sábado, 31 de dezembro de 2016

Billy Wilder – “O Apartamento” / “The Apartment”


Billy Wilder - "O Apartamento" / "The Apartment"
(EUA – 1960) – (122 min. - P/B)
Jack Lemmon, Shirley MacLane, Fred MacMurry, Jack Kruschen.

Todos os filmes têm uma história, para quem os vê. E nunca nos esquecemos da tarde de sábado, em que soubemos que a RTP ía transmitir “O Apartamento” de Billy Wilder, nessa época em que o vídeo fazia as delícias do cinéfilo. Deixámos o filme a gravar e quando chegámos a casa, nessa noite, fomos vê-lo depois de jantar e de imediato ficámos apaixonados pela história de C.C. Baxter (Jack Lemmon) e da rapariga do elevador, Fran Kubelik (Shirley MacLaine). Mas infelizmente acabámos por descobrir que a fita da cassete-video não chegou para gravar a totalidade do filme. A nossa frustração foi enorme e só muitos anos depois o voltámos a ver, já na idade do dvd, numa edição inglesa.
Alguns anos depois tivemos a oportunidade de o (re)ver numa das sessões da Cinemateca e de imediato ficámos esmagados pelo “scope” e a genialidade de Billy Wilder, porque na verdade só na sala de cinema é possível amar um filme, os dvds servem na verdade, apenas, para revermos os filmes de que gostamos.


A forma como Billy Wilder nos apresenta C.C. Baxter, digna de um Orson Welles, usando a “voz-off” de forma genial, oferece-nos de imediato a leitura da personagem, um anónimo empregado de escritório que é bem conhecido das altas esferas, porque a chave do seu apartamento serve para os directores da empresa se encontrarem com as respectivas amantes, enquanto muitas vezes o pobre C.C. Baxter espera na rua, ao frio e à chuva, que eles saíam do seu apartamento. Já os vizinhos, que desconhecem o que se passa, pensam que ele é um verdadeiro D. Juan e quando o encontram a transportar as garrafas vazias das “farras”, interrogam-se sobre a capacidade do seu corpo em ingerir tanto álcool, como um dia comenta o seu vizinho do lado, o simpático Dr. Dreyfuss (Jack Kruscher), que até lhe pede para ele legar o seu corpo à ciência, quando a morte o vier buscar.


Mas C. C. Baxter (Jack Lemmon)é um pacato homem que vive sozinho, sem qualquer espécie de companhia, embora veja em Fran Kubelik (Shirley MacLaine), uma das raparigas dos elevadores da firma, a mulher que um dia desejava convidar para sair, desconhecendo que ela é a amante do seu patrão.
A vida atribulada desta personagem é-nos oferecida por Billy Wilder com uma candura infinita e quando o vemos numa azáfama no escritório a marcar e desmarcar encontros dos directores com as suas amantes, de forma a que não se encontrem uns com os outros, percebemos como é na verdade trágica a sua vida. Até que um dia é chamado ao Big Boss, para explicar porque razão é tão popular junto das chefias, ao mesmo tempo que lhe é perguntado o que existe no interior desse envelope que anda de uma lado para o outro nas altas esferas (o envelope com a chave do seu apartamento).


Ao ver-se entre a espada e a parede C. C. Baxter confessa o que se passa no seu apartamento mas, para seu espanto, Sheldrake (Fred MacMurry, em mais uma extraordinária interpretação) mostra-se compreensivo, ao mesmo tempo que lhe propõe uma condição irrecusável: a partir desse dia só ele, Sheldrake, irá ficar com a chave para se encontrar com a sua amante, dando em troca a promoção esperada a C.C. Baxter, oferecendo-lhe até um gabinete no famoso 27º andar da empresa; se não aceitasse a proposta seria despedido. C. C. Baxter acaba por aceitar, desconhecendo que a amante de Sheldrake é Fran Kubelik, essa rapariga do elevador que ele ama secretamente.


Iremos assim assistir à ascensão de C. C. Baxter na empresa, até chegar esse dia trágico em que irá descobrir Fran no seu apartamento, poucos momentos depois de ela se tentar suicidar com uma dose de comprimidos. Ele irá tudo fazer para a reanimar, sem qualquer resultado visível e será o seu vizinho e amigo Dr. Dreyfuss a conseguir salvar a jovem, depois de lhe fazer uma lavagem ao estômago.
A partir de então, Billy Wilder, que também assina o argumento, irá oferecer-nos os mais belos momentos do seu cinema, através desse amor secreto que começa a navegar no apartamento, entre estes dois seres à beira do abismo. Todas as sequências passadas com o par são de um misto de humor e ternura, poucas vezes vistos no cinema (os cozinhados de C.C. Baxter e as partidas de gin-rummy), mas por vezes também dolorosos, como sucede quando o cunhado de Fran a vai buscar ao apartamento. Por outro lado Sheldrake é a imagem do homem que pensa que o dinheiro tudo pode conquistar e quando dá uma nota de cem dollars para Fran comprar uma prenda de Natal, depois de passar a tarde com ela no apartamento, irá despoletar uma verdadeira crise de sentimentos na “rapariga do elevador”, que percebe finalmente ao que está destinada.


Porém a vida, como todos sabemos, possui as suas encruzilhadas e quando a mulher de Sheldrake descobre o que se passa com o marido, expulsa-o de casa, chegando assim a hora de Fran para subir na hierarquia social. Mas C. C. Baxter, que já não consegue esconder o seu amor pela jovem, ao saber que ela se vai casar com o patrão, recusa-se a voltar a emprestar a chave do apartamento e pede a demissão. E será com a chegada das doze badaladas da meia-noite a anunciar um novo ano que Fran Kubelik percebe que o seu destino não é com Sheldrake, mas sim com o tímido C. C. Baxter.


Que nos seja perdoada esta longa sinopse do filme, mas não resistimos e depois nunca é demais referir que a história deste par, personificado por Jack Lemmon e Shirley MacLaine, nos consegue comover profundamente, porque eles são o espelho perfeito das histórias que habitam o mundo contemporâneo e, como todos sabemos, são inúmeras as vezes em que vemos reflectida a nossa própria vida no grande écran do cinema.
Shirley MacLaine oferece-nos a sua melhor interpretação de sempre, mesmo quando nos recordamos dela em “Deus Sabe Quanto Amei” / “Some Came Running” e Jack Lemmon é na verdade inesquecível, ao vestir a pele deste pobre homem, que um dia pensou subir na vida, fazendo “pequenos favores” às chefias da empresa onde trabalhava.


“O Apartamento” / “The Apartment” foi nomeado para dez Oscars, tendo recebido cinco: melhor filme, realização, argumento, direcção artística e montagem. Mas nunca nos poderemos esquecer do elenco, que Billy Wilder reuniu e dirigiu com mão de Mestre, também eles merecedores da estatueta de Hollywood e depois há sempre a fotografia a preto e branco de Joseph LaShelle, que introduz o realismo nesta comédia dramática, com um saber maravilhoso.
Mais uma vez, Billy Wilder nos oferece uma Obra-prima da Sétima Arte, onde o sorriso da comédia, nos convida a meditar sobre as pequenas tragédias do quotidiano, tantas vezes sofridas por essa gente anónima que se cruza connosco na estrada da vida. Aqui fica a nossa sugestão cinéfila para a passagem do ano, já que o filme termina precisamente nessa noite em que o mundo comemora o amanhã imediato!

Bom Ano 2017!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Christopher Nolan – “Memento”



Christopher Nolan – "Memento"
(EUA - 2000) – (113 min. - Cor - P/B)
Guy Pearce, Carrie-Anne Moss, Joe Pantolliano.

Christopher Nolan desde tenra idade que se interessou pelo cinema, graças à câmara Super-8 do pai, começando de imediato a realizar os seus próprios “home-movies”, sendo natural que tenha decidido enveredar pela carreira de realizador.
Após ter concluído o respectivo curso, ataca o formato reduzido, mas será logo ao realizar a sua segunda película de longa-metragem que as portas do mundo do cinema foram abertas.
“Memento” irá transformar-se num verdadeiro caso de análise, já que estamos perante uma película cujo argumento se apresenta de forma bem diferente do habitual, porque a história nos é narrada de trás para a frente, com diversos “flashbacks” pelo meio para baralhar ainda mais o espectador desatento.


Estamos assim bem no interior do chamado “film noir”, sofrendo o protagonista de uma doença rara denominada amnésia anterógrada, que consiste na incapacidade de formar recordações novas ou se preferirem recentes. Leonard (Guy Pearce), esquece o passado recente ou imediato se preferirem, ou seja durante uma conversa vai-se esquecendo do que anteriormente disse e tendo em conta que este antigo funcionário de uma companhia de seguros pretende descobrir quem matou a sua mulher, percebemos de imediato como é difícil a sua investigação
Contando apenas com a sua antiga amante Natalie (Carrie-Anne Moss) para o “ajudar”, o protagonista sente que não pode confiar em ninguém. Por esta mesma razão as suas memórias são abastecidas de notas que vai escrevendo e de polaróides que vai tirando, ao mesmo tempo que começa a tatuar o seu próprio corpo, com pequenas informações usando desta forma o corpo como um pequeno cofre de memórias.


No historial do chamado filme negro, são muitas as películas em que o protagonista é vítima da perda de memória mas nunca, até então, um argumento foi oferecido ao espectador desta forma, obrigando-o a um envolvimento activo no filme. E se o argumento, assinado pelo próprio cineasta se delicia a baralhar as pistas, já o espectador surpreendido pelo desenrolar da acção acaba por ser convidado a uma nova visão do filme, quando desconhece a forma como o filme foi elaborado.

“Memento” suscitou aquando da sua estreia uma enorme estranheza, no entanto foram muitos os que viram na película uma obra profundamente inovadora, ficando conhecido do grande público como a película que é filmada “de trás para a frente”, revelando-se um dos segredos do cineasta a forma como a montagem é elaborada, mas apesar deste poderoso artifício e da boa direcção de actores, ao terminar o filme ficamos com um certo sabor a pouco, quando nos recordamos dos poderosos argumentos delineados por um David Mamet, esse génio do cinema contemporâneo.

Georgia O'Keeffe - "Grapes on White Dish - Dark Rim"


Georgia O'Keeffe - "Grapes on White Dish - Dark Rim", (1920)
Óleo sobre tela, 22,9 x 48,3 cm.

Ed Harris – “Appaloosa”


Ed Harris - "Appaloosa"
(EUA-2008) - (115 min/Cor)
Ed Harris, Jeremy Irons, Viggo Mortensen, Renée Zellweger.

Ed Harris, um dos mais brilhantes actores da sua geração, volta a estar por detrás da câmara ao realizar este western nostálgico intitulado “Appaloosa”. Como todos devem estar recordados, a sua estreia na realização deu-se no soberbo “Pollock”, onde nos retratava com imensa paixão a vida do célebre pintor norte-americano Jackson Pollock.
Desta feita, com “Appaloosa”, ele decide abordar o território do “western”, esse género que teve o seu expoente máximo durante o período clássico, através de cineastas como John Ford, Howard Hawks e Anthony Mann, conseguindo Ed Harris sair de cabeça bem erguida desta sua segunda aventura como realizador.


O cuidado dos enquadramentos e o jogo de luz que invade a película são bem demonstrativos do empenho do actor/realizador, depois temos a direcção de actores que nos oferece mais uma vez um Viggo Mortensen no seu melhor, ao lado de Jeremy Irons que surge aqui a vestir a pele do vilão, já Renée Zellweger não consegue agarrar a personagem que interpreta.


“Appaloosa” é uma cidade situada no Novo México, numa época em que a lei do mais forte era a lei do Oeste. Virgil Cole (Ed Harris) e Everett Hitch (Viggo Mortensen) são, na prática, dois pistoleiros que oferecem os seus serviços aos defensores da lei e quando chegam a esta triste povoação mineira percebem que terão que impor a sua própria lei, perante os homens do poderoso rancheiro Randall Bragg (Jeremy Irons) que gosta de ditar as suas próprias regras, ao mesmo tempo que nunca se esquece de invocar a sua amizade com o Presidente dos Estados Unidos, para ficar impune.


Iremos assim assistir ao duelo entre estes dois homens e o poderoso rancheiro, ao mesmo tempo que descobrimos como é fácil a política viciar os dados. Por outro lado esta película oferece-nos também uma viagem até à intimidade dos seus protagonistas, através dos sentimentos que Virgil Cole (Ed Harris) sente por Allison French (Renée Zellweger), sendo inevitável a recordação e comparação com “Open Range” / “Open Range – A Céu Aberto” (2003) realizado por Kevin Costner.



“Appaloosa” surge assim como uma película que merece uma visita, pela eficácia com que Ed Harris aborda o território do “western”, onde os sentimentos e a violência andam de mãos dadas de forma perfeita.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Rob Marshall – “Chicago”

Rob Marshall – "Chicago"
(EUA/CANADA – 2002) – (113 min. / Cor)
Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones, Richard Gere.

Chicago, a célebre cidade do vento, serviu de título à fabulosa peça criada por Bob Fosse, John Kander e Fred Ebb, situando-se a acção nos anos vinte. Como sabemos, esta tornou-se um êxito fenomenal e Hollywood desde cedo a desejou transportar para a tela, sendo John Travolta um dos nomes mais falados para encarnar o esperto advogado Billy Flinn, mas para grande surpresa do actor, que pretendia demonstrar que os seus créditos de dançarino não estavam perdidos, terminou por ver o tão ambicionado desejo de vestir a pele da personagem a fugir-lhe entre os dedos e a ir parar às mãos do actor Richard Gere. Já as protagonistas femininas escolhidas seriam Renée Zellweger e Catherine Zeta-Jones, que viria a ganhar o Oscar para a Melhor Actriz Secundária.


O conhecido coreógrafo Rob Marshall seria indigitado pelos Estúdios para levar o projecto a bom porto, mas ao contrário da célebre tradição clássica no qual a grua surge como elemento preponderante, o realizador decidiu optar por uma montagem rápida, mais de acordo com uma certa moda, ao estilo MTV, para assim “piscar o olho” a outras camadas de público mais jovem, fragmentando as sequências musicais, o que nos fez ter saudades das célebres coreografias de Busby Berkeley.


Esta é a história de duas mulheres que encontram o sucesso no palco, graças ao empreendedor advogado Billy Flinn (Richard Gere) após terem, no caso de Roxie (Renée Zellweger) morto o amante, que não cumprira a promessa de a transformar numa grande estrela e de Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), que matara a irmã e o marido, sendo ela mesma uma estrela. O drama é transfigurado por ambas as personagens de forma perfeita em musical, conhecendo o sucesso, que também irá cair sobre o filme de Rob Marshall, com a inevitável consagração pela Academia de Hollywood, que não oferecia o Oscar de Melhor Filme a um musical, já lá vão algumas décadas.


Se compararmos com a peça em exibição em Londres (que já tivemos o prazer de ver), todo o filme se revela muito mais fraco, pensando-se talvez que a adaptação e forma de apresentação dos números musicais fica muito aquém do que seria possível fazer. A geração MTV talvez goste. Já quem gosta de um bom musical, nem por isso.


Ao contrário do que se poderia pensar, “Chicago” não vai beber a sua magia ao cinema clássico, optando por uma modernidade nos números musicais que deixou muitos cinéfilos perplexos. Mas, tal como as suas heroínas, o filme decidiu pecar, recolhendo os seus frutos da árvore proibida, para construir o seu próprio Paraíso, no interior da Sétima Arte.

Mr. & Mrs. Vertigo

Georgia O'Keeffe - "Perú - Machu Picchu, Morning Light"


Georgia O'Keeffe - "Perú - Machu Picchu, Morning Light", (1957)
Óleo sobre tela, 61 x 45,7 cm.

John Huston – “Debaixo do Vulcão” / “Under the Volcano”


John Huston – "Debaixo do Vulcão" / "Under the Volcano"
(EUA/MEXICO – 1984) – (112 min. / Cor)
Albert Finney, Jacqueline Bisset, Anthony Andrews, Katy Jurado.

A famosa obra literária “Debaixo do Vulcão” / “Under The Volcano”, do escritor Malcolm Lowry, foi durante décadas considerada impossível de ser transposta para o grande écran, tendo sido muitos os que tentaram essa mesma adaptação, terminando por desistir do projecto. Mas seria John Huston, esse cineasta da chamada “geração perdida”, a conseguir esse verdadeiro milagre cinematográfico.


Em “Debaixo do Vulcão” / “Under The Volcano”, iremos descobrir como a vida de Geoffrey Firmin (Albert Finney), o ex-consul, apresenta as marcas do deserto na sua alma ferida, numa viagem profundamente destrutiva, mergulhada no álcool e cujo fim se anuncia desde o início, apesar da sua vida ainda possuir esse rasgo de luz que antecede a chegada da escuridão, devido ao amor que ainda sente pela mulher amada.


Falar de paixão como destino que une os corpos de dois seres que se amavam violentamente é olhar a fronteira que os separava tragicamente, como aqui sucede entre Geoffrey Firmin (Albert Finney) e Yvone Firmin (Jacqueline Bisset).
No entanto essa luta pela presença física na terra, levada a cabo por ambos, tantas vezes caminhando à beira do abismo, irá terminar da forma mais inglória possível, ao mergulharem ambos de forma abrupta e longe um do outro, nessa escuridão que ceifa a vida de forma triste e brutal, como se tratasse de um mero acaso, embora se trate de puro engano, porque o destino de Geoffrey e Yvone estava há muito tempo traçado.



“Debaixo do Vulcão” / “Under The Volcano” irá situar-se na filmografia de John Huston como uma obra-prima absoluta, quase o testamento perfeito de um dos mais importantes cineastas do cinema clássico norte-americano. E dizemos quase porque John Huston, pouco antes de partir, nos legou esse belíssimo testamento intitulado "Gente de Dublin" / "The Dead". Apesar de gravemente doente, o cineasta não desistiu das filmagens, dirigindo a película na sua cadeira de rodas, com a máscara e a garrafa de oxigénio ao lado, oferecendo-nos, de forma mais que perfeita, a adaptação cinematográfica do maravilhoso conto “The Dead”, de James Joyce, deixando-nos assim John Huston, um dos mais belos testamentos cinematográficos da Sétima Arte, ao lado do qual poderemos sempre incluir este “Debaixo do Vulcão” / “Under The Volcano”, outra obra-prima absoluta do cineasta, que permanece bem vivo no meio de todos nós.

Albert Finney e Jacqueline Bisset
oferecem-nos duas interpretações inesquecíveis,
num filme que bem  merece ser redescoberto!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

John Sayles – “A Terra do Sol” / “Sunshine State”


John Sayles – "A Terra do Sol" / "Sunshine State"
(EUA – 2002) – (141 min. / Cor)
Angela Bassett, Edie Falco, Timothy Hutton, Mary Steenburger, Mary King.

John Sayles, um dos mais interessantes cineastas norte-americanos, tem elaborado ao longo dos anos uma obra cinematográfica muito acima da média, mas habitando nas margens do sistema dos grandes Estúdios.


Em “A Terra do Sol” / “Sunshine State” oferece-nos uma película baseada na construção em mosaicos, um género cujo mestre incontestado se chama Robert Altman, para nos contar a história de uma pequena comunidade do Estado da Florida, maioritariamente negra, que verá os seus pequenos terrenos e as suas casas serem fruto da cobiça das grandes construtoras imobiliárias, que ali pretendem construir condomínios de luxo, com os inevitáveis campos de golfe, bem característicos deste Estado.


Iremos assim assistir ao desenrolar das pequenas histórias dos seus habitantes, com encontros e desencontros com o passado, para sempre perdido, e um futuro que se apresenta muito pouco radioso.
Todas as personagens da película nos surgem como verdadeiros perdedores, que em crianças aspiravam ao tão desejado sonho americano, que o destino se encarregou de lhes negar.
E, até aqueles que estiveram à beira de triunfar, se revelam como personagens perdidas no interior dessa ganância dos grandes empórios imobiliários, trabalhando para eles, enganando os seus conterrâneos, não olhando a meios para atingir os seus fins, subornando as autoridades municipais para conseguirem a concordância da comunidade mais pobre, que apenas possui as suas pequenas casas e terrenos, quase deixados ao abandono, para além do pequeno comércio, para sobreviverem.


Mais uma vez John Sayles nos oferece com “A Terra do Sol” / “Sunshine State” uma película que nos convida à meditação, sobre os caminhos traçados pelo grande capital imobiliário cuja acção, a coberto do denominado progresso, só pretende destruir as pequenas comunidades, expandido os seus poderoso tentáculos que irão, como todos sabemos, dar origem à famosa bolha do imobiliário, que tanto tem afectado a economia mundial.

Georgia O'Keeffe - "Plums"


Georgia O'Keeffe - "Plums", (1920)
Óleo sobre tela, 22,4 x 30,5 cm.

Lawrence Kasdan – “Silverado”


Lawrence Kasdan – "Silverado"
(EUA – 1985) – (133 min. / Cor)
Kevin Kline, Scott Glenn, Kevin Costner, Danny Glover, Brian Dennehy, Linda Hunt, Rosanna Arquette, Jeff Goldblum.

“Silverado” de Lawrence Kasdan, escrito a “meias” com o irmão Mark Kasdan, marcou na época o regresso do “western” ao grande écran. E como todos os “westerns”, o deste cineasta norte-americano também possui os seus heróis, desta feita um quarteto composto por Kevin Kline, Scott Glenn, Kevin Costner e Danny Glover, quatro perfeitos magníficos, que nos fazem recordar os famosos “Sete Magníficos” / “The Magnificent Seven” de John Surtes.
E se John Wayne foi o cow-boy por excelência no género, também não podemos esquecer as personagens criadas por James Stewart nos “westerns” de Anthony Mann, já em “Silverado” estamos perante a lógica do grupo, não havendo lugar para o herói individual, como sucede nos “westerns” de Clint Eastwood.


“Silverado” oferece-nos assim a fórmula de grupo, ao mesmo tempo que todos os elementos que constituíram o “western” clássico de John Ford a Howard Hawks, passando por Raoul Walsh, se encontram bem presentes no filme de Lawrence Kasdan, não faltando nenhum dos ingredientes que fizeram deste género um dos mais populares das plateias de cinema, em que os espectadores avisavam o herói da emboscada criada pelo fora-da-lei ou alertavam a célebre cavalaria da chegada dos índios, que se preparavam para os cercar.


Mas com a chegada dos anos setenta, iremos assistir à revisão da mitologia do “western”, através de filmes como “O Soldado Azul” / “Soldier Blue” de Ralph Nelson e “O Pequeno Grande Homem” / “Little Big Man” de Arthur Penn, que abriram portas e que irão levar o “western” a percorrer novas paisagens até então muito pouco visitadas, sendo sempre de realçar essa obra única de John Ford, “O Grande Combate” / “Cheyyenne Autumn” que, muitos anos antes, teve a genialidade de apontar o caminho para a inevitável revisão do “western”.


Lawrence Kasdan consegue, com a feitura de “Silverado”, oferecer-nos de forma exemplar um “western” composto de todos elementos mitológicos que constituem a história do velho Oeste, estamos assim perante uma das mais belas homenagens a este maravilhoso género cinematográfico.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Steven Spielberg – “Apanha-me Se Puderes” / “Catch Me If You Can”


Steven Spielberg – "Apanha-me Se Puderes" / "Catch Me If You Can"
(EUA – 2002) – (141 min. / Cor)
Leonardo DiCaprio, Tom Hanks, Christopher Walken, Martin Sheen, Nathalie Baye, Amy Adams.

Após o sucesso de Leonardo DiCaprio em “Titanic” de James Cameron, o cineasta Steven Spielberg decidiu convidá-lo para “Apanha-me Se Puderes” / “Catch Me If You Can”, fazendo DiCaprio dupla com Tom Hanks, para recriar no grande écran a vida do fascinante e misterioso Frank Abagnale Jr., uma das figuras mais procuradas pelo F.B.I., embora os seus crimes fossem de uma ordem sofisticada, já que se tratava de um jovem falsário, que utilizava inúmeras identidades, tendo feito burlas na ordem dos 2,5 milhões de dollars, usando sempre com eficácia os meios ao seu dispor, fossem eles rudimentares, a maioria das vezes, ou sofisticados, vivendo sempre esta cativante personagem à beira do abismo, embora conseguisse sair sempre bem dos esquemas que elaborava.


Leonardo DiCaprio recria a figura de Frank Abagnale Jr., de uma forma absolutamente soberba, transportando consigo esse verdadeiro dom do falsário, transformando em pura magia as suas aventuras: ele foi piloto da Pan-America, Médico Pediatra, Professor de História e Advogado, mas no seu encalço teve sempre um agente chamado Carl Hanratty (Tom Hanks), um homem tímido, solitário e por vezes pouco eficaz, mas persistente, que jogou com ele ao gato e ao rato, terminando por capturá-lo, após uma longa e histórica perseguição.


Veículo excelente para DiCaprio brilhar, “Apanha-me Se Puderes” / ”Catch Me If You Can” é na verdade uma película que respira frescura por todos os poros e, por razões que a própria razão desconhece, foi durante as filmagens desta película que o actor começou a ler a biografia de Howard Hughes, que o levaria a ser o principal responsável pela feitura de “The Aviator” / ”O Aviador”, tendo Martin Scorsese sido convidado por DiCaprio para realizar o filme, sendo também o mesmo Leonardo DiCaprio a interessar e a seduzir os Estúdios de Hollywood para a feitura de “O Aviador” / “The Aviator”.


“Apanha-me Se Puderes” / “Catch Me If You Can” de Steven Spielberg, confirmou-nos um Leonardo DiCaprio que não pára de nos surpreender, com o passar dos anos. À medida que a sua carreira evolui, o actor tem sabido escolher os projectos em que participa, ao mesmo tempo que luta pela sua concretização, demonstrando em simultâneo as suas preocupações ambientais com o mundo em que todos vivemos.

Georgia O'Keeffe - "Blue and Green Music"


Georgia O'Keeffe - "Blue and Green Music", (1919)
Óleo sobre tela, 58,4 x 48,3 cm.

George Roy Hill – “A Rapariga do Tambor” / “The Little Drummer Girl”



George Roy Hill - "A Rapariga do Tambor" / "The Little Drummer Girl"
(EUA - 1984) – (130 min. / Cor)
Diane Keaton, Yorgo Voyagis, Klaus Kinsky, Samy Frey.

George Roy Hill é um daqueles cineastas que nunca conheceu a mediocridade nas suas películas. Embora não seja um autor, ele sempre conseguiu interligar a qualidade dos seus filmes com o êxito de bilheteira, tendo sido celebrizado pela crítica e pelo público em geral como o realizador de “A Golpada”/”The Sting” (1973), “Butch Cassidy and Sundance Kid” / “Dois Homens e Um Destino” (1969), ambos com a dupla Paul Newman/Robert Redford e esse admirável “Estranho Mundo de Garp” / “The World According to Garp”, (1982) adaptação ao cinema do célebre “best-seller” de John Irving, com um então desconhecido Robin Williams a vestir a pele do protagonista, o politicamente incorrecto Garp.


“A Rapariga do Tambor”/ ” The Little Drummer Girl”, baseado num romance de John Le Carré, mestre incontestado dos livros de espiões, basta recordar os célebres “A Gente de Smiley”, “O Espião Perfeito” ou “A Casa da Rússia”, aborda desta feita os Serviços Secretos Israelitas, duas décadas antes de Steven Spielberg dar a sua versão dos mesmos através desse perdedor de Oscars chamado “Munique” / “Munich”. George Roy Hill, tal como Steven Spielberg, fez a rodagem da película em diversos países europeus, mais concretamente, Alemanha, Inglaterra e Grécia, até chegar, inevitavelmente, a Israel.


O argumento situa-se, como não podia deixar de ser, na “guerra de espiões” entre os Serviços Secretos Israelitas e Membros da Causa Palestiniana, que actuavam na Europa em perfeita sintonia e colaboração com a então extrema-esquerda europeia que defendia a via armada, nas décadas de 60/70 do século passado.
O elemento base deste drama policial é uma actriz de teatro de nome Charlie (Diane Keaton), que, sendo defensora da causa palestiniana, acaba por colaborar com os serviços de espionagem do Estado Judaico na captura do perigoso Khalil, cuja identidade/rosto é desconhecida de todos, incluindo os seus próprios companheiros de armas e aqui a ficção quase se confunde com a realidade, bastando recordar o caso dessa “personagem” enigmática chamada Abu Nidal!


A teia construída à volta de Charlie (Diane Keaton, numa inesquecível interpretação, revelando todas as suas potencialidades como actriz dramática) é a rede do amor, quantos operacionais caíram nessa mesma rede ao longo do tempo (recordemos o caso de “Munique” e a morte de um dos agentes da Mossad), situando-se aqui a questão fulcral da película: a perda de identidade! Na verdade, quantas vidas, quantos rostos possuímos nós? Charlie (Diane Keaton) termina por perder os seus ideais e a sua identidade, mas no quotidiano há sempre alguém que lhe irá conceder o benefício da dúvida. “A Rapariga do Tambor” / “The Little Drummer Girl” não é só um filme destinado a todos os fans do escritor John Le Carré, mas também um magnífico retrato da história contemporânea.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Bart Freudlich – “Jogos de Infidelidade” / “Trust The Man”


Bart Freudlich – "Jogos de Infidelidade" / "Trust the Man"
(EUA – 2005) – (103 min. / Cor)
Julianne Moore, David Duchovny, Maggie Gyllenhall, Billy Crudup.

“Jogos de Infidelidade” / “Trust the Man” de  Bart Freudlich, o realizador de “A Dog Race in Alaska”, cujo trabalho se tem estendido à televisão, através da série “Californication”, casado com a actriz Julianne Moore, oferece-nos a história de dois casais habitantes de Manhattan, com os seus problemas domésticos, em que os homens se encontram a atravessar crises existenciais, ao contrário das suas mulheres, revelando-se estas como o verdadeiro sustento dos lares.


Rebecca Pollack (Julianne Moore) é uma actriz que se encontra a trabalhar no Teatro, enquanto o marido Tom (David Duchovny) um viciado em sexo, fica em casa a tratar dos filhos, ao mesmo tempo que procura um rumo para a sua vida. Por outro lado Elaine (Maggie Gyllenhall), que trabalha numa editora, vive com Tobey (Billy Crudup, numa excelente interpretação), com quem deseja ardentemente casar e constituir família, sendo a sua grande aspiração ser mãe, mas Tobey, que é irmão de Rebecca, não encontra destino para a sua vida desocupada, ao mesmo tempo que usa todos os pretextos para fugir do casamento, como o diabo foge da cruz.


Estamos assim no universo dessa grande metrópole que é New York e, inevitavelmente, ao seguirmos estes “Jogos de Infidelidade” / “Trust the Man” é inevitável recordar o cinema de Woody Allen e muito em especial o seu “Maridos e Mulheres” / “Husbands and Wives”, encontrando-se o filme de Bart Freudlich a quilómetros de distância da genialidade de Woody Allen, ao mesmo tempo que também é possível detectar uma certa aproximação ao cinema de Neil Labute, muito em especial pelas diversas situações criadas, bem como pela linguagem utilizada nos diálogos, usando o calão de forma constante e sem humor. Sendo apenas de destacar a interpretação de Billy Crudup, muitos furos acima das restantes.


“Trust the Man” / “Jogos de Infidelidade”, que pretende ser uma comédia onde se faz o retrato da relação dos casais na sociedade contemporânea, termina por se revelar um filme falhado, apesar dessa apoteose final do “happy-end”, quando os dois pares se cruzam tempestuosamente na estreia da peça, em que Rebecca Pollack (Julianne Moore) é protagonista, no Lincoln Theater, em busca dessa felicidade, ao fim ao cabo tão desejada por todos.