quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Michael Radford – “O Mercador de Veneza” / “The Merchant of Venice”


Michael Radford - "O Mercador de Veneza" / "The Merchant of Venice"
(EUA/LUX/ITA/ING 2004) – (138 min. / Cor)
Al Pacino, Jeremy Irons, Joseph Fiennes, Lynn Collins.

Al Pacino, o maior actor americano vivo, é o protagonista do filme “O Mercador de Veneza” / “The Merchant of Venice” e ao seu lado temos esse outro grande actor chamado Jeremy Irons e como se não bastasse, o realizador é Michael Radford, o cineasta de “O Carteiro de Pablo Neruda” / “Il Postino”.
Muitos dirão que esta é a peça mais polémica de William Shakespeare, na verdade uma peça (arriscamos a palavra) anti-semita, devido à personagem do judeu Shylock (Al Pacino no cinema e outrora Dustin Hoffman no teatro), mas Michael Radford tem o grande cuidado de, numa espécie de introdução da obra, retratar a forma como eram tratados os judeus na Veneza do século XVI e assim podemos de certa forma entrar com outro olhar nos meandros da peça de William Shakespeare.


Mas, antes de falarmos na peça, falemos um pouco no cineasta Michael Radford. Cineasta Britânico nascido, no entanto, em Nova Deli, descobriu o cinema aos 15 anos sendo Truffaut, Godard e Resnais os seus heróis, foi assim natural a sua ida para a National Film School, depois foi o chamado “caminho do costume” dos cineastas britânicos da geração pós Free-cinema, televisão/BBC (“The White Bird Passes), seguindo-se o Documentarismo e por fim o Cinema de Ficção, diremos assim que “Van Morrison in Ireland” foi o seu documentário de estreia (1981) seguindo-se depois “Another Time, Another Place” muito aclamado nos inícios de oitenta numa época em que o cinema Britânico surgia com uma nova pujança e novos realizadores, quase todos autores com o seu próprio universo (Peter Greenaway, Richard Eyre ou Mike Leigh) ao mesmo tempo que David Puttnam tentava criar uma “indústria, verdadeiramente, cinematográfica”.


Surgiu assim com certa naturalidade o convite para realizar “1984”, filme baseado na célebre obra de George Orwell. Curiosamente a banda sonora da película era para ser feita por David Bowie, mas seriam os Eurythmics a serem os responsáveis pela música, na qual se iria incluir o célebre “Sex Crime”. Mas esta fabulosa película ficaria também marcada como a última obra de Richard Burton. Nunca nos esqueceremos das cores usadas por Michael Radford, simplesmente únicas e tenebrosas, tal como a sociedade em que as personagens vivem, sempre vigiadas pelo “Big Brother”.
Depois do êxito da película, Radford mudou-se para outras paragens e levou consigo o par Charles Dance e Greta Scacchi, nascendo “White Mischief” / “Adeus África”, contando ainda com a presença de John Hurt.


Assim chegamos a “Il Postino” / ”O Carteiro de Pablo Neruda”, sem dúvida alguma o maior sucesso comercial de Michael Radford, mais de um ano em exibição no nosso país, o livro escrito por Antonio Skarmeta narrando o exílio do célebre poeta chileno e o seu encontro e a amizade com o carteiro, que lhe leva notícias do seu país distante, comoveu toda uma população cinematográfica, infelizmente o actor Massimo Troisi, que nos sensibilizou até às lágrimas interpretando Mario Ruoppolo, não chegou a ver a película porque a morte chegou demasiado cedo, mas aquela bela questão da célebre metáfora, é na verdade inesquecível, tal como Philippe Noiret na personagem de Pablo Neruda.
Seria com Michael Radford que Asia Argento, filha do célebre cineasta italiano Dario Argento daria nas vistas com “B. Monkei”, um thriller, seguiu-se depois um daqueles filmes que poucos viram, intitulado “Dancing at the Blue Iguana” / “Iguana Azul” sobre o mundo do strip e contando com uma Darryl Hannah no seu melhor (passou despercebido do grande público no cinema Mundial).


Nasce então “O Mercador de Veneza”/”The Merchant of Venice” e mais uma vez Shakespeare é adaptado ao cinema. É claro que todos nós temos as nossas peças favoritas do Bardo, mas para mim a melhor será sempre “Os Livros de Próspero” / ”Prospero’s Books” e a adaptação que o Peter Greenaway fez da peça, (sobre o qual já escrevemos aqui), com um John Gielgud fascinante na figura de Próspero, e depois ainda temos Michael Nyman e essa voz chamada Sarah Leonard, também é verdade que esta peça teve no cinema uma adaptação moderna realizada por Paul Mazurski, sendo o papel de Próspero entregue a John Cassavetes.
Mas voltando ao que nos interessa “O Mercador de Veneza” / “The Merchant of Venice”, teve nos palcos um Dustin Hoffman histórico na figura de Shylock e este, quando teve conhecimento da produção do filme, “correu” em busca de Michael Radford, mas o papel já estava entregue a outro grande actor, Mister Al Pacino. Admirados!? Espero bem que não! Porque uma das poucas vezes em que Al Pacino passou para detrás das câmaras foi precisamente para realizar “Working For Richard” (exibido no saudoso cinema Quarteto), baseado na peça “Ricardo III”, no qual ele demonstra a sua paixão pelo "Bardo", ao mesmo tempo que nos fala do seu fascínio pelo personagem Ricardo III, na película ele encena a peça, mas também nos oferece as discussões dos ensaios, ao mesmo tempo que questiona amigos e colegas de profissão acerca da paixão que William Shakespeare desperta sempre nos actores. Aliás nunca nos poderemos esquecer do Ricardo III que vimos no Teatro da Cornucópia com um Luís Miguel Cintra, três horas em palco, simplesmente soberbo!


Será desta que chegamos ao amor que Bassanio possui por Portia, mas cujo dinheiro não possui para tentar conquistar o seu amor através do jogo e do enigma dos três cofres e a riqueza neles adormecida. Será assim que “O Mercador de Veneza” Antonio de seu nome (Jeremy Irons), aceita pedir emprestado ao judeu Shylock (Al Pacino) três mil ducados para emprestar a Bassiano (Joseph Fiennes) e este poder assim disputar o seu amor. Shylock, em tempos escorraçado pelo Mercador e a viver num verdadeiro ghetto em Veneza, aceita fazer o empréstimo, mas caso a dívida não seja saldada no prazo acordado (3 meses), poderá exigir em troca um pedaço da sua carne.
Se o amor e a revelação do mistério são favoráveis a Bassanio, já António recebe a trágica notícia da perda dos seus navios e das mercadorias que transportavam, impedindo-o de saldar a dívida. Então, o inamovível Shylock exige a cobrança da dívida perante o tribunal de Veneza e aqui temos um verdadeiro One Man Show chamado Al Pacino, na pele de Shylock e ele é o filme!

Jeremy Irons, como sempre, está igual a si próprio, excelente! Mas o duelo de Shylock com o tribunal que o levará a tudo perder é, na verdade, uma sequência cinematográfica única, devido à forma como Michael Radford a trabalha, mas Al Pacino é a alma do Filme, porque “O Mercador de Veneza” / “The Merchant of Venice” oferece-nos a Arte do Maior Actor Norte-Americano vivo Mr. Al Pacino!!!!

Nota: o dvd do filme possui um excelente documentário.

Edouard Manet - (1832 - 1883)

"The Races at Longchamp" - (1866)
Óleo em tela, 43,9 x 84,5 cm.

Roberto Rossellini – “Stromboli” / “Stromboli – Terra di Dio”


Roberto Rossellini – "Stromboli" / "Stromboli - Terra Di Dio"
(ITALIA – 1950) – (107 min. - P/B)
Ingrid Bergman, Mario Vitale, Renzo Cesana, Mario Spanza.

“Stromboli” surge na cinematografia de Roberto Rossellini como a sua primeira colaboração com a actriz Ingrid Bergman, que trocara Hollywood e o “star-system” por amor a um cineasta do qual muito pouco sabia, mas cuja visão de “Roma Cidade Aberta” / “Roma, cittá aperta” , lhe alterou o sentido da vida.


Karin (Ingrid Bergman) é oriunda da Lituânia e, após a invasão do seu país pelas tropas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial, refugia-se na Jugoslávia, partindo depois para Itália com um passaporte falso. Iremos assim encontrá-la detida num campo de refugiados perto de Roma, onde vivem inúmeras mulheres à espera de partir e reconstruir uma nova vida. Mas o pedido de Karin para partir para a Argentina é recusado pelo Cônsul daquele país em terras italianas e esta acaba por se casar com um dos muitos soldados italianos que, à noite, vão até ao campo de detenção cortejar as mulheres que aí habitam, para assim poder fugir daquele espaço que a sufoca lentamente.


António (Mário Vitale) é um soldado oriundo da ilha de Stromboli, uma das mais pobres da Itália, ciclicamente devastada pelas erupções vulcânicas. Antigo pescador, ao regressar à ilha, descobre que o seu barco de pesca se encontra perdido para sempre e recomeça o seu trabalho na pesca na companhia de outros pescadores, num barco que não lhe pertence. Por outro lado a sua casa está praticamente destruída no interior e Karin, estupefacta pela terra que a acolhe, tudo faz para embelezar o seu novo lar. Mas a sua presença de imediato desperta a hostilidade das outras mulheres, que invejam a sua beleza e se recusam a entrar na sua casa, encontrando conforto não no marido mas no faroleiro (Renzo Cesana), que tinha conhecido no barco que a levara para Stromboli.


Um dia em que está junto às águas do mar, a ver as crianças a brincar, decide fazer-lhes companhia até que uma onda a arrasta e será precisamente o faroleiro que se encontrava próximo a segurá-la, perante os olhares rancorosos das outras mulheres da ilha que observam o que se passa.
Nesse mesmo dia, ao regressar a casa, António sabe do sucedido e ao passar pelas ruas ouve vozes que lhe chamam cornudo e de imediato decide encarcerar a mulher em casa, depois de lhe ter batido. E será o faroleiro a ir retirar Karin da sua prisão, oferecendo-se para a levar para o outro lado da ilha onde existe uma outra povoação. Mas Karin, apesar de estar grávida de três meses, não aceita ir de barco com ele embora aceite o seu dinheiro, decidindo subir as montanhas e contornar o vulcão, para fugir do seu destino.



A rodagem de “Stromboli” foi atribulada, já que o argumento de Roberto Rossellini escrito por Sérgio Amidei era mínimo e depois os correspondentes estrangeiros da imprensa internacional decidiram invadir a ilha para acompanhar a rodagem, apesar de esta ser de difícil acesso, porque Ingrid Bergman continuava casada com o marido, embora estivesse a viver com o cineasta italiano, originando um escândalo de grandes dimensões. Por outro lado, os actores que contracenavam com a actriz sueca eram quase todos amadores e Roberto Rossellini tinha imensa dificuldade em os dirigir.
Apesar de todos estes obstáculos, a ex-estrela de Alfred Hitchcock surge em “Stromboli” oferecendo-nos a sua beleza profunda, basta ver os grandes planos de Ingrid Bergman ou a sequência profundamente sensual dela, no mar com as crianças.
As dificuldades e o martírio porque passou a famosa actriz sueca na rodagem da película foram enormes, chegando a queimar os pés na célebre subida para contornar o vulcão. Já o cineasta conseguiu oferecer-nos mais uma obra neo-realista, de cujo género foi o fundador com Luchino Visconti, nunca nos poderemos esquecer do genial “Obsessão” / “Ossessione” que, com “Roma Cidade Aberta” / “Roma, citá aperta”, marcam o nascimento desse género cinematográfico.


“Stromboli” oferece-nos ainda duas sequências que fizeram história: a célebre pesca do atum, que irá aterrorizar Karin, assim como o vulcão em erupção, cujas imagens ficaram na história do cinema e tornaram célebre a película do cineasta italiano.
E quando Karin, em fuga do marido, começa a chegar à zona da erupção, os gases saídos do vulcão impedem a sua caminhada perdendo a mala e o dinheiro que levava consigo, para recomeçar uma nova vida e num acto de desespero ou fé (cada um entende como quer), de joelhos sobre as cinzas do vulcão, ela evoca o nome de Deus e pede a sua ajuda para iluminar o caminho da sua existência.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Neil Young – “Greendale”


Neil Young
"Greendale"
Reprise Records


A discografia de Neil Young é vasta, percorrendo décadas da Música Popular Anglo-Americana e no seu interior o músico canadiano criou verdadeiras pérolas que se encontram por descobrir ou escutar se preferirem e o álbum “Greendale” é precisamente uma delas.


“Greendale” de Neil Young oferece-nos uma viagem pela América das Little Towns (de que tanto gostei), só que neste caso Greendale é uma cidade criada pela Arte e escrita de Neil Young, que nos vai contando diversas histórias sobre os seus habitantes, num registo inesquecível na companhia dos Crazy Horse, que nos convida mais uma vez a viajar por esse legado musical inesquecível que Neil Young tem oferecido ao universo musical.

Curiosamente este belo cd, intitulado “Greendale” oferece-nos como bónus um DVD com um concerto acústico de Neil Young que, ao longo de duas horas maravilhosas, revisita todos os temas do álbum, oferecendo-nos novas versões numa dessas viagens que guardamos para sempre na memória. 

Joel Coen e Ethan Coen – “Destruir Depois de Ler” / “Burn After Reading”



Joel Coen e Ethan Coen – "Destruir Depois de Ler" / "Burn After Reading"
(EUA/ING/FRANÇA – 2008) – (96 min. / Cor)
George Clooney, Frances McDormand, John Malkovich, Brad Pitt, Richard Jenkins.

Foi com “Blood Simple” / “Sangue por Sangue”, que todos fixámos o nome dos irmãos Coen e, desde então, esta dupla revelou ser um nome a seguir no interior da produção cinematográfica norte-americana. Com “No Country for Old Men” / “Este País Não é Para Velhos”, os Coen viram o seu trabalho mais do que reconhecido pela Academia de Hollywood, saindo como os grandes vencedores. E, mais uma vez, decidiram olhar a comédia como só eles sabem, nascendo assim “Destruir Depois de Ler” / “Burnig After Reading”, convidando mais uma vez o bem conhecido George Clooney para protagonista. E segundo os irmão Coen este filme concluiu a “trilogia idiota com Clooney”. Recorde-se que os outros dois filmes são “Irmão Onde Estás?” / “O Brother Where Art Thou” e “Crueldade Intolerável” / “Intolerance Cruelty”, mas como sabemos esta colaboração George Clooney/Coen Brothers irá continuar, para alegria de todos os fans deste trio!


Quando alguém nos fala em filmes sobre a CIA, de imediato a nossa memória nos envia para essa obra-prima de Sydney Pollack intitulada “Os Três Dias do Condor”/ “Three days of Condor” ou mais recentemente o filme de Tony Scott, “Jogo de Espiões” / “Spy Game”. Mas os irmãos Coen decidiram oferecer-nos um olhar mordaz sobre a famosa Agência de Informação, criando uma obra que presta homenagem ao género “screwball comedy”, tão em voga nos anos quarenta, que até Alfred Hitchcock experimentou o género com, infelizmente pouco conhecido, “O Sr. e a Sra. Smith” / “Mr. And Mrs. Smith”, não confundam por favor com outra película com o mesmo título.


Osbourne Cox (John Malkovich) é um agente da CIA que trabalha nessa área tão delicada que são os Balcans e que, um dia, se vê despedido ou retirado (se preferirem a linguagem do politicamente correcto) das funções de analista que exerce. Perante a situação, Osbourne não hesita em despedir-se e decide escrever as suas memórias. Por outro lado a sua mulher, Katie Cox (Tilda Swinton, que iniciou uma nova carreira nos States depois de receber o Óscar por “Michael Clayton”), decide pedir o divórcio sem o conhecimento do marido, ao mesmo tempo que mantém uma ligação com o agente Harry Pfarrer (George Clooney), que trabalha na área de segurança já lá vão 20 longos anos, sem nunca ter disparado um tiro na vida.


Estamos assim perante esse território do adultério ou se preferirem das relações humanas. E será no ginásio dirigido por Ted Treffen (Richard Jenkins, um dos mais espantosos secundários de Hollywood, fixem o nome), que a célebre bola de neve vai começar a descer a montanha para fazer a ligação mortífera entre as diversas personagens porque, no vestuário das senhoras, o inocente Manolo (Raul Aranas) irá encontrar um CD que será o verdadeiro macguffin da acção, como certamente lhe chamaria Alfred Hitchcock.


Chad (Brad Pitt), que certamente viu muitos filmes policiais, decide ler o conteúdo do CD e pensa que se encontra ali informação altamente secreta. E com a ajuda de Linda Litzke (Francis McDormand), decide encontrar-se com Osbourne (John Malkovich), para lhe pedir dinheiro em troco das informações que possui. O CD contém as memórias de Osbourne, que se encontra a escrever um livro sobre a CIA, para assim se vingar das acusações dos seus superiores.


Linda, ao perceber que pode realizar as três cirurgias plásticas que tanto deseja, decide seguir em frente com o inocente Chad, que possui um QI muito pouco elevado, como iremos descobrir ao longo do filme. Por outro lado esta mulher, que vive em busca do homem perfeito na net, marcando encontros no parque sempre com final infeliz, irá descobrir em Harry Pfarrer (George Clooney) o homem da sua vida. Começa então um jogo de chantagem e perseguições delirante, com objectivos tão diferentes como antagónicos.


Se Chad e Linda perseguem Osbourne para conseguirem dinheiro, já Katie Cox a mulher de Osbourne manda-o seguir para conseguir provas para o divórcio, ao mesmo tempo que a famosa escritora de livros infantis Sandy Pfarrer (Elizabeth Marvel), que prepara secretamente o divórcio do marido Harry (George Clooney), procede da mesma maneira. Por outro lado a CIA segue os movimentos de Osbourne Cox, depois de ter conhecimento através do seu agente infiltrado na Embaixada Russa que Chad e Linda estiveram na Embaixada a tentar vender um CD com segredos de Estado, decidindo desta forma seguir aquela dupla. Fica decididamente instalada a grande confusão!!!


A forma como Joel Coen e Ethan Coen nos mostram as reuniões da CIA sobre o caso é profundamente delirante, ao mesmo tempo que retratam os russos e a sua Embaixada com um humor corrosivo, olhando o universo da espionagem, como duas crianças traquinas.
Mas como é que o CD foi perdido no vestuário das senhoras no ginásio? A resposta é-nos dada pelos Coen de “forma discreta”. E o melhor é o espectador ficar bem atento ao filme e preparar-se para dar umas boas gargalhadas, porque este “Destruir Depois de Ler” / “Burn After Reading” é um verdadeiro convite ao divertimento. Mais uma vez Joel Coen e Ethan Coen surpreendem-nos com esta delirante comédia, em que os actores estão como peixes na água, debitando diálogos corrosivos em que a fronteira da inteligência é verdadeiramente invisível.

Pierre-Auguste Renoir - (1841 - 1919)


"Le Bal du Moulin de la Galette", (1876).
Óleo sobre tela, 131 x 175 cm.

Julien Duvivier – “Pépé o Moko” / “Pépé Le Moko”

J

Julien Duvivier – "Pépé o Moko" / "Pépé Le Moko"
(FRANÇA – 1937) – (94 min - P/B)
Jean Gabin, Mireille Balin, Lucas Gridoux, Marcel Dalio, Line Noro.

“Pépé Le Moko”, ao ser revisto nos dias de hoje, consegue resistir à passagem do tempo surgindo um pouco como uma obra que antecipava o famoso “film-noir” e depois temos sempre esse grande actor chamado Jean Gabin que, como ninguém, deu vida às personagens que protagonizou no cinema, quase sempre à beira do abismo. E neste filme, bem inserido na denominada corrente do realismo poético francês (onde pontificaram cineastas como Jean Renoir, Marcel Carné, Jacques Feyder e René Clair), oferece-nos a história de um gangster que, perseguido pelas autoridades francesas, se refugia na célebre Casbah de Argel, cujas vielas tortuosas conhece como ninguém, continuando a sua actividade de gangster fascinado por jóias, mas não serão as jóias a sua perdição final e sim uma turista que irá conhecer.


Julien Duvivier, o cineasta que realizou a película com enorme saber, iniciou a sua actividade no cinema ainda no tempo do mudo e seria com o nascimento do sonoro que ele iria despertar a atenção de muitos, realizando ao longo da sua carreira mais de cem filmes, onde abordou os mais diversos géneros e cuja qualidade nunca esteve em causa, sendo "Don Camillo" o seu maior êxito a nível mundial, com a sua assinatura.


A Casbah de Argel, construída em Estúdio por Jacques Krauss, surge assim como o território de eleição do protagonista, onde ele se movimenta como peixe na água e será curioso comparar esta Casablanca com a surgida anos mais tarde no filme de Michael Curtiz. E, como não podia deixar de ser, também Pépé Le Moko se sente prisioneiro naquele ambiente, como Rick (Humphrey Bogart) no seu célebre café em Casablanca, ambos profundamente feridos pelo passado e ambos a sonhar com a sua Paris.


A vida de Pépé Le Moko (Jean Gabin), feita de pequenos roubos e sempre com a polícia no seu encalço, será um dia alterada quando se cruza com uma turista chamada Gaby (Mireille Balin, de uma beleza estonteante), cujas jóias o fascinam inicialmente, mas se ela possui uma curiosidade infinita pela vida naquelas ruas labirínticas, ele rapidamente irá substituir o desejo do roubo pela paixão que sente por aquela mulher, que o irá acompanhar durante a sua estadia, sempre vigiada pelo inspector Slimane (Lucas Gridoux), que espera encontrar ali uma óptima oportunidade de capturar finalmente o famoso gangster. Mas o fascínio de Pépé pelas jóias irá extinguir-se rapidamente, quando o olhar límpido dos olhos dela se cruza com o olhar sedutor de Jean Gabin, nascendo de imediato no gangster um desejo profundo de possuir aquela mulher, porque vê nela esse amor que nunca tinha encontrado na vida. E será esse amor que irá começar a nutrir por ela que o levará à perdição.


Percebendo que ela irá partir rumo a França, ele sabe que finalmente chegou o momento de abandonar tudo e partir com ela, mas a mulher que o recebeu de braços na Casbah e sempre cuidou dele sente-se profundamente traída e, como não podia deixar de ser, irá revelar à polícia as intenções de Pépé Le Moko.
Olhando sempre o mar como essa fronteira que o separa da liberdade, Pépé le Moko parte rumo ao cais para se juntar à sua amada, expondo-se assim à polícia que só espera por esse passo fatal para o prender mas, ao contrário do que é habitual nos filmes de gangsters, ele não será morto pelas balas da autoridade, nem irá entrar em confronto com ela, porque quando chega ao cais de embarque percebe que é tarde demais porque o navio já tinha partido, esse mesmo navio em que Gaby sempre esperou reencontrá-lo, porque também ela se sente apaixonada por esse homem cujo olhar a fascinou para sempre. Cercado pela polícia, Pépé Le Moko prefere gritar pelo nome dela e depois num gesto apaixonado decide morrer ali, cortando os próprios pulsos, junto dessas grades do cais que o separam desse mar, sinónimo da liberdade.


(Re)descobrir “Pépé le Moko” de Julien Duvivier, nos dias de hoje, é a melhor forma de conhecermos a Arte desse grande actor chamado Jean Gabin, num filme verdadeiramente apaixonante.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Tom Waits - "Muriel"


Tom Waits nasceu a 7 de Dezembro de 1949 em Ponoma, Califórnia e será em 1973 que o mundo irá escutar a sua voz ainda pouco rouca e a sua genial poesia, acompanhada por esse piano que, como ele disse numa song, esteve a beber, não ele pianista, mas sim essas teclas onde os blues navegam de forma sublime e assim nascia "Closing Time" o seu álbum de estreia; depois, bem depois Tom Waits seguiu on the road, tal como Jack Kerouac, essa boa influência, cuja memória termina sempre por navegar nos inesquecíveis poemas de Tom Waits e onde a música também possui uma voz única. Aqui vos deixo o belo poema "Muriel" incluído no seu trabalho discográfico "Foreign Affairs" e incluído nos seus livros de poesia.

Muriel

Desde que deixaste a cidade, Muriel, os clubes fecharam
E há mais um candeeiro fundido na rua principal
Ali onde costumávamos passear.
Muriel, ainda assombro os meus velhos antros
E tu segues-me sempre onde quer que vá
Muriel, vejo-te num sábado à noite na casa de jogos
Com o cabelo apanhado, atrás
E aquele brilho de diamante no olhar
É a única aliança que alguma vez te comprarei Muriel.

E, Muriel, quantas vezes abandonei esta cidade
Para me esconder da tua memória
Que me persegue
Mas nunca vou além do bar mais próximo
Onde compro outro charuto barato e te encontro em cada noite
Muriel, Muriel...

Olá amigo, tem lume?

Tom Waits

(Tema incluído no álbum "Foreign Affairs")

Brian de Palma – “A Dália Negra” / “The Black Dahlia”


Brian De Palma – "A Dália Negra" / "The Black Dahlia"
 (EUA – 2006) – (121 min. / Cor)
Scarlett Johansson, Aaron Eckhart, Hilary Swank, Josh Hartnett.

Em “A Dália Negra” / “The Black Dhalia”, Brian De Palma regressa ao policial, depois desse assombroso “Mulher Fatal” / “Femme Fatal”, na sua máxima forma, levando ao grande écran o mais que célebre romance de James Ellroy “The Black Dhalia”, recorde-se que a mãe do escritor foi assassinada em circunstâncias muito estranhas e nunca devidamente esclarecidas, o que terá levado James Ellroy a escrever o romance que foi best-seller, ele que é um perfeito herdeiro do policial noir de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Aliás James Ellroy já tinha assinado o argumento dessa pedrada no charco do filme policial que é “L.A. Confidencial” / “L.A. Confidential”.de Curtis Hanson.


Brian De Palma é o cineasta que mais homenageia Alfred Hitchcock nos seus filmes, através não só de citações directas, mas também com os célebres movimentos de câmara perturbadores do nosso olhar fascinado.

Mas quem foi “Betty Ann Short”, a “Dália Negra” cujo assassinato chocou a América? Simplesmente mais uma “power-girl”, que chegou a Los Angeles em busca dos holofotes da fama em Hollywood? Infelizmente as luzes não a iluminaram enquanto esteve viva e só quando o seu corpo foi encontrado literalmente cortado ao meio, com todos os seus órgãos retirados do abdómen, os flashes dos fotógrafos a elevaram ao “estrelato”


Alguns diziam que ela estava grávida de um nome acima de qualquer suspeita em Los Angeles, começando a ser um fardo incómodo para a personagem, a quem tentava chantagear, outros que ela foi simplesmente usada e acabou mal, porque foi vista no local errado à hora errada e já era demasiado tarde para alterar o rumo dos acontecimentos. 
Nesta película de Brian de Palma dá-se mais um contributo para o desenrolar do mistério, não na forma criada por Truman Capote na sua obra-prima “A Sangue Frio”, porque o(s) culpado(s) desaparecera(m), mas sim através do genial romance de James Ellroy que nos oferece um ambiente de asfixia que nos agarra da primeira à última página, tal como sucede no grande écran à velocidade de 24 imagens por segundo.



Ao revermos esta película é inevitável a sua comparação com “Chinatown” de Roman Polanski e “L. A. Confidencial” de Curtis Hanson, porque como diria Sam Spiegel: “cliente morto não paga a conta”.

Camille Pissarro - (1830 - 1903)

"The Banks of the Marne in Winter" - (1866)
Óleo em tela, 91,8 x 150,2 cm.

Todd Haynes – “Longe do Paraíso” / “Far From Heaven”


Todd Haynes – "Longe do Paraíso" / "Far From Heaven"
(EUA – 2002) – (107 min. / Cor)
Julianne Moore, Dennis Quaid, Patricia Clarkson, Dennis Haysbert, Viola Davis.

Tal como sucedia com Rainer Werner Fassbinder, também Todd Haynes tem uma profunda admiração pelo cinema de Douglas Sirk e dos seus célebres melodramas, ambientados nessa década de cinquenta, século xx,  nos quais encontramos Rock Hudson como protagonista. Por outro lado, nunca é demais recordar que as últimas obras de Douglas Sirk foram assinadas a duas mãos, sendo a outra a de Fassbinder, que até escreveu sobre este nome incontornável do cinema clássico.


Ao realizar “Longe do Paraíso” / “Far From Heaven”, o americano Todd Haynes presta uma das mais belas homenagens a Douglas Sirk, não só ao fazer uma espécie de “remake” como também ao conseguir oferecer-nos as mesmas tonalidades, nessa célebre cor que caracterizava os seus filmes, através desse magnifico director de fotografia que é Edward Lachman, depois temos uma direcção de actores sublime, já que todos eles poderiam viajar no tempo e surgir ao lado de Rock Hudson, Robert Stack, Lana Turner ou Laureen Bacall e para finalizar temos a música de Elmer Bernstein.


Cathy Whitaker (Julianne Moore nunca esteve tão bonita num filme) vive a vida perfeita de uma esposa casada com um homem bem sucedido profissionalmente, de quem tem duas crianças, uma bela casa, rodeada de amigas, onde se destaca a confidente Eleanor Fine (essa extraordinária actriz chamada Patricia Clarkson) e um dia irá ver todo o seu universo a desabar de forma bem estranha, quando o marido (Dennis Quaid) lhe confessa que descobriu outros interesses na vida, bem perigosos nessa época e que está disposto a partir para viver nas margens do sistema. E será através de Raymond Dagan (Dennis Haysbert), o filho do seu antigo jardineiro, que ela irá encontrar um pouco de conforto e compreensão, ao mesmo tempo que descobre que afinal não vivia no Paraíso, pois irá perceber que o simples facto de ser vista a falar de forma tranquila e sorridente com um negro, lhe irá acarretar inúmeros problemas, especialmente entre a camada social a que pertence, que de imediato a encara com rancor e cinismo, até chegar esse momento em que ela finalmente percebe o significado do termo racismo. Já o inocente Raymond e a sua filha irão também descobrir que o racismo não tem cor, ao serem ostracizados pelos seus próprios conterrâneos, que não aceitam que ele fale com uma pessoa de outra raça e camada social diferente.


“Longe do Paraíso” / “Far Fom Heaven” revela-se o melhor trabalho cinematográfico de Todd Haynes realizado até à presente data e como a acção da película se passa precisamente na estação do ano em que vivemos, nada melhor do que comprar o dvd e ver o filme, porque nele poderemos encontrar uns extras magníficos, algo que nos dias de hoje é bem difícil de se descobrir. E dizemos isso porque para além de estarem todos legendados, temos um “Comentário do Realizador” que é uma verdadeira aula de cinema sobre Douglas Sirk, depois surge o respectivo “Making of…” bem acima do habitual, o “Trailer” e “Em Filmagens” e a finalizar um desses documentários que celebrizaram a Sundance Television, intitulado “Anatomia de uma Cena” com a duração de 30 minutos.


Todd Haynes, ao realizar “Longe do Paraíso” / “Far From Heaven”, prestou uma das mais belas homenagens a Doouglas Sirk e ao cinema do Melodrama, num filme inesquecível!

domingo, 27 de novembro de 2016

Alan Bates – (1934 – 2003)


A memória cinéfila é algo que fui adquirindo desde o momento em que entrei numa sala de cinema, mas por vezes também ela possui algumas lacunas, como por exemplo a tristeza que tenho de não me recordar do primeiro filme que vi num Templo da Sétima Arte, recordo-me de muitos outros afluentes cinematográficos, mas desse enorme oceano que me deu a conhecer o Cinema, não lhe conheço o nome. Mas tenho outras belas recordações e uma delas é a película “Longe da Multidão” / “Far From the Madding Crowd”, realizada por John Schlesinger em 1967 e que descobri fascinado no cinema Monumental. É claro que tenho de confessar que aos nove anos me apaixonei pela Julie Christie, ao vê-la neste filme e desejei ser essa personagem chamada Gabriel Oak, ou seja Alan Bates. Revi este filme por diversas vezes ao fazer a travessia da infância para a adolescência e assim fui descobrindo que a película se baseia no famoso livro de Thomas Hardy e que John Schlesinger é um dos nomes incontornáveis do Free Cinema Britânico e, claro, fixei os nomes dos actores, Julie Christie, Alan Bates, Terence Stamp, Peter Finch.


Hoje a minha memória decidiu falar um pouco desse extraordinário actor chamado Alan Bates, que irá iniciar a carreira no Teatro com a sua voz inconfundível e numa peça que se tornou célebre, da autoria de John Osborne, intitulada “Look Back in Anger”, seguindo-se depois o sempre convidativo caminho pelos clássicos: Shakespeare, Tchekov, Ibsen, Strindberg entre outros, ao mesmo tempo que estabelece laços de amizade com outros actores da mesma geração e que trilhavam os mesmos caminhos, como Richard Burton, Tom Courtney, Albert Finney e Peter O’Toole. E assim foi com naturalidade que Alan Bates entrou pela porta grande do cinema para deixar a sua marca inconfundível em filmes como “O Mensageiro” / “The Go-Between” de Joseph Losey, “Mulheres Apaixonadas” / “Women in Love” de Ken Russell (baseado no célebre romance de D.H. Lawrence”), “Zorba, o Grego” / “Alexis Zorbas” de Michael Cacoyannis, “O Regresso do Soldado” / “The Return of the Soldier” de Alan Bridges, “Dueto só para Um” / “Duet for One” de Andrei Konchalovsky, em que contracena ao lado de Julie Andrews, terminando a sua carreira por se dividir entre os palcos de Teatro, que nunca abandonou por completo, a Televisão e o Cinema, onde nos ofereceu interpretações inesquecíveis.

"Longe da Multidão" / "Far From The Madding Crowd"

Os anos noventa, séc.xx, foram muito penosos para Alan Bates, em virtude de ter perdido a esposa e um dos filhos. Em 2002 recebeu o Tony (equivalente ao Oscar no Teatro) pela sua memorável interpretação na peça “Fortune’s Foll” de Turgenev. A última vez que me “cruzei” com ele numa sala de cinema foi nesse fabuloso filme de Robert Altman intitulado “Gosford Park”, que não me canso de rever, mas se me perguntarem  qual o meu filme favorito interpretado por esse talentoso actor chamado Alan Bates, direi simplesmente que é “Longe da Multidão” / “Far From the Madding Crowd”!

Fred Schepisi – “Plenty – Uma História de Mulher” / “Plenty”


Fred Schepisi - "Plenty - Uma História de Mulher" / "Plenty"
(ING/EUA - 1985) – (121 min. / Cor)
Meryl Streep, Charles Dance, Tracey Ullman, John Gielgud, Sting, Sam Neil.

A maior dificuldade que temos para escrever acerca de um filme com Meryl Streep, é nunca conseguirmos evitar essa frase já célebre e por vezes "estafada", mas real, de que ela é a maior actriz viva do cinema norte-americano e um filme com a sua participação é um êxito assegurado. Foi o próprio Fred Schepisi (1) que confessou esta sua fraqueza, reconhecendo a influência benéfica trazida por Meryl ao filme “Plenty”. Este australiano, que conheceu o sucesso em 1976 no Festival de Cannes, com a película "The Devil's Playground" / “O Recreio do Diabo”, surge-nos aqui numa obra baseada no romance do sempre excelente David Hare, "Plenty" – e todos conhecemos a complexidade das obras de Hare, sejam elas romances, peças ou argumentos cinematográficos.


Realizado por um australiano e com uma actriz norte-americana na protagonista, "Plenty" é uma obra profundamente britânica, com todas as qualidades e fraquezas desta cinematografia. No entanto, como sempre, há algo que falta, e ao fim de dez minutos de visionamento sentimos essa falta, verificando na realização a fraqueza da película. Mas se "Plenty" é possuidor deste ponto negativo, ele tem um trunfo que anula as fraquezas que possam existir. Esse trunfo chama-se Meryl Streep e a jogada está ganha.
O corpo do actor/ actriz é um elemento, por vezes preponderante, num filme ou na carreira de uma estrela, mas no caso de Meryl Streep a sua arte reside no rosto. E não há nada melhor que esta película para nos demonstrar isso mesmo.
Quantos rostos possui a Susan Trasherne (Meryl Streep) deste filme? Quantos sorrisos, quantas alegrias, quantos prazeres??? Susan tinha tudo para oferecer a um mundo novo em construção, mudando o estado das coisas. Quantas gerações gritaram "nós vamos mudar o mundo!" e tudo ficou na mesma ou pior ainda? Como dizia Burt Lancaster em "O Leopardo" de Luchino Visconti: "tem que se mudar as coisas, para que tudo fique como dantes" (cito de memória).


A Susan de "Plenty" é uma mulher que "nasce" com a Segunda Grande Guerra, vivendo na resistência a seiva da vida, e o seu encontro em território francês com Lazar (Sam Neil) irá marcá-la para sempre. Sendo essa estranha recordação de uma noite que a irá acompanhar ao longo da vida. Tony, o companheiro de luta, é um ponto de passagem e Raymond (Charles Dance) não é mais do que o marido que a ama perdidamente, oferecendo-lhe um certo conforto social que Susan não suporta, quase a aniquilando, mas que também por amor tudo suporta ou aceita, se preferirem. Já Mick, o amante, (Sting) (2), não passa de um caso por culpa da paixão inexistente. Susan é um pássaro preso na gaiola dourada, que lhe ofereceram num abrigo, para não ser devorada pela fúria das águias.


No final Susan dorme no quarto em busca do repouso da vida, perdida mas liberta do seu cárcere ,sonhando de forma tranquila, enquanto Lazar parte para a ordem social do caos a que pertence. "Plenty - Uma História de Mulher” oferece-nos uma Meryl Streep senhora dessa Arte de transfiguração do rosto. As suas metamorfoses ao longo da película transformam este filme num puro jogo de olhares interiores de uma actriz, para o exterior de uma vida perdida ou vencida, consoante a visão de cada um, na certeza de oferecer a imagem da passagem dolorosa desse tempo que apaga lentamente a chama da resistência, consumindo os sonhos de uma juventude sem idade.
"Plenty" é um filme de Meryl Streep onde, pela primeira vez, o seu rosto assume a totalidade da representação. Naquela face sentimos o cansaço, a alegria, o amor, o medo, a angústia e o desejo de uma actriz chamada Meryl Streep.


(1) - Ele é o cineasta do bem famoso "A Casa da Rússia", em parte rodado no nosso país, com Sean Connery, Michelle Pfeiffer e James Fox.

(2) - Demonstrando mais uma vez as suas qualidades de actor.