terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Eric Rohmer – “A Mulher do Aviador” / “La Femme de L’Aviateur”


Eric Rohmer – “A Mulher do Aviador” / “La femme de l’aviateur”
(França – 1980) – (104 min. / Cor)
Marie Rivière, Philippe marland, Mathieu Carrière, Philippe carot, Arielle Dombasle.

Com “A Mulher do Aviador” / “La Femme de l’aviateur”, Eric Rohmer inaugurou uma nova série de filmes, após a conclusão da anterior série intitulada, genericamente, “Contos Morais”. Desta feita a nova série, constituída por seis longas-metragens, foi denominada “Comédias e Provérbios” e, como não podia deixar de ser, o autor aposta neste primeiro filme no famoso jogo de enganos, usando o jovem François (Philippe Marlaud), que trabalha no turno da noite nos Correios e se encontra apaixonado por Anne (Marie Rivière), que por sua vez possui um horário de trabalho normal, para nos servir como um verdadeiro cicerone da película.


Tudo começa numa manhã bem cedo, quando Charles vê a sua amada na companhia de um aviador (Mathieu Carriére), a saírem do prédio onde vive Anne, de imediato cheio de ciúmes decide seguir o piloto até uma gare, onde o irá perder de vista, porque entretanto adormece sentado à mesa do café. Louco de ciúmes, procura Anne, mas esta não lhe dá qualquer explicação, após uma longa discussão.

Irá o destino no entanto fazer com que François volte a encontrar o aviador na companhia de uma outra mulher, decidindo segui-los de forma pouco discreta e aqui Eric Rohmer aproveita para nos convidar a percorrer Paris e muito em especial a célebre zona verdejante dos Buttes-Chaumont, onde François irá conhecer uma jovem liceal chamada Lucie (Anne-Laure Meury), que o irá ajudar a obter uma fotografia do aviador e da mulher que o acompanha, numa das sequências mais hilariantes da película.


Este jogo de pequenos acasos, conduzidos de forma perfeita por Eric Rohmer, convida o espectador a repensar como a vida se encontra repleta de encontros fortuitos, assim como as relações entre as pessoas são constituídas por uma poderosa teia de conhecimentos, em que A conhece B e C, mas desconhece que C é amigo de B, e assim sucessivamente numa viagem infinita de relações, já que como iremos saber quase no final do filme, um colega de trabalho de François é namorado/amigo de Lucie e a mulher que acompanha o aviador não é a sua esposa.


“A Mulher do Aviador” / “La Femme de l’aviateur” revela-se assim um saboroso e perfeito jogo de pequenos enganos, que prende o espectador do primeiro ao último minuto, demonstrando mais uma vez o imenso saber desse cineasta que foi sempre eternamente jovem chamado Eric Rohmer.

Edward Hopper - "Two Comedians"


Edward Hopper - "Two Comedians", (1946)
Óleo sobre tela, 73,7 x 101,6 cm.

Barbara Loden – “Wanda”


Barbara Loden – “Wanda”
(EUA – 1971) – (102 min. / Cor)
Barbara Loden, Michael Higgins, Dorothy Shupenes, Peter Shupenes, Jerome Their.

Ao escrevermos sobre cinema procuramos rever obras que, apesar da passagem do tempo, continuam a ter toda a sua luminosidade, mesmo quando essa luz é pálida como a vida da protagonista ou quase invisível como a carreira da cineasta.


Barbara Loden não é propriamente uma estranha para aqueles que amam o universo da Sétima Arte, já que estamos a falar daquela que foi mulher do cineasta Elia Kazan, para o bem e para o mal. Possuidora de uma beleza cativante, começa a sua carreira no mundo da moda, surgindo como capa em muitas revistas, mas aquela loura tinha muito mais para oferecer e será no Teatro que Kazan a irá conhecer e dirigir, oferecendo-se então para a introduzir no mundo do cinema em “Wild River” / “Quando o Rio se Enfurece” (ela é a secretária de Montgomery Clift) e no mais que famoso “Esplendor na Relva” / “Splendor in the Grass” (ela é a irmã de Warren Beatty). Após estas aparições, ela torna-se esposa oficial do cineasta e encenador, mas esse estatuto não lhe irá abrir as portas do cinema como actriz, regressando aos palcos, onde interpreta a célebre peça de Tennesse Williams “Jardim Zoológico de Cristal”, participando também em algumas produções na televisão. Mas será a convivência com Elia Kazan que lhe irá abrir os horizontes da realização. Porém os tempos são outros e todas as portas se fecham aos seus projectos, recorde-se que nessa época o cineasta tinha trocado a câmara pela caneta e dedicava-se à literatura. Começa então a fervilhar na sua cabeça o projecto “Wanda” e com ajuda do marido consegue o financiamento para o filme, que será uma verdadeira pedrada no charco da indiferença.


“Wanda” é simultaneamente o nome da personagem principal e o título do filme, porque o que nasce perante os nossos olhos é a história de uma mulher que perdeu tudo: o emprego, o marido, os filhos e que só deseja partir estrada fora ao encontro dessa encruzilhada da vida que nos reserva um destino. Depois de travarmos conhecimento com a forma como Wanda encara a vida, temos que estar atentos à forma como essa mesma vida é filmada por Nicholas Proferes, que também escreveu o argumento a meias com Barbara Loden e assinou a montagem, num 16 mm onde o grão prolifera, oferecendo-nos de forma perfeita os tons sombrios da vida sem rumo de Wanda. A pouco e pouco vamos assistindo à via-sacra da protagonista, rejeitada por tudo e todos, terminando por oferecer o seu corpo a um gangster de terceira ordem, que depois de ter roubado o dinheiro da caixa de um bar que estava a encerrar, mata o proprietário e descobre depois que não estava só… porque Wanda mais uma vez estava no sítio errado à hora errada.
O pequeno gangster planeia atacar um banco e decide fazer de Wanda a sua cúmplice; ela, a rapariga sem eira nem beira, irá segui-lo e obedecer às suas ordens, só que para sua sorte desta vez irá chegar tarde demais ao local do assalto, conseguindo desta forma salvar a vida para retomar o seu calvário, rumo a um paraíso inexistente.

Barbara Loden e Elia Kazan

O realismo que nos é oferecido neste filme por Barbara Loden (um verdadeiro road-movie do desespero) é de uma lucidez absoluta, todos aqueles personagens, verdadeiros filhos bastardos da vida, surgem perante o nosso olhar em profunda perdição, aqui não há lugar para o politicamente correcto, aqui habitam pessoas de carne e osso sem qualquer luz de esperança ao fundo do túnel. E aqui o único responsável é, na realidade, Barbara Loden que veste a pele da protagonista de forma sublime e filma a dor e a angústia sem qualquer rasgo de esperança, porque o mundo é cruel para os que não se integram na sociedade ou são expulsos por ela.
Barbara Loden, após a feitura de “Wanda”, viu mais uma vez as portas fecharem-se-lhe no rosto, ela era/é uma cineasta inconformada e as feridas que mostrava o seu filme deviam permanecer invisíveis. Por esta mesma razão, o seu projecto seguinte. de passar ao grande écran o romance de Kate Chopin, “The Awakening”, nunca viu nascer a luz do dia. Depois a doença decidiu tomar conta do seu corpo e embora tenha realizado duas curtas-metragens cinco anos depois (“The Frontier Experience” e “The Boy Who Loved Deer”), viria a morrer em 1980 sem nunca ter visto seu filme “Wanda” estreado comercialmente nos Estados Unidos. Descobrir “Wanda” é obrigatório para todos aqueles que gostam de cinema, ao mesmo tempo que prestamos uma justa homenagem a uma cineasta chamada Barbara Loden. Cinema Independente ou Indie mais do que este não HÁ!!!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

John Huston – “A Honra dos Padrinhos” / “Prizzi’s Honor”


John Huston – “A Honra dos Padrinhos” / “Prizzi’s Honor”
(EUA - 1985) - (130 min. / Cor)
Jack Nicholson, Kathleen Turner, Anjelica Huston, Robert Loggia.


Quando se fala em John Huston, os cinéfilos mais empedernidos referem de imediato “The Maltese Falcon” / “Relíquia Macabra”, não só pelo facto de ele ser, de certa forma, a pedrada no charco do “film noir”, com Humphrey Bogart e Peter Lorre; mas quando me falam em John Huston, o filme que me vem à memória é de imediato é “Gente de Dublin”, baseado no conto de James Joyce “The Dead” e incluído precisamente no seu livro de contos “Gente de Dublin”, nunca é demais referir que John Huston sempre desejou adaptar Joyce ao Cinema e foi numa cadeira de rodas, com a garrafa de oxigénio ao lado, que o grande cineasta termina a sua derradeira obra, um verdadeiro testamento cinematográfico, recordemos que foi um dos seus filhos que filmou as sequências finais da película.


Mas quando se fala em John Huston, há outro filme ainda que guardo no coração. Refiro-me a essa obra de Malcolm Lowry, (in)adaptável ao cinema, intitulada “Debaixo do Vulcão” / ”Under the Volcano”, com um Albert Finney à beira do abismo e uma Jacqueline Bissett, linda, numa interpretação memorável. Depois temos essa obra incontornável, testemunho da arte de representar de três nomes incontornáveis da Setima Arte, evidentemente estou a referir-me ao filme “Os Inadaptados” / ”The Misfits” e desse trio admirável composto por Clark Gable, Marilyn Monroe e Montgomery Clift, num preto e branco soberbo!!! Mas também há “A Rainha Africana”/  ”The African Queen”, um dos favoritos aqui de casa, com um duelo de gigantes entre Humphrey Bogart e Katherine Hepburn.


Embora não seja nossa intenção viajar pelo cinema de John Huston, não podemos deixar de referir mais alguns dos nossos filmes favoritos, como por exemplo o pouco conhecido “Entre o Amor e a Morte” / ”A Walk Between Love and Death” onde encontrámos pela primeira vez a Anjelica Huston e como a literatura andou quase sempre de mãos dadas com cineasta, revejam-se por favor essas duas obras-primas cinematográficas que são: “A Noite da Iguana”/”The Night of Iguana” segundo a obra de Tennesse Williams, com uma Ava Gardner selvagem e sensual, tentação e amparo de um padre cujas convicções religiosas há muito andam perdidas no purgatório humano que é a vida na terra, padre esse interpretado à flor da pele por um Richard Burton, no seu melhor, lembram-se da tentação que o persegue sobre a forma de “Lolita” durante a viagem?

Já “Reflexos Num Olho Dourado” / ”Reflection in Golden Eye” é uma daquelas novelas da Carson “Coração Caçador Solitário”, que nos invade a alma com enigmas que nos saltam perante o olhar ao depararmos com uma arma que dispara, por razões não de ódio, mas sim de amores subterrâneos, escondidos no lado mais escuro do coração, que o digam Marlon Brando ou Elizabeth Taylor, nessa célebre sequência em que a vimos subindo a escada da sua casa no aquartelamento, vestida como veio ao mundo, perante o olhar frio e indiferente do marido.


Há sempre depois o estatuto de actor em John Huston, falarei apenas de uma aparição/cameo e uma interpretação memorável e “arriscada”. A aparição é nessa obra que também dirigiu “O Tesouro da Sierra Madre”, na figura do americano que deambula pela cidade e a quem Humphrey Bogart pede uns “trocos”, imponente tanto na figura como na voz. Já a interpretação “arriscada” é nesse testamento final do “film noir” realizado por Roman Polanski, intitulado “Chinatown”, o final da película é memorável e “chocante”, por aquilo que possui no seu interior, já que estávamos em Chinatown e pouco mais havia a fazer, como diria o inspector da polícia, para um Jack Nicholson, derrotado.


Parece que tenho, na verdade, muitos filmes favoritos de John Huston para adquirir para a minha dvdteca, mas ainda me falta falar dessa comédia negra, profundamente esquecida por quase todos e que se chama “A Honra dos Padrinhos” / ”Prizzi’s Honor”. O trio composto por Jack Nicholson, Kathleen Turner e Anjelica Huston é na verdade de primeira “água”, depois se Jack Nicholson está igual a si próprio, já Kathleen Turner respira sensualidade por todos os poros, ela foi na realidade a última “femme fatal” no cinema do século xx, não só por essas “Noites Escaldantes” / “Body Heat”, “proporcionadas” ao William Hurt e a todos nós que vimos o filme de Lawrence Kasdan de olhos bem abertos. Depois temos a Anjelica Huston que não desiste dos seus intentos, “acabar com a concorrência e sacar o Jack só para ela”. No filme conseguiu os seus objectivos, já na vida real acabou por perde-lo, quando ele participou em “A Difícil Arte de Amarr / “Heartburn”” ao lado da Meryl Streep, mas regressemos então à estrada que nos conduz até “A Honra dos Padrinhos”.


Este filme de John Huston relata a história dos Prizzi e dos seus códigos. Estamos perante a Máfia, como Instituição familiar, com os seus Padrinhos no centro da película, mas o cineasta introduz um humor negro que nos envolve, obrigando-nos a sorrir em diversas situações, até que o drama se instala, as sequências com o avião são de antologia.
Charley Partanna (Jack Nicholson) é o futuro Padrinho, Maerose Prizzi (Anjelica Huston) que não olha a meios para recuperar o seu amor perdido e Irene Walker (Kathleen Turner), o tal agente muito especial, formam um belo triângulo fatal, até que os negócios do clã Prizzi os separam mortalmente, oferecendo-nos John Huston um belo retrato de uma família siciliana “acima de qualquer suspeita”.



“A Honra dos Padrinhos” / “Prizzi’s Honor”, mais do que um excelente filme, é um daqueles divertimentos cinematográficos em que saímos maravilhados da sala escura, como se de uma hipnose se tratasse e depois de caminharmos, sozinhos ou acompanhados, como refere Rolland Barthes no seu conhecido texto “ao sair do cinema”, começamos lentamente a digerir o sonho que acabámos de viver. Uma película que merece ser revista, com urgência, para o sorriso poder nascer tranquilo no nosso rosto, nesta época conturbada em que vivemos.

Edward Hopper - "Approaching a City"


Edward Hopper - "Approaching a City", (1946)
Óleo sobre tela, 68,6 x 91,4 cm

Denys Arcand – “As Invasões Bárbaras” / “Les Invasions Barbares”


Denys Arcand – “As Invasões Bárbaras” / “Les Invasions Barbares”
(Canada – 2003) - (99 min. / Cor)
Remy Girard, Stephane Rousseau, Marie-Josée Croze.

Em meados dos anos setenta, do século xx, surgia nos écrans de cinema em Portugal o Novo Cinema Canadiano, oriundo do Quebec (ainda se estava no tempo das novas vagas), através de Gilles Carle e Denys Arcand e também uma senhora chamada Carole Laure, que invadiu o imaginário de muito boa gente. "As Invasões Bárbaras", de Denys Arcand, recebeu o Oscar para o Melhor Filme Estrangeiro de 2003 e o César Francês para a mesma categoria.



Esta genial película é a continuação do filme "O Declínio do Império Americano", vinte anos depois, tal como fez Peter Bogdanovich com "A Última Sessão de Cinema" e "Texasville", também com os mesmos actores. A única diferença entre o filme americano e o canadiano, é que as personagens criadas por Larry McMurty existiam mesmo e o próprio Jeff Bridges foi "convidado a conhecer" a figura que interpretava.


Já "O Declínio do Império Americano" / “Le déclin de l’empire américain” de Dennys Arcand foi a resposta canadiana, bastante intelectualizada, ao filme de Lawrence Kasdan, "Amigos de Alex" / “The Big Chill”, da mesma forma que a inglesa se chamou "Os Amigos de Peter" / “Peter’s Friends”, realizada por Kenneth Branagh, todos eles fazendo o retrato da mesma geração nos diversos países de onde são oriundos os cineastas.


Eram os anos oitenta, estava-se decididamente na ressaca das ideologias, a geração que tinha prometido a imaginação ao poder, acomodara-se à existência dos tempos, os yuppies começaram a nascer e os célebres Mercados encontravam-se em gestação nesse célebre ovo da serpente de que um dia nos falou Ingmar Bergman e o sonho perdia-se nas esquinas da vida. Restava a memória e a reflexão de uma época que permanecia na memória de muitos.


Em "O Declínio do Império Americano", Denys Arcand fala-nos de um grupo de amigos, quase todos ligados à área de História, que se encontram num fim-de-semana no campo. Mas antes de os encontrarmos todos juntos, iremos descobrir o universo feminino e o universo masculino em separado, elas falam deles e eles falam delas... é a História, os Sentimentos, a Sexualidade, o Amor e o Desconhecimento do Futuro que nos foi Reservado.


Vinte anos depois, Denys Arcand regressa a esses mesmos personagens - usando os mesmos actores - em "As Invasões Bárbaras" / “Les invasions barbares” e oferece-nos o "relatório" do estado do mundo no nosso quotidiano, através da despedida da vida de um dos personagens - Remy, o agitado professor de História, cujo filho, um yuppie que trabalha na bolsa, lhe irá oferecer o seu reencontro/despedida da sua verdadeira família, esses eternos Amigos, que muito tempo depois, respondem todos à chamada e o acompanham num outro fim-de-semana, o derradeiro, na mesma casa, no mesmo lago, onde se encontraram vinte anos antes e as memórias, tal como os destinos daqueles personagens, acabam por ser também as imagens da nossa memória e dos nossos sentimentos. Estamos assim perante um filme maravilhoso sobre a amizade e os insondáveis caminhos da vida que vos recomendo a descobrirem.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Charles Crichton – “Um Peixe Chamado Wanda” / “A Fish Called Wanda”


Charles Crichton – “Um Peixe Chamado Wanda” / “A Fish Called Wanda”
(EUA/Inglaterra – 1988) – (108 min. / Cor)
John Cleese, Jamie Lee Curtis, Kevin Kline, Michael Palin, Tom Georgeson.

“Um Peixe Chamado Wanda” / “A Fish Called Wanda” é uma das melhores comédias da década de oitenta, século xx. Um dos segredos deste filme reside no argumento escrito pelo ex-Monty Python John Cleese e no veterano cineasta Charles Crichton, um homem que sabia como ninguém do ofício, recorde-se que ele é o responsável pelo célebre “The Lavander Hill Mob” e foi um dos nomes grandes do célebre Estúdio Britânico Ealing Studio que, nos anos cinquenta do século xx, nos ofereceu das mais delirantes comédias oriundas das terras de Sua Majestade, para além de ser um dos nomes incontornáveis da televisão britânica.


Temos assim nesta produção anglo-americana dois nomes de Hollywood: Kevin Kline que, ao longo da sua carreira surge sempre de bigode nas comédias e Jamie Lee Curtis, a célebre filha de Tony Curtis e Janet Leigh, que nasceu para o cinema no célebre “Halloween” de John Carpenter. Por outro lado temos dois elementos dos célebres Monty Python: o excelente John Cleese e Michael Palin, que hoje em dia se dedica a uma das melhores séries na televisão, nas suas viagens pelo mundo, onde o humor se encontra sempre presente, para além dos seus magníficos livros de viagens. Aliás para se saber mais sobre os Monty Python (essa tribo que revolucionou o humor na televisão), não há nada como ler a sua auto-biografia, já publicada entre nós.


“A Fish Called Wanda” começa com um assalto “bem sucedido”, que o diga Georges Thomason (Tom Georgeson), filmado com um rigor exemplar pelo veterano cineasta, mas como cada um dos membros do grupo pretende as jóias só para si, a situação vai-se complicar, porque o único elemento preso é o detentor do segredo onde elas se encontram escondidas e para complicar mais as coisas existe uma testemunha ocular, uma simpática velhota que gosta de passear os seus cãezinhos pela rua.
Por outro lado, Otto (Kevin Kline) nutre um imenso desejo sexual por Wanda (Jamie Lee Curtis) e fica perfeitamente histérico quando alguém lhe chama estúpido, já Ken (Michael Palin) o célebre atirador que tudo fará para liquidar a testemunha ocular, possui uma imensa paixão pelos peixinhos que vivem no aquário na casa onde o gang se esconde. George, o cérebro do gang, irá ser julgado pelo distinto juiz Archie Leach (*) (John Cleese), que irá cruzar-se com a jovem Wanda (Jamie Lee Curtis), que tudo fará para o seduzir, porque também ela pretende as famosas jóias só para si, para além desse momento único de "nonsense" que são as diversas tentativas de homicídio da testemunha ocular.


Ao longo da película iremos descobrir um humor perfeito que obriga o mais empedernido espectador a sorrir perante as situações, muitas delas perfeitamente inimagináveis, desde a forma como os ciúmes de Otto transpiram para o écran, passando pela célebre gaguez de Ken, até ao ar perdido de Archie Leach, que vai escondendo da mulher e da filha a perigosa situação em que se encontra, não conseguindo resistir aos encantos da bela Wanda, para além das diversas tentativas de homicídio da testemunha ocular de um “nonsense” perfeito.
“Um Peixe Chamado Wanda” / “A Fish Called Wanda” conduz-nos assim a esse território humorístico que durante décadas tornou célebre os Estúdios Britânicos e por outro lado a magia dos Monty Python permanece de forma subtil no grande écran, porque aqui respira-se comédia por todos os fotogramas!


(*) - Curiosamente o nome de baptismo do famoso Cary Grant.

Edward Hopper - "Macomb's Dam Bridge"


Edward Hopper - "Macomb's Dam Bridge"
Óleo sobre tela, 88,9 x 152,8 cm.

Alfred Hitchcock – “Número 17” / “Number Seventeen”


Alfred Hitchcock – “Número 17” / “Number Seventeen”
(Inglaterra- 1932) – (63 min - P/B)
Anne Grey, Leon M. Lion, John Stuart, Donald Calthrop, Barry Jones.



Mais uma vez Alfred Hitchcock decide adaptar ao cinema uma peça teatral, compartilhando esse trabalho com a sua esposa Alma Reville, cuja importância ao lado do marido na escrita cinematográfica ainda está por fazer. “Número 17” não esconde as suas origens teatrais, já que a acção se passa em dois locais precisos: a casa abandonada e a perseguição no comboio, sendo de referir o uso de maquetes e miniaturas eléctrica, no segundo local da acção, como antepassados dos actuais efeitos especiais, por sinal bem notórios durante a perseguição, mas que não tiram de forma alguma o valor à arte e engenho conseguidos ao longo do filme por Alfred Hitchcock.


No início da película, numa noite ventosa, descobrimos um chapéu a rodar pelo passeio levado pelo vento que só irá concluir a sua viagem à porta de uma casa que se encontra para alugar, que possui o número 17. A noite já se tinha instalado e quando vemos um vulto a apanhar o chapéu não lhe vemos o rosto. Mas uma luz percorre as diversas janelas do prédio e o homem “curioso” decide entrar para ver o que se passa no seu interior, acabando por encontrar um cadáver e um mendigo (um marinheiro sem barco), que se encontra ali refugiado do frio e da noite.


Desconhecemos a identidade destas três estranhas personagens e só quando surge uma quarta personagem, uma rapariga que cai no interior da casa através de uma abertura no telhado, ficamos a saber que o morto é o seu pai.
Se o mendigo só pretende fugir dali, já o homem enigmático que entrou na casa recusa-se a chamar a polícia, até que lhe batem à porta e surge um casal que, à meia-noite, vem visitar a casa, adensando ainda mais o enigma, já que com eles entra uma outra personagem desconhecida de todos e que irá permanecer no interior da misteriosa casa, ao mesmo tempo que o cadáver desaparece.


Hitchcock, ao não nos fornecer a identidade dos diversos protagonistas, convida-nos a entrar neste jogo de "suspense", obrigando-nos a entrar nele como se fosse uma charada, porque quase todos escondem a sua identidade real e não seremos nós aqui a desvendar o segredo da história porque não há nada como ver o filme, já que está disponível no nosso país uma excelente edição em dvd. Mas não resistimos a dar algumas pistas, porque por aqui existe um polícia, um grupo de ladrões e alguns inocentes.
Durante a primeira parte da película, Alfred Hitchcock joga de forma excelente com as sombras projectadas pelos diversos protagonistas da história, ao andarem no interior da casa sem luz, à luz de velas, num trabalho espantoso do director de fotografia John Cox, onde o expressionismo fica bem patente. Durante a segunda parte do filme nasce a célebre perseguição, por sinal muito pouco ortodoxa em que, num autocarro cheio de passageiros, o detective persegue os ladrões que vão num comboio para apanharem um barco para atravessar o canal da Mancha.


“Número 17” / “Number Seventeen” tratou-se de uma encomenda do British International e Alfred Hitchcock saiu-se muito bem desta adaptação teatral, repare-se que durante a perseguição os diálogos são escassos porque a acção fala por si e a forma como é feita a montagem é reveladora dos intuitos do cineasta, por outro lado Hitchcock não hesita em pontuar com diversos momentos de humor o desenvolvimento da história, ao longo da primeira parte. Por aqui iremos pois descobrir elementos que irão surgir muitos anos depois na obra do cineasta: o morto (Terceiro Tiro), a escada sinónimo de abismo (Vertigo), o comboio (A Desaparecida) e o autocarro (Cortina Rasgada). (Re)descobrir “Número 17” de Alfred Hitchcock é a nossa proposta para hoje, porque nele se encontram todos os elementos que fizeram do cineasta britânico o inconfundível Mestre do Suspense!.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Stewart Raffill – “A Experiência de Filadélfia” / “The Philadelphia Experiment”


Stewart Raffill – “A Experiência de Filadélfia” / “The Philadelphia Experiment”
(EUA 1984) – (102 min. / Cor)
Michael Paré, Nancy Allen, Eric Christmas, Bobby Di Cicco.

A década de sessenta do século xx foi uma verdadeira travessia do deserto do cinema americano, já que o cinema clássico viu a sua época dourada terminar com o nascimento da televisão por um lado e a "reforma" dos grandes cineastas, uns motivados pela sua idade avançada e outros porque o novo sistema não tinha lugar para eles.
Na Europa surgiam as novas vagas e uma nova geração emergiu na América, através dessa escola fantástica que era a televisão dessa época. Neste contexto nasceram os "movie-brats", essa gloriosa família do cinema americano, que iria criar o seu próprio universo e que durante três décadas deram as cartas em Hollywood, tendo ganho muitas das "partidas de poker" do cinema.


Francis Ford Coppola foi um dos primeiros a dar nas vistas, produzindo os dois primeiros filmes de George Lucas (*), numa época em que este último nem sonhava com “A Guerra das Estrelas” / "Star Wars", Mas nem só Coppola assumiu essa figura de produtor, porque muitos outros nomes dos "movie-brats" produziram filmes, como sucedeu com John Carpenter, revelando-se o principal responsável pela feitura de “Experiência de Filadélfia” / “The Philadelphia Experiment” de Stewart Raffill.



Oriundo da TV, por onde ainda anda, mas sempre com um olhar cinematográfico, Stewart Raffill iniciou a sua actividade no cinema como actor, depois passou a argumentista e fez a chamada escola da produção cinematográfica: assistente de realização, responsável pela segunda equipa, produtor executivo e por fim realizador.

Será John Carpenter a produzir o seu "The Philadelphia Experiment", aliás todo o universo de Carpenter se encontra aqui bem patente e as conotações com o seu "Starman" / “O Homem das Estrelas” são de tal maneira óbvias, que por vezes pensamos ir encontrar Jeff Bridges e Karen Allen no lugar destinado a Michael Paré e Nancy Allen.
A película de Stewart Raffill, que infelizmente foi encoberta na “Box-Office” por "Regresso ao Futuro" / “Back to the Future” de Robert Zemeckis, trata da sempre fascinante viagem no tempo, tema grato a muitos cineastas, muitos deles perfeitos anónimos na História do Cinema, trabalhando na década de cinquenta, século xx, dando origem aos famosos filmes da chamada “Série-B” e onde esse género menor conhecido por ficção-cientifica viveu momentos radiosos e de deslumbramento, que o digam as plateias desses tempos!


Em 1943, os serviços navais norte-americanos executam experiências secretas, a fim de tornar os seus navios invisíveis ao radar. A experiência realizada em Filadélfia é um fracasso, os mortos e os feridos são inúmeros e um buraco no tempo é aberto, escapando inocentemente por ele dois marinheiros: David Herdeg (Michael Pare) e Jim Parker (Bobby di Cicco). A viagem no tempo leva-os até ao ano de 1984 e a uma nova experiência de vida, desconhecida pelo homem de 1943.

Quarenta anos passaram e o medo destes dois homens perdidos no tempo acaba por os conduzir à procura de uma identidade e de uma família. O drama é estabelecido e enquanto Jim Parker (Bobby di Cicco) regressa ao passado, o seu amigo David Herdeg (Michael Pare) encontra em Allison Hayes (Nancy Allen) a única pessoa que acredita na sua história e como não podia deixar de acontecer, o amor nasce e aqui começam as citações a "Starman – O Homem das Estrelas".



Premeditada ou não, esta situação da película não impede que a mesma seja uma excelente obra de ficção científica. Se em "Starman" / “O Homem das Estrelas”, Jeff Bridges é obrigado a partir, deixando nas mãos de Karen Allen a semente da sua passagem e do seu amor, já em "A Experiência de Filadélfia" Michael Paré decide permanecer nos anos oitenta, ao lado daquela que ama.
"A Experiência de Filadélfia" / “The Philadelphia Experiment” é uma excelente experiência de cinema e para aqueles que o viram na época da sua estreia, um verdadeiro "cult-movie".

(*) – Sugerimos que vejam esse “cult-movie” chamada "THX 1138" realizada por George Lucas e produzida por Francis Ford Coppola, uma das melhores revisões do cinema de ficção-cientifíca de “Série-B”, feita até hoje, com Robert Duvall no protagonista.

Edward Hopper - "Cabin, Charleston, S.C."


Edward Hopper - "Cabin, Charleston, S.C.", (1927)
Aguarela, 35,4 x 50,6 cm.

Richard Fleischer – “Tora! Tora! Tora!“


Richard Fleischer – “Tora! Tora! Tora!“
(EUA/Japão – 1970) – (144 min. / Cor)
Martin Balsam, James Whitmore, Jason Robards, Sô Yamamura, Eijiro Tono, Tatsuya Mihashi, E. G. Marshall, Joseph Cottenn.

Quando a década de setenta (século xx) nasceu, viviam-se os tempos da contra-cultura, o Maio de 68 ainda estava bem vivo e por isso mesmo o Estúdios de Cinema norte-americanos começaram a dar a mão a imensos cineastas formados na televisão. No entanto para alguns Estúdios, como sucedia na 20th Century Fox onde o dono e senhor se chamava Darryl F. Zanuck, ainda se sonhava com grandes projectos e este foi o homem que salvou os célebres estúdios da falência durante as filmagens de “Cleópatra” de Joseph L. Mankiewicz, ao produzir (e dirigir com mão de ferro todos os que estavam sobre a sua alçada) esse épico a preto e branco intitulado “O Dia Mais Longo” / “The Longest Day”, rodado em 70 mm e onde uma conjugação de estrelas brilhava no firmamento. Estávamos aqui perante o filme de guerra em todo o seu esplendor, usando-se o preto e branco para “piscar o olho” ao documentarismo e tornar ainda mais credíveis as diversas histórias. Como todos sabemos, o êxito foi retumbante e, talvez por isso mesmo, Darryl Zanuck tenha acalentado durante algum tempo levar ao grande écran o ataque japonês a Pearl Harbour.


Este homem, tão poderoso como em tempos fora David O’Selznick, decide partir para esta aventura e entrega a realização do filme a dois cineastas: Richard Fleischer para as sequências americanas e Akira Kurosawa para as sequências japonesas, num desejo profundo de produzir no interior do cinema de guerra uma película cujo olhar fosse o mais lúcido possível, apresentando a verdade dos factos.
Richard Fleischer, um homem formado na escola documentarista, era o cineasta indicado porque dominava com perfeição a arte cinematográfica independente do género e sabia trabalhar com as exigências, sempre ferozes, dos Estúdios, cumprindo os prazos delineados pela produção. Porém o mesmo não sucedia com Akira Kurosawa, que levava demasiado tempo nos preparativos das filmagens, embora o seu nome fosse um trunfo importante, só que ao adoecer após seis dias de filmagens, Darryl Zanuck foi obrigado a substitui-lo por Toshio Masuda e Kinji Fukusaku, que deram muito bem conta do recado, recuperando o tempo perdido inicialmente.


Darryl Zanuck, ao produzir este épico de guerra, decidiu apostar tudo na eficácia do argumento e dos efeitos especiais, não convocando aquele batalhão de estrelas que o tinham acompanhado em “O Dia Mais Longo”, para ele a eficácia com que estavam a ser filmadas as diversas sequências iria prender o espectador à cadeira, sendo indiferente o nome dos actores.
Quase quatro décadas passadas e após termos tido a experiência de ver a versão criada por Michael Bay do ataque a Pearl Harbour, com aquele péssimo triângulo amoroso para pré-adolescentes, somos obrigados a reconhecer a eficácia do filme produzido por Darryl Zanuck, porque ele oferece-nos a tensão existente nas chefias japonesas nos dias que antecederam o ataque. Todos sabemos, hoje em dia, como os militares japoneses estavam divididos no que diz respeito à guerra, porque muitos tinham a noção absoluta de ser impossível manter diversas frentes de combate, ao mesmo tempo que outros temiam ir acordar um gigante adormecido, como refere o Almirante Japonês a bordo do porta-aviões, após a conclusão das operações. Porque, na verdade, o principal objectivo do comando japonês que era afundar os porta-aviões americanos, não foi concretizado como todos sabemos e eles foram fundamentais alguns anos depois para o sucesso americano na decisiva batalha de Midway, onde se decidiu o futuro da história, aliás também ela já retratada pelo cinema.


Perante um filme sem estrelas, as que surgiam, embora excelentes actores, não resistiam naquela época a serem cabeças de cartaz e provocar enchentes nos cinemas, o saldo deste filme que recomendamos, na época, não foi o melhor. Mas se virmos a película com “olhos de ver”, verificamos como está lá o saber de um homem chamado Richard Fleischer, esse cineasta que tantos filmes fez que nos seduziram durante a infância como “O Extravagante Dr. Dolittle” / “Doctor Dolitle” e as “20.000 Léguas Submarinas” / “20,000 Leagues Under the Sea”, ou ainda essa obra espantosa de ficção-cientifíca intitulada “Soylent Green” / “À Beira do Fim”.
Se por um lado, ao longo do filme, iremos assistindo à ineficácia e burocracia por parte dos militares americanos perante um possível ataque japonês, onde tudo se deixa para fazer no dia seguinte, temos do lado japonês o estudo minucioso do plano de ataque até ao mais pequeno detalhe, como a questão dos torpedos transportados pelos “zeros” japoneses, que irão ter pela frente a pouca profundidade do porto onde se encontra atracada a esquadra americana.
Rever “Tora! Tora! Tora!” o célebre grito de ataque japonês, em écran de cinema, é um daqueles prazeres que recomendamos (tivemos essa sorte), porque neste filme mora o que se chama a eficácia cinematográfica do produtor, em termos criativos, mas também há o dvd para recordarmos vezes sem conta a Arte do Cinema no palco da Guerra.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Krzysztof Kieslowski – “Três Cores : Vermelho” / “Trois Couleurs : Rouge”


Krzysztof Kieslowski – “Três Cores : Vermelho” / “Trois Couleurs : Rouge”
(França/Polónia/Suiça – 1994) – (99 min. / Cor)
Irène Jacob, Jean-Louis Trintignant, Fréderique Feder, Jean-Pierre Lorit.

Ao realizar esta película, o cineasta polaco Krzysztof Kieslowski conclui de forma exemplar a sua trilogia tendo por base as cores da bandeira francesa, representando a cor vermelha a fraternidade. Mais uma vez Kieslowski, com “Três Cores: Vermelho” / “Trois Couleurs: Rouge”, nos oferece uma obra sobre a condição humana, ao contar-nos a história de Valentine (Irène Jacob), uma jovem modelo, que um dia encontra um cão ferido na rua e após ver na coleira a morada do dono, decide entregar o cão ao seu proprietário. Irá então conhecer um Juiz (Jean-Louis Trintignant) solitário e já reformado, por sinal nada simpático e bastante cínico, que possui como passatempo espiar os vizinhos, chegando a fazer telefonemas ameaçadores.


À medida que vamos acompanhando o relacionamento entre estas duas pessoas, já que a jovem Valentine desperta uma certa curiosidade no cínico juiz, iremos conhecer a história deste tenebroso ser e então perceberemos que essa mesma história terá traços comuns com um jovem estudante de direito, Karin (Fréderique Feder) que por diversas vezes ao longo da película irá percorrer os mesmos caminhos trilhados pela jovem Valentine, desconhecendo que um dia ambos se irão encontrar no ferry que irá naufragar, sendo dois dos seis sobreviventes do desastre, sendo os outros quatro, os protagonistas dos dois filmes anteriores da célebre trilogia de Kieslowski.


Ao longo de “Três Cores: Vermelho” / “Trois Couleurs: Rouge”, iremos perceber como é insustentável a leveza do ser e à medida que vamos acompanhando a história dos três protagonistas, somos obrigados a rever neles a nossa própria experiência, em que o fruto do acaso termina tantas vezes por mudar o nosso quotidiano, alterando de forma profunda a nossa visão do pequeno mundo em que nos movimentamos.
Krzysztof Kieslowski fecha assim de forma soberba, com o tema da fraternidade, a sua fabulosa trilogia sobre a condição sentimental do universo contemporâneo.

Após a conclusão da película, o realizador retirou-se da actividade cinematográfica, vindo a falecer três anos depois, no entanto a obra cinematográfica que nos deixou permanece bem viva no meio de nós.