quarta-feira, 5 de abril de 2017

François Truffaut – “Uma Bela Rapariga” / “Une belle fille comme moi”


François Truffaut – “Uma Bela Rapariga” / “Une belle fille comme moi”
(França – 1972) – (98 min. / Cor)
Bernardette Lafont, Claude Brasseur, Charles Denner, Guy Marchand, André Dussolier, Anne Kreis.

Um dos nomes mais emblemáticos da Nouvelle Vague foi François Truffaut, que amou o cinema desde tenra idade e que, durante a sua passagem pelos Cahiers du Cinema, foi um dos nomes mais contundentes da crítica francesa, sendo um dos responsáveis pela criação e estudo do cinema de autor. Entrou pela porta grande do Festival de Cannes, nesse ano já longínquo em que ganhou a Palma de Ouro com a sua primeira longa-metragem “Os 400 Golpes” / “Les quatre cent coups”.


Desde então o cineasta nunca mais parou de filmar, encontrando o sucesso, mas por vezes também o insucesso comercial, abordando todos os géneros, embora nunca tenha mudado o rumo do caminho traçado, aliás o seu amor pelos policiais ficou bem patente ao longo da sua carreira, despedindo-se de todos nós com essa obra maravilhosa intitulada “Finalmente Domingo” / “Vivement Dimanche”, em que mais uma vez o brilho das interpretações se iluminava com a presença de Fanny Ardant, na época sua esposa e Jean-Louis Trintgnant. E foram muitas as mulheres/actrizes, e não só, que passaram pelo cinema de François Truffaut. Catherine Deneuve, Jeanne Moreau, Isabelle Adjani (uma descoberta sua), Claude Jade, Jacqueline Bisset, Fanny Ardant e Bernardette Lafont, essa actriz que surpreendeu tudo e todos no filme de Jean Eustache “La Maman et La Putain” / “A Mãe e a Puta”, um dos grandes marcos da Nouvelle Vague.


Em 1972 François Truffaut, que sempre gostou de comédias, recorde-se que era um admirador de Ernst Lubitsch e já tinha trabalhado com Bernardette Lafont numa curta-metragem de início de carreira, intitulada “Os Putos” / “Les Mistons” (uma história divertida em que cinco miúdos espiam os encontros amorosos de dois jovens, ficando para sempre na memória de todos os que viram a película, as viagens de bicicleta que ela, então de cabelo curto, faz ao longo do filme de um naturalismo e sensualidade maravilhosos), decide oferecer à actriz o principal papel na deliciosa e pouco conhecida comédia “Uma Bela Rapariga” / “Une belle fille comme moi”, em que nos conta em “flash-back” a vida de uma jovem que se encontra presa.


Entramos assim neste filme por um dos universos mais queridos do cineasta: os livros. Uma jovem entra numa livraria em busca de um livro do sociólogo Stanislas Previne (André Dussolier) e ficamos a saber que esse livro, que ele estava a escrever sobre as prisões e as mulheres que cumpriam pena por terem cometido assassinatos, nunca chegara a ver a luz do dia, apesar de ter sido anunciado em tempos pela editora. Entramos na vida de Camille Bliss (Bernardette Lafont) através desse inquérito que Stanislas leva a cabo na prisão e das diversas entrevistas que lhe vai fazendo, registando-as num gravador e em que iremos conhecer a história mirabolante da sua vida desde criança. Vamos assim encontrar o território do burlesco por excelência, em que a história de Camille Bliss se transforma na própria razão de viver do sociólogo que se irá apaixonar por ela, tudo fazendo para provar a sua inocência.


Essa figura frágil e apaixonante de Stanislas irá conseguir provar que Camille Bliss “está inocente”, graças a uma criança que faz filmes amadores e que registou o momento fatídico do "crime" com a sua câmara (uma espécie de alter-ego do cineasta), conseguindo desta forma provar junto da justiça a inocência da jovem por quem entretanto se apaixonou. Mas Camille é uma mulher sedutora e experiente, que sempre se soube deixar seduzir de acordo com as conveniências, usando muitas vezes os homens a seu belo prazer, apesar de muitas vezes ter sido também ela enganada por eles. E será precisamente isso que irá acontecer ao sociólogo Stanislas Previne, que irá ser completamente “trucidado” por essa bela rapariga chamada Camille Bliss.

François Truffaut e Bernardette Lafont
durante a rodagem do filme.

“Une Belle Fille Comme Moi” permanece um dos filmes mais esquecidos do cineasta francês, o que se revela uma enorme injustiça. Por outro lado, a interpretação de Bernardette Lafont é um verdadeiro achado, surpreendendo tudo e todos com a sua truculência e saber. Ela é o filme! Numa altura em que são poucos os cineastas que conseguem alcançar a meta no género, convidamos o leitor a ver este filme maravilhoso, intitulado “Uma Bela Rapariga” / “Une Belle Fille Comme Moi” e descobrir um dos segredos mais bem guardados de François Truffaut no reino da comédia!

Nota: O filme está disponível em dvd, numa cópia aceitável.

4 comentários:

  1. A rever, rapidamente, um destes dias!

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  2. O seu poste fez-me questionar qual seria o filme de que eu mais gosto, de Truffaut. Não hesitei: "A Mulher do Lado", de 1981.
    Desejo-lhe um bom dia!

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    Respostas
    1. "A Mulher do Lado" também é um dos meus favoritos, recordo-me que quando o vi no Quarteto fiquei maravilhado, na época a Fanny Ardant era uma perfeita desconhecida para mim. Hoje em dia revejo o filme através do dvd e só uma vez o vi na Cinemateca aquando do ciclo dedicado ao Truffaut e lá consegui um autógrafo da senhora:)
      Votos de uma boa Tarde!

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