segunda-feira, 17 de abril de 2017

Philip Haas – “Paixão em Florença” / “Up At The Villa”


Philip Haas – “Paixão em Florença” / “Up At The Villa”
(Inglaterra/EUA – 2000) – (115 min. / Cor)
Kristin Scott Thomas, Sean Penn, Anne Bancroft, James Fox, Jeremy Davies, Derek Jacobi, Massimo Ghini.

Philip Haas tem tido, ao longo da sua carreira, uma certa apetência pela adaptação ao cinema de obras literárias, geralmente um trabalho efectuado pela sua mulher Belinda Haas, que também é a responsável pela montagem dos seus filmes. Aliás nunca é demais recordar que foi ele que levou ao grande écran o livro de Paul Auster “A Música do Acaso” / “The Music of Change”, tendo também assinado um interessante “Angels and Insects”, com uma extraordinária banda sonora da responsabilidade do Balanescu Quartet e contando com Kristin Scott Thomas na protagonista. E falamos em Kristin porque ela é o belo rosto desta “Paixão em Florença” / “Up At The Villa”.


Estamos na Itália de Mussolini, nessa época enganadora em que um acordo político intitulado “Pacto de Munique” iria oferecer a Hitler o tempo necessário para olear a sua poderosa máquina de guerra e o seu aliado italiano, melhor do que ninguém, sabia o que se passava. E, curiosamente, nesta Florença retratada por Somerset Maugham, com enorme sabedoria, cheia de ingleses “fugidos” da sua pátria a viverem as delícias que o dinheiro pode proporcionar, iremos conhecer os últimos dias de uma existência ao sol de um grupo de personagens que vive nas suas villas uma existência de ócio.
A Princesa San Ferdinando (Anne Bancroft) adora oferecer jantares à comunidade inglesa, para assim poder “conspirar” com as suas intrigas mundanas, ao mesmo tempo que vai contando algumas das suas falsas memórias que alguns, tragicamente, tomam por verdadeiras e decidem imitá-la, como irá fazer Mary Panton (Kristin Scott Thomas), essa viúva sem fortuna a viver numa villa emprestada, que será pedida em casamento por Sir Edgar Swift (James Fox) um homem com o dobro da sua idade, mas com uma enorme fortuna e uma posição social/política na Índia que atrai a jovem viúva.


Mas Somerset Maugham decide na sua novela meter um grão de areia na bem oleada engrenagem sentimental através Rowley Flint (Sean Penn), um americano casado, criado em Itália e que faz da vida um desporto de puro prazer. Ele e a esposa vivem de costas voltadas, levando vidas separadas e distintas. E quando se cruza com Mary num jantar dado pela Princesa San Ferdinando, de imediato se sente atraído pela sua beleza. Porém ela não está virada para aventuras e a arrogância e impertinência do americano não é vista por ela com muitos bons olhos.
Durante esse jantar iremos conhecer um jovem violinista chamado Karl Richter (Jeremy Davies) que toca horrivelmente mal. Porém, ao saírem do restaurante, Mary oferece-lhe 100 liras, enquanto os restantes convivas apenas deixam na bandeja algumas moedas.
Ao regressar a casa, depois de se ter visto livre de Rowley Flint (Sean Penn) e das suas insolências, Mary Panton irá cruzar-se de novo com o jovem violinista, acabando por o convidar para sua casa. Karl Richter é um refugiado político austríaco que fugiu do seu país após a anexação pela Alemanha e Mary fica de tal forma atraída pela sua história que decide ter a tão ambicionada e secreta aventura com ele, antes de dar o seu sim a Sir Edgar Swift (James Fox).


Porém, tudo se irá complicar porque Karl Richter, em vez de partir de Florença como dissera, decide regressar à villa porque se encontra perdidamente apaixonado por Mary, embora também tenha consciência que o seu destino se encontra à beira do abismo, terminando por se suicidar no quarto de Mary, depois de ela lhe confessar que nunca o amou e tudo não passou de uma aventura sem qualquer significado, no fundo ela apenas tivera pena dele e decidira dormir com ele para ser protagonista de uma das falsas memórias da Princesa San Ferdinando E perante uma tragédia desta envergadura só o arrogante Rowley Flint a poderá ajudar a ver-se livre do corpo do amante.


Somerset Maugham foi sempre um profundo conhecedor do universo em que viviam os ingleses no estrangeiro e o retrato que faz deles é perfeito, não faltando esse dandy chamado Lucky Leadbetter (um soberbo Derek Jacobi), ao mesmo tempo que nos oferece um romance em que as regras do jogo serão alteradas, oferecendo-nos um final aberto e indo contra as convenções da época. Por outro lado, tanto Kristin Scott Thomas como Sean Penn estão como peixes na água, devidamente secundados por um conjunto de actores que navegam nas mesmas águas, basta recordar as composições de James Fox e Derek Jacobi e a luz com que iluminam as suas personagens. Já Philip Haas filma com uma paixão e um saber deveras surpreendente, veja-se a forma como ele nos oferece o relato dos acontecimentos que Mary faz a Sir Edgar: não escutamos as palavras, porque simplesmente as imaginamos, embora saibamos a verdade dos factos.


“Paixão em Florença” / “Up At The Villa” é um filme perfeito, no bom sentido da palavra. Na época, após vermos o filme no cinema Mundial, fomos ler dias depois o livro de Somerset Maugham, entretanto editado pela Asa, numa edição em formato de bolso e, após a sua leitura, percebemos que Belinda Haas (esposa do cineasta) é uma espantosa argumentista! Só para terminar convém referir que o produtor executivo desta película foi Sydney Pollack e a sua mão habita em cada fotograma de “Paixão em Florença”. Um filme que merece ser (re)descoberto, tal como o livro de Somerset Maugham, um escritor  que o cinema tem sabido respeitar nas adaptações cinematográficas que tem feito da sua magnifica obra literária.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Mais uma excelente adaptação cinematográfica de um romance de Graham Greene com interpretações memoráveis.
      Beijinhos!

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