quinta-feira, 9 de março de 2017

David Lean – “Passagem Para a Índia” / “A Passage to India”


David Lean – “Passagem Para a Índia” / “A Passage to India”
(EUA/ING - 1984) – (163 min. / Cor)
Judy Davis, Victor Banerjee, James Fox, Alec Guiness, Peggy Ashcroft.

David Lean tem sido um dos cineastas “premeditadamente” esquecidos, mas a sua filmografia, após a sua obra derradeira “Passagem Para a Índia / “A Passage to India””, passou a ser olhada de outros ângulos, encontrando-se no tempo narrativo a característica dos seus filmes.


Tudo começou quando, com Noel Coward, co-realizou em 1942 “Sangue, Suor e Lágrimas” / “In Which We Serve”. Três anos depois chegava a consagração, com essa obra-prima intitulada “Breve Encontro” / “Brief Encounter”, premiada em Cannes e Veneza, uma das mais belas histórias de amor do cinema; um encontro onde o amor não se consome na carne, mas sim no olhar do rosto amado, o amor perdido mas não esquecido, que nos possibilita adiar o adeus até à inevitável chegada da morte. E amar é nunca dizer adeus, esperando que os comboios sejam os invasores das nossas próprias vidas, perturbando a tranquilidade fictícia da paisagem. Trevor Howard e Celia Johnson, em “Breve Encontro”/”Brief Encounter”, são a luz esquecida no interior das trevas, que encontra refúgio no outro lado da vida.


Depois de ver o seu nome firmado, adaptou ao cinema duas obras de Dickens “Grandes Esperanças” / “Great Expectations”e “Oliver Twist”. Até à sua consagração em Hollywood, com “A Ponte do Rio Kway” / “The Bridge on The River Kway”, realizou mais cinco películas, tendo sido com este filme (“Ponte do Rio Kway”) que Lean alcançou o Oscar para a melhor realização, sendo o primeiro cineasta britânico a consegui-lo. O caminho das grandes produções estava traçado. Seguiram-se “Lawrence da Arábia” / “Lawrence of Arabia”, “Doutor Jivago” / “Doctor Zhivago”e “A Filha de Ryan” / “Ryan’s Daughter”. Neste último, a visão da Irlanda e das suas raízes e tradições são estudadas através do microcosmos duma pequena vila, onde o amor e a revolta se cruzam com a dor, que atravessa o interior de um território alimentado pelo sangue, suor e lágrimas dos seus habitantes.
“Passagem Para a Índia”/”A Passage to India” é o título da sua última obra, fechando com chave de ouro a sua filmografia, baseado num romance de E. M. Forster, o qual transporta consigo um roteiro composto por três estações: o Ganges, os Montes Malabar e os Himalaias.



O Ganges é possuidor da purificação, a água é a redenção, mas o que se encontra em Malabar é desconhecido de todos, até do próprio Aziz (Victor Banerjee), consequência do seu estado de alma. O que há em Malabar é a (re)descoberta da ausência da alma e a passagem do corpo pelo purgatório. Adela (Judy Davis) revê a sua imagem, quando Aziz lhe conta que nunca amou a sua mulher antes do casamento, porque só se conheceram nesse dia (as estradas por vezes são longas e os atalhos escolhidos por Adela conduzem-na à tortura do conhecimento). Os Himalaias são a imagem da pacificação da alma. Possibilitando uma estadia terrestre, mais tranquila, como se depreende do olhar da filha de Mrs. Moore, porque a beleza dos Himalaias encanta e a sua correspondência com a terra, encontra na felicidade o único caminho possível.

"Passagem para a India" revela-nos, de uma forma simples, a viagem dos súbitos de Sua Majestade a Rainha Vitória pelo interior da Jóia da Coroa, ou seja a Índia e ninguém melhor do que E. M. Forster para nos servir de guia pelo interior dessa região através da sua peculiar e bela escrita.


Aqui iremos descobrir as diversas personagens, sejam elas inglesas ou indianas, em busca da sua própria identidade ou conhecimento: Adela irá encontrar nas grutas de Malabar as razões para desistir do casamento, enquanto o Dr. Aziz irá definitivamente perceber como é importante a cultura indiana, abandonando os seus trajes europeus; o professor Richard Fielding (James Fox) irá perceber que terá de fazer as suas opções perante o embate político de duas culturas em rota de colisão.
A Índia tem surgido no cinema através de diversos olhares tão próximos como distantes. Se por um lado temos essa obra de uma beleza absoluta e mágica intitulada "O Rio Sagrado" / “The River” de Jean Renoir, por outro lado haverá sempre o lado documentarista e antropológico da "India" de Roberto Rosselini, enquanto James Ivory e Ismael Merchant (o seu produtor) sempre nos ofereceram uma imagem profundamente romântica da paisagem indiana.


"Passagem para a India", de David Lean, é de uma beleza absoluta e possui uma forte componente política, porque na película se revelam os diversos estados de alma dos seus protagonistas, perante o desenrolar dos acontecimentos: a inocência dá lugar à dor e a dor perante a injustiça dá lugar à revolta, terminando esse longo rio que é o Ganges por conduzir cada um ao seu habitat. Redescobrir a derradeira obra-prima do inglês David Lean é a nossa proposta para hoje.

2 comentários:

  1. Gosto muito deste filme! E do escritor também!

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    1. Os livros de E. M. Forster tem-se revelado excelentes argumentos cinematográficos, devido também a terem magníficos cineastas a colocar em imagens a obra literária do escritor britânico.

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