quarta-feira, 1 de março de 2017

Jim Jarmusch – “Neil Young – The Year of the Horse”


Jim Jarmusch – “Neil Young – The Year of the Horse”
(EUA – 1997) – (107 min. – Cor / P-B)
Neil Young, Franco “Pancho” Sampedro, Billy Talbot, Ralph Molina, Jim Jarmusch.


Longe vão os tempos em que, após a rodagem de “O Estado das Coisas” / “Der Stand der Dinge”, Wim Wenders ofereceu a película que lhe restava a Jim Jarmusch e este partiu com ela para rodar essa obra intitulada “Strange Than Paradise” (a primeira versão). Muitos de nós ainda se recordam do soco no estômago recebido aquando da estreia deste filme no cinema Quarteto, todo ele rodado com planos fixos, a preto e branco e com um John Lurie que, para além de ser o protagonista, surgia também a assinar a banda sonora, uma obra para quarteto de cordas, música essa que ao nascer no écran este ficava quase “branco”. Recorde-se ainda, nestas “coisas” da memória, que John Lurie surgia também nessa obra charneira do cinema independente dos anos oitenta, realizada por Amos Poe, o fabuloso “Subways Riders” / “Viajantes na Noite”, que teve grande sucesso na época e que foi exibido no cinema Quarteto.


O trajecto de Jim Jarmusch é conhecido de todos, porque “Mistery Train”, “Night on Earth”, “Ghost Dog: The Way of Samurai”, “Broken Flowers” e “Dead Man” tiveram distribuição comercial, ao mesmo tempo que as curtas-metragens rodadas ao longo dos anos e intituladas “Coffee and Cigarrettes”, mais tarde agrupadas num único filme também andaram pelos nossos écrans. Mas será “Dead Man”, com um Johnny Depp em excelente forma, que nos interessa aqui como ponte para este “The Year of The Horse”, porque será através da sua fabulosa banda sonora assinada por Neil Young que irá nascer este “The Year of the Horse”, filme concerto sobre Neil Young e os Crazy Horse, que andam na estrada já lá vai quase meio século, mantendo a mesma atitude e energia em palco porque, para eles, o rock é sinónimo de vida porque “Rust Never Sleeps”.


Mas quem é Neil Young? A resposta todos sabemos (ou quase todos). Ele nasceu para a música nessa banda de country rock intitulada Buffalo Springfield, tendo-se juntado depois a três grandes nomes da música popular norte-americana criando dessa forma os mais que famosos “Crosby, Stills, Nash and Young”, um dos maiores super-grupos da história do rock, basta escutar álbuns como “Dejá Vù” ou “Four Way Streets” e está tudo dito. Para trás já havia um trabalho assinado com os Crazy Horse e, ao longo dos anos, ele foi assinando álbuns atrás de álbuns com os “Crazy Horse”, intercalando-os com outros seus trabalhos. Recorde-se a sua participação nesse filme concerto de todas as gerações chamado “Woodstock”, em que um dos responsáveis pela montagem foi precisamente Martin Scorsese, que mais tarde iria assinar em nome próprio essa obra única chamada “The Last Waltz”, lição perfeita de como deve ser realizado um filme-concerto e que serve de guia a todos os que pretendem entrar no género e Jim Jarmusch segue muito bem a lição dada pelo Scorsese .


A carreira de Neil Young na música possui momentos inesquecíveis como: “After the Gold Rush”, “Harvest”, “Freedom” e “Rust Never Sleeps” / “Live Rust”, tendo este último dado origem também a um filme-concerto realizado pelo próprio Neil Young, a que Jim Jarmusch não ficou alheio, apesar de tudo aquilo que os distingue. Aqueles que viram o filme de Neil Young, “Rust Never Sleeps”, rodado no palco do Cow Palace em 22 de Outubro de 1978, recordam-se de ver Neil Young a acordar no interior dessa enorme mala de viagem e a sair dela com a sua guitarra acústica, descendo as escadas que conduziam ao palco e iniciar a sua actuação a solo, quatro temas, debaixo do olhar daquelas criaturas com hábitos escuros e luzes vermelhas no lugar dos olhos, para no quinto tema atacar o piano, dando depois lugar aos Crazy Horse para demonstrar que o Rock'n Roll nunca irá morrer e esse concerto é a prova provada (desculpem a redundância).

Neil Young e Jim Jarmusch
durante a rodagem do filme.

Jim Jarmusch parte assim com Neil Young e os Crazy Horse para nos oferecer a sua história, registando os momentos dos seus espectáculos realizados no ano de 1997, ano esse intitulado “The Year of the Horse”, em memória/homenagem ao produtor (o quinto elemento do grupo), David Briggs, falecido no ano anterior e que nas vésperas da sua morte lhes disse que o ano seguinte seria precisamente “The Year of The Horse” (ou seja, o anos dos "Horse"). No início da película, enquanto os créditos vão passando, surge esta indicação do cineasta para o espectador, “proudly filmed in super 8” e “made loud to be played loud” e de imediato entramos no universo deste grupo, em perfeito convívio com o cineasta.
Não só nos é oferecido o registo dos diversos concertos realizados tanto nos States como na Europa, como ao longo das entrevistas vamos conhecendo a história destes quatro sobreviventes do rock pela estrada fora e vamos percebendo como nem sempre os tempos foram fáceis, a heroína foi deixada para trás, felizmente, como refere Frank “Pancho” Sampedro, esse mesmo Frank que às tantas chama de artista “intelectualóide” a Jarmusch e este lhe responde ser um cineasta-argumentista.


Ao longo da película vamos encontrando registos das diversas épocas do grupo e inevitavelmente vamos viajando com eles pelo interior do rock, dos anos setenta aos oitenta, demonstrando Jim Jarmusch um conhecimento perfeito do que pretende filmar, ao mesmo tempo que deixa a sua marca de autor inconfundível, terminando a película com essa célebre canção “Like a Hurricane”, usando dois registos diferentes com vinte anos de permeio.
Curiosamente, das três gravações mais célebres ao vivo de Neil Young e os Crazy Horse, musicalmente falando e registados nos trabalhos “Live Rust”, “Weld” (*) e “The Year of The Horse”, este último será talvez o menos bom, na nossa opinião pessoal e estamos a falar só do álbum. Por outro lado, será sempre curioso confrontar este filme de Jim Jarmusch com o realizado pelo próprio Neil Young “Rust Never Sleeps” onde a encenação possui um elemento preponderante no interior de um concerto rock (na época foi exibido no cinema Quarteto e está disponível em dvd) e nunca é demais referir que Martin Scorsese é decididamente o pai deste género com o grupo The Band.


Só para terminar esta viagem de Neil Young pelo cinema, nunca é demais referir a sua participação como actor no maravilhoso filme de Alan Rudolph “Love at Large”, numa daquelas histórias de amor e duplas identidades que tão bem retratou o cineasta canadiano, que possui a mesma nacionalidade de Neil Young.
“The Year of the Horse” é um filme inesquecível para amantes de rock puro, seja qual for a idade e isso é bem patente nos espectadores dos concertos e Jim Jarmusch consegue deixar-nos a sua marca na forma como monta o filme e na matéria usada. “The Year of the Horse” surge assim como a homenagem de Jim Jarmusch a Neil Young e aos Crazy Horse porque como diz a canção: rock and roll can never die!!!

(*) – “Weld” possui uma versão fabulosa de “Blowin’ In the Wind” de Bob Dylan.

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