terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Claude Chabrol – “A Rapariga Cortada em Dois” / “Fille Coupée en Deux”


Claude Chabrol – “A Rapariga Cortada em Dois” / “Fille Coupée en Deux”
(FRANÇA-2007) – (115 min. / Cor)
Ludivine Sagnier, Benoit Magimel, François Berléand, Mathilda May.


Claude Chabrol, um dos fundadores da Nouvelle Vague, revelou-se sempre um autor por excelência, utilizando a sua câmara como um verdadeiro bisturi, para analisar a sociedade francesa contemporânea.


Em “Fille coupée en deux” / “A Rapariga Cortada em Dois” vamos conhecer a história de uma jovem apresentadora de televisão (faz o boletim meteorológico), cuja vida se irá cruzar com um célebre escritor de meia-idade, recluso na sua casa da província, alérgico aos média e ao sucesso. Charles Saint-Denis (François Berléand) leva, aparentemente, uma vida pacata na sua mansão moderna na companhia da sua mulher (Valeria Cavalli), mas esse casamento não passa de uma simples fachada, bem conhecida da sua amiga e editora Capucine (Mathilda May). E será na apresentação do seu último romance, na livraria dessa pequena cidade, que ele se irá cruzar por mero acaso com a jovem Gabrielle que de imediato o fascina.
Gabrielle (Ludivine Sagnier), filha da livreira, não possui grande ternura pela literatura mas a figura do escritor desperta-lhe interesse, ao mesmo tempo que o jovem milionário Paul Gaudens (Benoit Magimel), ao cruzar-se com ela nesse evento, decide tentar a sua sorte junto da jovem apresentadora.


Iremos assim entrar num duelo entre dois homens que se odeiam e que desejam ardentemente uma jovem mulher que inicialmente se inclina para a figura do escritor, com idade para ser pai dela, mas que a fascina e a convida a conhecer esse mundo de prazer onde ele gosta de navegar, em que tudo é permitido. Lentamente, Gabrielle entra no território do proibido, aceitando todos os desejos de Charles Saint-Denis, mas quando ela lhe pede para ele deixar a mulher tudo se complica, decidindo ela então aceitar o namoro incessante que Paul Gaudens lhe faz, afastando-se do escritor. Mas o jovem Paul conhece demasiado bem o mundo perverso de Saint-Denis e mais forte que o amor que ele possui por Gabrielle é o ódio que devota ao seu rival. E será esse mesmo ódio que irá decidir o destino de todos, após o seu casamento com Gabrielle, já que o ciúme lhe começa a devorar a alma.


Claude Chabrol oferece-nos mais uma vez, nesta película, o seu olhar profundo sobre a província francesa e as suas personagens, em que ninguém é inocente, fazendo um retrato trágico e mordaz de uma certa intelectualidade, ao mesmo tempo que olha sem piedade os habitantes da caixa que mudou o mundo.
Ludivine Sagnier, uma das grandes revelações do cinema francês descoberta por François Ozon, encontra-se neste filme como peixe na água e Benoit Magimel, que tínhamos visto em “A Pianista”, oferece-nos uma interpretação excelente, como se fosse um "dandy" saído da pena de Oscar Wilde, revelando ser um dos nomes a seguir no interior do cinema francês contemporâneo. Já François Berléand, na figura do escritor Saint-Denis, surge aqui com uma contenção espantosa, mergulhando de corpo e alma na personagem que interpreta.
Claude Chabrol, que também assina o argumento, oferece-nos mais uma vez toda a sua sabedoria de verdadeiro autor, revelando o seu olhar sobre a sociedade francesa ser de um brilhantismo absoluto, mas como sempre incómodo para muitos.


Apesar de Claude Chabrol nos ter deixado a 12 de Setembro de 2010, o seu cinema, tal como o seu nome, permanece bem vivo no interior da Sétima Arte!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Douglas Sirk – “O Que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows”


Douglas Sirk – “O Que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows”
(EUA – 1955) – (89 min/Cor)
Rock Hudson, Jane Wyman, Agnes Moorehead, Conrad Nagel, William Reynolds, Gloria Talbott.


Um dos maiores cineastas do melodrama foi, como todos sabemos, Douglas Sirk, um dos valores mais seguros da Universal Studios durante os anos cinquenta do século xx. E nunca é demais também recordar que foi ele o responsável pela descoberta desse grande actor chamado Rock Hudson, um camionista que um dia decidiu tentar o cinema, tendo-nos oferecido interpretações inesquecíveis, desde as comédias com Doris Day, até aos melodramas de Douglas Sirk, deixando também a sua marca em obras como “O Gigante” / “Giant”, ao lado de Elizabeth Taylor e James Dean.


Quando em 1954 Douglas Sirk juntou Jane Wyman (que foi esposa desse mau actor chamado Ronald Reagan), com Rock Hudson, as plateias da América ficaram em êxtase com o par. E se olharmos bem para Jane Wyman, até nem descobrimos nela essa beleza estonteante que foi marca da idade de ouro do cinema. As mulheres americanas viram na época uma história que as perturbou por um lado, enquanto por outro desejavam vivê-la na vida real. Depois tínhamos também a marca do cineasta, a deixar todas a suspirar por mais filmes do género, de forma a puderem projectar para o écran os seus desejos mais secretos.


Por tudo isto, o produtor Ross Hunter decidiu juntar novamente o par Rock Hudson/Jane Wyman no ano seguinte e convidar Douglas Sirk para realizar “O Que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows”, nascendo assim outra obra-prima do melodrama.
Ross Hunter pretendia sempre que o cineasta nos oferecesse o máximo de glamour, fosse através do guarda-roupa dos actores, ou dos interiores das casas habitadas por eles, sempre com as famosas escadas. Basta olhar para Jane Wyman na película e fica tudo dito. Por outro lado Sirk usa o argumento de acordo com as suas necessidades estéticas, controlando sempre a montagem para evitar o corte de terceiros. Recorde-se que uma das marcas do cineasta é fazer a montagem no interior do próprio plano, usando de forma soberba o plano-sequência. E para finalizar temos sempre essa maravilhosa direcção de actores, feita sempre com poucas palavras, mas muita paciência, como nos conta William Reynolds “com Sirk as filmagens eram sempre tranquilas”.


Logo a abrir temos essas cores outonais tão do apreço do cineasta, que nos convidam a visitar uma little town e conhecer o universo de Cary Scott (Jane Wyman), uma viúva com dois filhos que se movimenta muito bem no interior do “jet-set” local (se nos permitem a expressão). Mas lentamente vamos percebendo que aquela mulher vive a sua vida de acordo com o desejo de terceiros, desde os filhos, até aos amigos, habitando uma viuvez eterna. Basta ver a reacção dos filhos, logo no início da película, quando a encontram vestida de vermelho para ir a uma festa. Mas ao saberem que o acompanhante é o velho Harvey (Conrad Nagel), ficam mais tranquilos.

Iremos assim seguir a vida desta mulher de meia-idade, carente de amor, que um dia irá descobrir num homem quinze anos mais novo do que ela, uma razão para renascer das cinzas.
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Ron Kirby (Rock Hudson) é o filho do antigo jardineiro, que cuidava das casas da zona e revela-se um homem que vive acima dos preconceitos, optando por uma vida em que é dono da sua própria alma, ao mesmo tempo que possui Walden como referência. Aquele ano será o último em que se dedica a trabalhar nos quintais da zona, porque na escola agrícola descobrira o interesse pela plantação de árvores e decidira investir todo o seu saber nessa nova área, vivendo numa estufa, com os seus pequenos haveres.
A generosidade dele e a sua forma de estar na vida despertam a curiosidade de Cary e, depois de conhecer um casal amigo de Kirby que vive de acordo com os mesmos princípios, Cary deixa-se cair nas malhas do amor, esquecendo-se que os filhos nunca irão aceitar que ela case com um homem bem parecido e muito mais novo do que ela, para além de ser de outra condição social, embora Kirby pretenda viver com Cary no moinho, que está a reparar, junto da estufa.


Se a reacção dos filhos é a pior possível, ameaçando-a de nunca mais lhe falarem, já a atitude dos seus famosos amigos é de um cinismo atroz, com a inevitável má-língua a deixar marcas pela cidade fora.
Cary Scott (Jane Wyman) decide então aceitar o destino imposto por terceiros, vivendo exclusivamente para os filhos e as aparências, até que no Natal percebe o erro cometido. Os filhos vão partir para sempre, Ned (William Reynolds) em trabalho, para um outro Estado, enquanto Kay (Gloria Talbott) informa a mãe que se vai casar. E como filhos “perfeitos” que são, não se esquecem da “cereja no topo do bolo”, e oferecem à mãe uma televisão para lhe “aquecer as noites de solidão”.


Finalmente, Cary Scott (Jane Wyman) entende a tragédia da sua vida e decide voltar atrás no tempo, em busca desse amor recusado por ela, em virtude de Ron Kirby (Rock Hudson), pertencer a uma condição social inferior à sua e comungar com a vida, de forma diferente do habitual.
“O Que o Céu Permite”/ “All That Heaven Allows” oferece-nos, deste modo, um dos melodramas mais sublimes da história do cinema. Um filme que nunca nos cansamos de ver, descobrindo sempre, em cada visionamento, um novo elemento da genialidade de Douglas Sirk.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Hugh Hudson – “Revolução” / “Revolution”


Hugh Hudson – “Revolução” / “Revolution”
(ING/EUA/NOR – 1985) – (126 min. / Cor)
Al Pacino, Donald Sutherland, Nastassja Kinski, Joan Plowright.


A Industria Britânica sempre esteve de certa forma ligada à norte-americana e "Revolução" / "Revolution"é um bom exemplo, não só pelo que representa como pelo alcance atingido. Hugh Hudson não é propriamente um desconhecido, já que era um dos cineastas do clã Puttnam/Goldcrest, e o responsável por obras como o laureado "Momentos de Glória" / "Chariots of Fire" e o magnifico "Greystoke" / "Greystoke: The Legend of Tarzan, Lord of the Apes", a verdadeira saga de Tarzan.
"Revolução" é a história da Fundação da América e a consequente luta da independência. Os actores escolhidos foram Al Pacino, Nastassja Kinski e Donald Sutherland, para uma película que iria terminar num profundo desastre financeiro, já que em termos filmicos estamos perante uma das mais belas obras do Cinema Histórico, que nos foi oferecido pela Sétima Arte.


Tom Dobb (Al Pacino) e o filho ao descerem o Hudson são apanhados pela Revolução e depois de perderem o barco (o seu meio de sobrevivência) são obrigados a alistar-se para combaterem os ingleses: os célebres casacas vermelhas. Não descobrimos em Tom Dobb o herói clássico, (ao contrário do que sucede em "O Patriota" e o tema da justa vingança) mas sim um homem obrigado a lutar e quando verifica que a batalha está perdida, foge com o filho, para salvarem a vida. Já a jovem aristocrata Daisy entra na revolução, contagiada pelos acontecimentos, e depois de uma experiência amarga, em termos familiares, adere de corpo e alma ao novo exercito americano criado por George Washington. O encontro inicial de Tom com Daisy, transporta-nos para o romance, mas o tema da guerra da independência que o invade, acaba também ele por ser invadido pela própria luta pela sobrevivência, mesmo quando ele não está coberto de heroísmo.
Hugh Hudson conseguiu criar os ambientes de uma forma maravilhosa, construindo verdadeiros frescos, tanto no início, como nas últimas sequências da película, onde se oferece o nascimento de uma nação com as suas novas ideologias e o reencontro de Tom e Dais: ela, a criança, estava rodeada de pequeninos americanos.


"Revolução" termina aqui, porque então começa a conquista do Oeste, lugar eleito pelo filho de Tom para recomeçar uma vida. Hugh Hudson criou com este filme, um dos mais belos frescos históricos da indústria cinematográfica, e não foi por acaso que muitos na época o compararam ao Mestre David Lean, também ele um britânico maravilhado pelo cinema americano e as suas superproduções. Infelizmente o cinema nos anos noventa do século xx viu surgir novos meios tecnológicos que de certa forma aniquilaram uma certa forma de olhar o cinema.
Procurem esta pérola e façam o seu visionamento certamente irão dar por bem empregue o tempo gasto.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Pascale Ferran – “Lady Chatterley” / “Lady Chatterley et l’Homme des Bois”


Pascale Ferran – “Lady Chatterley” / “Lady Chatterley et l’Homme des Bois”
(FRANÇA - 2006) – (168min. / Cor)
Marina Hands, Hippolyte Girardot, Jean-Louis Coullo’ch, Helene Alexandridis.

Todos aqueles que gostam de Literatura já leram D.H. Lawrence, os seus romances, contos e novelas. De todos eles o mais lido será “O Amante de Lady Chatterley” que, na época da sua publicação, transportou o escândalo nas suas páginas, embora elas respirassem genialidade por todos os poros e como não podia deixar de ser o cinema decidiu adaptar o livro, embora muitas vezes o que interessava aos cineastas fosse o seu conteúdo erótico, enquanto o conteúdo mais romanesco era esquecido. Porém a cineasta francesa Pascale Ferran decidiu na sua leitura olhar o lado naturalista do romance e recorde-se que D. H. Lawrence escreveu três versões do romance, tendo Pascale optado por levar à tela a segunda versão do livro.


Quando olhamos a relação que a Sétima Arte tem tido com a obra de D. H. Lawrence, encontramos em “Mulheres Apaixonadas” / “Women in Love” um excelente retrato desta obra, por vezes esquecida e que revelou ser o melhor filme de Ken Russell, muito em voga nos anos setenta. Na película o quarteto era constituído por Alan Bates, Oliver Reed, Glenda Jackson e Jennie Lindon e embora datado de 1970, só o vimos por cá em meados de setenta, num verão dito quente. E, curiosamente, Ken Russell nos anos noventa irá levar ao pequeno écran “O Amante de Lady Chatterley” com Joely Richardson (a outra filha da Vanessa Redgrave) e Sean Bean (ainda longe de sonhar com “O Senhor dos Anéis”). Nesta obra, que até passou na RTP, o cineasta britânico mantinha-se fiel às características do seu cinema, embora não caindo na tentação. O mesmo não se poderá dizer de uma adaptação feita por Just Jaeckin (o nome diz tudo) com a Sylvia Kristel a explorar terrenos bem conhecidos na época (anos oitenta, do século XX).


Regressemos então ao filme de Pascale Ferran, para contar um pouco o percurso da sua visão da obra de D. H. Lawrence: recusado em Cannes, recusado em Veneza e por fim apresentado em Berlim (e aqui muitos ficaram espantados com a obra), depois foi o lançamento comercial nas salas e a rendição da crítica perante uma obra onde o naturalismo é personagem, recebeu cinco Césares (o equivalente aos Oscars em França): para melhor filme, melhor realização, melhor actriz principal, melhor argumento e melhor guarda-roupa, para além de ter recebido os prémios Louis Delluc e Lumiére e por fim, em Nova Iorque, no Tribeca Film Festival (de Robert de Niro) Marina Hands recebe o prémio de melhor actriz.


Perante um reconhecimento destes, o leitor certamente já não estará “de pé atrás” em relação a esta adaptação de “Lady Chatterley” e faz muito bem porque, na verdade, estamos perante um filme surpreendente, já que a adaptação cinematográfica é de uma espantosa fidelidade ao romance, ao mesmo tempo que o seu naturalismo nos faz recordar essa obra espantosa de Jean Renoir “Passeio ao Campo” / “Le Déjeuner sur l’herbe”, enquanto por outro lado a forma como se instala a voz do narrador surge como uma referência directa a François Truffaut e ao seu amor pelo Cinema e a Literatura.
Por outro lado, a forma como a fotografia de Julien Hirsch navega pelos bosques é de uma beleza absoluta, acompanhando os passeios de Lady Chatterley (Marina Hands) por estes e sentimos o respirar da natureza à passagem da personagem em busca da tranquilidade desejada: nunca o silêncio foi tão belo. Depois a forma como nos é apresentado o Couteiro, rude mas tímido, perante a presença da Lady é de uma sensibilidade profundamente feminina (a que não é alheia Pascale Ferran), repare-se no ritual do chá e na forma como ele evita o olhar dela enquanto arranja uma capoeira e na forma como se lhe dirige.


Depois, como todos sabemos, nasce o desejo e ele é-nos retratado de forma tímida mas carnal, onde o inicial jogo de sombras iluminando a timidez irá dar lugar a esse momento único de libertação do corpo perante a chuva que cai e durante o período que decorre desde o primeiro encontro até à despedida, vamos acompanhando o crescimento de Lady Chatterley, até atingir a maturidade, quando ao regressar das férias sabe que o Couteiro está de partida. Mais uma vez Pascale Ferran nos surpreende na forma como nos oferece a emoção dos sentimentos, porque aqui não vamos estar na perda de um amor, mas sim na ausência física desse mesmo amor, embora ele permaneça para sempre na memória de Lady Chatterley.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

James Ivory – “Quarto Com Vista Sobre a Cidade” / “A Room With a View”


James Ivory – “Quarto Com Vista Sobre a Cidade” / “A Room With a View”
(ING – 1985) – (117 min. / Cor)
Maggie Smith, Helena Bonham Carter, Denholm Elliott, Julian Sands, Simon Callow, Judy Dench, Daniel Day Lewis.

James Ivory, ao longo da sua carreira, sempre se interessou por nos oferecer adaptações literárias no interor do cinema e E. M. Forster foi um dos autores eleitos pelo cineasta norte-americano, surgindo assim com naturalidade “Quarto Com Vista Sobre a Cidade” / “A Room With a View”, “Regresso a Howards End” / “Howards End” e “Maurice”, sendo de referir que a publicação deste último romance só surgiu após a morte do escritor.


Ismail Merchant e Ruth Prawer Jhabvala, respectivamente produtor e argumentista, formaram durante décadas com o cineasta uma verdadeira equipa que trabalhou em conjunto, demonstrando sempre um profundo amor pelas obras literárias que levam ao grande écran. Por outro lado nunca nos poderemos esquecer do contributo fundamental desse director de fotografia, chamado Tony Pierce-Roberts, que deixou sempre, ao longo dos anos, a sua marca naturalista nas películas dirigidas por James Ivory, transformando-se assim  este trio num quarteto perfeito.


“Quarto Com Vista Sobre a Cidade” / “A Room With a View”, que obteve três Oscars, incluindo o de Melhor Argumento Adaptado, leva-nos até à bela cidade de Florença no início do século xx, para conhecermos um grupo de ingleses de visita à cidade e desde logo deparamos com um grupo de turistas bem diferentes, todos hospedados numa pensão, onde ao jantar iremos conhecer os Emerson, pai e filho, com uma visão bem própria sobre o mundo e as pessoas, digamos até progressista, para a época, contrastando com a convencional Charlotte (Maggie Smith) que acompanha a sua prima Lucy (Helena Bonham Carter), uma jovem em busca de um destino e a escritora Eleanor Lavish (Judi Dench), que não esconde de ninguém as suas ideias liberais, de quem Charlotte e Lucy se tornam amigas.


O comportamento dos Emerson em Florença deixa a conservadora Charlotte à beira de um ataque de nervos e quando assiste ao beijo que George Emerson (Julian Sands) dá à prima durante uma viagem pelo campo, fica em estado de choque passando a proteger a prima, ao mesmo tempo que lhe promete guardar segredo do sucedido.
Mas como o destino por vezes se encontra traçado, apesar do desconhecimento dos intervenientes, ao regressarem a Inglaterra, Lucy que se prepara para casar com o “dandy” Cecil Vyse (um fabuloso Daniel Day Lewis), irá descobrir que Mr. Emerson (Denholm Elliott) e o filho George (Julian Sands) alugaram uma casa perto da sua residência, ficando ainda mais perplexa e em perfeito estado de choque, ao saber que foi o seu noivo Cecil que os recomendou ao dono da casa.
Inicia-se assim o verdadeiro calvário de Lucy, que não se sente nada atraída por Cecil, ao mesmo tempo que sente uma afeição cada vez maior por George, embora a esconda de todos


A forma como James Ivory constrói o filme em capítulos, apresentando-nos uns títulos bem sugestivos para cada um, é indicador da sua paixão pelo romance de E. M. Forster e nunca será demais recordar que o próprio escritor gostou tanto das personagens criadas que, muitos anos depois, acrescentou um novo capítulo ao livro, para nos narrar como o amor é maravilhoso.
Já a fotografia de Tony Pierce-Roberts oferece-nos um retrato de Florença perfeito, enquanto o famoso “country side” inglês nos surge em todo o seu esplendor, retratando a paisagem como se tratasse de um quadro de Turner onde as personagens evoluem, algo que alguns anos depois Akira Kurosawa faria com a pintura de Van Gogh na sua obra-prima “Sonhos” / “Dreams”.
A finalizar, nunca é demais referir a excelente direcção de actores de James Ivory, um verdadeiro autor, onde inevitavelmente se destaca Daniel Day Lewis, numa composição inesquecível.
Ao revermos “Quarto Com Vista Sobre a Cidade” / “A Room With a View”, terminamos sempre por descobrir nele a famosa magia do cinema.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Robert Wise / Jerome Robbins / Leonard Bernstein - “Amor Sem Bareiras” / “West Side Story”


Robert Wise / Jerome Robbins / Leonard Bernstein - “Amor Sem Bareiras” / “West Side Story”
(EUA-1961) – (155 min. / Cor)
Natalie Wood, Richard Beymer, George Chakiris, Rita Moreno.


No interior do denominado musical norte-americano é impossível eleger o melhor filme, porque no horizonte existem três musicais sublimes: “Singing in the Rain” / “Serenata à Chuva”, “An American in Paris” / “Um Americano em Paris” e “West Side Story” / “Amor Sem Barreiras”, que hoje iremos abordar.


Tudo começou quando, em 1956, a peça da autoria de R. E. Griffith e H. S. Prince foi estreada nos palcos, sobre uma juventude em luta pela sua identidade e correspondente posse do seu território, no West Side de Nova Iorque, zona pobre da grande metrópole onde as lutas entre gangs juvenis traziam em constante alerta as autoridades e onde os confrontos entre brancos e porto-riquenhos estavam na ordem do dia. Será aliás curioso referir que o argumentista Ernest Lehmann (colaborador de Alfred Hitchcock), inicialmente, pensara em duas comunidades bastante diferentes: judeus e irlandeses. Mas como a realidade era um pouco diferente, as regras do filme foram alteradas e nunca nos poderemos esquecer que este “Amor Sem Barreiras” / “West Side Story” irá beber a sua genialidade à obra imortal de Shakespeare “Romeu e Julieta”, bem conhecida de todos.


A responsabilidade da realização foi dividida entre Robert Wise (experiente realizador, que fizera a tarimba nos Estúdios) e Jerome Robbins (coreografo célebre) e se referimos estes dois nomes como autores, também nunca nos poderemos esquecer da magia da banda sonora como elemento preponderante da película, da autoria do grande Leonard Bernstein, cujas composições se tornariam imortais.


Em West Side lutam dois bandos, os Jets (anglo-saxões) e os Sharks (porto-riquenhos), pelo controlo do território, sendo os seus confrontos frequentes, ao mesmo tempo que o ódio entre eles impede que os membros de ambas as comunidades possam conviver entre si, porque a “guerra” é total. Por essa mesma razão, as autoridades decidem promover um baile entre as duas comunidades, a fim de apaziguar os ânimos e que acabará por despertar a chama da paixão entre dois seres que só pretendem ter um pouco de paz no bairro onde vivem, a bela Maria (Natalie Wood) e Tony (Richard Beymer), que de imediato irão enfrentar a oposição das diversas famílias e amigos, nascendo assim uma bela e irremediável luta pela conquista do amor, contra os preconceitos raciais.


Apesar de os jovens actores terem sido dobrados nas partes musicais, a sua prestação é memorável e Robert Wise e Jerome Robbins oferecem-nos um musical onde as coreografias com os célebres movimentos de grua estão repletas de modernidade, continuando ainda hoje a fascinar o espectador de “West Side Story”.
A luta dos dois jovens de comunidades diferentes para encontrarem a tranquilidade dos dias, irá revelar-se fatal para ambos, já que Tony (Richard Beymer) irá encontrar a morte e por seu lado Maria (Natalie Wood) irá perder o seu irmão Bernardo (espantoso George Chakiris), enquanto Anita (Rita Moreno, essa maravilhosa actriz que nos deixa a todos fascinados) também perderá o homem que ama, porque a tragédia respira desde o início de “Amor Sem Barreiras” sendo uma verdadeira bola de neve, atirada do cimo dessa montanha gelada dos preconceitos humanos.


“West Side Story” permanece, mais de quarenta anos depois, um dos mais fascinantes musicais de sempre, tendo na época recebido diversos Oscars mais que merecidos: melhor realização, fotografia, banda sonora e actores secundários (George Chakiris e Rita Moreno). Vale a pena recordar este maravilhoso musical!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Mike Newell – “O Amor nos Temos de Cólera” / “Love in the Time of Cholera”


Mike Newell – “O Amor nos Temos de Cólera” / “Love in the Time of Cholera”
(EUA - 2007) – (139 min. / Cor)
Javier Bardem, Giovanna Mezzogiorno, Benjamin Bratt, John Leguizamo.

Quando o cinema se lança na adaptação das grandes obras literárias corre, muitas vezes, enormes riscos e são poucos os casos em que o sucesso sorri aos responsáveis pela respectiva adaptação, já para não falar nessas obras-primas da literatura impossíveis de se adaptar ao cinema. No entanto, há casos em que todos são vencedores. E temos como excelente exemplo o caso de “Debaixo do Vulcão” / “Under the Volcano”, romance de Malcolm Lowry, que John Huston levou ao grande écran de forma perfeita.


Como todos sabemos “O Amor nos Tempos de Cólera” é um dos mais belos romances da literatura latino-americana, a par dessa obra intitulada “Cem Anos de Solidão”, ambos escritos por Gabriel Garcia Marquez. E ao falarmos deste grande escritor também não nos podemos esquecer desse outro grande escritor que é Mário Vargas Llosa que, em tempos, viu adaptado ao cinema essa obra maravilhosa intitulada “A Tia Júlia e o Escrevedor”. Adaptação essa que foi um profundo desastre, não devido aos excelentes actores do filme, mas sim ao argumentista(s) que decidiu substituir os argentinos por albaneses, quem leu o livro e viu o filme sabe do que falo (receio de um conflito diplomático, por parte dos Estúdios?!).


E se fomos buscar “A Tia Júlia” foi pelas simples razão de adorarmos esta obra com a mesma intensidade de “O Amor nos Tempos de Cólera”.
Ora passar para o grande écran o romance de Gabriel Garcia Marquez revelou-se uma aventura perigosa, embora Mike Newell seja um cineasta de grande saber, para tal basta recordar “Viagem Sentimental” / “Enchanted April” para estarmos cientes do seu valor, mas a forma como foi talhado o argumento acabou por conduzir o amor de Florentino Ariza (Javier Bardem) e Fermina Urbino (Giovanna Mezzogiorno) a um beco sem saída e não a essa avenida do grande romance por que todos esperávamos.


O romance de Gabriel Garcia Marquez conta-nos a paixão de Florentino Ariza por Fermina Daza, paixão essa que irá sobreviver à passagem do tempo, ao longo de cinquenta anos de uma longa espera, porque o pai de Fermina pretende que a filha se case com um bom partido, que será encontrado na figura do Dr. Juvenal Urbino. Desse casamento irão nascer cinco filhos mas Florentino, apesar da passagem dos anos, nunca irá desistir do seu amor, numa época em que a cólera dominava Cartagena e inundava de dor e morte a cidade.
O escritor colombiano oferece-nos um retrato maravilhoso desta história de amor no seu famoso livro. Por esta razão, se não conhece o livro, veja o filme primeiro e depois leia o romance, no final deste percurso irá certamente meditar em como são tortuosos os caminhos dos argumentos cinematográficos nascidos das grandes obras literárias.


Se a primeira parte do filme, abordando o período da juventude do jovem Florentino Ariza, está perfeita, já o período seguinte nos parece demasiado curto, apostando o argumentista em nos ilustrar apenas as diversas aventuras amorosas do protagonista e não em nos oferecer essa paixão que o irá consumir ao longo de uma vida, dedicando a última bobine da película ao encontro final de Florentino e Fermina, após a morte de Juvenal Urbino (Benjamin Bratt).
No final do filme ficamos com a sensação de que os Estúdios tiveram medo de apostar num filme de três horas onde seria possível rever esta obra espantosa de Gabriel Garcia Marquez em todas as suas vertentes e basta (re)ler o romance para vermos as opções do argumentista.


Mais uma vez Javier Bardem não deixa os seus créditos por mãos alheias e a direcção de actores está perfeita, Mike Newell sabe do assunto, já o argumento revelou-se desastroso devido às opções de Ronald Harwood.
Tentar imaginar este filme tendo como realizador John Huston (1) é o exercício cinéfilo que lhe propomos caro leitor.

(1) - Basta recordar a sua última obra, o espantoso “Gente de Dublin”, a adaptação cinematográfica de “The Dead” de James Joyce.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Douglas Sirk – “O Meu Maior Pecado” / “The Tarnished Angels”


Douglas Sirk – “O Meu Maior Pecado” / “The Tarnished Angels”
(EUA – 1957) – (91 min. - P/B)
Rock Hudson, Robert Stack, Dorothy Malone, Jack Carson.

O nome de Douglas Sirk está, decididamente, ligado a esse género chamado melodrama, do qual foi um dos maiores expoentes e “O Meu Maior Pecado” / “The Tarnished Angels” oferece-nos de novo o trio de protagonistas de “Escrito no Vento” / “Written on the Wind” (já por aqui abordado), tendo desta feita o Mestre optado por um preto e branco soberbo, quase de tirar a respiração e usando o "scope" em toda a sua grandeza. A opção deixou muitos boquiabertos, mas basta vermos o filme numa sala de cinema e em cópia nova para percebermos de imediato a opção de Douglas Sirk.


Iremos assim entrar pela porta grande desse mundo arriscado das acrobacias aéreas e corridas de avião, por sinal muito em voga nos dias de hoje, até com direito a transmissão directa pela televisão.
Roger Shumann (Robert Stack) é um herói da guerra que se tornou num desses pilotos, vivendo no fio da navalha, sempre acompanhado pela sua bela mulher Laverne (Dorothy Malone) e o seu amigo e mecânico de sempre Jiggs (Jack Carson), para além do seu pequeno filho, que vê no pai o maior herói de todos os tempos. Mas aquele trio de aventureiros do ar quase não tem dinheiro para comer, vivendo dos prémios que ganha nas competições, o que demonstra bem como é difícil a sua vida.
E será essa mesma vida que irá despertar o interesse de um jornalista chamado Burke Devlin (Rock Hudson), que pretende escrever a história daquele famoso trio da aviação.


Mal as primeiras imagens surgem no écran, ainda com o genérico a correr, ficamos fascinados pela sensualidade de Dorothy Malone no seu vestido branco a realçar as formas do corpo e não somos só nós que reparamos nela, todos os presentes na pista não tiram os olhos dela e quando a vemos mais tarde a saltar de pára-quedas, com aquele mesmo vestido, fica tudo dito. Mas por detrás daquele corpo esbelto vive uma história de amor eterno, porque como iremos perceber mais tarde, os que morrem permanecerão sempre vivos entre nós, desde que sejam recordados.


Burke Devlin, que tem um problema enorme com a bebida, irá deparar-se com um novo dilema ao acompanhar esse trio da aviação, porque rapidamente se apaixona por aquela mulher bela e sensual que ama perdidamente o seu marido Roger, apesar de este ter decidido casar com ela só depois de saber da sua gravidez. Por esta mesma razão são muitos os que se interrogam sobre quem de facto é pai do pequeno Jack, já que tanto pode ser Roger como o seu mecânico Jiggs, que possui uma paixão bem evidente por Laverne.


Estamos assim decididamente no território do melodrama e Rock Hudson, um dos actores mais brilhantes da constelação Sirk, possui aqui uma das suas mais espantosas interpretações na figura do jornalista alcoólico, apaixonado por Laverne, mas também pela sua profissão, ao ponto de ser despedido da redacção do jornal, quando se recusa a cobrir outro evento, já que o director do jornal acha uma perda de tempo acompanhar a competição de forma intensa, meia-dúzia de linhas para ele é suficiente. Mas quando a tragédia surge, de imediato a primeira página é dedicada ao sucedido, embora numa escrita sem chama, o que levará o despedido Burke Devlin a invadir a redacção do jornal onde outrora trabalhara para demonstrar ao seu superior como se escreve a verdadeira história da família Shumann e nesta sequência espantosa temos um verdadeiro tratado do que deve ser o jornalismo.


Ao vermos “O Meu Maior Pecado” / “The Tarnished Angels”, nunca nos poderemos esquecer que este fabuloso argumento nasceu de uma novela de William Faulkner, que nos oferece a respiração do seu génio em cada fotograma da película. Se ainda não viram o filme, procurem o dvd que já se encontra editado no nosso país e preparem-se para descobrir uma das mais belas obras-primas do melodrama, assinada por esse Mestre do género, chamado Douglas Sirk.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Ridley Scott – “O Corpo da Mentira” / “Body of Lies”


Ridley Scott – “O Corpo da Mentira” / “Body of Lies”
(EUA – 2008) – (128 min. / Cor)
Leonardo Di Caprio, Russell Crowe, Mark Strong, Golshifteh Farahari, Alon Abutbul.

“O Corpo da Mentira” / “Body of Lies”, conta mais uma vez, com Russell Crowe no protagonista, algo que começa a ser habitual, mas aqui quem brilha, sem sombra de dúvida, é Leonardo DiCaprio, na figura de um agente da CIA nesse terreno pantanoso que é o Médio-Oriente.


Estamos perante mais um filme a abordar uma realidade bem presente que são os acontecimentos no Médio-Oriente, mais concretamente nesse eixo em que se trava a guerra no Iraque que, como todos sabemos, se estendeu de forma (in)visível aos países limítrofes.
Descobrimos assim que a América continua a possuir essa tecnologia que possibilita ver todos os movimentos dos seus adversários, mas cada vez mais essa mesma tecnologia se torna ineficaz, como veremos numa das sequências do filme, já que os diversos grupos que combatem as forças americanas sabem como eliminar esses obstáculos, tornando esse olhar digno do big brother perfeitamente cego.


Recebendo sempre ordens através de Washington, Roger Ferris (Leonardo DiCaprio) torna-se um agente isolado nesse território cada vez mais distante do mundo ocidental, ficando mais uma vez provado que só a colaboração com os serviços secretos dos países da região (neste caso concreto a Jordânia), irão possibilitar que ele não marque encontro com a morte. Por outro lado fica bem patente a forma como são aliciados os bombistas para se tornarem mártires. Ao mesmo tempo que se chega à conclusão de que só no terreno se conseguem vitórias, especialmente através de agentes infiltrados, provenientes da região.


“Body of Lies” / “O Corpo da Mentira” perde na comparação com o célebre “Syriana”, que contou com George Clooney no protagonista, já que o argumento do filme de Ridley Scott surge uns furos abaixo da obra de Stephen Gaghan, ao mesmo tempo que enferma dos mesmos problemas a nível de argumento que atingiram essa obra charneira sobre os negócios da Industria Farmacêutica, intitulada “Michael Clayton”: ”a falta de chama” para agarrar o espectador à cadeira, embora Ridley Scott não deixe os créditos por mãos alheias.


A história de Roger Ferris, agente da CIA que se encontra no terreno a tentar apanhar o líder de um grupo terrorista, que prefere o anonimato à visibilidade, já que não assume a autoria dos atentados que comete, ao contrário do que é habitual nesses casos, irá levar o agente da CIA a esse mundo da espionagem em que toda a gente possui dois rostos e interesses diferentes, sendo tudo muito mais complexo do que a simples equação dos agentes duplos, ao mesmo tempo que a sua visão da situação entra em conflito com a dos estrategas de Washington, sentados comodamente nos seus gabinetes. De qualquer forma uma conclusão se tira mais uma vez: quando a miséria e o analfabetismo forem extinguidos desta região do planeta, os grupos terroristas irão desaparecer com ela, porque o recrutamento de elementos para as suas acções irá tornar-se impossível.



“O Corpo da Mentira” / “Body of Lies” surge como mais uma película do britânico Ridley Scott, bastante agradável de se ver, possuindo uma excelente interpretação de Leonardo DiCaprio, sendo mais um filme a debruçar-se sobre a realidade do Médio-Oriente, cada vez mais perturbante à medida que os anos passam e não se encontram soluções duráveis para os problemas que afectam esta região.