sexta-feira, 31 de março de 2017

Paul Auster - "O Livro das Ilusões" / "The Book of Illusions"


Paul Auster
“O Livro das Ilusões”
Asa, Pag.270

Paul Auster, ao longo dos anos, construiu um edifício Literário em que personagens nascidos da sua escrita inimitável são imediatamente reconhecidos como seus, tendo sempre em conta essa solidão que habita nos seus corpos. Hector Mann, uma estrela esquecida e dada como morta do período do cinema mudo, é o fio condutor desta história, que irá conduzir o solitário e enlutado David Zimmer (um professor de Literatura de Vermont, que perdeu a mulher e os filhos num desastre de avião) a conhecer essa estrela do cinema mudo, que se retirou no auge da fama, levado pela mão de uma mulher enigmática chamada Alma Grund, até aos confins do Novo México.
Ao longo daquele que será, possivelmente, o mais belo romance de Paul Auster, mergulhamos não só no interior da sua escrita como no do próprio cinema nessa longínqua época em que o som estava ainda ausente e os intertítulos surgiam no écran a complementar as imagens. Curiosamente numa das noites em que relíamos “O Livro das Ilusões”, recordámo-nos a dado passo de “O País das Últimas Coisas”.


"O telefone da casinha de Alma era temperamental e eu nem sempre conseguia apanhá-la. Instalação defeituosa, disse-me ela, um qualquer elo do sistema que por vezes falhava, o que significava que, mesmo depois de ligado o número e ouvido os rápidos cliques e bipes que sugeriam que a chamada estava a ser feita, o telefone dela não tocava. Em contrapartida Alma conseguia chamadas a maior parte das vezes. No dia em que regressei a Vermont, fiz várias tentativas infrutíferas para falar com ela, e, quando Alma finalmente me ligou às onze horas (nove horas, tempo da montanha), decidimos que seria melhor ela telefonar-me, em vez de eu passar um tempo infindo às voltas com a ligação. Depois disso, sempre que falávamos, terminávamos a nossa conversa fixando a hora da chamada seguinte e, por três noites consecutivas, o esquema funcionou tão bem como um truque num espectáculo de magia. Dizíamos sete horas por exemplo, e, às sete menos dez, eu instalava-me na cozinha, servia-me uma pequena dose de tequila pura (continuávamos beber tequila juntos apesar de tão distantes) e, às sete em ponto, no exacto momento em que o ponteiro dos segundos do relógio de parede atingia o topo do círculo para marcar a hora, o meu telefone tocava. Acabei por confiar absolutamente na precisão dessas chamadas. A pontualidade de Alma era um sinal de fé, um total apego ao princípio segundo o qual duas pessoas, embora vivendo em dois locais diferentes do mundo, podiam estar em absoluta sintonia relativamente a quase tudo." 

Paul Auster 
in "O Livro das Ilusões"

René Magritte - "Ceci n'est pas une pipe"


René Magritte - "Ceci n'est pas une pipe" - (1928 - 29)
Óleo sobre tela, 63,5 x 93,98 cm.

Stephen Frears – “A Rainha” / “The Queen”


Stephen Frears – “A Rainha” / “The Queen”
(Inglaterra/França/Itália – 2006) – (97 min. / Cor)
Helen Mirren, James Cromwell, Alex Jenings, Michael Sheen.

Em “A Rainha” / “The Queen” encontramos uma obra que tudo possuía para cair no docudrama televisivo, no interior da qualidade típica da BBC e no entanto tudo nele respira cinema, desde a direcção de actores, até à montagem, passando pela forma tranquila e segura da elaboração de cada plano e onde o raccord é simplesmente perfeito. Ora isto deve-se a um cineasta que, desde sempre, e ao longo da sua carreira, tem dividido o seu trabalho entre a televisão e o cinema e curiosamente no interior do cinema tanto trabalha em Hollywood para os Estúdios, como faz filmes de baixo orçamento.


O nome de Stephen Frears saltou para a ribalta com “A Minha Bela Lavandaria” / “My Beautiful Laundrette”, oferecendo-nos uma história de amor entre um punk racista e desempregado (Daniel Day Lewis no início da carreira) e um indiano. O filme deu muito que falar, ao contrário do fabuloso e politicamente incorrecto "Liam" e quando o cineasta decidiu levar ao grande écran a adaptação de Christopher Hampton de “Dangerous Liasions” as portas de Hollywood foram-lhe abertas por Martin Scorsese, que lhe produziu “The Grifters” / “Anatomia do Golpe”, uma das maiores homenagens de sempre ao “film noir”. Depois a sua vida começou a ser passada entre os continentes Europa e América, na ilha os filmes de baixo orçamento com Roddy Doyle a assinar os argumentos e no novo mundo obras como “Hi-Lo Country” (a descobrir, passou despercebida em Portugal) ou "Accidental Hero" / “O Herói Acidental”, sobre a manipulação da informação televisiva, que deveria ser (re) vista por quem programa emissões de televisão.



"The Queen” revela-nos que Stephen Frears é um cineasta de mulheres e são exemplo Michelle Pfeifer, Glenn Close, Judy Davis, Annette Bening, Anjelica Huston, Judi Dench ou Julia Roberts, que assinou a sua melhor interpretação de sempre no fabuloso “Mary Reilly”, que nos oferecia um outro olhar sobre “O Médico e o Monstro”. Chegamos assim a uma nova lenda do cinema inglês e dizemos isso porque a interpretação de Helen Mirren em “The Queen” / “A Rainha” é simplesmente memorável, porque quem vimos no grande écran é na verdade Isabel II, conseguindo a actriz fugir aos tiques e maneirismos que muitas vezes matam uma personagem, conseguindo desta feita, a Morgana de “Excalibur”, ultrapassar todas as armadilhas da Arte de representar.


Helen Mirren, tal como Stephen Frears, divide a sua Arte entre o pequeno écran e o cinema, todos certamente se recordam dela na série “Prime Suspect” / “Principal Suspeito” ou em filmes como “Gosford Park”, “The Madness of King George” ou em “O Cozinheiro…” de Peter Greenaway. Mas quem se lembra dela em “The Confort of Strangers”, de Paul Schrader, rodada em Veneza e baseada no livro de Ian McEwan e com argumento de Harold Pinter, é mesmo uma obra-prima!!!! Mas teremos sempre também a astronauta russa de 2010 ou a esposa de Harrison Ford nessa “loucura” passada na “Costa do Mosquito”.


Helen Mirren e a Rainha Isabel II

Regressando a “The Queen” / “A Rainha”, o tema do filme é o período que decorreu entre o dia do acidente que vitimou a Princesa Diana e o dia do seu funeral, dias esses que tornaram a família Real Britânica o centro das atenções de toda a população de uma nação, período esse que possuía pela primeira vez ao fim de um longo jejum um Primeiro-Ministro Trabalhista, que pretendia oferecer um novo estilo à forma de governar, apanhado logo nos primeiros dias do seu mandato na terrível teia da Monarquia Britânica.


Se Helen Mirren visualmente falando é o retrato de Isabel II, já Michael Sheen não é tão parecido com Tony Blair num primeiro contacto, mas depois quando o ouvimos e o vemos a andar tudo nele é de Blair e desde o mais pequeno gesto à forma de sorrir, encontramos o dirigente Trabalhista; por outro lado Stephen Frears não esconde a forma como os Trabalhistas olham a Monarquia através da personagem de Cherie Blair (Helen McCrory) e todo o clima que nos é oferecido do número 10 de Downing Street corresponde à realidade com o Primeiro-Ministro a pedir aos subordinados para o tratarem por Tony. Depois há a forma como as regras do protocolo são inseridas no quotidiano Trabalhista e a forma como Tony Blair conseguiu fazer ver a uma Monarquia como a imagem deles se estava a perder perante o povo, ou seja Diana Spencer, apesar de morta, tinha ganho a batalha travada com a família Real. E na verdade assim sucedeu porque os ingleses sempre a viram como a “Princesa do Povo”, fruto de uma imagem que Diana soube cultivar como ninguém junto dos Média, acabando por ser “devorada” pelas noticias dos tablóides.


“A Rainha” / “The Queen” de Stephen Frears, retrata-nos de forma surpreendente o quotidiano de uma Família Real, que não sabe como lidar com a morte da sua grande adversária, porque goste-se ou não Isabel II e Diana travaram uma luta pelo poder no interior da família real e a sombra de uma outra Isabel (também já interpretada por Helen Mirren para a TV) pairou mais forte sobre Buckingham Palace. São precisamente esses momentos em que tudo se parece desmoronar no Castelo de Balmoral, onde se encontra de férias a Família Real e a forma de lidar com os acontecimentos, a incerteza, a dúvida, o silêncio como fuga, que se revelou uma estratégia errada e quase terminou com a Monarquia. Mas seria a forma como Tony Blair lidou com a situação e com a Rainha Isabel II, que permitiu as pazes entre o Povo e a sua Soberana, perfeitamente retratados no filme, onde os gestos e os olhares da Rainha para as flores depositadas à porta do Palácio e a forma como se cruza com a multidão, que permitem o regresso a casa em paz da Família Real.


Stephen Frears

Depois do funeral encontramos o Primeiro-Ministro Tony Blair e a Rainha Isabel II como sempre, cada um no seu lugar, mantendo o protocolo e em paz para continuarem a dialogar nos jardins de assuntos de Estado, mas também de trivialidades, mantendo as devidas distâncias, porque ela veio para ficar e ele é apenas mais um Primeiro-Ministro de passagem, como a História o provou.
Stephen Frears, em “The Queen”, dá-nos a lição de que o convívio entre o cinema e a televisão nem sempre é fatal, criando uma obra inesquecível, na qual a direcção de actores é um trunfo, mas sendo o seu olhar cinematográfico a mais-valia deste filme tranquilo.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Lawrence Durrell - "Carrossel Siciliano" / "Sicilian Carousel"


Lawrence Durrell
“Carrossel Siciliano”
Livros do Brasil, Pag. 336

Desde que descobri a escrita de Lawrence Durrell na adolescência, através do seu celebre “Quarteto de Alexandria”, que tenho lido e relido os seus livros, sempre com um enorme prazer, mas ao longo dos anos tenho-me deparado com enormes dificuldades em adquirir os livros que me faltam, mesmo em edições estrangeiras, porque as reedições são escassas, e algo que aprendi através de duras penas foi que, por muito mau estado em que esteja um livro, vale sempre a pena ficar com ele quando é o único exemplar disponível. Esta situação vivi-a na Gilbert Joseph em Paris, quando ao fim de dez anos de busca descobri o célebre “Nunquam”, o segundo volume de “A Revolta de Afrodite”, já que o primeiro intitulado “Tunc” foi editado em Portugal pela Ulisseia e tenho-o em meu poder e até hoje não o voltei a encontrar. Isto tudo para vos falar do fabuloso livro de Lawrence Durrell intitulado “Carrossel Siciliano”, que se encontra editado no nosso país, e que permanece adormecido, meio escondido, nas prateleiras das livrarias, porque infelizmente na maioria dos casos os livreiros do século xxi e os grandes espaços comerciais só dão destaque às novidades, muitas delas de qualidade bastante duvidosa, que revelam bem um sinal dos tempos presentes.

Lawrence Durrell, neste belo livro, oferece-nos a sua Arte de forma esplendorosa em virtude de ser possível encontrar nele todas as vertentes da sua escrita, nas mais diversas áreas, pois temos por aqui a poesia (*), o humor, as viagens, as memórias e a Literatura. De referir que o escritor surge em “O Carrossel Siciliano” como protagonista, fazendo parte de um grupo de excursionistas visitando as belas paisagens Sicilianas, mas também com a evocação de duas antigas paixões. A bela Martine e essa Grécia, com a sua História, que o acolheu de braços abertos, mas mais tarde o levou a partir para a Provence, como se encontra relatado no seu livro “Chipre Limões Amargos”.



"(...) A cidade parecia sossegada e com pouco movimento, apesar de ainda ser cedo. Houve um pequenino contratempo no hotel, onde descobrimos que os porteiros tinham feito greve nesse dia. Tivemos por isso de carregar com as nossas malas de que precisávamos para aquela noite. 
Isso não teria sido uma questão muito séria se o elevador não estivesse tão atravancado e se o casal diplomático francês conhecesse a arte elementar de fazer as malas. (...) à saída colidimos de novo no corredor, e, com uma espécie de angústia sibilante, o meu companheiro de viagem disse: "Cher maitre, queira desculpar." 
O meu coração desfaleceu, pois compreendi que tinha sido reconhecido, em virtude, talvez, de ter aparecido demasiadas vezes na televisão, em Paris. Mas ele continuou: " Esteja tranquilo, o seu anonimato será respeitado por mim e pela minha mulher. Ninguém saberá nunca, que Lawrence Durrell está connosco." Foi como se Stendhal se encontrasse com Rossini no elevador. Pouco faltou para que ele fizesse uma genuflexão - quanto a mim, creio que inchei de orgulho, como um sapo. Ele afastou-se às arrecuas pelo corredor fora para o seu quarto - como se faz à realeza ou ao Papa. Eu segui pensativamente para o meu. (...) 

(...) A noite estava serena e fragrante. Quando andávamos de um lado para o outro, o francês saiu, viu-nos e avançou com o seu cartão de visita em riste. "Como un ancien préfet de Paris" disse, "permita que me apresente. Conde Petremend, às suas ordens". Tinha umas maneiras deliciosas e inocentes de astúcia.(...) 

(...)Fez-nos companhia num charuto e demos os três uma volta, para cima e para baixo pelo jardim tépido e sossegado. "Comoveu-me a sua menção do meu anonimato", declarei, emocionado. "Nunca tive qualquer problema com ele, antes. Uma ou duas vezes estive quase a ser declarado persona non grata, mas ficou por aí. Na verdade, a única cruz que tenho que carregar é a de, aonde quer que vá me pedirem que autografe os livros do meu irmão. É invariável." Devo ter falado com grande veemência, pois Deeds olhou para mim com alguma surpresa e disse: "Ainda não aconteceu. " "Mas acontecerá, Deeds, acontecerá." (Dois dias depois, aconteceu. Não me fiz rogado, como de costume, e assinei Marcel Proust com o floreado adequado.) 

Nessa noite o nosso conhecimento não foi mais longe porque a mulher do Conde apareceu com uma rima de cartas para ele endereçar e estampilhar - e o conde despediu-se, uma vez mais com a mesma cortesia requintada.(...) 


(*) - Ver crónica sobre "Taormina"

Lawrence Durrell 

in "Carrossel Siciliano"  - (Siracusa)

René Magritte - "La clairvoyance (autoportrait)


René Magritte - "La clairvoyance" (autoportrait) - (1936)
Óleo sobre tela, 54,5 x 65,5 cm.

John M. Stahl - “Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession”


John M. Stahl  - “Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession”
(EUA – 1935) – (98 min. - P/B)
Irene Dunne, Robert Taylor, Betty Furness, Sara Haden, Charles Butterworth.



A memória do cinema, por vezes, é bem madrasta para cineastas que ofereceram a sua vida à Sétima Arte. E não é preciso ir muito longe para falar nesse homem chamado John M. Stahl, que nos ofereceu a Arte do Melodrama nesses longínquos anos trinta, e a sua genialidade era tão grande que, vinte anos depois, os mesmos Estúdios Universal que o acolheram durante a sua carreira, fizeram os “remakes” de três das suas principais obras: “Magnificent Obsession”, Imitation of Life” e When Tomorrow Comes”, sendo essa tarefa de revisão entregue a outro Mestre do Melodrama: Douglas Sirk.


Porém, quando se fala dos geniais melodramas de Sirk, que tanto influenciaram a obra de Rainer Werner Fassbinder, o americano John M. Stahl fica quase sempre no esquecimento, surgindo apenas como autor de uma primeira versão das obras. Estamos assim perante uma das grandes injustiças da História do Cinema, sendo a outra o esquecimento de Frank Borzage, mas há muitas mais, referimos apenas estes dois nomes porque eles estão definitivamente associados a esse género chamado melodrama, que nunca foi muito amado pela crítica cinematográfica: o esquecimento a que foi votado pela Academia de Hollywood esse melodrama contemporâneo intitulado “As Pontes de Madison County” / “The Bridges of Madison County”, realizado por Clint Eastwood, fala por si.

John M. Stahl iniciou a sua actividade em 1918, ainda nessa época heróica do cinema mudo e, até à sua morte em 1950, fez quarenta filmes, bem demonstrativos do seu saber, sendo também um dos fundadores da Academia de Hollywood, mas quando morreu foram poucos os que se lembraram dele.


Rock Hudson e Jane Wyman - o remake
Robert Taylor e Irene Dunne - o original

“Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession” é na verdade um produto da Universal, que sempre cultivou a Arte do Melodrama, esse género que levava as plateias a puxar do lenço para limparem as lágrimas, perante as tragédias que se desenrolavam no grande écran, tantas vezes o espelho perfeito de vidas anónimas, que ainda hoje se cruzam connosco.

Ao contrário de Douglas Sirk, que explorou no seu “remake” todas as potencialidades deste melodrama, pondo grande ênfase na questão da operação de Helen Hudson, John. M. Stahl tirou bom partido do facto da protagonista ser a fabulosa Irene Dunne, que mais tarde iria constituir com Cary Grant uma fabulosa dupla, e introduziu momentos de pura comédia, a um passo da tragédia, como veremos na chegada ao hospital de Helen (Irene Dunne) e Joyce Hudson (Betty Furness). Por outro lado a presença de Robert Taylor nesta película (ainda sem o famoso bigode), serviu de rampa de lançamento para o actor, que aqui começa na comédia e rapidamente vive o melodrama em todo o seu fulgor.


O Dr. Hudson é um homem que gosta de ajudar os outros e pratica uma espécie de filosofia que convida a manter secreta essa mesma ajuda, pedindo apenas que, em troca, a pessoa realize um acto idêntico perante o seu semelhante. Mas infelizmente o Dr. Hudson morreu de paragem cardíaca, devido ao facto de único aparelho que existia na clínica ter sido requisitado para socorrer o playboy e milionário Bobby Merrick (Robert Taylor), que tinha caído no lago, perdido de bêbado, após horas de farra.


John M. Stahl e o esplendor do preto e branco!
Douglas SirK e as suas famosas cores!

Merrick recupera dessa noite sem regras, na clínica do Dr. Hudson, onde a consternação é geral pela morte do médico, e o destino fará com que se cruze com Helen Hudson, a esposa do clínico falecido, e fique fascinado por ela, embora esconda a sua identidade, devido aos acontecimentos recentes, mas a tragédia espreita na estrada e ela irá ficar cega para sempre…


John M. Stahl

Estamos assim perante esse perfeito território trágico, que John M. Stahl tão bem explorou e, quando revemos este filme, descobrimos nele a verdadeira essência do melodrama, nesses dourados anos trinta, hoje em dia tão esquecidos.
(Re)vermos a obra de John M. Stahl é a melhor homenagem que poderemos prestar a este cineasta e será sempre de referir que a edição em DVD que a Costa do Castelo fez nos oferece as duas versões de “Sublime Expiação”,  a de John M. Stahl e a de Douglas Sirk! 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Chick Corea / Gary Burton - "Lyric Suite For Sextet"


Chick Corea / Gary Burton
“Lyric Suite For Sextet”
ECM Records

Uma das fórmulas musicais que celebrizaram o trabalho de Manfred Eicher como produtor à frente da editora alemã ECM Records, foi precisamente os álbuns de duetos no interior do jazz e se muitos ainda hoje guardam na memória trabalhos como “Ruta And Daitya”, que nos oferecia Keith Jarrett e Jack DeJohnette (já aqui abordado) ou os dois trabalhos discográficos, “Sargasso Sea” e “Five Years Later”, que juntaram Ralph Towner e John Abercrombie ou ainda o surpreendente “Dança das Cabeças” (também já aqui abordado), que nos convidava a descobrir o universo de Egberto Gismonti e Nana Vasconcelos, entre outros belos “duelos” no interior do jazz, mas os mais célebres de todos serão os "encontros" que nos foram proporcionados pelo pianista Chick Corea e o vibrafonista Gary Burton, que logo no seu primeiro "encontro"/álbum intitulado “Crystal Silence”, surpreenderam o universo musical em 1972, para seis anos depois surgirem de novo num trabalho que iria dar continuidade ao anterior, que foi baptizado simplesmente de “Duet”, corria então o ano de 1978 e a ECM Records afirmava-se já como a mais original editora europeia de jazz. Mas cinco anos depois, ou seja em 1983, os dois músicos decidiram surpreender-nos novamente e desta feita apelaram à contribuição de um quarteto de cordas, constituído por Ikwhan Bae e Carol Shive nos violinos, Karen Dreyfus na viola e Fred Sherry no violoncelo e assim Chick Corea ofereceu-nos uma das mais belas obras discográficas da sua longa carreira musical, o trabalho “Lyric Suite For Sextet”. São sete belos temas todos bem diferentes, mas que se escutam como um todo, havendo espaço para todos brilharem, seja em dueto piano e vibrafone, solo de um dos dois intervenientes ou através das texturas criadas pelos instrumentos de cordas. No entanto, seria injusto não destacar o romantismo do tema “Brasília”, a mais bela de todas as composições criadas por Chick Corea para este álbum, de um lirismo absoluto e que vos convido a descobrir. Gravado a 1 de Setembro de 1983, “Lyric Suite For Sextet” de Chick Corea e Gary Burton revela-se um belo encontro entre dois géneros musicais oriundos de áreas bem distintas: o jazz e a denominada música erudita. 

Virginia Woolf - "As Ondas" / "The Waves"


Virginia Woolf
“As Ondas”
Relógio D’Água, Pag. 240

Sempre que estou junto do mar recordo-me deste maravilhoso livro de Virginia Woolf, porque ao escutar as sonoridades oriundas da orla marítima vejo as seis crianças deste livro a correrem no areal e a brincarem com os seus pensamentos e depois sinto que o narrador deste livro se revela como uma dessas crianças-nocturnas que habita o interior do ser humano, guardando as memórias de uma vida, para depois brincar com elas no interior dos sonhos. Mas “As Ondas” também nos oferece uma certa musicalidade que só Virginia Woolf, no seu radicalismo de escrita, conseguiria fazer nascer. Uma outra escritora, Marguerite Yourcenar, referiu-se a esta obra-prima da Literatura em termos profundamente musicais, comparando-a à famosa Arte da Fuga de J. S. Bach.
Ao acompanharmos o percurso dos seis protagonistas do livro, três rapazes e três raparigas, terminamos por nos reencontrarmos no outro lado do espelho da vida, a rever o que tem sido a nossa passagem pela vida, sempre com as ondas no horizonte. Estamos perante o mais belo romance desta genial escritora, que nunca foi à escola, porque era mulher, mas que deixou o seu nome, Virginia Woolf, gravado para sempre na História da Literatura.


(...) Ao aproximarem-se da praia as ondas erguiam-se, tomavam forma e desfaziam-se arrastando pela areia um ténue véu de espuma branca. A ondulação detinha-se, partia de novo, suspirando como alguém que dorme e cujo sopro vai e vem sem que a sua consciência saiba. Pouco a pouco, a barra escura do horizonte clareou como as impurezas de um vinho antigo que se depositassem na garrafa, deixando transparecer o seu vidro. Lá ao fundo, também o céu se tornou translúcido, como se nele se houvesse desprendido um sedimento branco, ou o braço de uma mulher reclinada no horizonte erguesse ao alto uma lâmpada. Faixas de branco, amarelo e verde alongaram-se sob o céu como longas folhas de um leque. Depois a mulher ergueu a lâmpada ainda mais alto: o ar inflamado pareceu cindir-se em fibras vermelhas e amarelas, elevando-se da superfície verde num frémito ardente, como as chamas envoltas em fumo de uma fogueira. Pouco a pouco, todas as fibras numa única massa incandescente e o cinzento do céu transformou-se num milhão de átomos de um suave azul. A superfície do mar tornou-se transparente e as grandes linhas escuras quase desapareceram no ondular das águas e na sua cintilação. O braço que sustinha a lâmpada continuou a subir devagar até que uma grande labareda surgiu. 

Um disco de fogo ardeu no rebordo do horizonte e o mar à sua volta tornou-se um esplendor de ouro. (...) 

Virginia Woolf  

in "As Ondas"

René Magritte - "Les valeurs personneles"


René Magritte - "Les valeurs personneles" - (1951/52)
Óleo sobre tela, 80 x 100 cm.

Gregory Hoblit – “A Raiz do Medo” / “Primal Fear”


Gregory Hoblit – “A Raiz do Medo” / “Primal Fear”
(EUA – 1996) – (129 min. / Cor)
Richard Gere, Laura Linney, Edward Norton, Frances McDormand, John Mahoney, Alfred Woodard, Joe Spano.

“A Raiz do Medo” / “Primal Fear” marca a estreia no cinema de Gregory Hoblit, que entra por uma surpreendente porta grande ou não fosse ele um dos responsáveis pela “Balada de Hill Street” / “Hill Street Blues”, a par do célebre Steven Bochco e da famosa série “L.A. Law”.
Partindo do romance de William Diehl, o cineasta irá construir um “thriller” de primeira água, onde iremos conhecer um famoso advogado de Chicago, Martin Vail (Richard Gere, numa das melhores interpretações da sua longa carreira), que gere a sua celebridade movimentando-se como ninguém nos “ Media”, ao mesmo tempo que co-habita os territórios do poder a par com os criminosos que defende com êxito, sempre tendo em vista o dinheiro que pode ganhar com isso.


E quando o conhecido Arcebispo Rushman (Stanley Anderson) é assassinado por um jovem acólito, de forma brutal, recebendo o cognome de “o carniceiro” pela Imprensa, de imediato Martin Vail (Richard Gere) oferece-se para defender o jovem Aaron (o então desconhecido Edward Norton, que nos irá surpreender com a sua interpretação ou não fosse ele um dos maiores actores da sua geração), já que vê naquele caso macabro a forma perfeita de aumentar ainda mais a sua popularidade, começando a defender a inocência do seu tímido cliente, partindo do princípio que poderia existir um terceiro agressor.


Tendo em conta o escândalo, o Procurador-Geral Shaughnessy (o veterano e excelente secundário John Mahoney), decide pedir a pena capital para o acusado, encarregando Janet Venable (Laura Linney, também ela sempre excelente) de tratar da acusação, recomendando desde logo que não poderá haver falhas no processo. A bela Janet Venable, antiga advogada estagiária de Martin Vail, com quem tinha tido um caso irá ,por todos os meios ao seu alcance, levar esses mesmos objectivos a bom porto. Mas nos bastidores encontram-se poderosas forças económicas, envolvidas na especulação de terrenos, com o intuito de criarem condomínios de luxo, sociedade essa ligada à Igreja através do próprio Arcebispo.


Durante a investigação efectuada pelos membros da equipa de Martin Vail, irá ser encontrada uma cassete filmada pelo próprio Arcebispo, onde se vê o acusado com mais um acólito a ter relações sexuais com uma rapariga, originando desde logo um enorme escândalo, ao mesmo tempo que o acusado começa a revelar perante a psicóloga (Frances McDormand), que o interroga filmando as sessões, possuir uma dupla personalidade, o que irá baralhar, decididamente, as regras do jogo, conseguindo Martin Vail (Richard Gere) levar “a água ao seu moinho”, manipulando tudo e todos, em busca dessa celebridade  que tanto ama e os “Media” adoram.


“A Raiz do Medo” / “Primal Fear” oferece-nos um "thriller" emocionante, à medida que as cartas do jogo vão sendo conhecidas, envolvendo o espectador de forma perfeita no filme, onde nunca é demais salientar o trabalho dos protagonistas, aliás o elenco, se virem bem, é de luxo e depois temos uma excelente direcção de actores, vejam-se as sequências no tribunal, para no final, após o julgamento e a decisão tomada pela justiça, sermos todos surpreendidos pela verdade dos factos! Tentem ver este filme magnifico e não se esqueçam de fixar o nome do realizador, porque aqui estamos perante um grande cineasta, facto que nos será comprovado pelos filmes seguintes de Gregory Hoblit. 

terça-feira, 28 de março de 2017

Terje Rypdal - "Whenever I Seem To Be Far Away"


Terje Rypdal
“Whenever I Seem To Be Far Way”
ECM Records

O guitarrista norueguês Terje Rypdal sempre teve uma enorme afeição pela denominada música erudita, tendo começado a ter lições de piano aos cinco e a escolher o trompete aos oito anos de idade como o seu instrumento de eleição,  sendo assim bem natural ter confessado um dia que uma das suas maiores influências musicais tenha sido esse nome incontornável da história do jazz chamado Miles Davis e este álbum intitulado “Whenever I Seem To Be Far Way” é o espelho disso mesmo, gravado em Oslo em 1974, para a editora de Manfred Eicher, ECM Records, ele representa uma dessa moedas com cara e coroa bem diferentes, mas com o mesmo valor.

Assim, se no lado A do álbum iremos encontrar o seu habitual grupo Odyssey nos temas “Silver Bird Is Heading For The Sun”, com uma famosa entrada do melotron, na época bastante usado pelos grupos rock, e depois a surgirem as sonoridades bem conhecidas do grupo, com o inevitável destaque para a sua guitarra eléctrica, já no tema seguinte, bastante mais curto e intitulado “The Hunt”, temos logo a abrir e a marcar decididamente o tema a bateria do famoso Jon Christensen, um dos nomes mais solicitados da casa ECM Records, para depois entrarmos no som característico da década de setenta do guitarrista Terje Rypdal e do seu grupo Odyssey.


Mas, ao virarmos o disco de vinil para escutarmos o lado B com o tema “Whenever I Seem To Be Far Away” (Image for electric guitar, strings, oboe and clarinet), que dá título ao trabalho discográfico, surge-nos algo de totalmente diferente, porque aqui vamos encontrar Terje Rypdal a ser acompanhado pela Sudfunk Symphony Orchestra, dirigida por Mladen Gutesha e logo nos primeiros compassos iremos deparar com algo de profundamente meditativo e onde iremos descobrir ao longo da audição solos de Christian Hedrich na viola, Helmut Geiger no violino e Terje Rypdal em guitarra eléctrica, este último sempre em crescendo, levando-nos até esse Paraíso sempre tão fascinante e onde habitam os mestres da guitarra eléctrica, revelando-se o norueguês precisamente um dos seus grandes criadores. Aliás, quem o viu em Lisboa, entende bem o que estou a escrever.

Por outro lado convém referir que Terje Rypdal estudou composição e tem desenvolvido intensa actividade também neste campo, com inúmeras peças para música de câmara e coral, algumas delas já gravadas precisamente na ECM Records, para além das suas seis sinfonias. A nossa proposta para uma primeira abordagem da outra faceta musical de Terje Rypdal é precisamente este belo e melancólico tema intitulado “Where I Seem To Be Far Away”, uma verdadeira pérola da sua discografia, já disponível em cd e com uma capa lindíssima.

Yukio Mishima - "O Tumulto das Ondas" / "Shiosai"



Yukio Mishima
“O Tumulto das Ondas”
Relógio D’Água, Pag.174

Foi através de um texto de António Mega Ferreira (*) publicado no JL – Jornal de Letras, na época em que ele era chefe de redacção, que descobri o escritor Yukio Mishima, o alvo era a publicação em Portugal de “O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar” e desde então tenho lido tudo o que encontro do autor japonês, depois temos o celebre filme que Paul Schrader realizou, sobre o qual já aqui escrevemos, e essa obra incontornável que Margueritte Yourcenar escreveu sobre o escritor e disponível no nosso país graças à editora Relógio D’Água que também é responsável pela edição deste belo e singular romance intitulado “O Tumulto das Ondas” com ilustrações de Catarina Baleiras. Estamos perante um belo romance que nos narra a história de amor entre Shinji, um jovem pescador pobre e a bela Hatsue de outra condição social, mas que não será impedimento para que a chama do amor surja de mansinho e os leve a unir esforços para ultrapassar as barreiras que os separam do Paraíso. Como já é habitual nestas pequenas crónicas aqui fica um pequeno trecho deste belíssimo  livro de Yukio Mishima.



“O Tumulto das Ondas”


(...) "Agora, já Shinji podia entrar livremente em casa de Miyata Terukichi. Um dia que voltava, apresentou-se à porta da casa com uma camisa de colarinho aberto, de brancura impecável, e com as calças acabadas de passar a ferro; em cada mão trazia uma dourada... 
Hatsue esperava-o, já pronta. Os dois jovens haviam prometido ir ao templo de Yashiro e ao farol para anunciar o noivado e transmitir os agradecimentos. 
Iluminou-se a entrada de terra batida mergulhada na meia escuridão do crepúsculo. Hatsue surgiu, vestida com aquele quimono de Verão, branco, com grandes campainhas, que comprara ao vendedor ambulante. A brancura do vestido brilhante, mesmo em plena noite. 
Shinji ficara à espera, apoiando-se com uma mão à porta da entrada; baixou o olhar para Hatsue quando esta apareceu e, sacudindo uma das pernas calçadas com socos de madeira, como quem espanta os insectos, murmurou: 
- Os mosquitos são terrívéis! 
- São, não são? 
Os dois jovens subiram a escadaria de pedra que levava ao templo de Yashiro. Em vez de correrem por ali acima como poderiam ter feito, preferiram subir lentamente os degraus, com os corações banhados de alegria, como para saborearem o prazer de cada degrau."(...) 

Yukio Mishima
in "O Tumulto das Ondas"

(*) - O Texto de António Mega Ferreira sobre Yukio Mishima que refiro, poderá ser encontrado no livro "A Borboleta de Nabokov". (Ed.Noticias) 

René Magritte - "La fée ignorante"


René Magritte - "La fée ignorante" - (1956)
Óleo sobre tela, 50 x 65 cm.

Delmer Daves – “O Comboio das 3 e 10” / “3:10 To Yuma”


Delmer Daves – “O Comboio das 3 e 10” / “3:10 To Yuma”
(EUA – 1957) – (92 min. – P/B)
Glenn Ford, Van Heflin, Leora Dana, Henry Jones, Robert Emhardt, Richard Jaeckel.

O cineasta Delmer Daves, apesar de se ter formado em Direito pela Stanford University, nunca irá exercer a profissão, iniciando-se no cinema num trabalho menor em “The Covered Wagon” (1927). Mais tarde passou a actor e pouco tempo depois começou a colaborar na escrita de argumentos, passando rapidamente a ser reconhecido pelo seu enorme talento. Filmes como “A Floresta Petrificada” / “The Petrified Forest” (1936) e “Ele e Ela” / “Love Affair”, devem tudo ao saber do argumentista, tendo-se Delmer Daves estreado na realização com “Rumo a Tóquio” / “Destination Tokyo” (1943), tendo Cary Grant e John Garfield nos protagonistas.


No entanto será nesses géneros, hoje um pouco esquecidos, o “Western” e o denominado “Film Noir”, que este cineasta irá dar nas vistas, continuando, muitas vezes a assinar os seus próprios argumentos, ao mesmo tempo que gostava de produzir os seus próprios filmes, para assim ter um maior controlo sobre todos os aspectos da produção das películas, impedindo desta forma as tão famosas intromissões de terceiros ou seja os patrões do Estúdio.


“O Comboio das 3 e 10” / “3:10 to Yuma” é um dos seus filmes mais famosos, um “Western” que, de certa forma, irá beber da mesma fonte que o célebre “High Noon” / “O Comboio Apitou Três Vezes” de Fred Zinnemann, oferecendo a Glenn Ford, que aqui interpreta a personagem Ben Wade, um dos seus melhores desempenhos, na figura de um famoso chefe de uma quadrilha, que não olha a meios para atingir os seus fins, embora tente evitar danos colaterais ou se preferirem vítimas inocentes, revelando sempre uma enorme eficácia nos assaltos que planeia e será isso mesmo que iremos ver logo no início do filme, com o assalto à diligência que transporta o ouro.


Mas antes deste acontecimento fulcral para o desenvolvimento da acção, iremos conhecer um homem e a sua família, Dan Evans (Van Heflin), que luta na sua parcela de terreno contra a seca que atinge a região onde vive. E será esse mesmo homem que irá presenciar o assalto na companhia dos dois filhos pequenos e que irá desempenhar um papel primordial em “3:10 to Yuma”, ao aceitar levar o perigoso bandido até ao comboio, que o irá conduzir até ao presídio, depois deste ter sido capturado, em virtude de ter decidido ficar para trás, para cortejar a jovem empregada de um saloon.


Dan Evans (Van Heflin) irá aceitar essa missão, na companhia de Alex Porte (Henry Jones), conhecido como o eterno bêbado do lugarejo, mais o dono da companhia das diligências, que lhes oferece 200 dollars em troco da difícil missão, verba que irá retirar da miséria Dan Evans e a sua família.
Ao longo do filme iremos ter o retrato psicológico dos dois homens, o temível Ben Wade e o pobre Dan Evans, num temível duelo de palavras, percebendo de imediato o fora-da-lei as razões que levam aquele homem a aceitar a mortífera missão. Estamos assim perante o célebre “Western Psicológico”, que irá fazer furor nesses anos, ao mesmo tempo, que Delmer Daves consegue envolver o espectador de forma perfeita na trama do filme.

Delmer Daves

Em 2007, o cineasta James Mangold, realizou um “remake” deste filme, com Russell Crowe e Christian Bale nos protagonistas, mas o original, no seu soberbo preto e branco, continua a suplantar o “remake”, graças ao saber desse grande cineasta chamado Delmer Daves.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Keith Jarrett - "Arbour Zena"



Keith Jarrett
“Arbour Zena”
ECM Records

Tenho que confessar que este é um dos meus álbuns favoritos de Keith Jarrett e o primeiro vinil que comprei da ECM Records. Descobri “Arbour Zena” no programa de Rádio “Forum”, da responsabilidade do saudoso Jorge Lopes(*), que para além de ser a mais famosa voz da RTP na área das transmissões de Atletismo, foi também na Rádio o maior divulgador da música da ECM Records no século passado.

Ao iniciarmos a audição deste intemporal trabalho discográfico de Keith Jarrett, datado de 1976 e que recentemente teve uma nova edição, somos invadidos pela cordas da “Radio Symphony Orchestra” de Stuttgart, dirigida por Mladen Gutesha e depois surge-nos o piano de Jarrett pontuando o movimento das cordas, até chegar o contrabaixo de Charlie Haden, que irá convidar a orquestra de cordas a navegar pelas linhas que vai elaborando, sempre acompanhado de forma envolvente e melodiosa pelo piano de Keith Jarrett, ao longo de “Runes”, passando por momentos de um solo mágico e inesquecível, até chegar o saxofone de Jan Garbarek a concluir a primeira viagem deste trabalho discográfico.

Já o segundo tema do álbum “Arbour Zena”, dedicado a Pablo Casals and The Sun e intitulado “Solara March”, surge de forma profundamente melancólica com uma abertura soberba do contrabaixo de Charlie Haden, sempre acompanhado pela orquestra de cordas e só depois nos irá surgir o piano de Jarrett a respirar melancolia por todas as teclas, entrando num soberbo diálogo com Haden, mas quando estamos a chegar a metade deste tema, o piano de Keith Jarrett surge em crescendo e entra o saxofone de Jan Garbarek, repleto de vivacidade e cor, que irá contagiar os restantes intervenientes, sempre numa perfeita harmonia.

A terceira peça deste genial “Arbour Zena” irá contar apenas com a participação de Keith Jarrett no piano e Jan Garbarek nos saxofones soprano e tenor, acompanhados pela respectiva Orquestra de Cordas, dirigida por Mladen Gutesha, que nos irá oferecer ao longo da quase meia-hora do tema “Mirrors” uma inesquecível viagem por um universo neo-romântico, convidando o ouvinte a contemplar o mundo que o rodeia, através de acordes de uma beleza transcendental.
O romantismo que respira das três faixas que compõem “Arbour Zena” levou-nos a elegê-lo como o ponto de partida da viagem musical desta semana: o encontro entre o jazz e a denominada música erudita, nessa bela encruzilhada, que muitas vezes nos conduz a maravilhosas descobertas.

(*) – De Jorge Lopes e do seu programa “Forum” iremos falar em breve nas Crónicas da Galaxia.

Peter Handke - "A Tarde de um Escritor" / "Nachmittag eines Schriftstellers"


Peter Handke
“A Tarde de um Escritor”
Editorial Presença. Pag. 90

Quando escutamos alguém a falar no nome de Peter Handke, de imediato surgem na nossa memória as películas de Wim Wenders nascidas a partir dos argumentos desta voz singular da denominada nova literatura alemã, em que a solidão é tantas vezes personagem, basta recordar filmes como “As Asas dos Desejo”, “Movimento em Falso”, “A Mulher Canhota” ou “A Angustia do Guarda-Redes Perante o Penalty”, estes dois últimos nascidos primeiro no formato de novela e só depois transformados em argumento cinematográfico. Peter Handke, ao longo dos anos, tem trabalhado a palavra através de uma actividade ímpar, que tem alternado entre a literatura, o teatro e o cinema, recorde-se que também ele já realizou quatro películas. Mas o que nos interessa aqui é precisamente o seu trabalho literário, mais concretamente o magnifico livro “A Tarde de um Escritor”, que surge dedicado a Francis Scott Fitzgerald e onde a solidão humana se encontra bem presente, ou não fosse essa mesma solidão a oficina ideal do escritor, como um dia referiu Paul Auster numa entrevista.

Em “A Tarde de um Escritor” iremos descobrir uma profunda reflexão sobre a existência humana nas sociedades contemporâneas, essa difícil arte de existir tantas vezes incógnito no interior da sua própria escrita, oferecendo sempre um pouco de si mesmo às personagens que vai criando, até chegar esse momento em que a ficção e a realidade se diluem de forma perfeita nas palavras que vai construindo, em busca dessa linguagem perfeita que aquece os dias matando o frio das pequenas solidões. Aqui vos deixo dois trechos deste incontornável livro de Peter Handke intitulado “A Tarde de um Escritor”.



“A TARDE DE UM ESCRITOR”

"Desde que, durante quase um ano, o escritor viveu com a ideia de ter perdido a língua, cada frase que escrevia, sentindo ainda por cima o ímpeto da possível continuação, era para ele um acontecimento. Cada palavra que, não dita, mas escrita, dava origem à outra palavra, fazia-o respirar fundo e ligava-o de novo ao mundo; só com esse apontamento feliz começava para ele o dia, e então também bem podia ser que nada mais acontecesse até à manhã seguinte." (...) 

(...) "O escritor já ía a meio caminho do portão do jardiim, quando de repente se voltou. 
Correu para dentro de casa, precipitou-se lá para cima para o quarto de trabalho e substituiu uma palavra por outra. Só agora sentia no quarto o cheiro do suor e via a húmidade nos vidros. 
De repente deixou de ter tanta pressa. De repente devido a essa nova palavra, toda a casa vazia deu a impressão de calor e de bem-estar.(...) 


Peter Handke
in "A Tarde de Um Escritor"

René Magritte - "La voix des vents"


René Magritte - "La voix des vents" - (1928)
Óleo sobre Tela, 73x54 cm.

Tony Scott – “Déjà Vu”


Tony Scott – “Déjà Vu”
(EUA - 2006) – (128 min / Cor)
Denzel Washington, Paula Patton, Val Kilmer, James Caviezel..

Tony Scott é um daqueles cineastas cujo nome guardamos na memória com saudade, após a sua partida recente. Oriundo da publicidade, tal como o seu irmão Ridley Scott, desde sempre conjugou a estrutura publicitária no interior da sua obra cinematográfica, surgindo este como uma espécie de assinatura ou elemento identificador do cineasta.


“The Hunger” / “Fome de Viver”, película que o deu a conhecer ao mundo, deixou todos perfeitamente boquiabertos perante aquela história de vampiros e lésbicas, possuidora de uma carga erótica capaz de acordar o mais escondido fantasma na alma do homem. Depois a sua carreira entrou decididamente no interior da Indústria e por lá ficou. Mas não podemos definir a Indústria Cinematográfica como sinónimo de falta de qualidade, porque basta recordar “Maré Vermelha” / “Crimson Tide” ou “Spy Games” / “Jogo de Espiões” para nos situarmos em duas obras de Tony Scott em que a qualidade é simplesmente imparável. É certo que “Top Gun” e “Caça Polícias II” também está no seu curriculum, mas será sempre de recordar o que de melhor possui um cineasta.


Em “Déjà Vu” voltamos a encontrar Denzel Washington sobre o comando de Tony Scott e mais uma vez o actor nos oferece uma imagem politicamente correcta do seu herói, longe do polícia de “Dia de Treino” / “Training Day” de Antoine Fuqua ou dos tiques desse outro fabuloso polícia interpretado em “Infiltrado” / “Inside man” de Spike Lee (onde ele até nem se esqueceu do chapéu). Mais uma vez temos aqui Denzel Washington na figura de um polícia a investigar um ataque terrorista a um “ferry-boat” carregado de pessoas, sendo uma grande parte deles marinheiros. As provas vão surgindo lentamente, criando pistas, mas desvendar as causas do ataque é bastante problemático. Começa então a desenhar-se perante o agente Doug Carlin (Denzel Washington) um caminho científico criado pelas novas tecnologias, que permite regressar atrás no tempo até um período de quatro dias, mas as imagens vistas uma vez nunca mais poderão ser reconstituídas e a decisão do caminho a tomar está nas suas mãos, a sua palavra é ordem, ao contrário do que sucedeu muitos anos antes no cinema a Mr. Tibbs (Sidney Poitier), perdido numa little town racista (*).


Todos estes meios só foram postos à disposição de Doug após o agente do FBI Andrew Pryzwarra (Val Kilmer) se ter assegurado de que ele vivia para o seu trabalho, os pais tinham morrido durante o furacão Katrina (profundamente desoladoras as imagens oferecidas pelo filme, toda a acção se desenrola em New Orleans, sendo até o filme dedicado aos seus habitantes), a namorada partira, abandonando-o, a esperança tinha desaparecido e ele era um homem só naquele deserto de destroços. Mais importante para Andrew é que Doug Carlin participou nas investigações do caso de Oklahoma, referência ao maior ataque terrorista levado a cabo por americanos.


Perante este cenário, vamos encontrar mais uma vez as teses que fazem história na extrema-direita americana através de James Caviezel, numa interpretação em que o ex-Jesus Cristo de Mel Gibson consegue personificar o mal com paixão e dever cumprido, mas a tecnologia posta ao serviço de Doug Carlin  irá proporcionar-lhe viajar no tempo, curto espaço de tempo é certo, levando-o ao encontro de Claire (Paula Patton), a primeira vítima do terrorista e elemento fulcral para o bom desenrolar das investigações.
Tony Scott consegue ao longo da película manter o suspense de toda a intriga, embora por vezes as explicações científicas sobre as capacidades da máquina sejam demasiado extensas, porque estamos num filme de acção e muitas vezes a acção é derrotada quando há demasiadas pausas para explicações. Apesar deste pequeno senão, estamos perante um bom policial, que nos conduz a um termo muito popular no século xx: Isto é Cinema!.

(*) - Referimo-nos ao filme de Norman Jewinson intitulado “No Calor da Noite” / “In the Heat of the Night”.

domingo, 26 de março de 2017

Brian Eno - "Neroli"


Brian Eno
“Neroli”
All Saints Records

“Neroli” surge na discografia de Brian Eno como o quarto capítulo da série “Thinking Music”, cujos títulos anteriores foram “Music For Airports”, “Discreet Music” e “Thursday Afternoon”, sendo aquele em que o espaço oferecido ao silêncio nos surge como mais contemplativo e posteriormente trabalhado nos álbuns “Spinner”, para surpresa de muitos (por acaso deixou o cd tocar/rodar até ao final?) e “Drawn From Life”, tal como fizeram anos antes os King Crimson no trabalho “Islands” e Laraaji praticou de forma bem diferente, oferecendo ao ouvinte a possibilidade de trabalhar o silêncio no seu magnifico trabalho “Flow Goes The Universe”.

Ao entrarmos na envolvência dos sons que se repercutem no espaço através de uma simples nota, que se dispersa em variantes, Brian Eno constrói uma peça despida de artifícios, de forma a introduzir o ambiente proporcionador a uma tranquilidade mais-que-perfeita, ao ponto de algumas maternidades no Reino Unido terem usado este trabalho, como refere uma nota impressa no cd, tendo até o próprio artista pensado em criar um tema mais longo do que aquele que se escuta no cd, recorde-se que “Neroli” possui uma única faixa de 57,56 minutos.


Numa excelente colectânea editada por Brian Eno e intitulada “Eno Box I – Instrumentals”, composta de três cds e um livro, podemos encontrar os 4 temas que compõem “Thinking Music” com durações temporais inferiores aos álbuns originais, à excepção do tema fundador “1/1” de “Music For Airports”. Esta magnifica colectânea possui outra caixa intitulada “Brian Eno II – Vocals” também constituída por 3 cds e um livro, ambas são possuidoras de alguns temas bem difíceis de encontrar.

Regressando a “Neroli”, podemos acrescentar que os princípios enunciados para este trabalho discográfico terminam por ser idênticos aos revelados nos discos anteriores, embora desta feita haja espaço a um certo radicalismo em que a “ambient music” surge despida de artifícios, possivelmente como resposta de Brian Eno a uma certa corrente musical que se autodenomina de New Age, pretendendo por vezes afirmar-se como “ambient music”, o que na verdade não corresponde à realidade.

Vale a pena na tranquilidade de um fim de tarde escutar “Neroli” e descobrir como é bela a “Ambient Music” de Brian Eno.

Nota: Na próxima semana iremos visitar uma outra área musicalJ!