sexta-feira, 7 de abril de 2017

Lawrence Durrell - "Tunc"


Lawrence Durrell
“Tunc”
Ulisseia, Pag. 332

A obre literária de Lawrence Durrell é composta por ciclos em que o mais famoso é “O Quarteto de Alexandria”, constituído por quatro volumes, depois temos o célebre “Quinteto de Avinhão”, que compreende cinco volumes, já as aventuras e desventuras de Antrobus, esse maravilhoso diplomata britânico, teve a Arte e o Humor de Lawrence Durrell em três inesquecíveis volumes, também com edição nacional, mas esquecidos nas prateleiras das livrarias ou guardados nos armazéns, o ciclo da denominada literatura de viagens, composto por vários volumes e do qual recentemente a “Relógio d’Água” editou “As Ilhas Gregas” e por fim o ciclo “The Revolte of Aphrodite” / “A Revolta de Afrodite”, composto por dois volumes, “Tunc” e “Nunquam”, que irão surgir no universo literário após o sucesso mundial de “O Quarteto de Alexandria” e que irão ser muito mal recebidos na época, tanto pela crítica como pelo público.

“Tunc”, o primeiro volume, viu a luz do dia em 1968 e “Nunquam” em 1970 e se o primeiro teve edição em Portugal através da Ulisseia, já “Nunquam” não teve tanta sorte, segundo me é dado saber, e assim durante anos procurei adquirir o segundo volume deste ciclo, sempre que me ausentava deste país à beira-mar plantado e finalmente, no belo mês de Março deste ano, encontrei em Paris na “Shakespeare & Co”, a edição de “Nunquam” da Faber & Faber, no antiquário, a um preço nada convidativo, mas que a Princesa me ofereceu, apesar de ser ela a aniversariante.
“Tunc” possui um estilo literário, onde se reconhece de imediato a marca do escritor, mas que se aproxima muito do seu “O Livro Negro de Lawrence Durrell” (que Lawrence enviou antes de publicar a Henry Miller). Mordaz e satírico, mas também romântico e enigmático, sempre crítico desta sociedade em que vivemos, conduzindo o leitor ao desejo de descobrir a totalidade da obra do escritor.

Ao acompanharmos a história de Felix Charlock (os nomes das personagens, como sempre, são um “mimo”) e o seu trabalho na poderosa multinacional Merlins, denominada simplesmente como “A Firma”, encontramos implícita uma crítica bem mordaz a esses finais de sessenta do século xx, não sendo indiferente ao escritor a memória recente de Maio de 68 em França, recorde-se aliás que Lawrence Durrell vivia na Provence. 
Felix Charlock, ao ingressar na poderosa Firma que estendia os seus tentáculos através das mais diversas zonas do globo, apaixona-se por Benedicta e afasta-se da sua amante grega Iolanthe, que mais tarde irá reencontrar como estrela de Hollywood. Mas o poder da Firma irá abater-se sobre ele e não será ele a usá-la em proveito próprio mas sim ela a controlar todos os seus movimentos e desejos.
Se ainda não leu “Tunc” e gosta de Lawrence Durrell, irá certamente ter uma oportunidade de encontrar o livro na Feira do Livro, que se inicia no dia 1 de Junho, já quanto a “Nunquam”(*) peça aos editores portugueses que se lembrem dele, e não sonhem só com Harry Potter, Dan Brown & Co.. Na verdade, Lawrence Durrell merece ter a sua obra publicada neste cantinho europeu, com acordo ou sem acordo ortográfico.


“Ela dirigiu-me um olhar de fria apreciação, retribuindo a minha saudação com um breve aceno. Tinha um rosto frio, belo, emoldurado por lustrosa cabeleira negra, ligeiramente enrolado na nuca, A brancura da testa alta conferia-lhe certa serenidade; porém, quando cerrava os olhos, o que fazia ao desviar a cabeça de uma pessoa para outra, podia adivinhar-se-lhe a máscara mortuária. Os lábios eram delgados e formoso, mas quase toda a sua expressão denotava desdém e indiferença. Era nessa altura tão imperiosa como a filha de um indivíduo rico se atreve a ser: facto que me fez experimentar em relação a ela uma quase antipatia que a tornou interessante a meus olhos.”

Lawrence Durrell
“Tunc”
Pag. 117/118


Nota: Poderemos também colocar em ciclos a poesia, o teatro, os ensaios, a correspondência, enfim a totalidade da obra genial de Lawrence Durrell, que é urgente editar, porque mesmo em Inglaterra ou França é muito difícil de encontrar, (pelo menos os livros que me faltam J ).

2 comentários:

  1. Conheço o Quarteto, mas as atribulações diplomáticas são os meus favoritos!

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    1. Sugiro a leitura de "Um Sorriso nos Olhos da Alma"! :)
      Bom fim-de-semana!

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