segunda-feira, 20 de março de 2017

David Fincher – “Zodiac”


David Fincher – “Zodiac”
(EUA – 2007) – (158 min. / Cor)
Jake Gyllenhall, Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Robert Downey Jr. Elis Kottea, John Carroll Lynch.

Durante essa saga chamada “Alien”, por onde passaram os nomes de Ridley Scott e James Cameron (*), seria David Fincher a filmar o terceiro filme (a sua estreia na longa-metragem) e de imediato naquela prisão sentimos os traços de um autor a emergir, não só por todo o ambiente claustrofóbico da película como pelo final em que a tenente Ripley, ao mergulhar na morte na companhia do Alien, acaricia num gesto derradeiro a cabeça da cria que está a nascer.
Quando o “psico-killer” de “Seven” / “Sete Pecados Mortais” se entrega à policia no interior da esquadra, é com espanto que os polícias, a investigar o caso descobrem que ele tinha cortado os dedos na zona das impressões digitais com uma lâmina para não ser identificado, mas a sua confissão e a ida ao local do último crime no meio do deserto iria revelar o crime mais odioso, mas também o talento de um cineasta.
Com “The Game” / “O Jogo” ficámos agarrados à cadeira em profundo silêncio seguindo o percurso de Michael Douglas, com um final em que as cartas estão viciadas. As marcas do autor/cineasta estavam lançadas e mais tarde em “Fight Club” / “Clube de Combate” (o menos bom dos seus filmes), a escrita permaneceu. Já com “Panic Room” / “Quarto de Pânico”, com uma Jodie Foster fabulosa, ele cria a tensão permanente utilizando apenas o espaço de uma casa, deixando o espectador à beira de um ataque de nervos. Por tudo isto, a feitura de “Zodiac” revelou-se como a chegada de David Fincher a essa galeria onde se encontram os nomes incontornáveis da Sétima Arte.



Estamos em finais dos anos sessenta quando dois adolescentes são vítimas de “Zodiac”, sem se conseguir identificar o móbil do crime, até ao momento em que o “San Francisco Chronicle” recebe uma carta do assassino prometendo mais mortes, acompanhada de uma mensagem cifrada sobre a sua identidade, despertando de imediato a atenção do periódico norte-americano e do jornalista Paul Avery (Robert Downey) para o assunto.
O caso começa a ser investigado pelos detectives David Toschi (Mark Ruffalo) e William Armstrong (Anthony Edwards), mas desperta também a atenção do jovem cartoonista do jornal, Robert Graysmith (Jake Gyllenhall), que se irá envolver na investigação ao longo da sua vida, na tentativa de descobrir a identidade do assassino.
Os crimes irão continuar de forma espaçada ao longo da década de setenta, ao mesmo tempo que o “serial-killer” vai adquirindo notoriedade, através de cartas e telefonemas que vai fazendo, incluindo para a televisão, onde fala em directo via telefone, aterrorizando desta forma essa grande metrópole que é San Francisco.
Estes quatro homens irão dedicar uma vida na busca da identidade do "serial-killer", mas as provas nunca são conclusivas, mesmo quando se cruzam com o principal suspeito, Arthur Leigh Allen (John Carroll Lynch).


“Zodiac”, ao contrário de “Seven”, não nos oferece o terror em directo, mas sim o desespero, optando pela fórmula policial do inquérito/investigação. Se o jornalista Paul Avery, um dos alvos das cartas de “Zodiac” irá ver a sua carreira destruída, já os dois detectives irão possuir a palavra “fracasso” na folha das suas carreiras, enquanto o jovem cartoonista que deixou o emprego, a família e os amigos em busca de “Zodiac”, fará deste caso a razão da sua vida baseando-se aliás o filme num dos dois livros que escreveu. E aqui abrimos uma espécie de parêntesis para referir não só o espantoso trabalho de reconstituição de uma época, anos 70, do século xx, como as espantosas interpretações dos protagonistas: Mark Ruffalo surgiu no cinema vindo do teatro e as comparações com Marlon Brando foram imediatas, não só pela voz arrastada, como pela postura; Robert Downey Jr., o maior actor da sua geração, surge aqui como peixe na água e acreditamos como foi difícil mergulhar na personagem, devido a um passado recente, basta acompanhar o trajecto do seu personagem, a terminar os seus dias no “fundo do poço” apesar de não ter pecado... o “serial-killer” derrotou-o em todos os campos; Jake Gyllenhall, na figura do cartoonista do “San Francisco Chronicle”, é o verdadeiro escuteiro como lhe chamam no início da película, não bebe, não fuma, não entra num bar e depois a sua interpretação é uma luta que lhe vai devorando a alma; Anthony Edwards, num regresso pela porta grande, interioriza de forma perfeita a angústia e o desalento da sua personagem. Estamos assim perante um quarteto de luxo, mas muito se deve à direcção perfeita de David Fincher.


O cineasta, que optou pela profissão de realizador após ter assistido ao filme “Butch Cassidy and Sundance Kid” / “Dois Homens e Um Destino”,  envolve com saber de Mestre o espectador nesta investigação, colando-o à cadeira durante duas horas e meia, apesar de se saber o desfecho, transmitindo de forma perfeita a angústia e frustração das investigações e quando todos nós estamos quase certos da identidade do assassino, o principal suspeito morre de ataque cardíaco. Recorde-se que um dos dados adquiridos é que o “serial-killer” é uma personagem vulgar, que decidiu aterrorizar uma metrópole a fim de ter notoriedade, após ter visto o filme “The Most Dangerous Game” / “O Malvado Zaroff”, no cinema onde era projeccionista.

David Fincher

O mistério surge assim como um dos principais componentes do cinema de David Fincher, esse cineasta que se iniciou na profissão através da publicidade, passando depois para a feitura de “video-clips” sendo o célebre “Vogue” de Madonna de sua autoria, para além de outros tele-discos que realizou para a estrela da música pop, ao mesmo tempo que trabalhava em publicidade. É um convite de John Korty que o leva até esse universo perfeito chamado “Industrial Light and Magic” de George Lucas, onde irá aprender todos os passos da profissão.
Ao revermos “Zodiac”, David Fincher volta a agarrar-nos à cadeira, uma vez mais, em perfeita angústia, no sentido de que também nós desejamos descobrir a identidade do “serial-killer”. Acompanhar as investigações do caso “Zodiac” é uma aliciante aventura, porque aqui continua a respirar-se Cinema por todos os fotogramas.

(*) – Jean-Pierre Jeunet irá realizar um quarto filme intitulado “Alien: Ressurection” / “Alien: O Regresso” em 1997.

4 comentários:

  1. Filme intrigante, com interpretações excelentes, até do Gyllenhall!

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    1. Ainda hoje em dia não se tem a certeza sobre a identidade do serial-killer desse verão escaldante em S. Francisco. Um filme perfeito!
      boa tarde!

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  2. Vi este filme há pouco tempo e gostei bastante. Bom dia!

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    1. O meu filme favorito da excelente filmografia de David Fincher, com excelentes interpretações e abordando um caso cuja identidade do assassino ainda permanece um mistério.
      Boa tarde!

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