quinta-feira, 6 de abril de 2017

Eric Rohmer – “Paulina na Praia” / “Paulina à la plage”


Eric Rohmer – “Paulina na Praia” / “Pauline à la plage”
(França-1982) – (92 min. / Cor)
Amanda Langlet, Arielle Dombasle, Pascal Gregory, Feodor Atkine, Simon de La Brose.

Quando alguém se interroga entre a diferença entre realizador e cineasta, a resposta só pode ser dada oferecendo um exemplo de um cineasta sinónimo de autor, sendo o seu nome Eric Rohmer. Falso nome esse, já que o de baptismo é Maurice Schérer e com ele assinou os primeiros artigos de cinema. A Sétima Arte foi desde cedo a sua paixão e como muitas vezes acontece nestes casos de amor, escondeu-a dos pais, mesmo depois de se encontrar atrás da câmara dirigindo a sua primeira curta-metragem, já adoptando o nome que o celebrizou… Eric Rohmer.


Foi na célebre revista “Cahiers du Cinéma” de André Bazin, pai de toda uma crítica de cinema, que Eric Rohmer começou a dar nas vistas com o seu trabalho teórico, já reunido em livro, “Le gout de la beauté”, onde um dos mais belos escritos se intitula “O Celulóide e o Mármore”, depois a sua tese sobre F. W. Murnau, “L’organisation de l’espace dans le «Faust» de Murnau” e por fim todo o seu trabalho de argumentista, retirando do quotidiano os mais triviais diálogos para os transformar em perfeitas obras-primas literárias e onde muitas vezes expôs as suas teses filosóficas através da boca dos diversos personagens, como sucede em “A Minha Noite em Casa de Maud” / “Ma nuit chez Maud”, um dos seus maiores sucessos de público.


Desde o início Eric Rohmer criou uma certa estrutura literária, criando os seus filmes como capítulos de um mesmo livro embora todos eles autónomos, ao contrário de François Truffaut e da sua personagem Antoine Doinel, que vamos encontrando em diversas películas, surgindo até em filmes de outros cineastas como Jean-Luc Godard ou Jean Eustache. Nascem assim naturalmente as séries “Seis Contos Morais” / “Six contes moraux”, “Comédias e Provérbios” / “Comédies et proverbes” e “Contos das Quatro Estações” / “Contes des quatre saisons”, sendo todos eles um maravilhoso retrato da escrita cinematográfica de Eric Rohmer. Mas se pensam que ele ficou prisioneiro desta fórmula estão profundamente enganados, porque o cineasta como artesão e livre-pensador criou entre este conjunto de filmes obras tão diferentes como “A Marquesa D’O” / “Die Marquise von O” onde tem uma aparição, “O Agente Triplo” / “Triple Agent” onde a presença da palavra invade o plateau de forma secreta e “A Inglesa e o Duque” / “L’Anglaise et le Duc” ou o seu derradeiro filme “Os Amores de Astrea e Celadon” / “Les amours d’Astrée et de Céladon”, demonstrando que Eric Rohmer foi sempre um jovem cineasta, sempre a surpreender tudo e todos.


Chegamos assim ao que nos interessa: a bela “Paulina na Praia” / “Pauline à la plage”, onde mais uma vez Rohmer usa as palavras como o jogo predilecto dos adultos. Estamos na costa francesa e Marion (Ariel Dombasle) chega à casa da praia acompanhada pela sobrinha Pauline (Amanda Langlet) e logo na primeira ida até ao areal encontram um amigo, Pierre (Pascal Gregory), que irá ao longo da película tentar demonstrar os seu afecto por Marion, mas esta está muito mais interessada em Henri (Feodor Atkine), conhecido de Pierre. Nasce assim um jogo de sedução por um lado, ao mesmo tempo que as intrigas nascem naturalmente por parte de quem vive a rejeição. Perante este mundo tão próprio dos adultos, Pauline encontra refúgio junto de Sylvain (Simon de La Brosse), um jovem da sua idade que, como ela, se encontra de férias e será envolvido no jogo de traição e abandono que irá nascer.


Eric Rohmer irá colocar frente a frente, através de diálogos à primeira vista simples mas na realidade muito trabalhados, fruto do excelente escritor do quotidiano que ele é, dois mundos perfeitamente opostos, sendo o dos adultos o mais perverso, frágil e vingativo, composto por Henri, Marion e Pierre, perante um universo ainda inocente e virgem de Pauline e Sylvain que, a pouco e pouco, será arrastado para a teia da aranha criada por Henri, um verdadeiro manipulador de sentimentos, representando o sedutor perfeito, usando todos em benefício próprio, até ao momento em que se depara perante o olhar de Pauline, para descobrir como ela entendeu perfeitamente o seu jogo amoroso tão bem gerido no espaço e no tempo, conseguindo partir para novas aventuras embora tenha sido desmascarado pela jovem Pauline.

Eric Rohmer com alguns dos protagonistas,
durante a rodagem de "Paulina na Praia".

“Paulina na Praia” é um jogo de sedução entre adultos, em que as personagens secundárias Louisette e Sylvain são sacrificados como cordeiros, aceitando de bom grado o seu estatuto. Já Marion. a sedutora seduzida, joga com os sentimentos, vendo-se ao espelho como uma vencedora, quando é precisamente a eterna enganada e ao descobrir a verdade nua e crua, aceita-a com tranquilidade porque a vida é feita de jogos em que umas vezes se ganha e outras se perde. Quanto a Pierre, a sua visão de salvador da “rainha em perigo” levou-o a um beco sem saída, porque mulher traída não gosta de receber a notícia através de terceiros, muito menos quando eles estão interessados nela.
Assim acabamos por descobrir neste mundo tão conhecido de todos nós, os corpos de Pauline e Sylvain nos seus jogos de adolescentes, a verem o seu pequeno universo ser invadido pela moralidade perversa da mente humana, perante a forma como Henri age com todos, servindo-se deles à medida das suas necessidades, como perfeito sedutor. E nunca, como aqui, essa figura foi tão bem retratada no cinema de Eric Rohmer.


O terceiro filme da série “Comédias e Provérbios” é uma daquelas “pequenas” obras-primas, demonstrativa da forma como o Cinema trabalha as personagens, usando a linguagem quotidiana para melhor cativar o espectador, ao mesmo tempo que no seu interior possui premissas muito mais profundas do que à primeira vista se poderá pensar. A Magia do cinema de Eric Rohmer reside precisamente na Arte do diálogo, por vezes palavroso é certo, mas tão belo que nos apetece chamá-lo de Literatura do Quotidiano, tal a forma como se expressa, surgindo mais tarde traduzido em imagens de uma candura e beleza perfeitamente geniais. “Paulina na Praia” representa um dos pontos altos da Arte de Eric Rohmer, sem dúvida alguma um dos nomes incontornáveis da História do cinema francês.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Um dos meus "Rohmer" favoritos, a par de "A Minha noite em casa de Maud".
      Beijinhos!

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  2. Confesso que não conheço.
    E não será fácil encontrar por aqui.
    Aquele abraço, bfds

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    1. Acredito que sim, o mesmo sucede por aqui, com o cinema Asiático. Só chega a este "cantinho" quando transporta consigo um sucesso internacional.
      Um abraço e bom fim-de-semana!

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