quinta-feira, 23 de março de 2017

Dylan Thomas - "Uma Visão do Mar" / "A Prospect of the Sea"


Dylan Thomas
“Uma Visão do Mar”
Vega, 117 Pag.

Dylan Thomas nasceu a 27 de Outubro de 1914 em Swansea, no País de Gales, filho de um professor de inglês e aos 16 anos começa a escrever como jornalista no “South Wales Evening Post”, em 1934 publica o seu primeiro livro de poemas intitulado “18 poems”. Jorge de Sena, no seu estudo “A Literatura Inglesa”, refere-se assim a este nome incontornável das letras do século xx: “Críticos houve que consideram Dylan Thomas um dos maiores poetas ingleses, outros que o acusaram de ser um playboy galês vivendo à custa da magnificência verbal e de um pretenso celtismo sibilino, e também da impressionante arte de declamar, que era a sua.” Recorde-se que a sua obra estendeu-se da poesia aos contos, passando pelo teatro, argumentos para filmes até chegar a essa obra de referência intitulada “Retrato do Artista Quando Jovem Cão” numa citação bem directa ao famoso romance autobiográfico de James Joyce, “Retrato do Artista Quando Jovem”.

Mas o célebre olhar de Dylan Thomas sobre a natureza e o mundo que o rodeava foram sempre transportados de forma cristalina para o interior da literatura, através de uma arte poética equivalente ao pintor que se encontra perante a paisagem e lentamente vai retratando a beleza que se depara perante o seu olhar maravilhado, mas por vezes também surpreendido pelas mudanças que vão surgindo na linha do horizonte, anunciando umas vezes a bonança outras vezes a tempestade que se aproxima. Aqui vos deixo um excerto deste belo livro intitulado “Uma Visão do Mar” da autoria de Dylan Thomas.



"Certa manhã muito cedo no Inverno de Gales, ao pé do mar que repousava imóvel e verde como erva depois de uma noite de reboliço e rugido de bréu, saí de casa, onde eu viera passar uma temporada despropositadamente fria, para ver se ainda chovia, se as dependências teriam sido arrastadas, batatas, tesouras, mata-ratos, camaroeiros, e latas de pregos ferrugentos levados no vento, e se ainda restavam os penhascos todos. Tinha sido uma noite tão feroz que alguém na taberna cheia de fumo e decorada com quadros de navios dissera que tinha podido sentir a sepultura tremer apesar de ainda não ter morrido, ou pelo menos de ainda mexer, porém a manhã brilhou tão radiosa e calma como sempre imaginamos que vai brilhar amanhã." 

Dylan Thomas

In “Uma Visão do Mar”

Julian Schnabel - "The Sea"


Julian Schnabel - "The Sea", (1981)
Fragmentos de louça mexicana, gesso 
e óleo sobre tela, 274,3 x 396,3 cm.

Raoul Walsh – “Objectivo Burma” / “Objective Burma”


Raoul Walsh – “Objectivo Burma” / “Objective Burma”
(EUA – 1945) - (142 min. - P/B)
Errol Flynn, William Price, James Brown, George Tobias.


“Objectivo Burma”/ “Objective Burma” é, acima de tudo, um filme de e sobre a guerra no Pacífico, onde os americanos perderam mais vidas, no confronto com as tropas japonesas que venderam cara a derrota e aqui iremos encontrar o Major Nelson (Errol Flynn) a dar conhecimento aos seus homens do objectivo da missão: destruir uma estação de radar, para assim possibilitar o avanço das tropas americanas na selva birmanesa.
De imediato percebemos que aqueles homens poderão ser para queimar, numa missão que as altas hierarquias militares desejam que seja perfeita. Mas, como todos sabemos, nem sempre os desejos se transformam em realidade e nunca há missões perfeitas no teatro de guerra.


A forma como Raoul Walsh filma a acção de sabotagem no acampamento japonês é de antologia, porque quase poderíamos estar a assistir a um documentário. Este cineasta, que iniciou a sua carreira atrás da câmara, ainda no período mudo, ao dirigir Douglas Fairbanks em “O Ladrão de Bagdad” / “The Thief of Bagdad”, fora anteriormente assistente de D.W. Griffith e Thomas H. Ince, tendo abordado ao longo da sua carreira os mais diversos géneros, utilizando sempre a matéria fílmica com uma eficácia bem demonstrativa do seu talento.


Porém se o objectivo da missão é um êxito, já a caça que lhes é dada pelas tropas japonesas será mortífera para aqueles soldados, especialmente quando, chegados ao local combinado para serem resgatados da selva inóspita, percebem que estão por sua própria conta e risco, restando-lhes apenas continuar a lutar pela sobrevivência, com esse meio que algumas vezes transforma os homens comuns em heróis.
E quando tudo parece perdido, surge o auxílio vindo do céu, quando as tropas pára-quedistas iniciam finalmente aquela que será conhecida como a grande ofensiva no Pacífico.


Ao vermos a interpretação de Errol Flynn, percebemos as razões de ele ter sido uma estrela na sua época, fosse ele o pirata, o cow-boy ou o soldado, porque ao longo da sua carreira cinematográfica sempre ofereceu às personagens que interpretou toda a sua sabedoria de actor. E o que fica na história do cinema não são as histórias da vida privada do actor, mas sim os filmes que protagonizou transmitindo ao espectador toda a sua Arte na composição das personagens que criou na tela com enorme talento.
Quanto a Raoul Walsh, este cineasta que nunca deixou os seus créditos por mãos alheias, surge aqui como o verdadeiro comandante de uma equipa que construiu um dos mais memoráveis filmes de guerra, em que a fotografia de James Wong Howe nos oferece, de forma perfeita, o sangue, suor e lágrimas de todos aqueles que combateram na mortífera e longa batalha do Pacífico.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Harold Budd - "Abandoned Cities"


Harold Budd
“Abandoned Cities”
Cantil / Land Records

“Abandoned Cities” surgiu em 1982 na etiqueta Cantil, propriedade do próprio músico e compositor norte-americano e fala-nos através da sua música de um universo pós-apocalíptico, no qual os sintetizadores surgem como principal forma expressiva, por onde surge esporadicamente as notas do célebre piano acústico de Harold Budd, pontuando a desolação, ao mesmo tempo que nos oferecem um pequeno raio de esperança no futuro.

Esta magnifica e intemporal obra de Harold Budd (poderia ter sido escrita nos dias de hoje) onde navegamos entre ruínas ao longo de 23 minutos, oferece-nos do outro lado do LP o tema “Dark Star” (cerca de 20 minutos) onde desta feita mergulhamos nas profundezas do espaço em busca da redenção (im)possível.


“Abandoned Cities” permanece, no interior da discografia do compositor norte-americano, um trabalho único e complexo, com pontes muito frágeis para obras posteriores como “White Arcades” ou “Blue Thunder”, mas que o tornam único e que fazem dele uma composição da qual o próprio Harold Budd sente um profundo orgulho como refere no texto que acompanha a reedição em cd deste trabalho pela editora Land Records, que juntou o título anterior do artista “The Serpent (in Quicksilver)”, datado de 1981 e no qual Harold Budd conta com a colaboração de Eugene Bowen.

Descobrir “Abandoned Cities” de Harold Budd é a nossa proposta para hoje, depois partam em busca da discografia deste genial pianista e compositor e irão então deparar-se com um universo multifacetado e recheado de criatividade.

Alexandre Melo - "Aventuras no Mundo da Arte"


Alexandre Melo
“Aventuras no Mundo da Arte”
Assírio & Alvim, Pag. 320

Viajar pela arte é uma maravilhosa aventura. É precisamente isso que nos parece dizer a magnifica capa deste livro de Alexandre Melo, que reúne textos publicados ao longo de vinte anos e provenientes das mais diversas áreas, mas com grande incidência nas artes plásticas. Recordo-me que a primeira vez que li textos de Alexandre Melo foi no saudoso JL – Jornal de Letras, na época em que António Mega Ferreira era o chefe de redacção (o período mais aliciante e inventivo da publicação), recordo-me que durante este período Alexandre Melo assinou muitos textos a duas mãos. tanto com João Pinharanda como com Tereza Coelho (que infelizmente já partiu), de referir que Alexandre Melo e Tereza Coelho conheceram-se ao assistirem ao filme “India Song” de Margueritte Duras, segundo confessaram numa entrevista ao jornal Público.  Os textos que surgem nestas “Aventuras no Mundo da Arte” permitem-nos ficar a conhecer o pensamento de Alexandre Melo, que no final da introdução nos diz: “(…) importa não esquecer que a mais simples e mais importante de todas as aventuras é a nossa. A aventura das pessoas. Pessoas como eu, os artistas e você, Boas Aventuras.” E na verdade ler este livro revela-se uma verdadeira aventura repleta de boas memórias. Dividido em quatro partes, “Aventuras no Mundo da Arte” inicia-se com uma proposta de definições, depois segue para as conjunturas ou seja para esse universo onde navega a arte contemporânea e depois entramos nesse território em que visitamos mais em pormenor a obra de diversos criadores, desde as artes plásticas até ao universo do cinema e a terminar um olhar sobre a realidade artística no Brasil. Ao longo das 320 páginas, verdadeiramente aliciantes, cruzamo-nos com nomes como Jasper Johns, Joseph Kosuth, Cindy Sherman, Robert Mapplethorpe, Amos Poe, Jim Jarmusch, Werner Schroeter e Robert Wilson, entre outros. Mas a escrita de Alexandre Melo é muito mais extensível a outras direcções literárias e à medida que vamos lendo estas “Aventuras no Mundo da Arte”, percebemos que as suas ideias oferecem ao leitor a oportunidade de navegar a uma bela e inesquecível velocidade contemporânea. Aqui vos deixo um pequeno excerto do capítulo dedicado a Cindy Sherman.



Cindy Sherman

“A obra de Cindy Sherman é uma das primeiras a acolher e reflectir, de modo cabal e exaustivo, todas as implicações da nossa actual imersão na chamada «civilização da imagem». O triunfo de Hollywood, transformado e prolongado através do triunfo da televisão, e a sua expansão à escala planetária, não representa apenas a mais importante mutação cultural e artística do século xx, representam também uma transformação profunda dos próprios mecanismos de estruturação das personalidades individuais, designadamente através da modelação das formas do desejo e do imaginário sexual.”

Alexandre Melo

In “Aventuras no Mundo da Arte”

Edward Hopper - "Ground Swell"


Edward Hopper - "Ground Swell", (1939)
Óleo sobre tela, 92,7 x 127,6 cm.

Alain Resnais – “As Ervas Daninhas” / “Les herbes folles”


Alain Resnais – “As Ervas Daninhas” / “Les herbes folles”
(França/Itália – 2009) – (104 min. / Cor)
André Dussolier, Sabine Azéma, Emmanuelle Devos, Anne Consigny.

Alain Resnais, quando surgiu a “Nouvelle Vague”, era um nome que marcava pontos à muito no cinema francês através das suas curtas-metragens documentais, oferecendo, desde logo, um olhar bem diferente do que então era hábito encontrar no interior deste género cinematográfico. Mas seria em 1955, ao realizar “Noite e Nevoeiro” / “Nuit et Brouillard”, que as atenções do mundo se viraram para ele, tal era a força das suas imagens, sobre a origem e funcionamento dos campos de concentração alemães durante o período Nacional-Socialista e três anos depois, ao realizar “Hiroshima Meu Amor” / “Hiroshima mon amour”, a partir de um argumento de Marguerite Duras, irá despertar um interesse universal que nunca mais deixou de aumentar, já que nesta película a ficção, a história de um amor entre uma francesa e um japonês, se irá cruzar com o documentarismo, onde as imagens da destruição de Hiroshima pela bomba atómica irão dilacerar o coração do espectador.


No início dos anos sessenta, com “O Último Ano em Marienbad” / “L' année dernière à Marienbad”, Alain Resnais irá levar o “nouveau roman” ao écran, convidando o espectador a uma viagem até então nunca vista, oferecendo-nos um argumento onde a memória e o tempo são a trave mestra de toda a história.
Em “Muriel ou o Tempo de um Regresso” / “Muriel ou le temps d’un retour”, o cineasta irá abordar a memória da guerra de Argel no interior do quotidiano, onde mais uma vez o passado invade o presente, iniciando assim uma longa viagem pelo interior da ficção, que nos irá oferecer ao longo de décadas obras inesquecíveis.


Com o passar dos anos, o cineasta começa, cada vez mais, a sentir o apelo do Estúdio em detrimento da filmagem em exteriores, ao mesmo tempo que vai juntando um grupo de actores que serão presença constante nas suas películas: Sabine Azèma (sua companheira), Pierre Arditti e André Dussolier, entre outros.
“Mèlo” e “Fumar” – “Não Fumar” / “Smoke” – “No Smoke”, nascidas de peças teatrais e inteiramente rodadas em Estúdio, surgem no entanto perante o espectador como obras profundamente cinematográficas, tal é a forma como a luz e a cor se conjugam numa perfeita harmonia com os movimentos de câmara, construindo no primeiro filme uma das mais belas homenagens ao melodrama e na segunda obra, composta por duas películas, oferece aos seus dois actores favoritos, Sabine Azèma e Pierre Arditti, a oportunidade de exprimirem todas as suas potencialidades criativas ao desempenharem, cada um deles, a totalidade das personagens do filme.


“As Ervas Daninhas” / “Les herbes folles”, a sua última película, representa o abandono do Estúdio como local eleito de filmagem, regressando aos exteriores para nos narrar uma história, em que mais uma vez a complexidade das relações humanas é eleita para nos oferecer um retrato da sociedade contemporânea.
George Palet (André Dussolier) possui, desde tenra idade, uma paixão por aviões e um dia irá encontrar uma carteira abandonada num parque de estacionamento, terminando por descobrir, após ver o seu interior que a sua dona, Marguerite Muir (Sabine Azèma), possui a brevet de piloto de aviões, embora ela só exerça essa actividade nas horas livres, tendo até adquirido um velho “Spitfire” da Segunda Guerra Mundial, que é a pérola dos mecânicos do aeródromo.
Este homem de meia-idade, que possui uma vida estável com a mulher Suzanne (Anne Consigny) e dois filhos já adultos, irá sentir uma profunda atracção por esta mulher desconhecida, mas quando ele vai entregar a carteira à polícia, saberemos que ele possui um segredo no seu passado que o atormenta.


No entanto essa atracção fatal irá levá-lo a tudo fazer para conhecer a mulher a quem roubaram a mala no Palais Royal, não olhando a meios para atingir os seus fins, primeiro com telefonemas, depois com uma carta confessando os seus afectos, chegando até a cortar os pneus do automóvel de Marguerite Muir (Sabine Azéma), após ela ter recusado encontrar-se com ele. Perante tudo isto, ela decide ir a sua casa para colocar um ponto final ao assédio.
Os dados estão lançados e a espiral do amor entre os dois irá lançá-los num definitivo voo que os conduzirá à perdição.

Alain Resnais

“As Ervas Daninhas” / “Les herbes folles” oferece-nos, mais uma vez, todo o saber de um cineasta, que ao longo de décadas nos ofereceu uma das filmografias mais originais oriundas do território francês, cruzando estilos e ficções, numa perfeita simbiose, onde o famoso olhar de Alain Resnais é de imediato detectado pelo cinéfilo, revelando sempre a sua indesmentível marca de autor. Vale a pena recordar!

terça-feira, 21 de março de 2017

Robert Coover - "Uma Noite no Cinema ou não te esqueças disto" / "A Night at the Movies or, You Must Remember This"


Robert Coover
“Uma Noite no Cinema ou não te esqueças disto”
Difel, Pag. 184

Robert Coover, com este magnifico livro, convida-nos a visitar o universo do cinema, apresentando-nos uma obra literária como se tratassse de uma longa sessão de cinema integral, onde nada falta. Temos assim apresentações de futuros êxitos, um western repleto de aventuras com o inesquecível tiroteio em Gentry’s Junction. Uma comédia com Charlie na Casa do Arrependimento e como ele não se esquece de ninguém, para os miúdos há desenhos animados, para os amantes dos musicais um breve interlúdio musical com Chapéu Alto e depois a encerrar a sessão o filme mais esperado, o célebre romance que arrasta sempre as multidões, porque não te esqueças disto, revela-nos o lado mais oculto do romance de Ilsa com Rick em Casablanca, numa linguagem pós-moderna em que terminamos por nos revermos sentados na sala de cinema a transportar os nossos sentimentos para o écran, seja qual for o género de filme, porque todos desejamos ser o herói da película e sonhar como Buster Keaton, quando ele adormece na cabine de projecção da sala de cinema e sonha entrar para o interior do écran e assim todas as aventuras que povoam o seu imaginário e assim se revela a escrita genial de Robert Coover, utilizando as mais diversas técnicas de linguagem ao navegar por esse extenso oceano da linguagem, numa produção pós-moderna.



“O apartamento de Rick está às escuras. Uma escuridão de bréu, pesada e abstracta, cujo silêncio é apenas cortado por um crepitar áspero de um lamento mudo, e breve como o sono. Rick abre então a porta e a luz do átrio penetra como um paquete a abrir espaço, superfícies sedimentadas (há uma figura no quarto), acontecimento premonitório (é Ilsa), Rick continua, está demasiado preocupado para dar conta disso: o café dele está fechado, houve pessoas que foram atingidas a tiro, tem problemas. Mas depois, com uma pancada, acende uma pequena luz (que luminosidade! as sombras recuam, tudo recua: onde estão as paredes?) e ei-la, diante dele, segurando o cortinado aberto da janela, mais afastada como se fosse a parte da frente de uma camisa de noite, a luz a reverberar no seu rosto pálido mas determinado como se fosse electricidade estática. Rick atónito, pára por um momento. Ilsa larga o cortinado e as implicações deste perdem-se, dá um passo em frente para o luar estranhamente trémula, procurando captar os olhos dele com os seus.”

Robert Coover - “Não te esqueças disto” 


David Hockney - "A Bigger Splash"


David Hockney - "A Bigger Splash", (1967)
Acrílico sobre tela, 242,6 x 243,8 cm.

Ernst Lubitsch – “A Viúva Alegre” / “”The Merry Widow”


Ernst Lubitsch – “A Viúva Alegre” / “”The Merry Widow”
(EUA-1934) – (97 min. - P/B)
Jeanette MacDonald, Maurice Chevalier, Edward Everett Horton, Una Merkel, George Barbier.

Já por aqui escrevemos, por diversas vezes, que a comédia é um dos géneros mais difíceis do cinema e quando se fala nos seus grandes Mestres, sobressai de imediato um dos seus nomes maiores, o alemão Ernst Lubitsch, que um dia trocou a sua terra natal pelo novo mundo.


Por outro lado, quando alguém me fala em Lubitsch, vem-me de imediato à memória essa obra intitulada “To Be or Not To Be” / “Ser ou Não Ser” que o cineasta realizou em 1942, centrando a acção na Varsóvia de 1939, em plena invasão alemã, tendo até sido escrito na imprensa da época que se Hitler tivesse visto o filme nunca teria dado início à Segunda Guerra Mundial, invadindo a Polónia, tal é o humor corrosivo com que são retratados os alemães invasores
Mas também há essa inesquecível obra em que Greta Garbo brilhou pela última vez na nossa memória, o célebre “Ninotchka”, em que o alvo da sua arte era a ideologia comunista na terra da perdição do capitalismo e na mais bela cidade do mundo, essa Paris que irá mudar para sempre a visão da célebre comissária soviética Ninotchka.
Mas ainda temos essa maravilhosa comédia romântica, uma obra-prima do género, intitulada “A Loja da Esquina” / “The Shop Around the Corner”, que até já teve um “remake” bem conhecido das gerações net intitulado “Você Tem uma Mensagem” / “You’ve Got Mail” com o Tom Hanks e a Meg Ryan nos protagonistas. E se continuarmos por aqui fora a falar dos filmes de Lubitsch, começaremos a falar de “Design for Living” / “Uma Mulher Para Dois” esse filme que quebra todas as barreiras da censura com o célebre “Lubitsch Touch”.


O leitor já está perfeitamente situado, porque conhece certamente um destes delirantes filmes e assim poderemos começar a falar deste cineasta, que se iniciou na profissão de actor pela mão do famoso Max Reinhardt, tendo na época como colegas Emil Jannings (o professor de “O Anjo Azul” de Josef Sternberg) e Conrad Veidt (quem não se lembra dele, na figura do coronel alemão no filme de Michael Curtis “Casablanca).
Ernst Lubitsch, depois de ter feito a tarimba na Alemanha, de actor passou a argumentista, dando de seguida o inevitável salto para a realização. Em 1922, a convite da então mais que famosa Mary Pickford (conhecida como a namorada da América), partiu para terras americanas sendo a sua primeira obra sonora “The Love Parade”, que lançava um par que se tornaria famoso, formado por Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald, par esse que iremos reencontrar precisamente em “A Viúva Alegre” / “The Merry Widow”, uma adaptação ao cinema da famosa opereta de Franz Leahr que já teve, desde a sua criação, mais três adaptações ao grande écran (os outros responsáveis são Erich Von Stroheim, Ludwig Berger e Curtis Bernhardt).


Se o leitor não viu o filme, pode já ficar a saber que existiu um reino, na Europa Central, chamado Marshovia, governado pelo famoso Rei Achmed (George Barbier) que lá vai dirigindo o pais como pode, mas tendo sempre um problema económico que terá que gerir com todo o seu saber, porque metade do seu reino pertence a uma viúva riquíssima chamada Sónia, que não mostra a cara a ninguém desde que o marido faleceu e anda sempre vestida de preto, com o seu véu cobrindo-lhe o rosto.

Ora com um problema destes sempre na mente, o rei não se apercebe das traições da Rainha Dolores (Una Merkel) com o Conde Danilo (Maurice Chevalier), mas o conde é um conquistador que não tem mãos a medir e decide um dia invadir o jardim da casa da célebre viúva no intuito de lhe ver o rosto e fazer a consequente corte. Perante os avanços do Conde, esta decide partir para Paris para viver a vida, mas o medo de o Reino cair em mãos pouco recomendáveis leva o Rei Achmed a dar a Danilo a “terrível” missão de se casar com a famosa viúva. Chegado a Paris, Danilo, em vez de ir ter com o embaixador Popoff (Edward Horton perfeitamente hilariante), decide ir até ao famoso “Maxim’s” onde o esperam as famosas meninas que não se esqueceram do galante conquistador. Mas, nessa mesma noite, Sónia também decide ir até lá para conhecer o mais famoso cabaret da cidade das luzes. Quando entra é confundida com mais uma caçadora de fortunas a fazer pela vida. E, como não podia deixar de ser, acaba por se cruzar com o Conde Danilo que, desconhecendo a sua identidade, não a perde de vista e se apaixona por ela e após demasiadas taças de champanhe acaba por lhe revelar a sua terrível missão.



Quando se voltam a encontrar no baile preparado pelo Embaixador, Sónia decide ajustar contas com aquele oficial atrevido de sua Majestade, para grande surpresa do Embaixador Popoff, que desconhece o encontro havido. Tudo acabará mais tarde por terminar bem, apesar de Danilo ser condenado à morte por ter falhado na sua importante missão, porque o amor falará mais alto.



Ao longo do filme, Ernst Lubitsch constrói diálogos e situações que nos levam a eleger esta comédia como uma das mais brilhantes da sua carreira cinematográfica, contornando com enorme perícia as célebres imposições do célebre Código Hays (a censura que na época vigorava), tanto na sequência no Maxim’s, como nessa outra sequência em que o Rei Achmed o apanha na cama com a Rainha. Por outro lado, o diálogo construído durante o encontro do par na embaixada com um Popoff a assistir, sem perceber “patavina” do que se passa, é perfeitamente hilariante. Depois a forma como nos é oferecido o quotidiano nesse Reino chamado Marshovia, em que as trocas comerciais se encontram na forma mais “primitiva”, leva-nos a equacionar, com um sorriso nos lábios, as regras porque se rege a economia no mundo contemporâneo.

O genial e inesquecível Ernst Lubitsch!

Ernst Lubitsch soube, como ninguém, tornar a comédia como uma forma de Arte em que a palavra tem um papel fundamental e curiosamente teve um herdeiro, no verdadeiro sentido da palavra, em Billy Wilder que seguiu o caminho inaugurado por ele. Mas o célebre “Lubitsch Touch” só a ele lhe pertence. Basta ver ou rever “The Merry Widow”/ “A Viúva Alegre” ou um dos filmes acima referidos para descobrimos que a comédia também possui as suas obras-primas no interior da Sétima Arte.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Paul Auster - "Leviathan"


Paul Auster
“Leviathan”
Asa, Pag. 219

Numa época em que a América é o tema de todas os noticiários e Paul Auster viu finalmente o seu romance “4,3,2,1” editado em simultâneo no Planeta, nada melhor do que falarmos de um outro livro do escritor, porque para escrever este Auster durante os dois últimos anos ofereceu-nos o seu “Diário de Inverno” e um livro extremamente interessante respeitante à sua correspondência com o escritor sul-africano J. M. Coetzee, intitulado “Here and Now – Letters 2008 – 2011”, que por razões que a própria razão desconhece, os editores portugueses fecharam os olhos à sua edição por terras lusas e como leitor de Paul Auster, desde a “Trilogia de Nova Iorque” tive que me socorrer de uma edição britânica, que desde já recomendo. Mas o que nos interessa aqui é “Leviathan”, um livro escrito em 1992, que nos narra a história de um promissor romancista chamado Benjamin Sachs, que se fez explodir e do seu amigo Peter Aaron que decide descobrir as razões que o levaram a fazer isso e a matar Reed DiMaggio. Este belo livro que me entrou em casa no Natal de 1993 e que já teve diversas reedições e leituras aqui do escriba, bem merece ser revisitado neste século xxi em que ao andarmos pela estrada fora nunca sabemos se nos iremos cruzar com este fantasma…


“Há seis dias um homem explodiu à beira de uma estrada no Norte do Wiscosin. Não houve testemunhas mas aparentemente ele estaria sentado ao lado de um carro estacionado na erva quando a bomba que estava a construir rebentou acidentalmente. Segundo o relatório judicial que acaba de ser divulgado, teve morte instantânea. O seu corpo desfez-se numa quantidade de pedaços e foram encontrados fragmentos do seu cadáver a uma distância de quinze metros do sítio da explosão”.

Paul Auster – “Leviathan”

Brian Eno - "Thursday Afternoon" (61 - Minute Version)


Brian Eno
“Thursday Afternoon” (61 - Minute Version)
Virgin

Por vezes existe uma bela história por detrás da edição de uma obra discográfica, sendo precisamente o que existe com “Thursday Afternoon” de Brian Eno.
Em Abril de 1984 foi produzido um vídeo com obras da pintora Christine Alicino e música da autoria de Brian Eno, que foi criado para ser visto deitado de lado num sofá, ou seja, ao estarmos deitados nessa determinada posição vimos as imagens de forma perfeita e directa, para o nosso ângulo de visão. Recorde-se que nesta época, década de oitenta do século xx, iniciou-se a exploração cultural da denominada vídeo-art.

Com o nascimento do “compact disc”  e o respectivo sucesso do formato, Brian Eno decidiu criar uma versão de 61 minutos, para ser editada em cd, nascendo assim “Thursday Afternoon” (61 minute version), onde mais uma vez as directrizes que deram origem a obras como “Music For Airports”, que já aqui abordámos e “Discreet Music”, também já aqui visitada, deram origem ao nascimento do terceiro capítulo da série baptizada por Brian Eno como “Thinking Music”, um ciclo musical ideal para o acompanhamento da leitura ou simples meditação.


Mais uma vez a música envolvente e melódica de Brian Eno, surge-nos de forma perfeita no cruzamento das diversas texturas criadas por ele na companhia do músico canadiano Daniel Lanois, habitual colaborador do músico britânico durante a década de oitenta, do século xx, e aos quais se juntou, os célebres movimentos nocturnos do piano acústico do seu irmão Roger Eno, sempre muito influenciado, (no bom sentido da palavra), pela herança musical de Erik Satie, sendo ainda de referir que na parte final da feitura deste maravilhoso trabalho discográfico se juntou o guitarrista e compositor Michael Brook, no tratamento das (re)misturas dos sons, um trabalho sempre levado a efeito com enorme sentido de criatividade.

“Thursday Afternoon” (61 minute version) revela-se um maravilhoso mergulho hipnótico no interior da música ambiental de Brian Eno, transmitindo-nos uma paz e uma serenidade bem acolhedoras, neste século XXI, em que vivemos. Uma obra musical para ser escutada/vivida na companhia do ser amadoJ.

Roy Lichtenstein - "I Know... Brad"


Roy Lichtenstein - "I Know... Brad", (1963)
Óleo e magna sobre tela, 168 x 96 cm.

David Fincher – “Zodiac”


David Fincher – “Zodiac”
(EUA – 2007) – (158 min. / Cor)
Jake Gyllenhall, Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Robert Downey Jr. Elis Kottea, John Carroll Lynch.

Durante essa saga chamada “Alien”, por onde passaram os nomes de Ridley Scott e James Cameron (*), seria David Fincher a filmar o terceiro filme (a sua estreia na longa-metragem) e de imediato naquela prisão sentimos os traços de um autor a emergir, não só por todo o ambiente claustrofóbico da película como pelo final em que a tenente Ripley, ao mergulhar na morte na companhia do Alien, acaricia num gesto derradeiro a cabeça da cria que está a nascer.
Quando o “psico-killer” de “Seven” / “Sete Pecados Mortais” se entrega à policia no interior da esquadra, é com espanto que os polícias, a investigar o caso descobrem que ele tinha cortado os dedos na zona das impressões digitais com uma lâmina para não ser identificado, mas a sua confissão e a ida ao local do último crime no meio do deserto iria revelar o crime mais odioso, mas também o talento de um cineasta.
Com “The Game” / “O Jogo” ficámos agarrados à cadeira em profundo silêncio seguindo o percurso de Michael Douglas, com um final em que as cartas estão viciadas. As marcas do autor/cineasta estavam lançadas e mais tarde em “Fight Club” / “Clube de Combate” (o menos bom dos seus filmes), a escrita permaneceu. Já com “Panic Room” / “Quarto de Pânico”, com uma Jodie Foster fabulosa, ele cria a tensão permanente utilizando apenas o espaço de uma casa, deixando o espectador à beira de um ataque de nervos. Por tudo isto, a feitura de “Zodiac” revelou-se como a chegada de David Fincher a essa galeria onde se encontram os nomes incontornáveis da Sétima Arte.



Estamos em finais dos anos sessenta quando dois adolescentes são vítimas de “Zodiac”, sem se conseguir identificar o móbil do crime, até ao momento em que o “San Francisco Chronicle” recebe uma carta do assassino prometendo mais mortes, acompanhada de uma mensagem cifrada sobre a sua identidade, despertando de imediato a atenção do periódico norte-americano e do jornalista Paul Avery (Robert Downey) para o assunto.
O caso começa a ser investigado pelos detectives David Toschi (Mark Ruffalo) e William Armstrong (Anthony Edwards), mas desperta também a atenção do jovem cartoonista do jornal, Robert Graysmith (Jake Gyllenhall), que se irá envolver na investigação ao longo da sua vida, na tentativa de descobrir a identidade do assassino.
Os crimes irão continuar de forma espaçada ao longo da década de setenta, ao mesmo tempo que o “serial-killer” vai adquirindo notoriedade, através de cartas e telefonemas que vai fazendo, incluindo para a televisão, onde fala em directo via telefone, aterrorizando desta forma essa grande metrópole que é San Francisco.
Estes quatro homens irão dedicar uma vida na busca da identidade do "serial-killer", mas as provas nunca são conclusivas, mesmo quando se cruzam com o principal suspeito, Arthur Leigh Allen (John Carroll Lynch).


“Zodiac”, ao contrário de “Seven”, não nos oferece o terror em directo, mas sim o desespero, optando pela fórmula policial do inquérito/investigação. Se o jornalista Paul Avery, um dos alvos das cartas de “Zodiac” irá ver a sua carreira destruída, já os dois detectives irão possuir a palavra “fracasso” na folha das suas carreiras, enquanto o jovem cartoonista que deixou o emprego, a família e os amigos em busca de “Zodiac”, fará deste caso a razão da sua vida baseando-se aliás o filme num dos dois livros que escreveu. E aqui abrimos uma espécie de parêntesis para referir não só o espantoso trabalho de reconstituição de uma época, anos 70, do século xx, como as espantosas interpretações dos protagonistas: Mark Ruffalo surgiu no cinema vindo do teatro e as comparações com Marlon Brando foram imediatas, não só pela voz arrastada, como pela postura; Robert Downey Jr., o maior actor da sua geração, surge aqui como peixe na água e acreditamos como foi difícil mergulhar na personagem, devido a um passado recente, basta acompanhar o trajecto do seu personagem, a terminar os seus dias no “fundo do poço” apesar de não ter pecado... o “serial-killer” derrotou-o em todos os campos; Jake Gyllenhall, na figura do cartoonista do “San Francisco Chronicle”, é o verdadeiro escuteiro como lhe chamam no início da película, não bebe, não fuma, não entra num bar e depois a sua interpretação é uma luta que lhe vai devorando a alma; Anthony Edwards, num regresso pela porta grande, interioriza de forma perfeita a angústia e o desalento da sua personagem. Estamos assim perante um quarteto de luxo, mas muito se deve à direcção perfeita de David Fincher.


O cineasta, que optou pela profissão de realizador após ter assistido ao filme “Butch Cassidy and Sundance Kid” / “Dois Homens e Um Destino”,  envolve com saber de Mestre o espectador nesta investigação, colando-o à cadeira durante duas horas e meia, apesar de se saber o desfecho, transmitindo de forma perfeita a angústia e frustração das investigações e quando todos nós estamos quase certos da identidade do assassino, o principal suspeito morre de ataque cardíaco. Recorde-se que um dos dados adquiridos é que o “serial-killer” é uma personagem vulgar, que decidiu aterrorizar uma metrópole a fim de ter notoriedade, após ter visto o filme “The Most Dangerous Game” / “O Malvado Zaroff”, no cinema onde era projeccionista.

David Fincher

O mistério surge assim como um dos principais componentes do cinema de David Fincher, esse cineasta que se iniciou na profissão através da publicidade, passando depois para a feitura de “video-clips” sendo o célebre “Vogue” de Madonna de sua autoria, para além de outros tele-discos que realizou para a estrela da música pop, ao mesmo tempo que trabalhava em publicidade. É um convite de John Korty que o leva até esse universo perfeito chamado “Industrial Light and Magic” de George Lucas, onde irá aprender todos os passos da profissão.
Ao revermos “Zodiac”, David Fincher volta a agarrar-nos à cadeira, uma vez mais, em perfeita angústia, no sentido de que também nós desejamos descobrir a identidade do “serial-killer”. Acompanhar as investigações do caso “Zodiac” é uma aliciante aventura, porque aqui continua a respirar-se Cinema por todos os fotogramas.

(*) – Jean-Pierre Jeunet irá realizar um quarto filme intitulado “Alien: Ressurection” / “Alien: O Regresso” em 1997.

domingo, 19 de março de 2017

Jean Michel Jarre - "Waiting For Cousteau" / "En Attendant Cousteau"


Jean Michel Jarre
“Waiting For Cousteau” / “En attendant Cousteau”
Disques Dreyfuss

Durante a minha infância acompanhei na televisão as aventuras do célebre Comandante Jacques Cousteau através dos oceanos, na companhia do seu célebre navio Calypso, e em 1997 o músico francês Jean Michel Jarre decidiu fazer uma bela homenagem ao conhecido explorador oceanográfico gravando o álbum “Waiting For Cousteau” ou “En attendant Cousteau”, consoante a edição discográfica.


Este trabalho memorável dividido em duas partes bem distintas, apresenta-nos primeiro a suite “Calypso”, em três movimentos, onde encontramos a marca inconfundível do universo musical de Jean-Michel Jarre, para sermos depois surpreendidos pela genialidade do compositor e mergulharmos no interior dos oceanos através do tema “Waiting For Cousteau”, numa brilhante e inesquecível peça de cerca 47 minutos de extensão, de uma beleza ambiental memorável e única no género, que deixou o universo musical perfeitamente “boquiaberto” (que me seja permitida a expressão), com tamanha sabedoria, já que Jean-Michel Jarre oferece-nos umas paisagens sonoras, que nos transportam até às  profundezas dos oceanos, deixando-nos perfeitamente maravilhados, com o que escutamos.

“Waiting For Cousteau” / “En attendant Cousteau” de Jean Michel Jarre revela-se uma das mais belas peças de sempre da denominada música ambiental, uma peça incontornável e simplesmente Sublime!

Crónicas da Galaxia - "Centre Pompidou 40 Anos!"


O Centre Pompidou ou Beaubourg, se preferirem, nasceu à precisamente quarenta anos sendo o seu principal impulsionador o Presidente Francês Georges Pompidou que, com a sua esposa, era um profundo conhecedor e amante das Artes, tendo-se baseado também no pensamento do escritor André Malraux, antigo Ministro da Cultura do General De Gaulle. Da responsabilidade do arquitecto italiano Renzo Piano e do arquitecto britânico Richard Rogers, o edifício ficou situado no espaço do outrora célebre Mercado de Les Halles e as suas linhas arrojadas, com os seus célebres tubos, foram de imediato um sinal do espaço que ali iria nascer, já que o acervo do Musée National d’Art Moderne seria transferido para este novo espaço, assim como iria ter uma Biblioteca dedicada ao universo da informação, que se encontra aberta diariamente e se revela um espaço onde se pode circular sem constrangimentos, ao contrário do que sucede no nosso país, basta recordar o que se passa na Biblioteca Nacional ou na Hemeroteca, para termos saudades da Biblioteca do Beaubourg ou da Biblioteca François Truffaut (dedicada ao cinema) ou ainda dessa universo que é a Biblioteca François Mitterrand, por onde circulamos livremente, mesmo com o Plan Vigipirate. Mas no Centre Pompidou também temos um espaço dedicado à música e ao multimédia com salas onde se respira o belo sabor da liberdade e onde todas as tendências artísticas contemporâneas convivem de forma plena em perfeita conjugação, assim como o cinema. Por outro lado, ao entrarmos no Centre Pompidou, do lado direito temos uma excelente livraria, que nos deixa de imediato com água na boca e a contar os tostões. Recordamos até que, desde esse dia em que subimos a escada e deparámos com uma obra do Roy Lichenstein, nunca mais deixámos de lá ir, sempre que passamos por terras de França e mesmo com uma dessas greves em que os franceses são férteis, que nos impedia de ir a Paris, já que estávamos nos arredores, tal não nos impediu de ir ver a exposição de Abbas Kiarostami/Victor Erice. E se desejar ver a vida a passar, porque como sabemos ela é breve, e sem prazo, vá até ao café situado no primeiro andar e fique a ver tranquilamente o respirar do pulmão do Centre Pompidou ou do Beaubourg, se preferir este termo, mais popular entre os franceses e não se esqueça que na Praça onde se encontra o Centro pode visitar o Atelier Brancusi, dedicado ao escultor romeno Constantin Brancusi, um local que nos possibilita observar como era o Estúdio do artista, sem darmos pela passagem do tempo. Ao comemorar os seus quarenta anos o Centre Pompidou tem estado a realizar diversas exposições, concertos e conferências por mais de quarenta cidades francesas, uma acção que se irá prolongar até ap final do ano de 2017. Moral da história: só pelo Centre Pompidou ou Beaubourg vale a pena ir a Paris!!!

Jasper Johns - "Studio"


Jasper Johns - "Studio", (1964)
Óleo sobre tela,  186,7 x 369,6 cm.

Federico Fellini – “Ginger e Fred” / “Ginger & Fred”


Federico Fellini – “Ginger e Fred” / “Ginger & Fred”
(Itália/França/Alemanha – 1986) – (123 min. / Cor)
Giulietta Masina, Marcello Mastroianni, Franco Fabrizi.

Se alguém me perguntar qual o meu filme preferido de Federico Fellini, sou obrigado a dizer que ele é, sem dúvida alguma, "Amarcord", já que nele existe a síntese de todo o universo do cineasta, mas há também uma outra película que adoro, pela ternura com que o Mestre filma as suas personagens  / actores, estou a falar de "Ginger e Fred". 


"Ginger e Fred" não é só uma crítica mordaz de Federico Fellini ao audiovisual das sociedades contemporâneas, embora segundo o ponto de vista da famosa actriz norte-americana Ginger Rodgers, o alvo da película é a memória cinematográfica do par Fred Astaire/Ginger Rodgers, a qual processou o cineasta italiano, mas sem grandes resultados.
Federico Fellini conduz Ginger e Fred, aliás Amalia e Pippo ou se preferirem Giulieta Masina e Marcello Mastroianni, ao "paraíso" da TV italiana e ao espectáculo das "grandes audiências". A história é simples, Fred e Ginger copiaram o modelo dos actores americanos e fizeram sucesso no seu país.


Quarenta anos depois eles vão (re)aparecer no pequeno écran, engolidos pelo tempo e cobertos pelas marcas do amor perdido. Magnifica a sequência de "Top Hat", simplesmente decadente e mal-amado, ou antes, perdido na voragem da vida. Mas tudo é espectáculo e este filme é isso mesmo, o espectáculo da publicidade, dos video-clips e das encenações de variedades e concursos do quotidiano, com a respectiva audiência amorfa, que sabe muito bem que é mais fácil matar do que pensar, porque se pensa logo desiste.
"Ginger e Fred" não é apenas o reencontro com Marcello Mastroianni e Giulietta Masina, mas também a estrada que nos conduz a esse universo único na História do Cinema, criado ao longo de uma vida por Federico Fellini, denominado por muitos de Universo Felliniano! 

sábado, 18 de março de 2017

Brian Eno - "Discreet Music"


 Brian Eno
“Discreet Music”
Virgin

No interior da música ambiental da autoria de Brian Eno, o trabalho “Music For Airports”, do qual já aqui falámos, datado de 1978, surge como um marco capital no pensamento artístico do músico britânico, que irá constituir com o álbum “Discreet Music”, gravado três anos antes , um ciclo musical que o próprio compositor irá denominar por “Thinking Music”, sendo os álbuns “Thurday Afternoon” e “Neroli” os capítulos seguintes.


“Discreet Music” foi editado inicialmente na “Obscure Records” (mais tarde surgiu editada na EG e posteriormente na Virgin), etiqueta criada pelo próprio Brian Eno e onde nomes como Gavin Bryars, Harold Budd, Michael Nyman e John Adams, entre outros, gravaram álbuns fundamentais no interior da música contemporânea. Este trabalho discográfico apresenta-se dividido em duas partes profundamente distintas, mas similares, ou seja no lado A temos o tema “Discreet Music”, com cerca de meia-hora de extensão, onde a música repetitiva e melódica se vai instalando no espaço de forma quase imperceptível, para terminar por se confundir com os sons ambientais e tornar-se não um intruso, mas sim o companheiro ideal, sempre numa doce linha melódica. O método de gravação e desenvolvimento musical já tinha sido usado anteriormente, embora de forma um pouco diferente, no álbum “No Pussyfooting”, o qual já aqui foi abordado, da responsabilidade da dupla Fripp & Eno e que Robert Fripp irá utilizar e desenvolver através do seu célebre Fripptronics no álbum “Let The Power Fall”.


Já no lado B de “Discreet Music” surge o bem conhecido tema de Pachelbel  “Canon in D Major”, sendo revisitado pelo Ensemble Cockpit dirigido pelo compositor Gavin Bryars, que é também responsável pelos arranjos, que irão dar origem às três variações que nos são oferecidas e cujo ciclo foi intitulado “Three Variations on the Canon in D. Major by Johann Pachelbel” (1-“Fullness of Wind”; 2-“French Catalogues”: 3-“Brutal Ardour”) e onde, mais uma vez, o minimalismo se encontra bem presente envolvendo o ouvinte de forma melódica e tranquila, tal como sucedia no lado A deste fabuloso trabalho de Brian Eno intitulado “Discreet Music”.

Nota: Este é um dos álbuns que me acompanha nas minhas leituras caseiras, envolvendo o espaço onde me encontro. Esta semana ainda falarei de outros trabalhos discográficos que navegam pelas mesmas águas musicais.