quarta-feira, 15 de março de 2017

Richard Eyre – “Diário de um Escândalo” / “Notes on a Scandal”


Richard Eyre – “Diário de um Escândalo” / “Notes on a Scandal”
(ING – 2006) – (92 min. / Cor)
Cate Blanchett, Judi Dench, Bill Nighy, Andrew Simpson, Tom Georgeson.

Sempre que olhamos o cinema inglês, somos forçados a reconhecer como o nosso amigo François Truffaut se enganou ao escrever que os ingleses e o cinema não têm nada em comum. A frase ficou célebre, tal como muitas outras assinadas em estilo de provocação por Godard, Rivette e Truffaut, cineastas e críticos que admiramos e dos quais somos leitores e espectadores já lá vão muitos anos. Ou seja, a verdade dos factos é outra. Como todos sabemos, foi um húngaro, chamado Alexander Korda, a personagem mais influente do cinema inglês, retirando-o do marasmo em que tinha caído. Mais tarde, com o surgimento das novas vagas europeias, o cinema britânico assinou um novo olhar ,nascendo o “Free Cinema”, tanto no aspecto prático como teórico, basta recordar a actividade de Lindsay Anderson, Tony Richardson, Karel Reisz, entre outros, mas depois, como por vezes sucede, as águas da criatividade estagnaram e aqui damos a palavra ao cineasta Richard Eyre, “olhando a produção de 70, a miséria da produção cinematográfica londrina atirou para a televisão todos os autores que não se divertem a filmar com filtros publicitários ou não se satisfazem com vídeos de grupos rock”. Recorde-se que na época o “video-clip” estava em efervescência, requisitando e lançando muitos nomes.


Ora será precisamente através da televisão, onde muitos cineastas se refugiaram, que irá despontar nos anos oitenta uma nova geração, sendo a BBC o local ideal para se desenvolver uma nova rede cinematográfica, através dos seus famosos filmes e das adaptações teatrais, com os famosos tele-dramáticos. Quando em 2 de Novembro de 1982 é lançado o “Channel Four”, de imediato surge no panorama cinematográfico britânico uma nova cadeia de produção, de onde irão surgir cineastas como Alan Clarke, Bill Forsyth, Peter Greenaway, Karl Francis e Richard Eyre, sendo precisamente este último que nos interessa nesta crónica, já que ele se estreou na actividade precisamente na televisão, com uma adaptação do “Julius Caesar” de William Shakespeare, partindo depois para o cinema, embora tenha mantido sempre uma estreita ligação ao teatro, não só nas adaptações que tem dirigido para o pequeno écran, como nas encenações que tem levado à cena, muito em especial a obra desse grande dramaturgo chamado David Hare.
Será com a feitura de “A Verdade dos Factos” / “The Ploughman’s Lunch” que Richard Eyre irá dar nas vistas, partindo de um argumento elaborado pelo famoso escritor Ian McEwan e realizado durante a Guerra das Malvinas, focando cinicamente a politica e os médias e a ambição de um homem, aqui interpretado por Jonathan Price, soberbo na contenção, aliás os insuspeitos Cahiers du Cinema referiram-se desta forma ao filme “nos antípodas do maneirismo publicitário e das descrições sociais herdadas do Free Cinema, o filme é inteligentemente contemporâneo”. “A Verdade dos Factos” revela-nos um grande cineasta, que no entanto nunca iria abandonar a televisão e o teatro, a sua grande paixão.


Chegamos assim a “Diário de Um Escândalo” / “Notes of a Scandal”, que nos oferece um duelo de interpretação entre Judi Dench e Cate Blanchett, digno de se acompanhar fotograma a fotograma.
Mais uma vez Judi Dench demonstra a grande actriz que é, sendo esta a terceira vez que Richard Eyre a dirige, primeiro no telefilme “The Cherry Orchard” e depois nesse “biopic” da escritora Íris Murdoch, intitulado simplesmente “Íris”, onde assistíamos também a um duelo, ou passagem de um testemunho, se o desejarem ver sobre esse prisma já que as intérpretes eram Judi Dench e Kate Winslet, a primeira a “velha” Íris”, a segunda a “jovem e turbulenta” Íris. Quando nos recordamos da visão desta obra espantosa numa sala de cinema às moscas, o cinema era o Mundial num domingo à noite, ficamos espantados como o bom cinema passa tantas vezes ao lado dos espectadores, mas adiante.


“Diário de um Escândalo” / “Notes on a Scandal” fala-nos numa relação amorosa entre uma professora, Sheba Hart (Cate Blanchett) e um aluno de 15 anos, Steven (Andrew Simpson) e de imediato nos vem à memória esse famoso caso que encheu as páginas dos jornais de todo o mundo entre a professora Debra Favre e um dos seus alunos. Mas neste filme de Richard Eyre a premissa não poderia ser tão linear e, a pouco e pouco, vamos encontrar um outro tipo de relação que se irá sobrepor a esta história de paixão, invadindo terrenos muito mais movediços já que Sheba, na sua angústia incontrolada, irá procurar refúgio junto de uma professora muito mais velha que ela, respeitada por todos e de uma cultura superior à dos restantes membros da escola, desconhecendo as suas tendências sexuais.
E aqui Richard Eyre introduz o célebre “golpe de asa”, que distingue um cineasta de um realizador, revelando-se um autor, já que ao dar a narração a Barbara Covett (Judi Dench), filma a sua intimidade e solidão de forma soberba, assim iremos acompanhar ao longo da sua escrita no diário a forma cínica e obsessiva como ela vê o mundo e as pessoas, recorde-se a sua estranha amizade com outra jovem professora chamada Jennifer.


Lentamente Barbara vai entrando no universo de Sheba, aconselhando-a a terminar a relação com o jovem aluno, ao mesmo tempo que conhece a família e os filhos desta, introduzindo-se no seu quotidiano. Richard Hart (fabuloso Bill Nighy), marido de Sheba, tem mais vinte anos do que ela, esquecendo-se por vezes de participar no universo da esposa, já a filha de 16 anos é o retrato perfeito da sua geração, uma rebelde com pretensões a adulta, vivendo num mundo aparte, tal como o irmão, embora as razões deste sejam bem diferentes porque tem o sindroma de Down.
Será no interior desta família que Barbara (Judi Dench) irá começar a chantagear Sheba (Cate Blanchett), ameaçando revelar a sua relação com o jovem, já que ela continua a encontrar-se com ele, aliás bem patente na fabulosa sequência em que Barbara vai ter com ela e tenta obrigá-la a ir ao veterinário porque a sua gata Portia se encontra doente. Perante a recusa de Sheba, iremos assistir no silêncio da noite à forma como ela irá elaborar a sua vingança, profundamente escrita/narrada nos seus diários, sendo esses mesmos diários que irão revelar a Sheba os desejos secretos da velha professora.


Estamos perante um filme muito mais complexo do que o espectador poderia pensar à partida ao ver as imagens iniciais, com o jovem Steven (Andrew Simpson) a jogar futebol no recreio da escola, dedicando o golo à jovem e bonita professora, tirando depois a camisa para se dar a ver na euforia do golo, oferecendo-se a ela mais tarde como presente, ao mesmo tempo que constrói uma identidade falsa de si mesmo, para conquistar mais rapidamente aquela professora tão carente de amor. Repare-se que ele não é propriamente o jovem proletário a viver com um pai violento e uma mãe doente, história que conseguiu “vender” à ingénua Sheba (Cate Blanchett), depois vamos assistindo a um evoluir na linguagem usada, tão característica de uma geração inglesa e por fim chegamos a essa verdadeiro pântano em que vive submersa Barbara Covett e aqui nunca o olhar como o silêncio foram tão bem trabalhados por uma actriz e um cineasta, basta vermos a sequência de Judi Dench deitada na banheira a fumar, para descobrirmos nela a relação ódio versus desejo.

Richard Eyre

“Diário de Um Escândalo” revela-nos uma obra acima de qualquer suspeita, dirigida por um dos grandes autores do cinema britânico e mais uma vez com um excelente trabalho do reputado Chris Menges na Fotografia, depois temos a música de Philip Glass, confirmando o seu minimalismo intimista e profundamente envolvente pontuando o desenrolar do argumento escrito por Ian McEwan.

Se desejarem conhecer a forma como Richard Eyre trabalha os materiais filmicos, procurem ver “A Verdade dos Factos” / “The Ploughman’s Lunch” (a forma como os seus personagens se movimentam no interior do Congresso do Partido Conservador Britânico), por outro lado não percam a Arte de Representar destas duas Grandes Senhoras chamadas Judi Dench e Cate Blanchett e deixem-se seduzir pelas suas interpretações.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Concordo em absoluto, estmos perante um genial trabalho de realização cinematográfico e com interpretações inesquecíveis de todos os actores e muito em especial desse duo feminino constituído por Cate Blanchett e Judi Dench.
      Boa Tarde!

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