sexta-feira, 17 de março de 2017

Vincent Gallo – “Buffalo 66”


Vincent Gallo – “Buffalo 66”
(EUA – 1998) – (110 min. / Cor)
Angelica Huston, Christina Ricci, Vincent Gallo, Ben Gazarra, Mickey Rourke, Rosanna Arquette.



Vincent Gallo fez parte de bandas de rock como “The Plastics” e “Gray”, na companhia do famoso pintor Jean-Michel Basquiat (que colaborou com Andy Wahrol) e cuja vida foi retratada no cinema por outro pintor, Julian Schnabel a dar, na época, os primeiros passos na realização.
Gallo possui uma das maiores colecções de discos de rock (progressivo) e a música desde sempre fez parte do seu universo. Filho de emigrantes italianos oriundos da Sicília, nunca conseguiu manter uma boa relação familiar, tendo sido expulso de casa pelo pai aos 16 anos.


Depois de viver em Nova Iorque e de frequentar os meios sucessores ao movimento Underground dos anos sessenta, viajou pela Europa, tendo também experimentado a pintura. Após o regresso do seu périplo europeu, intitulou-se Prince Vince no meio musical e durante algum tempo foi modelo da casa “Calvin Klein”, onde a sua figura deu nas vistas, daí ter partido para a representação.
Poucos se lembram dele em “Goodfellas” / “Tudo Bons Rapazes” de Martin Scorsese, no início da década de noventa, século xx, embora a sua estreia tenha sido em 1986, numa curta-metragem intitulada “The Gunlover”, onde ele surge como o “homem dos sete instrumentos” assinando a realização, a produção, a música, a fotografia e ainda tendo tempo para ser o protagonista.


Certamente o célebre narcisismo de que acusam tanto Vincent Gallo está bem patente logo na sua estreia no cinema, tendo tido o seu ponto alto em “The Brown Bunny”, que o diga a Chloe Sevigny. Mas antes de falarmos de “Buffalo 66” só mais duas pequenas notas: a primeira para referir que Portugal foi um dos países por onde passou na sua adolescência (a fuga-passeio pela Europa), tendo feito parte, anos depois, do elenco de “A Casa dos Espíritos” / “The House of the Spirits” rodado em 1993 no nosso país pelo cineasta dinamarquês Billie August e dois anos antes (1991) Gallo foi o Mário de “A Idade Maior” de Teresa Vilaverde. Como não há duas sem três, procurem ver a sua interpretação ao lado de Johnny Depp em “Arizona Dream” o filme que Emir Kusturica realizou na América.


Chegamos assim à história de Billy Brown, o protagonista de “Buffalo 66”, ou seja uma dúzia de anos depois de experimentar o cinema em todas as suas facetas, Vincent Gallo regressa como actor e realizador, sendo também o autor da história em que se baseia o argumento. Porém o que nos interessa para já é a forma como ele trabalha o lançamento do filme, através de um “trailer” fabuloso (uma verdadeira obra-prima), composto apenas por imagens (montagem rítmica), a acompanhar o tema instrumental de abertura de uma canção dos “Yes”, recorde-se que o ídolo musical de Vincent Gallo é o baixista do grupo, o célebre Chris Squire (falecido em 2015) e na banda sonora do filme, para além da música assinada por Vincent, temos os King Crimson (do álbum “In the Court Of  Crimson King”) ao lado dos Yes.


A história de Billy Brown no respeitante à relação com os pais tem bastantes traços autobiográficos. No início do filme, vemo-lo a sair da prisão e pouco sabemos dele, embora o seu aspecto posterior seja um excelente cartão de visita. Os anos passados atrás das grades estão bem patentes e como a sombra paternal paira sobre ele e um homem sem mulher não tem lugar na sociedade, decide raptar Layla (Christina Ricci), uma loura que não esconde as suas formas (pouco elegantes) por debaixo da sua roupa de “Barbie”, ameaçando-a inicialmente, para depois a pouco e pouco se aperceber da sua docilidade e consentimento, ela tinha-se apaixonado pelas suas mentiras e decidira acompanhá-lo na árdua tarefa de visitar os pais.


A forma como Vincent Gallo filma possui todos os traços de certo maneirismo do “cinema indie”, atingindo o seu expoente máximo em dois momentos: a sequência no bowling e depois a conversa tida com os pais, enquanto se encontram sentados à mesa, “sabotando” todas as regras da linguagem cinematográfica.
O momento alto da película situa-se precisamente nesse confronto/duelo com os pais, onde os silêncios e os olhares são muito bem geridos, interpretados por Ben Gazzara e Anjelica Huston e aqui a memória de John Cassavetes surge no écran com os diálogos surgidos à flor da pele.

“Buffalo 66” revelava-nos não só o excelente actor que todos já conheciam, mas também oferecia boas indicações sobre as suas potencialidades como realizador, tornando-se um “cult-movie” para muitos, mas Vincent Gallo decidiu deitar por terra as esperanças depositadas nele quando realizou “The Brown Bunny”. 

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