quarta-feira, 8 de março de 2017

Roman Polanski – “Chinatown”


Roman Polanski – “Chinatown”
(EUA – 1974) – (130 min. / Cor)
Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Perry Lopez, Diane Ladd, Darrell Zweleng, Nandu Hinds.



A década de setenta do século XX revelou-se para Roman Polanski como a mais produtiva, mas também a mais tenebrosa da sua longa carreira, logo em 1971 irá realizar para a “Playboy Enterprises” de Hugh Hefner, célebre patrão do Império “Playboy”, a adaptação ao cinema de “Macbeth” de William Shakespeare para um ano depois, em 1972, aceitar o convite do produtor Carlo Ponti para filmar uma história de seduções na sua própria residência em Itália, nascendo “What?” com a maravilhosa Sydne Rome na protagonista. Embora um pouco esquecidas, estas duas películas bem merecem ser reavaliadas no contexto da filmografia do cineasta. Em 1974 surge esse mais-que-perfeito “film noir” intitulado “Chinatown”, um dos seus maiores êxitos de sempre.


Dois anos depois, em 1976, realiza em França “O Inquilino” / “The Tenant”, sendo ele próprio o protagonista deste drama kafkiano, ao lado de Isabelle Adjani. Mas no ano seguinte, nesse malfadado dia 10 de Março, o cineasta irá ter relações sexuais com uma modelo que pensa ser maior de idade, desconhecendo que ela apenas tem treze anos. Ao saber-se da história, os tablóides não largam o assunto e Roman Polanski é condenado, aceitando cumprir a pena. No entanto os jornais não o esquecem e quando Polanski sai da prisão, o Juiz que o condenou decide rever o processo, para lhe aplicar uma pena ainda mais pesada, que poderia originar anos de encarceramento, pretendendo fazer do célebre cineasta um exemplo. Ao saber disso, Roman Polanski não perde tempo e apanha o primeiro avião para Paris, onde passa a residir e a trabalhar. No ano de 1979 realiza uma nova obra-prima intitulada “Tess”, baseada na obra de Thomas Hardy, onde irá dar a conhecer ao mundo o talento e a beleza de Nastassja Kinski. Como vemos, os anos setenta foram cinematograficamente profundamente profícuos, mas também um verdadeiro pesadelo para Roman Polanski. Pesadelo que por vezes renasce dos escombros da memória da justiça, para se tornar realidade.


Robert Evans, o célebre e poderoso patrão da Paramount, decide encomendar ao argumentista Robert Towne um argumento de um policial, onde se faça um pouco a memória do chamado “film noir” e o célebre argumentista, sempre genial, cria a personagem do detective J. J. Gites que, em certos aspectos, nos faz recordar o famoso Sam Spade, embora com contornos um pouco diferentes. Roman Polanski, após ter lido o argumento, aceita realizar o filme, mas durante a preparação da película o final será por diversas vezes alterado. 
Iremos assim mergulhar de forma perfeita nesses anos trinta, do século XX, em Hollywood, onde o ex-polícia J. J. Gites (Jack Nicholson) se encarrega dos habituais trabalhos “domésticos”, com bastante sucesso e eficácia, como iremos ver logo no início de “Chinatown”, ao acompanharmos a reacção do marido traído, ao ver as fotos tiradas pelos detectives à sua mulher, na companhia do amante. 


Após a resolução de mais um caso, uma nova cliente surge, solicitando os serviços de J. J. Gites e dos seus associados, para seguirem o marido que possui uma amante, desejando ela saber a identidade da jovem. Mas, ao contrário do que sucedia habitualmente, a personagem em questão é importante: Holly Mulwray é o homem forte da Companhia das Águas de Los Angeles, que passara a ser estatal, vivendo-se nesse preciso momento uma profunda seca em toda a região. J. J. Gites (Jack Nicholson) aceita o trabalho e, para grande surpresa sua, percebe que o respeitável director passa a maior parte do tempo a percorrer o leito seco do rio e na orla costeira a olhar o mar. Até chegar o dia em que é fotografado a passear num lago, remando um barco, na companhia de uma jovem. J. J. Gites fica satisfeito com os resultados da investigação que são publicados na Imprensa, provocando o escândalo. 
Mas o pior ainda estaria para vir quando o detective, ao chegar ao escritório, irá encontrar Evelyn Mulwray (Faye Dunaway) a legitima esposa de Holly Mulwray, percebendo de imediato que foi apanhado numa cilada, cujos objectivos lhe são completamente estranhos. 
Decide então investigar por conta própria, tentando perceber o que procurava Hollis Mulwray (Darrell Zwerleng); porém, quando este aparece morto e J. J. Gites escapa por pouco à morte, percebe que se encontra perante um caso de dimensões inimagináveis. 


“Chinatown” revela-nos um Jack Nicholson no seu apogeu, demonstrando a sua personagem o habitual cinismo, tão característico, das personagens criadas por Raymond Chandler, ao perceber como a corrupção grassa a olhos vistos por aquela região. E quando conhece Noah Cross (um John Huston fabuloso), pai de Evelyn (Faye Dunaway), que se revela um tenebroso “Patriarca”, começa a entender a verdadeira dimensão do caso. 
Apaixonado pela sua cliente e acossado pelo Tenente Escobar (Perry Lopez), seu antigo colega na polícia em Chinatown, J. J. Gites irá mergulhar num drama que deixará o espectador estupefacto ou não se tratasse de uma das mais belas homenagens ao “film noir”, levadas acabo pela genialidade de Roman Polanski, que nos vai narrando os factos, através do olhar de J. J. Gites e da extraordinária interpretação do cineasta John Huston, o responsável pela célebre película “O Falcão de Malta” / “The Maltese Falcon”, com Humphrey Bogart a interpretar a figura do célebre detective Sam Spade, criado pelo escritor Dashiell Hammett.


Tanto Jack Nicholson como o argumentista Robert Towne, ficaram de tal maneira ligados à personagem do detective deste magnifico filme, simplesmente intitulado “Chinatown”, que decidiram retomá-lo no ano de 1990, na película “Two Jakes” / “O Caso da Mulher Infiel”, tendo Jack Nicholson assumido as funções de realizador a par da interpretação, vestindo mais uma vez a pele de J. J. Gites. 
“Chinatown”, de Roman Polanski, apresenta-se como a viagem perfeita do cineasta polaco no interior do “film noir”, dando assim origem a uma das obras-primas da sua filmografia.

Sem comentários:

Enviar um comentário