por doar o produto do roubo à caridade.


Se na película de Alexander Mackendrick os corpos sem vida eram atirados de uma ponte para a linha do comboio, quando este passava na noite, no filme dos irmãos Coen os corpos são atirados ao rio, no momento em que passa uma barcaça, uma ideia bem engenhosa.

No entanto, ao vermos “O Quinteto da Morte”, o “remake” de “The Ladykillers”, acabamos por perceber que ele se encontra bem distante da magia hilariante do original, não conseguindo atingir os objectivos inicialmente traçados, terminando por ficar uns furos bem abaixo daquilo a que nos habituaram Joel e Ethan Coen.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Mike Newell – “Viagem Sentimental” / “Enchanted April”


Mike Newell – “Viagem Sentimental” / “Enchanted April”
(Inglaterra – 1992) – (95 min. / Cor)
Miranda Richardson, Joan Plowright, Alfred Molina, Josie Lawrence, Michael Kitchen, Polly Walker.

Mike Newell é um cineasta que, como é habitual em Inglaterra, fez a sua aprendizagem na televisão, mais concretamente na Granada Television, especializando-se em adaptações teatrais que lhe cimentaram a reputação. Depois, como seria inevitável, partiu para o cinema atingindo uma visibilidade sem precedentes com a película “Quatro Casamentos e Um Funeral” / “Four Weddings and a Funeral”, que relançou a nível mundial a carreira de Hugh Grant, ao mesmo tempo que surgiam de imediato convites dos Estúdios norte-americanos para trabalhar no novo mundo, o que aceitou, sendo de destacar o seu “Donnie Brasco” e “O Sorriso de Mona Lisa” / “Mona Lisa Smiles” com Julia Roberts. Mike Newell revelou-se um cineasta que adora navegar no território romântico, como sucede em “Enchanted April” / “Viagem Sentimental”. Curiosamente, foi o primeiro cineasta britânico a abordar as aventuras de Harry Potter já que, como se sabe, os primeiros filmes baseados nas aventuras mágicas do famoso herói juvenil tiveram Cris Columbus no comando das operações, embora nunca se deva esquecer o papel fundamental de Steve Kloves na adaptação do livro, leia-se argumento. Só para terminar esta pequena viagem convém referir que a sua obra “Dance With a Stranger” / “Dança Fatal” é a mais bela película da sua filmografia britânica.


“Viagem Sentimental”, baseado no livro de Elizabeth von Arnim, é uma obra onde as actrizes brilham em todo o seu esplendor e basta ver o nome das protagonistas para ficar tudo dito, já que Miranda Richardson surge aqui no seu melhor, reparem na forma como ela trabalha o olhar, enquanto Joan Plowright nos oferece todo o seu saber de actriz, na figura da viúva que não tem paciência para aturar os caprichos amorosos das suas companheiras de férias, ao mesmo tempo que Polly Walker, sempre de uma beleza perturbante, nos surge na figura da “vamp”, oriunda da alta sociedade, que conhece bem a sua beleza e sabe como a sua fortuna cativa todos os seus pretendentes, já Josie Lawrence cumpre de forma perfeita o papel que lhe foi destinado.


Estas quatro mulheres decidem alugar e partilhar no sul de Itália um pequeno castelo, para desta forma se afastarem um pouco do quotidiano das suas vidas (recorde-se que estamos no período do pós-guerra) e durante as suas estadias irão entender como afinal poderão ser importantes na vida que escolheram, tornando-se estas férias num verdadeiro reencontro amoroso.
Mas, como não podia deixar de ser, terão primeiro de enfrentar as suas dúvidas e incertezas, especialmente Lotte Wilkins (Josie Lawrence) que irá romper o pacto acordado entre todas e convidará o marido Mellersch (Alfred Molina) a fazer-lhe companhia no maravilhoso castelo medieval, nunca pensando que este irá ficar fascinado pela beleza da jovem Lady Caroline (Polly Walker), começando a fazer-lhe a corte. E também o marido de Rose, o inenarrável Frederick Arbuthnot (Jim Broadbent), irá passar por lá para descobrir finalmente o amor da sua esposa. Já Carolina Dexter (Polly Walker), ao conhecer o dono do maravilhoso local em que se encontram, o míope George Briggs (Michael Kitchen), encontrará naquele homem alguém bem distante e diferente de todos aqueles que a rodeiam nas festas, o interesse dele por ela revela-se bem diferente dos seus pretendentes que apenas cobiçam a sua fortuna. E assim a história destas três mulheres irá de certa forma ser visionada por essa viúva mais que sabedora da vida, chamada Mrs. Fisher (Joan Plowright), que nunca perde uma oportunidade para dar a sua opinião.


Mike Newell constrói nesta “Viagem Sentimental” uma obra que possui diversos pontos de contacto com o célebre “Quarto com Vista” / “Room With a View” de James Ivory mas, como todos sabemos, o romance de Forster é uma obra-prima da literatura, enquanto a novela de Elizabeth Arnim é uma daquelas histórias que se lê, simplesmente, com agrado. Porém Mike Newell retira dos actores todo o seu saber, construindo um filme que acaba por cativar o espectador, captando todas as potencialidades da paisagem onde se desenrola a película oferecendo-nos uma obra dentro dos parâmetros a que nos habituaram as famosas séries da BBC, embora neste caso concreto ultrapasse essa fronteira da caixa que mudou o mundo e entre, de forma bela e discreta, no território da Sétima Arte.
“Viagem Sentimental” / “Enchanted April” surge assim como um filme que se vê com bastante agrado e onde poderemos sempre descobrir a maravilhosa Arte das actrizes que compõem o elenco, tendo como pano de fundo a Bella Itália.