terça-feira, 25 de abril de 2017

Garry Marshall – “Frankie & Johnny”


Garry Marshall – “Frankie & Johnny”
(EUA - 1991) – (118 min. / Cor)
Al Pacino, Michelle Pfeiffer, Hector Elizondo. Kate Nelligan, Nathan Lane.

Cada rosto esconde uma história e todas as histórias são compostas por dor e amor, alegria e desespero, paixão e silêncio, lágrimas e sorrisos. "Frankie & Johnny” é o título de uma canção mas também uma história profundamente humana, sem dramatismos de "algibeira", apenas possuída pela ternura e a amargura do tempo que passa.


"Frankie and Johnny in The Clair de Lune" é também o título de uma peça de teatro, um verdadeiro embate de sentimentos ao som da música de Claude Debussy.
"Frankie & Johnny" como diz a bela canção de Rickie Lee Jones, "It Must Be Love" e para amar é forçoso descobrir os sentidos e inventar o seu império docemente, quase de mansinho, como as ondas na praia que nos dias tranquilos invadem o areal e sorriem para as crianças, que gatinham inocentemente entre o azul marítimo e as imagens do céu que as protege.


Mas "Frankie & Johnny" é também uma película intimista onde os sentimentos e a solidão habitam a mesma casa e o amor existente nele, eliminando a pouco e pouco o desespero dos espaços fechados..."a vida é sair do emprego, chegar a casa, jantar e ver um vídeo" diz Frankie a Johnny.

No "Appolo Café" descobrimos ilusões e sonhos realizados, amizades profundas e duelos de amor, famílias sem laços sanguíneos e gentes de um mesmo mundo: gente anónima de um tempo, que escuta o respirar das palavras e dos gestos, descobrindo a felicidade ali mesmo ao lado.


Esta película de Garry Marshall, com uma Michelle Pfeiffer translúcida e um Al Pacino cristalino, oferece-nos a cor dos sentimentos com uma sabedoria que, por vezes, intimida todas as "certezas" do nosso universo.


"Frankie & Johnny" está a anos-luz de "Uma Mulher de Sonho", filme também realizado por Garry Marshall e ainda bem, porque a realidade não é feita de Príncipes Encantados e Cinderelas, ela é muito mais complexa e dolorosa, mas também muito mais sincera e apaixonante.


"Frankie & Johnny" é um daqueles filmes que se trazem na algibeira da vida em dias cinzentos e radiosos, porque na verdade é uma película para se (vi)ver na passagem das horas.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Jacques Tati – “As Férias do Sr. Hulot” / “Les vacances de Monsieur Hulot”


Jacques Tati – “As Férias do Sr. Hulot” / “Les vacances de Monsieur Hulot”
(França – 1953) – (96 min – P/B)
Jacques Tati, Nathalie Pascaud, Lucien Frégis.



Jacques Tati é um nome incontornável no interior da comédia e os seus filmes, de uma originalidade absoluta, falam por si. Se em “Há Festa na Aldeia” / “Jour de Féte” iremos encontrá-lo a vestir a pele desse carteiro sempre tão zeloso do seu trabalho, já em “As Férias de Monsieur Hulot” iremos assistir ao nascimento de uma das personagens mais fascinantes de sempre no interior da Sétima Arte, o Monsieur Hulot, sempre acompanhado do seu cachimbo e chapéu, dois adereços que viveram para sempre com o personagem.


“Les Vacances de Monsieur Hulot” vai-nos convidar a seguir as suas férias na praia na zona de Saint-Marc-sur-Mer. Mas mal o vimos na sua “carripana”, que se desloca com uma certa turbulência e alguma dificuldade nas subidas, de imediato um sorriso irá nascer-nos no rosto, para ali permanecer fascinado com os inocentes “gags” oferecidos por Hulot, sempre perfeitos e “angélicos” e onde a “ingenuidade” vive de mãos dadas com a “simplicidade”, fruto de um árduo trabalho criativo.



A entrada de Monsieur Hulot no Hotel de la Plage é memorável e depois, ao longo da sua estadia na estância balnear, iremos assistir às mais diversas situações burlescas: o pneu que se transforma em coroa de flores no cemitério; o passeio de barco na praia, a explosão do fogo-de-artifício ou o seu convívio com os outros veraneantes, que tantas vezes no faz recordar o Petit Nicolas e as suas “vacances”.

Numa época em que as televisões insistem em apresentar “concursos” idiotas, no intuito de fazer rir as audiências, talvez fosse melhor oferecerem ao espectador os filmes de Jacques Tati, (*) para todos descobrirem como se faz sorrir de forma inteligente, partindo de situações do quotidiano. E nunca é demais recordar que ele transforma a banda sonora dos seus filmes num intérprete maravilhoso e surpreendente.



Monsieur Hulot é uma personagem única na História do Cinema e o seu criador, esse cineasta/intérprete de nome Jacques Tati, navegou sempre nesse “mar alto” da comédia ao lado de Charles Chaplin e Buster Keaton, oferecendo-nos a magia do sorriso inteligente das suas películas.

(*) - A RTP Memória tem estado a exibir os filmes de Jacques Tati ao fim de semana.

domingo, 23 de abril de 2017

Sixpence None The Richer - "Kiss Me"


Uma das mais belas homenagens do universo musical à bela cidade de Paris e ao inesquecível cinema de François Truffaut, feita pela banda norte-americana Sixpence None The Richer.

Bonjour Paris!

Félix Nadar - "Charles Baudelaire"

Félix Nadar - "Charles Baudelaire", 1863.

Blake Edwards – “Os Meus Problemas Com as Mulheres” / “The Man Who Loved Women”


Blake Edwards – “Os Meus Problemas Com as Mulheres” / “The Man Who Loved Women”
(EUA - 1983) – (110 min. / Cor)
Burt Reynolds, Julie Andrews, Kim Basinger, Sela Ward.


O nome de Blake Edwards citado isoladamente pode dizer pouco, mas se dissermos que ele é o marido de Julie Andrews, uma luz surgirá no túnel fílmico. E se falarmos de Peter Sellers e do seu saudoso inspector Clouseau e das suas desventuras com a Pantera, iluminamos o écran do nosso divertimento.
Suponhamos ainda que o leitor não é muito dado a estas “coisas” do cinema e que o nome deste cineasta nada lhe diz, recordemos a imagem ideal para a sua memória: “10-Uma Mulher de Sonho”. Não se recorda? Então não se lembra da Bo Derek e do "Bolero" de Ravel?!
Afinal sempre conhecia o Blake Edwards e os territórios para o descobrir são os mais diversos, porque “Que Fizeste na Guerra Papá?” Certamente o James Coburn tinha/terá a resposta! Mas se for um cinéfilo irá referir de imediato “Boneca de Luxo” / “Breakfast at Tiffany’s”, com uma inesquecível Audrey Hepburn.


Considerado um cineasta “menor” por determinado sector da crítica, Blake Edwards deixou cair uma pequena bola de neve no pico da montanha e conquistou o reconhecimento generalizado com “Victor/Victoria”, essa deliciosa comédia, onde ele e ela são o outro e o mesmo, ou seja, a arte e artifício da metamorfose do corpo.
Realizador de comédias por excelência e de uma série famosa: “A Pantera” (como já referimos), acabou por sofrer um golpe doloroso com a morte de Peter Sellers ("A Festa" é um dos grandes momentos deste genial actor sob a direcção do cineasta).
Depois houve uma necessidade de continuar a série, tal como se fosse James Bond e aqui ninguém consegue esquecer a imagem de Peter Sellers. Hoje temos um inspector Clouseau interpretado por Steve Martin e basta ver o trailer para se ficar a saber todos os gags... a dupla Sellers/Edwards é imortal no género.


Burt Reynolds adquiriu no cinema uma imagem que o caracterizou como o “duro” e o “galã” (para além do extraordinário desempenho que nos ofereceu em “Boogie Nights” ou o congressista de “Strip-Tease”!). No “remake” que Blake Edwards fez do filme de François Truffaut, “O Homem Que Gostava de Mulheres”, ele é um homem tímido, com imensos problemas com o sexo oposto.
Digamos que os problemas não são muitos, mas profundos, ou seja como gostar de todas ao mesmo tempo? Qual delas a favorita? O escultor que Burt Reynolds personifica, não consegue libertar-se do dilema. Começa então a consultar uma psicanalista e os resultados são transparentes. A paixão bate à porta e ele conquista um novo amor, perdendo evidentemente a psicanalista!!!

Blake Edwards

Mas como resistir a umas belas pernas que passeiam na cidade? A resposta encontrou-a o destino, na paisagem da última morada.
“Os Meus Problemas com as Mulheres” / “The Man Who Loved Women” de Blake Edwards é a tentação da comédia, ao contrário da película de François Truffaut, que revelava um pouco da história/vida do cineasta francês, talvez por isso o amor oferecido por François às suas mulheres fez com que este “remake” de Blake Edwards estivesse tão proximamente afastado do sorriso apaixonado de François Truffaut!

sábado, 22 de abril de 2017

Mike Oldfield - "The Orchestral Hergest Ridge"


Mike Oldfield
“The Orchestral Hergest Ridge”
(Sem selo)

Ontem escrevemos aqui sobre a versão de “Tubular Bells” criada por David Bedford e Mike Oldfield a que foi dado o título “The Orchestral Tubular Bells”, mas o que poucos saberão é que Mike Oldfield também fez uma nova versão de “Hergest Ridge”, o seu segundo trabalho discográfico em nome próprio (com o amigo David Bedford) e que foi baptizado como “The Orchestral Hergest Ridge”, embora não tenha sido comercializado e apenas oferecido a alguns felizardos e que, muitos anos depois,  se encontra disponível para audição no YouTube. 
“The Orchestral Hergest Ridge” não possui a participação de Mike Oldfield na guitarra, mas sim de Steve Hillage, a oferecer-nos solos verdadeiramente espectaculares, no mais famoso instrumento da música rock. Recorde-se que “Hergest Ridge” se revelou o álbum mais “pastoral” (se me é permitido usar a expressão) de toda a discografia de Mike Oldfield. Comparar este álbum, desconhecido de muitos, com a versão original ou com o seu “irmão gémeo”, “The Orchestral Tubular Bells”, é a nossa sugestão para hoje.

William Klein - "Gorki Street"

William Klein - "Gorki Street", Moscovo, 1961.

John Glen – “Alvo em Movimento” / “A View to a Kill”


John Glenn – “Alvo em Movimento” / “A View to a Kill”
(Inglaterra/EUA - 1985) – (131 min. / Cor)
Roger Moore, Christopher Walken, Grace Jones, Tanya Roberts, Patrick MacNee.


"A miúda de James Bond
Está na cama, com
Um pesadelo durante
uma trovoada
Todas as folhas caíram"

David Shapiro


Os elementos do team "Missão Impossível" nunca inspiraram a “Beat Generation”, mas James Bond sim, que o diga David Shapiro, mas o que nos trás aqui é um filme específico de Mister Bond, que ficou ligado à música dos Duran Duran, é claro que preferimos os Human League ou os Japan de David Sylvian, no entanto ao vermos o dvd dos Duran Duran por aí, foi "A View to Kill" que nos veio à memória com essa inesquecível "escrava do ritmo" chamada Miss Grace Jones!


Aqueles que viram "Nunca Mais Digas Nunca" / “Never Say, Never Again”, com Sean Connery a assumir o envelhecimento do agente 007 pensaram, certamente, estar perante o epílogo possível e desejado de uma série que emocionou plateias por esse mundo fora. Porém as aventuras do James Bond continuaram, apenas os seus intérpretes foram mudando e Roger Moore versus Grace Jones/Chris Walken foi talvez um dos filmes mais interessantes de todos, e rever a película no dvd ou na televisão por cabo (*) é na verdade aliciante.


Desta vez James Bond luta contra Max Zorin (Christopher Walken - actor multifacetado como comprovaram as suas performance em filmes de cineastas tão diferentes como  Michael Cimino ou Abel Ferrara, passando por Herbert Ross), que se pretende apoderar da Indústria Electrónica, obtendo assim o domínio do Planeta.
O seu plano situa-se na destruição de Silicon Valley, o coração electrónico da América, através de um sismo provocado. Evidentemente Max Zorin é um antigo agente do KGB (como era moda na época), em busca do poder pessoal, auxiliado por Mat Day (a Miss Grace Jones) que oferece os seus músculos (e não só) ao jovem industrial, amante de corridas de cavalos.


As habituais Bond Girls não podem faltar e desta feita a “gatinha” eleita seria Stacey Sutton (Tanya Roberts - um dos "Anjos de Charlie” da famosa série de televisão), que acabará por ser a já habitual aliada de James Bond, no duelo com a dupla Max/Mat Day.
Um dos principais atractivos do filme são as habituais perseguições (sem as explosões e montagem frenética de um John Woo, hoje em dia tão na moda), destacando-se a da Torre Eiffel que originou o conhecido video-clip dos Duran Duran.


Esta película assinada pelo sempre excelente John Glen é para nós o “cult-movie” por excelência do mais famoso espião britânico, devido a todos os elementos que o integram, incluindo esse gentleman chamado Patrick MacNee (recordam-se dele ao lado da Diana Rigg, na série de televisão “os Vingadores”?).
Embora a idade não perdoe, o Roger Moore que o diga, a sofisticação deste Agente de Sua Majestade é uma verdadeira delícia para o olhar da memória do cinema.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Mike Oldfield - "The Orchestral Tubular Bells"



Mike Oldfield
“The Orchestral Tubular Bells”
Virgin Records

Quando Mike Oldfield viu por fim concretizado o sonho de gravar “Tubular Bells”, sobre o qual já escrevemos aqui, nunca pensou que iria vender milhões de cópias do álbum ao longo das décadas, mas assim foi e quando o sucesso invadiu a então pequena editora discográfica Virgin de Richard Branson, Mike Oldfield e David Bedford (que irá ser o responsável pelas orquestrações do famoso “Snow Goose” dos Camel) decidiram criar “The Orchestral Tubular Bells”, dois anos após o sucesso do álbum original e assim este irá nascer, que possui nestes dois cavalheiros a essência do seu nascimento sinfónico, no qual iremos encontrar Mike Oldfield na guitarra só no lado B do álbum, após a célebre secção intitulada “The Cave Man”. Alguns, da minha geração, ainda devem estar recordados do concerto ao vivo transmitido na televisão em que foi possível assistir a este inesquecível “The Orchestral Tubular Bells”, que decidimos recordar hoje e que se encontra disponível para audição no Youtube. Recorde-se que “The Orchestral Tubular Bells” teve David Bedford  a dirigir a famosa Royal Philharmonic Orchestra, e a participação de Mike Oldfield na guitarra. Deixo-vos assim o convite para escutarem as duas versões de “Tubular Bells” , uma obra incontornável do rock progressivo, que sempre gostou de beber da seiva da denominada música erudita.

André Kertész - "A Torre Eiffel"

André Kertész - "A Torre Eiffel", 1929.

George Marshall – “O Forte das Mulheres Perdidas” / “The Guns of Fort Petticoat”


George Marshall – “O Forte das Mulheres Perdidas” / “The Guns of Fort Petticoat”
(EUA – 1957) - (82 min. / Cor)
Audie Murphy, Kathryn Grant, Hope Emerson.

No genérico inicial de “O Forte das Mulheres Perdidas” / “The Guns of Fort Petticoat”, surge “Audie Murphy Presents” e desde logo convém falar um pouco deste actor que elegeu o “western” como a sua casa, ficando célebre o retrato que fez no cinema do conhecido Billy the Kid, tantas vezes passado ao grande écran. Por outro lado, nunca é demais recordar que Audie Murphy foi o militar americano mais condecorado da Segunda Grande Guerra, tendo visto as suas façanhas passadas ao cinema, interpretando a sua própria figura no conflito de 1939-1945, tornando-se num dos ídolos das multidões desse tempo. Mas nem só de “western” foi feita a carreira deste popular actor, já que também participou em filmes como “O Americano Tranquilo” / “The Quiet American” de Joseph Mankiewicz e “Sob a Bandeira da Coragem” / “The Red Badge of Courage” de John Huston.


“O Forte das Mulheres Perdidas” / “The Guns of Fort Petticoat” conta-nos a história do Tenente Frank Hewitt (Audie Murphy), que embora seja do sul, Texas, se encontra ao serviço do norte na famosa guerra civil americana, estando destacado numa zona onde as tropas nortistas controlam os movimentos das tribos índias. E será após o seu comandante hierárquico, o coronel Chivington decidir atacar uma aldeia índia, apenas com mulheres e crianças, provocando um terrível massacre, em virtude dos guerreiros índios terem saído da reserva para caçar, que Frank Hewitt decide desertar para avisar as populações da zona onde outrora vivera que se encontra iminente um ataque índio, como vingança pelo massacre sucedido, de acordo com essa máxima do Oeste Americano: “olho por olho, dente por dente”.


Devido à guerra civil na região, só se encontram mulheres e crianças na zona e será com elas que ele irá enfrentar os índios, no interior da missão, para onde todos se refugiaram, comandando ele essas mesmas mulheres como se elas fossem homens.
Ao longo do filme iremos encontrar o mais diversificado tipo de mulheres, oriundas de diversas classes sociais, ao mesmo tempo que iremos assistir a diversos duelos entre elas pela supremacia no terreno, revelando-nos George Marshall uma viagem exemplar pela figura feminina no interior do “western”.


“The Guns of Fort Petticoat” / “O Forte das Mulheres Perdidas” revela-se assim como um sucedâneo da famosa Série-B, que na época chegava ao fim do seu caminho no interior das salas de cinema, construindo George Marshall um “western” bem diferente do habitual, ao qual não faltou o herói, o célebre Audie Murphy, que produziu a película e que no final irá ser reintegrado no exercito e absolvido por todas aquelas mulheres, que viam com muito maus olhos a sua luta ao lado das forças nortistas, contra as gentes do sul, a sua terra natal, sendo o coronel Chivington preso pelo massacre efectuado na reserva índia. Um filme que merece uma visita!

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Bill Evans - "Symbiosis"


Bill Evans
“Symbiosis”
MPS Records

Quando em meados dos anos setenta do sec. xx, alguns de nós começámos a frequentar a discoteca Dargil, na Avenida Cinco de Outubro para adquirir os famosos vinis da ECM Records, descobrimos por ali duas outras etiquetas de jazz de origem alemã: a Enja e a MPS Records. E se a primeira nos oferecia um jazz mais “complexo”, para os nosso gostos de então, já a MPS Records ía de encontro às nossas pretensões musicais, apresentando um catálogo próximo do da ECM Records, porque nele encontrávamos formações nascidas do encontro entre músicos europeus e norte-americanos, estes últimos a gravar bastante na Europa, tendo em conta a época bem conturbada que se vivia então nos States.

Um dos álbuns que me despertou a atenção na época foi o trabalho de Bill Evans, “Symbiosis”, que recentemente descobri no YouTube e onde o célebre pianista surge em trio (Eddie Gomez no baixo e Marty Morell na bateria), mas acompanhado por uma orquestra, sendo os temas da autoria de Claes Ogerman, um compositor que anteriormente tinha trabalhado com nomes como Stan Getz e Frank Sinatra, mas também onze anos antes com o próprio Bill Evans quando este gravou o álbum “Bill Evans Trio With Symphony Orchestra” e onde o célebre pianista revisitava temas da música erudita de Bach, Chopin, Scriabin, Granados e Fauré.

“Symbiosis” oferece-nos Bill Evans tocando piano acústico e eléctrico, nunca deixando de transmitir toda a sua magia em solos inesquecíveis, que se enquadram de forma maravilhosa no interior dos dois movimentos, em cinco faixas, de que é composto este trabalho discográfico e onde poderemos encontrar um universo colorido de sons, incluindo os famosos ritmos cubanos, numa época em que eles ainda eram muito pouco divulgados no interior do universo musical.

Como disse anteriormente podem escutar no YouTube (essa maravilhosa plataforma), este magnífico "Symbiosis" de Bill Evans, muito pouco conhecido, mas também o seu outro registo discográfico, em que revisita os clássicos da música erudita, simplesmente intitulado "Bill Evans Trio With Symphony Orchestra". 

Maurice Bucquet - "Esplanada do Café de la Paix"

Maurice Bucquet - "Esplanada do Café de la Paix", Paris, 1899.

Jonathan Mostow – “U-571”


Jonathan Mostow – “U-571”
(EUA/França -2000) – (116 min. / Cor)
Matthew McConaughey, Bill Paxton, Harvey Keitel, David Keith, Jack Weber.

Um dos segredos da marinha alemã durante a Segunda Guerra Mundial foi o código utilizado nas transmissões entre os seus submarinos, o célebre código Enigma, desconhecido dos aliados e que durante alguns anos lhes ofereceu a supremacia das profundezas do mar ou seja os seus submarinos eram donos e senhores dos oceanos, afundando os diversos navios que encontravam, oriundos da América e com destino a Inglaterra. Estes verdadeiros lobos-do-mar eram a arma mais temida por todos aqueles que se aventuravam nos oceanos.


Até que chegou esse dia em que a célebre máquina caiu nas mãos das forças aliadas e foi descodificada pelos britânicos, facto aliás que já foi levado ao grande écran pela mão de Michael Apted no seu filme “Enigma”, que nos relata a descodificação da sofisticada máquina de comunicação, pondo termo ao domínio dos mares pela frota submarina alemã.
Desta feita, o realizador Jonathan Mostow decidiu contar-nos a história de como foi capturado o submarino alemão U-571, pelas forças aliadas.
Não estamos perante uma obra-prima como o “Das Boot” de Wolfgang Petersen que, melhor do que ninguém, nos ofereceu o quotidiano de um submarino alemão em tempos de guerra, mas o filme de Mostow vê-se com bastante agrado, conseguindo captar a atenção do espectador.


O tenente Andrew Tyler (Matthew McConaughey) é o Segundo Oficial de um submarino Americano, que possui o desejo de um dia comandar uma dessas sofisticadas máquinas navais, mas o seu humanismo impede-o de alcançar o seu objectivo, até que chega esse dia em que será obrigado a substituir o seu comandante (Bill Paxton) e tornar-se um oficial frio e irredutível.
Quando todos menos esperavam, já que se encontravam em licença, os tripulantes de um submarino americano são escalonados para atacar um submarino alemão que se encontra à superfície devido a avaria, com a secreta missão de capturar a célebre máquina de código Enigma, fazendo-se passar por alemães. Porém um submarino alemão vai em seu socorro, dirigindo-se para o local, a fim de o reparar.



“U-571” surge assim como uma obra que nos oferece uma história contada com ritmo e eficiência, sem pontos mortos, ao mesmo tempo que as interpretações são por vezes surpreendentes. Por outro lado o ambiente claustrofóbico em que aqueles marinheiros vivem é-nos oferecido de forma perfeita. No seu filme Jonathan Mostow não resistiu a citar o “Lifeboat” / “Um Barco e Nove Destinos” de Alfred Hitchcock, quando recolhem sem saber o comandante do submarino capturado, que tudo fará para ele ir ao fundo.
Estamos assim perante uma obra, fruto da eficiência dos Estúdios, demonstrativa das capacidades do cinema industrial norte-americano que, quando quer, consegue produzir obras que merecem uma visita, como sucede com este “U-571”.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Emerson, Lake and Palmer - "Pictures at an Exhibition"


Emerson, Lake and Palmer
“Pictures at an Exhibition”
Atlantic Records

Quando o compositor russo Modest Mussorgsky compôs “Pictures at an Exhibition”, como peça para piano, nunca pensou que, anos depois, outro compositor chamado Maurice Ravel iria fazer uma orquestração da sua peça que a iria tornar famosa nos meios melómanos, mas será através de um grupo de rock progressivo, os Emerson, Lake and Palmer, que milhões irão fixar  para sempre o nome de Mussorgsky e da peça “Pictures at an Exhibition”, quando a 26 de Março de 1971 no Newcastle City Hall, Keith Emerson nas teclas, Greg Lake na guitarra e baixo e Carl Palmer na bateria irão surpreender o universo com a sua visão ou leitura, se preferirem, de “Pictures at an Exhibition”, que se irá revelar a terceira gravação oficial do grupo; quando o álbum foi colocado nos postos de venda tornou-se de imediato num enorme sucesso musical. Recorde-se que na década de setenta do século xx, os Emerson, Lake and Palmer arrastavam multidões e revelavam-se um enorme sucesso de vendas, mas sempre com uma enorme apetência para fazerem a leitura de clássicos da denominada música erudita, como terminou por ser confirmado pela sua discografia ao longo dos anos.

A nossa proposta para hoje é escutarem no Youtube as três versões de “Pictures at an Exhibition” que por ali se encontram disponíveis e das quais gostámos bastante:

-     -  Emerson, Lake and Palmer
-      - Sir Georg Solti e a Chicago Symphony Orchestra
-      - Khatia Buniateshvli, no piano.

Brassai - "Couple d'amoureux dans les jardins Des Champs-Elysées"

Brassai - "Couple d'amoureux dans
les jardins Des Champs-Elysées", 1932.

Agnès Varda – “Os Respigadores e a Respigadora” / “Les glaneurs et la glaneuse”


Agnès Varda – “Os Respigadores e a Respigadora” / “Les glaneurs et la glaneuse”
(França – 2000) – (82 min. / Cor)
Agnès Varda, Bodan Litnarsky, Isabelle Olivier.

Agnès Varda nasceu em Bruxelas a 30 de Maio de 1928 e irá tornar-se num dos nomes mais interessantes da “nouvelle vague”, dedicando-se de alma e coração ao documentarismo, embora esporadicamente também nos ofereça todo o seu talento na vertente de ficção, como ficou bem patente em “Cleo de 5 à 7” / “Duas Horas na Vida de Uma Mulher” e em “Sans toi ni loi” / “Sem Eira nem Beira”, onde Sandrine Bonnaire nos oferece uma das mais espantosas interpretações da sua carreira.


A esposa de Jacques Demy nunca nos deixou de surpreender, fosse o formato escolhido a curta ou longa-metragem e no novo milénio irá mais uma vez abordar a vertente documental com “Os Respigadores e a Respigadora” / “ Les Glaneurs et la glaneuse” optando desta feita pelo digital.


As colheitas da época já terminaram no campo, mas ainda há muito por colher, surgem então essas gentes que se dedicam ao trabalho de apanhar os frutos deixados para trás nas colheitas, esses frutos abandonados, que irão servir para seu alimento.
A cineasta irá acompanhá-los nessa derradeira e estranha colheita, onde tudo é aproveitado, iniciando a história desses habitantes do planeta que aproveitam o que outros consideram desperdício.


Estamos em França e lentamente vamos conhecendo, através da História, a existência e vivência dos habitantes deste microcosmos, denominados os respigadores, que nos irão oferecer o seu percurso através dos tempos.
Rapidamente passamos da província para as grandes cidades, terminando a cineasta a sua caminhada pelas ruas de Paris, onde iremos conhecer os grupos que vivem desta actividade. Neles descobrimos pessoas sem-abrigo e desempregados, mas também jovens que optaram por esta forma de subsistência recusando a integração numa sociedade de consumo, que desprezam, preferindo viver como “out-siders”, procurando nos mercados, após o fecho, os restos deixados pelos vendedores, ou nos caixotes do lixo o desperdício de uns, que se transforma na subsistência de outros.

Agnès Varda

Sempre com um olhar cristalino, a cineasta consegue prender o espectador, oferecendo a sua visão, ao mesmo tempo que opta pela força das imagens e o discurso directo dos intervenientes/entrevistados, em detrimento do discurso político, dando viva voz aos protagonistas.
“Os Respigadores e a Respigadora” de Agnès Varda, que em dado momento do filme encontramos a apanhar figos maduros e a comê-los, após terem sido deixados ao abandono, oferece-nos uma visão contemporânea de um mundo que habita nas margens da sociedade, esquecido e ignorado por aqueles que tudo possuem.

Mais uma vez, Agnès Varda revela ser detentora de uma Arte condutora do documentarismo ao seu ponto mais alto, contribuindo com o seu cinema para todos repensarmos nas desigualdades do mundo em que vivemos.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Nana Vasconcelos - "Saudades"


Nana Vasconcelos
“Saudades”
ECM Records

Após a chegada de Nana Vasconcelos à editora ECM Records, através do álbum de Egberto Gismonti, “Dança das Cabeças” do qual já aqui falámos, o produtor Manfred Eicher criou um dos trios mais inovadores do universo multi-étnico intitulado simplesmente Codona, um nome nascido das primeiras letras do nome dos seus membros: Colin Walcott, Don Cherry e Nana Vasconcelos. Depois encontrámos Nana Vasconcelos, o maior percussionista da música popular brasileira, em gravações com o Pat Metheny Group, o Jan Garbarek Group, Arild Andersen, Pierre Favre e na companhia do seu compatriota Egberto Gismonti, todos eles magníficos. Mas o que nos interessa aqui é o seu incontornável trabalho discográfico em nome próprio, intitulado “Saudades”.


O primeiro tema do álbum “Saudades”, denominado “Berimbau”, em que Nana Vasconcelos toca este famoso instrumento bem brasileiro de forma única, revela-se o tema preponderante do lado A do álbum de vinil, já que o iremos encontrar a navegar na companhia da Radio Symphony Orchestra de Stutgart, dirigida por Mladen Gutesha, sendo a respectiva orquestração assinada por Egberto Gismonti, que por outro lado iremos encontrar no conhecido tema “Cego Aderaldo” no lado B do álbum, que abre com o tema “Ondas (Na óhios de Petronila)” em que Nana Vasconcelos utiliza também a voz e o corpo como instrumento musical, de forma verdadeiramente inesquecível.

Nunca como aqui Nana Vasconcelos foi o “dono e senhor” do Estúdio de gravação, com a cumplicidade de Manfred Eicher e Egberto Gismonti, nesse mês de Março de 1979, algo de que irá dispôr novamente quando o produtor alemão os convidar para gravarem o trabalho “Duas Vozes”, seis anos depois da feitura deste genial “Saudades”, em que Nana Vasconcelos toca berimbau, percussão e gongs, usando também a voz e o corpo como instrumento. Redescobrir este álbum genial de Nana Vasconcelos, intitulado “Saudades”, é a nossa proposta de hoje.

Peter Turnley - "Metro Saint-Placide"

Peter Turnley - "Metro, Saint-Placide", 1980.

Jim Sheridan – “Entre Irmãos” / “ Brothers”


Jim Sheridan – “Entre Irmãos” / “ Brothers”
(EUA – 2009) – (105 min. / Cor)
Jake Gyllenhall, Natalie Portman, Tobey Maguire, Sam Shepard, Mare Winningham.

O cineasta irlandês Jim Sheridan deu logo nas vistas no interior da Sétima Arte ao realizar “O Meu Pé Esquerdo” / “My Left Foot: The Story of Christy Brown”, proporcionando a Daniel Day-Lewis a obtenção do Oscar para o Melhor Actor. Os seus filmes seguintes entre os quais se destacam “O Boxeur” / “the Boxeur” e “Em Nome do Pai” / “In The Name of Father”, confirmaram as potencialidades deste realizador irlandês, nascido em Dublin.


“Entre Irmãos” / “Brothers” é um “remake” de uma película irlandesa de Susanne Bier, que realizou o filme segundo as regras do famoso “dogma”, tão querido dos cineastas dinamarqueses. Já Jim Sheridan, perfeitamente integrado dentro da indústria cinematográfica, irá transportar este drama familiar para o interior das célebres “little town” americanas, revelando uma excelente direcção de actores, já que ao vermos o nome de Tobey Maguire no elenco, pensamos tratar-se de um erro de “casting”, terminando o actor, celebrizado pelas películas de Sam Raimi de “O Homem-Aranha”, por nos revelar todas as suas potencialidades como actor dramático.


Tal como o Vietname serviu de palco a inúmeros filmes norte-americanos ao longo do século xx, nestes últimos anos o longínquo Afeganistão e o Iraque tem servido de palco a diversas películas saídas dos Grandes Estúdios Americanos.
Desta feita iremos descobrir uma típica família norte-americana, os Cahill, em que um dos membros, o capitão Sam Cahill (Tobey Maguire), é destacado para o Afeganistão, sendo dado como morto. A terrível notícia irá esmagar a família, mulher, pais, filhas e o irmão Tommy (Jake Gyllenhall), que recentemente saíra da prisão e não colhe os amores do pai (Sam Shepard, sempre excelente).


A notícia da morte irá fazer com que Tommy mude de atitude perante a sociedade e a família, ocupando o lugar vago pelo irmão, na casa deste, revelando-se um tio extremoso e um bom companheiro para a cunhada Grace (Natalie Portman).
No entanto Sam permanece vivo, ficando prisioneiro dos Taliban, tal como um dos soldados que o acompanhavam na missão.


A forma como Jim Sheridan nos relata o seu cativeiro e as atrocidades sofridas, pelos dois soldados prisioneiros dos Taliban, esmaga o espectador e quando sabemos que Sam, para permanecer vivo, teve que matar o seu companheiro de infortúnio, percebemos que esse trauma o irá acompanhar para sempre.
Mas quando este regressa a casa, para grande alegria de todos, irá perceber de imediato o papel desempenhado pelo irmão na sua ausência e quando uma das filhas lhe diz que prefere a companhia do tio à dele e que o irmão faz imenso sexo com a mãe, o drama irá colocar os dois irmãos à beira do abismo, perante o enorme desespero de Grace (Natalie Portman), terminando Sam por confessar a Grace o seu terrível segredo.

Jim Sheridan durante a rodagem do filme.

“Entre Irmãos” / “Brothers” narra-nos assim os conflitos existentes no interior da sociedade americana e no seio das próprias famílias provocado pela intervenção do mundo ocidental no conflito Afegão, ao mesmo tempo que nos relata o horror dessa guerra interminável, que tantas vidas tem ceifado ao longo dos anos.
Jim Sheridan conduz com mão firme este filme, sendo as interpretações de todo o elenco bem seguras, destacando-se Jake Gyllenhall, que mais uma vez revela ser um dos melhores actores da sua geração.