terça-feira, 14 de março de 2017

David Frankel – “O Diabo Veste Prada” / “The Devil Wears Prada”


David Frankel – “O Diabo Veste Prada” / “The Devil Wears Prada”
(EUA – 2006) – (109 min. / Cor)
Meryl Streep, Anne Hathaway, Stanley Tucci, Emily Blunt, Simon Baker.

O mundo da moda já foi brilhantemente analisado no cinema através do olhar de Robert Altman em “Prêt-à-Porter” / “Pronto-a-Vestir”, nele descobrimos como a vida no mundo da selva é uma autêntica via-sacra. É verdade, não é gralha, considere apenas selva como sinónimo de moda ou se preferir escravidão e assim poderá entrar no interior da revista “Runway” e de preferência evite olhar olhos nos olhos a sua directora, a intratável Miranda Priestley e não se esqueça de lhe dizer sempre yes, mesmo se ela lhe pedir que lhe arranje uma cópia do último Harry Potter a publicar na próxima semana, porque as gémeas têm pressa em saber a continuação das aventuras do Harry e não podem estar à espera da J.K.Rowling e do seu staff até ao dia do lançamento do book.


Sim, este é o universo de Miranda Priestley, a toda poderosa directora de uma revista, melhor dizendo ela é a mulher que dita a moda, ela é aquela de quem os costureiros dependem, basta uma palavra dita fora de tempo e a sua colecção não irá surgir nas páginas da “Runway”. Ela simboliza o poder, esse mesmo poder que quando alcançado por uma mulher poucos tentarão retirar-lhe, só se outra mulher estiver disposta a isso. Mas Miranda, se fosse preciso, matava para não perder a autoridade com que conduz os destinos da revista e se ela lhe ocupa todo o tempo do mundo, terão que ser as suas assistentes a servir de intérpretes aos “pequenos nadas” do quotidiano, que irão impedi-las de ter uma vida própria, como Andy Sachs irá descobrir. A Andrea, no início, vinda do Midwest (ou seja da América profunda) só pretendia obter um lugar num jornal qualquer de Nova Iorque, por muito pequena que fosse a sua tiragem, mas o destino assim não quis e acabou como assistente da temível Miranda Priestley, que só olhou para ela ao reparar nos “trapos” que cobriam o seu corpo esguio.


Como certamente já percebeu, estamos a falar de “O Diabo Veste Prada” / “The Devil Wears Prada”, uma obra assinada por David Frankel, filho de um dos editores do New York Times e realizador de alguns episódios da famosa série de televisão  “Sex and the City” / “O Sexo e a Cidade”, que alteraram os hábitos dos espectadores do pequeno écran, até que uma das protagonistas, Kim Catraal, ficou farta da sua personagem e decidiu dizer… “basta” e a série terminou. Mas o que nos interessa aqui é o best-seller de Lauren Weisberger cujo olhar sobre o mundo da moda se baseou numa personagem muito real ou seja a directora da “Vogue” (não sou eu que o digo, são os outros!), que ao ser adaptada ao cinema poderia não passar de mais um filme com o selo dos Estúdios. Somente os Estúdios surpreenderam toda a gente quando Meryl Streep foi a escolhida para interpretar a figura de Miranda Priestley.
Quantos se lembram dela na “Julia” de Fred Zinneman com uma aparição que encheu o écran ou a sua luta pela vida em “A Escolha de Sofia”, para já não falar da Baronesa Blixen em terras africanas vivendo um amor proibido com um caçador chamado Denys, ou aquela espantosa criação em Mrs. Dalloway de “As Horas”.


Em “O Diabo Veste Prada”, Meryl Streep é o filme! Ela representa o Diabo para a jovem Andy (Anne Hathaway), mas até às vezes o Diabo possui momentos em que é derrotado e aqui a derrota surge quando o marido de Miranda decide pedir-lhe o divórcio, então a sofisticada e poderosa Miranda dá lugar a uma destroçada mulher abandonada pelo marido, sofrendo da mesma forma que todas as outras mulheres, seja qual for a sua condição social. Será essa lição que Andy irá aprender, ao ver como por vezes o significado do poder é por vezes tão finito no interior da vida familiar de cada um.


Mas quem é Andy Sachs? Ela é simplesmente a “menina” de “O Diário da Princesa” / “The Princess Diaries”, recordam-se do filme de Garry Marshall? E se vos falar de “Brokeback Mountain” talvez agora se lembrem de Lureen.
Andy ou Andrea, como preferirem, irá aprender que no mundo da moda não se vive, no mundo da moda está-se em guerra constante e quando nos fazem um sorriso já a faca nos foi espetada nas costas. E melhor do que ninguém será Nigel, o Art Director da revista, a ensinar-lhe a melhor forma de sobreviver no universo de Miranda Priestley. Mais uma vez vamos encontrar Stanley Tucci, esse eterno secundário, a quem Steven Spielberg ofereceu um lugar de destaque em “The Terminal”. Ele que já fora o metódico assassino contratado para liquidar Julia Roberts no “Dossier Pelicano”, demonstra mais uma vez todas as suas potencialidades como actor seja qual for o género. Ele, que em quatro anos realizou três filmes, é verdade o Stanley também vai para detrás das câmaras, é quem indica o melhor caminho para a Andy sobreviver no mundo de Miranda Priestley.


“O Diabo Veste Prada” é uma daquelas obras em que são os actores a dar as cartas do baralho oferecido pelo realizador, eles são a Arte de representar, demonstrando como a comédia não é um género menor, aliás é a própria Meryl Streep a confessar como adora fazer comédia e a liberdade oferecida pelo género. No entanto todos sabemos como nos dias de hoje é difícil fazer comédia de alta qualidade e aqui estamos nela, são os actores que dão as cartas e as jogam, mas não nos podemos esquecer do baralho que lhes é dado por David Frankel, oferecendo aquela indicação preciosa, para o bluff sair derrotado.
Estamos assim perante uma das mais brilhantes prestações de Meryl Streep e na comédia, lá nos fomos repetir, porém se analisarmos este mundo que nos é oferecido, terminamos por descobrir como ele é dramático, se Andy termina por seguir o caminho desejado e Miranda sobrevive à golpada preparada é porque estamos no Cinema e, tal como na vida, no cinema tudo é permitido. Talvez por isso mesmo esta película mereça toda a atenção do cinéfilo e do mais comum espectador de Cinema, por falar tanto de comédia, por acaso recorda-se de um cineasta chamado Billy Wilder?

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