quarta-feira, 19 de abril de 2017

Agnès Varda – “Os Respigadores e a Respigadora” / “Les glaneurs et la glaneuse”


Agnès Varda – “Os Respigadores e a Respigadora” / “Les glaneurs et la glaneuse”
(França – 2000) – (82 min. / Cor)
Agnès Varda, Bodan Litnarsky, Isabelle Olivier.

Agnès Varda nasceu em Bruxelas a 30 de Maio de 1928 e irá tornar-se num dos nomes mais interessantes da “nouvelle vague”, dedicando-se de alma e coração ao documentarismo, embora esporadicamente também nos ofereça todo o seu talento na vertente de ficção, como ficou bem patente em “Cleo de 5 à 7” / “Duas Horas na Vida de Uma Mulher” e em “Sans toi ni loi” / “Sem Eira nem Beira”, onde Sandrine Bonnaire nos oferece uma das mais espantosas interpretações da sua carreira.


A esposa de Jacques Demy nunca nos deixou de surpreender, fosse o formato escolhido a curta ou longa-metragem e no novo milénio irá mais uma vez abordar a vertente documental com “Os Respigadores e a Respigadora” / “ Les Glaneurs et la glaneuse” optando desta feita pelo digital.


As colheitas da época já terminaram no campo, mas ainda há muito por colher, surgem então essas gentes que se dedicam ao trabalho de apanhar os frutos deixados para trás nas colheitas, esses frutos abandonados, que irão servir para seu alimento.
A cineasta irá acompanhá-los nessa derradeira e estranha colheita, onde tudo é aproveitado, iniciando a história desses habitantes do planeta que aproveitam o que outros consideram desperdício.


Estamos em França e lentamente vamos conhecendo, através da História, a existência e vivência dos habitantes deste microcosmos, denominados os respigadores, que nos irão oferecer o seu percurso através dos tempos.
Rapidamente passamos da província para as grandes cidades, terminando a cineasta a sua caminhada pelas ruas de Paris, onde iremos conhecer os grupos que vivem desta actividade. Neles descobrimos pessoas sem-abrigo e desempregados, mas também jovens que optaram por esta forma de subsistência recusando a integração numa sociedade de consumo, que desprezam, preferindo viver como “out-siders”, procurando nos mercados, após o fecho, os restos deixados pelos vendedores, ou nos caixotes do lixo o desperdício de uns, que se transforma na subsistência de outros.

Agnès Varda

Sempre com um olhar cristalino, a cineasta consegue prender o espectador, oferecendo a sua visão, ao mesmo tempo que opta pela força das imagens e o discurso directo dos intervenientes/entrevistados, em detrimento do discurso político, dando viva voz aos protagonistas.
“Os Respigadores e a Respigadora” de Agnès Varda, que em dado momento do filme encontramos a apanhar figos maduros e a comê-los, após terem sido deixados ao abandono, oferece-nos uma visão contemporânea de um mundo que habita nas margens da sociedade, esquecido e ignorado por aqueles que tudo possuem.

Mais uma vez, Agnès Varda revela ser detentora de uma Arte condutora do documentarismo ao seu ponto mais alto, contribuindo com o seu cinema para todos repensarmos nas desigualdades do mundo em que vivemos.

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