sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Mickey Rourke – Parte 1


Quando Mickey Rourke surgiu no grande écran, uns falaram num novo De Niro e outros num Al Pacino, mas Mickey não iria ser nada disso e a imagem do jovem Marlon Brando de “The Wild One” estava à sua medida e acabaria por se lhe colar à pele… contra sua vontade.

Nascido em Schnectady – New York, seguiu com a mãe e a restante família para Miami, após o divórcio dos pais, vivendo aí na chamada Liberty City. Jogou baseball, praticou boxe, andando pelos ringues como pugilista amador.
Nos anos setenta, do século XX, passeava pelas praias, olhando as raparigas com o seu olhar de galã um tanto andrógino. O cinema vivia no seu imaginário e depois de conseguir um empréstimo de 400 dollars da sua irmã, regressou a New York, onde vendeu gelados, trabalhou num parque de estacionamento, foi porteiro de clubes “muito nocturnos”. Nos tempos livres estudava a arte de representar.

Cinematograficamente, tudo começou quando ele “ajudava” William Hurt, no filme de Lawrence Kasdan “Noites Escaldantes” / “Body Heat”, a fabricar a bomba que iria matar Richard Creena ou se preferirem a personagem Edmund Walker. Depois do filme de Kasdan e ausente dessa obra retrato de uma geração intitulada “Os Amigos de Alex” / “The Big Chill”, Rourke irá fazer parte dessa outra constelação nascida em “Dinner – Adeus Amigos” de Barry Levinson, interpretando um jovem jogador que vivia intensamente as apostas que fazia, enganando tudo e todos, excepto a namorada de um amigo: a tal aposta perdida!

Não fazendo parte desse viveiro intitulado “Os Marginais” / “The Outsiders”, porque Coppola o achava demasiado “velho” para o elenco, terminaria por se transformar no rapaz da mota em “Rumble Fish”, verificando-se o nascimento de um novo Brando, devido às características do seu trabalho como actor: o olhar fixo/cerrado, a voz arrastada e a postura em relação a “The Wild One” / “O Selvagem” de Laslo Benedek, onde Marlon Brando era o herói ou o célebre “Há Lodo no Cais” / “On The Waterfront” de Elia Kazan.

Amigo do cineasta Nicolas Roeg, antigo director de fotografia de David Lean, acabaria por participar em “Eureka” ao lado de Theresa Russell, Gene Hackman e Rutger Hauer e mais tarde em “The Pope of Greenwich Village” / “Iniciação ao Crime” de parceria com Eric Roberts, o irmão de Julia Roberts.

(continua)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Henri Cartier-Bresson - "Ile de la Cité, Paris"


"Ile de la Cité, Paris"
Henri Cartier-Bresson, 1952.

Abbas Kiarostami – “Através das Oliveiras” / “Zire Darakhatan Zeyton”


Abbas Kiarostami – “Através das Oliveiras” / “Zire Darakhatan Zeyton” (França/Irão – 1994) – (103 min. / Cor)
Mohamad-Ali Keshhavarz, Farhad Kheradmand, Zarifeh Shiva, Hossein Rezai.

Na década de noventa o cinema ocidental foi confrontado com a cinematografia iraniana e muito em especial com a obra de Abbas Kiarostami, entrando o espectador ocidental através da Sétima Arte no quotidiano iraniano até então tão distante de todos nós, preenchendo-se desta forma uma enorme lacuna, dando-nos a conhecer o dia a dia dos seus habitantes, assim como a sua cultura, até então desconhecida do cinéfilo.


Desde a primeira hora a cinematografia iraniana demonstrou um determinado número de afinidades com o cinema neo-realista italiano, surgido após a Segunda Grande Guerra, confessando Abbas Kiarostami, sem dúvida alguma o mais importante cineasta iraniano, a influência exercida pela obra de Roberto Rossellini no interior do seu cinema. E ao depararmos com “Através das Oliveiras” / “Zire Darakhatan Zeyton” iremos ser surpreendidos com um filme dentro do filme, ou melhor somos convidados a assistir às filmagens de uma película onde dois dos seus intervenientes se irão digladiar pelos afectos do coração, um tema de certa forma impensável de encontrar num filme vindo da Republica Islâmica.


Mais uma vez Abbas Kiarostami, irá usar actores amadores, excepto o que faz de realizador, que luta, de forma inglória, em rodar uma determinada cena, que termina sempre por ser sabotada, por esses afectos sentidos pelo protagonista masculino, mas que não são correspondidos pela jovem actriz, originando uma nova repetição do take, levando ao desespero, o realizador e a equipa de produção.
Embora “Através das Oliveiras” não seja o “opus-magnum” da filmografia de Abbas Kiarostami é possível encontrar nesta película os habituais traços que caracterizam o seu cinema: o quotidiano como personagem e os exteriores como local de eleição para o desenrolar da acção.

A Memória da Fotografia - David Seymour - "Ingrid Bergman"


"Ingrid Bergman in Rome"
David Seymour, 1952

Filme do dia: FOX – “Wall Street: O Dinheiro Não Dorme” / ”Wall Street: Money Never Sleeps” – Oliver Stone.


“Wall Street: O Dinheiro Não Dorme” /”Wall Street: Money Never Sleeps”
Michael Douglas, Shia LaBeouf, Josh Brolin, Frank Langella.
(EUA – 2010) – (133 min./Cor)
Oliver Stone
FOX – 00h05 da madrugada de 6ª Feira.

Pode ver aqui o trailer do filme.

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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Hall Bartlett - “Fugitivos do Inferno” / “Love is Forever”


Hall Bartlett - “Fugitivos do Inferno” / “Love is Forever”
(EUA – 1983) – (96 min./Cor)
Michael Landon, Laura Gernser (Moira Chen), Jurgen Prochnow, Priscilla Presley.

O realizador Hall Bartlett obteve um enorme sucesso quando levou ao cinema o best-seller de Richard Bach “Fernão Capelo Gaivota” / “Jonathan Livinsgstone Seagull”, com a célebre banda sonora de Neil Diamond, estávamos no ano de 1973 e no espaço de uma década apenas realizou mais dois filmes ou seja “Conflito de Gerações” / “The Children of Sanchez” em 1978, com Anthony Quin, Dolores del Rio e Katy Jurado no elenco, que até foi nomeado para um Globo de Ouro pela magnífica banda sonora de Chuck Magione, que na época fez sucesso e só cinco anos depois Hall Bartlett irá voltar a realizar, através deste “Fugitivos do Inferno” / “Love is Forever”, um típico filme para o mercado norte-americano.

Esta película, que se baseou em factos reais acontecidos no distante Sudoeste Asiático, enferma desde o início de diversos contratempos começando no casting, já que o realizador não gostou nada de ter Laura Gernser no elenco  e preferiu que ela adoptasse o nome de Moira Chen (assim talvez o público se esquecesse que estava perante a actriz de “Emanuelle Negra” / “Emmanuelle Nera”), depois  tanto Michael Landon (da célebre série de tv, “Bonanza”), como o excelente Jurgen Prochnow e Priscilla Presley, cujos dotes artísticos são relativos, não se sentem nada como “peixe na água”, apesar do rio Mekong andar próximo.


“Fugitivos do Inferno” / “Love is Forever” cuja acção se desenrola no Laos, oferece-nos a história do jornalista John Everingham (Michael Landon), que um dia se vê expulso do território, porque as autoridades não “apreciam” o trabalho por si desenvolvido, mas este irá regressar ao Laos, para resgatar a pessoa amada, dos braços do responsável dos Serviços Secretos.
Logo no início da película o espectador é avisado de que está perante factos reais, pensando os produtores que assim irão cativar o público de imediato, mas na verdade durante o desenrolar da película é natural que se perca a paciência e se desista do filme, porque aqui estamos perante um falhanço colectivo e um mau serviço prestado ao cinema.

Uma última nota fruto dos tempos: observe as duas capas da edição em dvd, como as protagonistas do filme "mudaram": o politicamente correcto é terrível J!

Alfred Stieglitz - "A Wet Day on the Boulevard, Paris"


"A Wet Day on the Boulevard, Paris"
Alfred Stieglitz, 1894.

Andrzej Wajda – “Um Amor na Alemanha” / “Eine Liebe in Deutscland”


Andrzej Wajda - “Um Amor na Alemanha” / “Eine Liebe in Deutscland”
(França / Alemanha – 1983) – (132 min./Cor)
Hanna Schygula, Piotr Lysak, Armin Mueller-Stahl, Daniel Olbrychski.

Andrzej Wajda é um dos mais conhecidos cineastas polacos, no entanto a maioria dos seus filmes terminam quase sempre por abordarem retratos psicológicos dos seus protagonistas, contando quase sempre com argumentos bem interessantes.

Responsável por duas obras-primas do cinema Polaco, sendo um deles essa obra maior intitulada “Terra Prometida” / “Ziemia Obiecana”, um fresco histórico de três horas, no qual iremos descobrir esse talentoso actor chamado Daniel Olbrychski, que surge também neste “Um Amor na Alemanha” e que é um dos intérpretes favoritos do cineasta, um filme que se estreou no nosso país, no saudoso Cinema Satélite (ao sala estúdio do antigo cinema Monumental) e “O Homem de Mármore” / “Czlowick z Marmuru”, que o irá revelar ao Ocidente, ao oferecer-nos a história da “construção do homem socialista” no leste europeu.

Após o seu sucesso internacional com “O Homem de Ferro” / “Czlowiek z Zeleza”, abordando os acontecimentos na Polónia que irão levar Lech Walesa ao poder, o cineasta polaco irá realizar em terras francesas o célebre “Danton” (1983) e nesse mesmo ano irá dirigir este belo filme intitulado “Um Amor na Alemanha” / “Eine Liebe in Deutschland”, uma pelicula onde a memória de um amor proibido durante a guerra, entre uma alemã e um polaco se irá revelar como o verdadeiro protagonista, sendo o uso de “flash-backs” uma constante no filme, o que termina um pouco por cortar o ritmo ao desenrolar da película.

Ao revermos este filme de Wajda, tantos anos depois, descobrimos nele não só a assinatura do cineasta, mas também o enorme talento dessa actriz inesquecível chamada Hanna Schygula porque, na verdade, ela é o filme! 

A Memória da Fotografia - Bud Fraker - "Audrey Hepburn"


"Audrey Hepburn"
Bud Fraker, 1953.

Filme do dia: Canal Hollywood – “Fuga de Los Angeles” / ”Escape From L.A.” – John Carpenter.


“Fuga de Los Angeles” /”Escape From L.A.”
Kurt Russell, Steve Buscemi, Peter Fonda, Valeria Golino.
(EUA – 1996) – (101 min./Cor)
Martin Scorsese
Canal Hollywood – 14h00 de quarta-feira

Pode ver aqui o trailer do filme.

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terça-feira, 17 de outubro de 2017

Jorge Silva Melo – “Ninguém Duas Vezes”


Jorge Silva Melo – “Ninguém Duas Vezes”
(Portugal – 1984) – (100 min./Cor)
Michael Konig, Manuela de Freitas, Luís Miguel Cintra.

“Ninguém Duas vezes” foi a segunda longa-metragem do cineasta Jorge Silva Melo, que em 1980 se estreara no cinema com a longa-metragem “Passagem ou a Meio-Caminho” e se ele é um nome incontornável na História do Teatro em Portugal, sempre foi conhecido como cinéfilo. Este filme pretendia oferecer-nos o retrato de uma geração que tinha perdido a esperança, num certo Portugal pós-revolucionário e sonhador e aqui iremos perceber que as contradições particulares se cruzam com as colectivas, que se cristalizaram para sempre na memória que uns ainda pretendem viver, enquanto outros fazem tudo para a esquecer. Neste “Ninguém Duas Vezes”, ainda estamos longe desse cineasta genial que iríamos descobrir no fabuloso “António, Um Rapaz de Lisboa”, muitos anos depois.

Jorge Brum do Canto – “O Crime de Simão Bolandas”


Jorge Brum do Canto – “O Crime de Simão Bolandas”
(Portugal – 1984) – (140 min/Cor)
Virgilio Teixeira, Delfina Cruz, João António Sommer, Benjamim Falcão.

Foi ainda com a idade de um digito que fiquei fascinado com o filme “Chaimite” de Jorge Brum do Canto, que vi nessa época no pequeno écran e muitos anos depois na Cinemateca e possivelmente, nos dias de hoje, será politicamente incorrecto continuar a gostar da película deste cineasta português, mas assim sucede.

No entanto o seu último filme, “O Crime de Simão Bolandas”, que no ano de 1984 fui ver ao Cinema Condes foi uma profunda desilusão, porque terminei por encontrar um argumento que não dera pela passagem do tempo e nos oferecia uma história de adultério repleta de marcas do passado, onde pontua uma certa moral, enquanto a realização navega sem um rumo definido, tendo um excelente actor como Virgílio Teixeira a encabeçar um elenco onde a direcção de actores parecia não existir e até hoje continuo a não entender o que levou o cineasta de “Cruz de Ferro” a realizar este filme, cuja adaptação cinematográfica, do livro de Domingos Monteiro, é de sua autoria, tal como a montagem do filme e ao qual dedicou seis anos e já nem falo na triste e monótona realização.

Conta-se a história de Simão Bolandas, que vê o pai a ser afastado por D. Lourenço (Virgilio Teixeira), o proprietário das terras para quem o seu pai trabalha, simplesmente porque este deseja retomar a relação amorosa que em tempos idos tivera com Florinda (Delfina Cruz), sua mãe; Simão Bolandas (João António Sommer) vai conduzir D. Lourenço a uma armadilha mortal.

Sendo “O Crime de Simão Bolandas” o derradeiro filme de Jorge Brum do Canto, quando olho para a sua filmografia prefiro nem o ver e recordar apenas as suas restantes obras cinematográficas.

Francis Ford Coppola – “O Padrinho III” / “The Godfather III”


Francis Ford Coppola – “O Padrinho III” / “The Godfather III”
(EUA – 1990) – (162 min. / Cor)
Al Pacino, Diane Keaton, Talia Shire, Andy Garcia, Eli Wallach, Joe Mantegna, Sofia Coppola, Bridget Fonda.

A Paramount Pictures nunca se esqueceu do êxito que foi “O Padrinho” / “The Godfather” e a sua sequela “O Padrinho: Parte II” / “The Godfather: Part II”, que lhe encheu os cofres e se revelou um dos maiores sucessos de sempre destes famosos Estúdios Americanos.
E quando foi anunciado a feitura de mais um filme da Saga da família Corleone, as expectativas foram bastante elevadas, conseguindo Francis Ford Coppola cumprir em  todas as vertentes cinematográficas, ao mesmo tempo que nos oferecia, uma montagem final genial onde iremos assistir ao derradeiro ajuste de contas e a respectiva passagem de testemunho entre Don Michael Corleone (Al Pacino) e o seu eleito Vincent Mancini (Andy Garcia).
Mais uma vez Al Pacino demonstrou ser o maior actor norte-americano vivo. Basta recordarmos a sua morte no final, possivelmente um dos mais belos momentos do cinema de Francis Ford Coppola, possuidor dessa solidão que o poder transporta sempre consigo.


O ambiente em Roma, onde se desenrolou a rodagem de “O Padrinho: Parte III” / “The Godfather: Part III” era no início um verdadeiro caos. A Máfia “controlava” ao longe as filmagens da película, chegando-se até a falar-se que alguns elementos da organização participaram como extras, para controlarem o que se passava no interior da produção.


Foi este o clima encontrado por Winona Ryder ao chegar a Roma para interpretar a figura de Mary Corleone, a filha do poderoso Padrinho, Don Michael Corleone, e poucos dias depois, a actriz viu-se a braços com o inevitável esgotamento nervoso. Johnny Depp, então seu “namorado”, ainda voou para Itália, mas de nada serviu a sua presença. E foi assim que Francis Ford Coppola, desesperado, se virou para a sua filha Sofia Coppola e lhe disse que ela seria a nova Mary Corleone.


O que se passou a seguir é de todos conhecido: a crítica da especialidade saudou a película efusivamente, excepto a interpretação de Sofia Coppola. Basta consultar-se a imprensa da época, nacional ou estrangeira e o resumo é sempre o mesmo: “ a sua interpretação é um verdadeiro desastre”, depois os anos passaram e Sofia Coppola não voltou a estar à frente de uma câmara, preferindo ficar na retaguarda e seguir o caminho traçado pelo pai, abraçando a realização cinematográfica.
A sua película de estreia como cineasta, “As Virgens Suicidas” / “The Virgin Suicides”, recolheu o aplauso unânime da crítica especializada e do público e rapidamente todos nos esquecemos da sua passagem pelo terceiro capítulo da Saga “O Padrinho” / “The Godfather”, uma das mais fabulosas obras da História do Cinema.
Convém sempre recordar que com o seu filme seguinte “O Amor é um Lugar Estranho” / “Lost in Translation”, Sofia Coppola cimentou decididamente a sua carreira como cineasta.


Em “O Padrinho: Parte III” / “The Godfather: Part III” iremos assistir à tentativa de Don Michael Corleone (Al Pacino) legitimar/branquear os seus negócios, usando diversas entidades ligadas ao Vaticano para atingir esse fim, mas os inimigos espreitam por todos os lados, para se apoderarem dos negócios, como iremos ver logo no início com a tentativa de assassinato de Michael Corleone (Al Pacino) levada acabo por Joey Zasa (Joe Mantegna), que possui ligações subterrâneas com entidades ditas legais, mas com actividades muito pouco transparentes.
Por outro lado Mary Corleone (Sofia Coppola) e Vincent Mancini (Andy Garcia) terão que esquecer e abdicar do seu romance, para bem dos interesses da família, tornando-se ele no escolhido por Don Michael Corleone, para o suceder, jurando-lhe fidelidade, numa sequência que marca a ruptura definitiva entre os dois jovens apaixonados.
No final, após a vitória no confronto derradeiro com os seus inimigos, Michael Corleone, irá gozar a sua velhice solitária, até a morte o ir buscar, num dos momentos mais sublimes do filme.

Francis Ford Coppola 
durante a atribulada rodagem do filme

Francis Ford Coppola conseguiu com esta terceira película fechar com chave de ouro a inesquecível Saga da família Corleone.

A Memória da Fotografia - David Bailey - "Monica Vitti"


"Monica Vitti"
David Bailey, 1965.
(Fotografia para a revista Vogue)

Filme do dia: Canal Hollywood – “The Departed – Entre Inimigos” / ”The Departed” – Martin Scorsese.


“The Departed – Entre Inimigos” /”The Departed”
Jack Nicholson, Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Mark Wahlberg, Martin Sheen.
(EUA – 2006) – (151 min./Cor)
Martin Scorsese
Canal Hollywood – 2h35 de quarta-feira

Pode ver aqui o trailer do filme.

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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Chaplin



Chaplin

Tudo já parece do passado,
as calças largas, o bigode.
Os dentes brilham acima de um prato esmigalhado.
O silêncio ajuda-o. Vejam a pose,
as botas rotas em forma de V. As portas
baloiçam e fecham-se, escondendo-o. Luta
contra o movimento dos elevadores,
numa bicicleta contra a corrente.
Tem uma bengala fina como um caule,
A ela ninguém se podia encostar. Deita abaixo
a cultura densa. Arrasta-se
para o sucesso de um vazio.

Iain Crichton Smith

in "O Bosque Sagrado"
Ed. Gota de Água
Tradução: Helder Moura Pereira

A Memória do Cinema – Cinema Condes


No final da Avenida da Liberdade e inicio da Praça dos Restauradores, fazendo esquina com a Rua do Condes, nasceu um Teatro que mais tarde se irá transformar em sala de Cinema, nesses anos loucos do Animatógrafo e será durante os anos de 1950/52 que os seus proprietários, a Distribuidora Filmes Castello Lopes, decidem encarregar o Arquitecto Raul Tojal de construir uma grande sala de Cinema, a tal que eu muitos anos depois, tal como muitos de vós irá conhecer e frequentar, vivendo momentos de enorme prazer nesse belo convívio com a Sétima Arte.


A primeira vez que entrei no cinema Condes, segundo as minhas memórias, foi ainda com a idade de um digito, para ver uma película dos então célebres Bucha e Estica ou se preferirem Laurel and Hardy, intitulada “Beau Hunks” / “Laurel e Hardy em Marrocos”, que era um gozo ao célebre “Beau Geste”, nessa sessão havia ainda outros filmes desta célebre dupla, mas foi o fascínio do deserto e da legião estrangeira que me ficaram na memória (o filme está disponível no YouTube).


Tenho de confessar que em criança fiquei de imediato fascinado por aquela sala de cinema e depois tinha mesmo o autocarro à porta para regressar a casa e será precisamente no cinema Condes que irei ver pela primeira vez um dos filmes mais amados aqui de casa: “Júlio César” / “Julius Caesar”, do genial Joseph L. Mankiewicz.
Os bilhetes eram gratuitos para os alunos das escolas, sendo apenas necessário apresentar o cartão de estudante e confesso que a confusão era enorme, mas a minha querida avó lá conseguiu os bilhetes e nesse dia, ainda a frequentar o Ciclo Preparatório, descobri como os políticos romanos conseguiam com as suas belas palavras manipular as massas populares ou se preferirem o povo romano e quando neste século XXI vejo o telejornal, por vezes, até penso que estou em Roma a escutar os Senadores Romanos. Hoje, Joseph L. Mankiewicz é um dos meus cineastas de eleição, mas naquele tempo ainda não fixava o nome dos realizadores, apenas conhecia o Marlon Brando e o James Mason de filmes que vi na televisão.


Mas antes de continuar esta crónica quero deixar um agradecimento muito especial à senhora que, no final da década de sessenta, trabalhava no bengaleiro do cinema, junto da entrada para a plateia, passemos então aos acontecimentos!
Como referi anteriormente foi no Cinema Eden, ainda com um digito que fui sozinho pela primeira vez ao Cinema, mas será no Condes que irei ver “E Tudo o Vento Levou” / “Gone With the Wind” e quando vejo a bela Scarlett O’Hara, a actriz Vivien Leigh, a dizer que irá lutar e vencer, pensei que estava no final do filme e nisto “cai-me em cima” o célebre INTERMISSION, olhei aflito para o relógio e calculei o tempo que faltava e percebi que a noite vinha a caminho, mas eu queria acabar de ver o filme e então pedi à senhora do bengaleiro se podia ligar para casa, depois de lhe ter contado o meu problema, eram quase 19 horas e o filme iria terminar por volta das 21 horas e ela amavelmente deixou-me ligar para a minha avó, que me recomendou para, quando terminasse o filme, apanhar logo o autocarro 39 para casa e assim consegui conhecer a tragédia de Scarlett O’Hara, que amou o homem errado durante a vida e depois era tarde para emendar o erro.


Foi no cinema Condes, já adolescente, que vi com o amigo João P., colega de liceu  e companheiro destas lides cinéfilas, nesses anos, o fabuloso “Star Wars” / “A Guerra das Estrelas”, depois de termos comprado os bilhetes para o 2º balcão na “candonga”, a um cavalheiro de aspecto muito pouco recomendável, mas nós queríamos tanto ver o filme, que foi a única solução encontrada para tornear a lotação esgotada, habitual nesses anos, e ainda hoje me recordo da emoção com que vimos o filme de George Lucas.
Outro filme da mesma época que me ficou na memória, como essa pedrada no charco do “western”, foi ”O Soldado Azul” / “Soldier Blue”, realizado pelo Ralph Nelson, com o Peter Strauss e a bela Candice Bergen nos protagonistas.


O magnifico Cinema Condes estava também equipado com écran para 70 mm e ao longo dos anos foi-se modernizando, lembro-me bem de como me ri, quando mudaram as cadeiras no primeiro balcão e o espectador ao sentar-se a cadeira descia lentamente e foram inúmeros os espectadores dessa sessão que davam um salto e ficavam de pé a olhar para a cadeira, já o filme dessa sessão foi “Aquele Inverno em Veneza” / “Don’t Look Now” do Nicholas Roeg, baseado no livro da Daphne Du Maurier (a escritora do célebre “Rebecca”), com o Donald Sutherland e a Julie Christie nos protagonistas e aqui tenho de confessar que com a idade de um digito me tinha “apaixonado” pela Julie Christie quando a descobri no filme “Longe da Multidão” / “Far From the Madding Crowd”, e era ela a minha razão de ter ido ver o filme e depois…


Para terminar e como a Madonna decidiu vir viver para Lisboa, nunca é demais referir que foi na Sala do Cinema Condes que vi a pelicula “Desesperadamente Procurando Susana” / “Desperately Seeking Susan” realizado pela Susan Seidelman, na época uma cineasta do denominado cinema independente que tinha dado nas vistas ao realizar “Estilhaços” / “ Smithereens”.

O Cinema Condes encerrou as suas portas em 1997 e esteve quase a ser demolido, tendo sido salvo “in extremis”, ao contrário de outros Templos do Cinema, sendo posteriormente transformado num “Hard Rock Café”, conservando a fachada, e sempre que passo na Praça dos Restauradores é inevitável recordar algumas boas memórias passadas no interior desta bela e inesquecível Sala de Cinema!

A Memória da Fotografia - Wayne Miller - "Ava Gardner"


"Ava Gardner"
Wayne Miller, 1959.

Filme do dia: AMC – “Crueldade Intolerável” /”Intolerable Cruelty” – Joel Coen e Ethan Coen.


“Crueldade Intolerável” /”Intolerable Cruelty”
George Clooney, Catherine Zeta-Jones, Geoffrey Rush, Richard Jenkins, Billy Bob Thornton.
(EUA – 2003) – (100 min./Cor)
Joel Coen e Ethan Coen
AMC – 19h47

Pode ver aqui o trailer do filme.

Pode ler aqui o que escrevemos sobre o filme.