segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Fred Schepisi – “Empire Falls”



Fred Schepisi – "Empire Falls"
(EUA – 2005) – (240 min./ Cor)
Paul Newman, Ed Harris, Philip Seymour Hoffman, Helen Hunt, Robin Wright Penn, Aidan Quinn, Joanne Woodward, Theresa Russell, Denis Farina.

Por vezes a televisão oferece-nos verdadeiras obras-primas, que guardamos para sempre na nossa memória e “Empire Falls” é precisamente uma delas. Uma daquelas descobertas feitas quando um dia a vimos num canal de televisão e encontrámos um elenco de primeira água. Basta olhar para os nomes que encabeçam o elenco e ficamos positivamente de boca aberta. Depois, o australiano Fred Schepisi, realizador de obras como “Plenty” ou “A Casa da Rússia” / “The Russia House”, é um valor mais do que seguro e, ao sentarmo-nos no sofá, de imediato mergulhamos nesta história poderosa passada no Maine, uma das zonas mais pobres da América e entramos pela porta grande da vida destes personagens de uma “little town”, que é um verdadeiro espelho dessa América profunda, que tantas vezes decide as eleições, como todos sabemos.


Baseada na novela de Richard Russo, “Empire Falls” conta-nos como nasceu aquela pequena cidade e de imediato percebemos que ela foi construída à custa de muito sangue, suor e lágrimas, havendo claro essa família Whiting, que está acima da lei e tudo controla. Iremos assim acompanhar esta mini-série em dois tempos distintos: o passado e o presente. Esse passado que poderia ter alterado as regras do jogo, mas que um suicídio irá “perseguir” a história da família Roby, que viverá para sempre dependente dos desejos e rancores dessa matriarca chamada Francis Whiting (Joanne Woodward espantosa!), dona e senhora das vidas de todos, no presente.


Ao longo desta obra iremos descobrir espantosas interpretações, sendo inesquecível a figura de Paul Newman, nesse Max Roby de barba e ar desleixado, sempre a contrariar os filhos, agarrado à bebida e a fazer o que simplesmente lhe apetece, enquanto os seus filhos Miles (Ed Harris) e Roby (Aidan Quin) nunca conseguem controlar os seus movimentos, porque o tempo que dedicam ao seu restaurante, já lá vão vinte e cinco anos, um daqueles célebres Dinner que encontramos ao longo das pequenas cidades, consome-lhes as vidas e para ajudar ainda mais Miles (Ed Harris), a sua mulher Janine (Helen Hunt) deixou-o e trocou-o pelo pretensioso Jimmy Minty (Dennis Farina) que ele odeia, especialmente quando o encontra no restaurante para ir buscar a sua filha.


Ao longo de quatro horas iremos acompanhar as vidas destes personagens e quando as vimos no écran é inevitável recordar muitas vidas que conhecemos no nosso quotidiano, com esses segredos guardados ao longo de uma existência e que muitas vezes são destruidores das vidas que não conseguem lidar com eles.
“Empire Falls” é uma daquelas pérolas que merece ser descoberta por todos e está editada em dvd, não a perca, porque aqui respira-se Cinema por todos os poros!

Victor Fleming / David O'Selznick – “E Tudo o Vento Levou” / “Gone With The Wind”


Victor Fleming / David O'Selznick – "E Tudo o Vento Levou" / "Gone With the Wind"
(EUA - 1939) - (225 min. / Cor)
Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard, Olivia de Havilland.

Quando olhamos para este filme e procuramos o seu verdadeiro responsável, o nome que nos surge é o de David O’Selznick, esse produtor que tudo apostou na película, mas se pensarmos no realizador, embora seja o nome de Victor Fleming que encontramos mencionado, não nos poderemos esquecer que o primeiro cineasta a estar por detrás da câmara foi o grande George Cukor, que se deu muito mal com David O’Selznick, terminando por ser despedido. Sam Wood foi outro realizador bem conhecido que passou pela película, tal como o célebre William Cameron Menzies, que se encarregou dos soberbos cenários que vemos ao longo do filme.


Por aqui já se vê como foram atribuladas as filmagens de “E Tudo o Vento Levou” / “Gone With the Wind”, baseado no célebre romance de Margareth Mitchell, que fizera chorar a América e que fora comprado a peso de ouro por David O’Selznick. Um dado curioso é o de Francis Scott Fitzgerald ter sido um dos argumentistas a “carpinteirar” esta poderosa obra.
Durante as filmagens, todas as atenções em Hollywood se viraram para a feitura desta película, cujos gastos atingiram a soma de quatro milhões de dollars e que nos ofereceu uma das mais famosas heroínas da História do Cinema, a bela Scarlett O’Hara, interpretada por Vivien Leigh, mais conhecida na época por ser esposa de Laurence Olivier do que pelo seu enorme talento, que se irá revelar nesta película e no fabuloso filme de Elia Kazan, “Um Eléctrico Chamado Desejo” / “A Streetcar Named Desire”. Nunca é demais referir que Vivien Leigh deixou KO durante os testes para encontrar a actriz perfeita para o papel, Bette Davis e Katherine Hepburn, duas das mais temidas candidatas a interpretar a bela, caprichosa e destemida Scarlett O’Hara.


Estamos no Sul, esse território dominado pelos ricos fazendeiros, com as suas enormes plantações e onde a escravatura ainda era uma triste realidade. E em Tara, a famosa propriedade, iremos descobrir Scarlett O’Hara, que irá estar uma vida inteira perdidamente apaixonada pelo homem errado, ou melhor Ashley Wilkes (Leslie Howard), que nunca a tentará desenganar, apesar de ter casado com a sua prima Melanie (Olívia de Havilland). Furiosa com esta traição, Scarlett O’Hara decide também ela casar com o primeiro homem à mão, que irá rapidamente morrer na guerra civil que entretanto estala entre os Estados do Norte e os Estados do Sul dessa América de então na mais cruel guerra civil de que há memória no Novo Mundo, tornando-a numa bela viúva, que irá chamar a atenção do destemido Rhett Buttler (Clark Gable), ele que irá sempre olhar o conflito de forma bastante diferente das forças oponentes.


Tara, a famosa propriedade, será destruída pela guerra como veremos no filme, sendo uma das mais famosas sequências da película o incêndio da cidade de Atlanta, nesta memorável sequência os Estúdios aproveitaram para destruir e queimar os gigantescos cenários de “Intolerância” / “Intolerance” de David Wark Griffith, o filme que destrui a carreira do célebre criador da linguagem cinematográfica devido aos fracos resultados de bilheteira. Mas Scarlett O’ Hara irá com toda a sua força reconstruir a sua casa, descobrindo em Rhett Buttler (Clark Gable) o homem ideal para estar a seu lado, mas a sua cega paixão por Ashley Wilkes (Leslie Howard), após a morte da sua prima Melanie (Olivia de Havilland), será a gota de água que levará Rhett Buttler a partir finalmente de Tara, deixando para trás a mulher que se esqueceu de o amar, num dos momentos mais poderosos da película.


“Gone With the Wind” / “E Tudo o Vento Levou” foi premiado com uma chuva de Oscars e obteve na época resultados espantosos nas bilheteiras, transformando-se num dos filmes mais rentáveis de sempre da Sétima Arte. E quando revemos, mais uma vez, esta película percebemos que esta obra verdadeiramente monumental só foi possível graças à luta titânica desse produtor chamado David O’Selznick que, como todos sabemos, iria abrir as portas de Hollywood para a maravilhosa carreira americana de Alfred Hitchcock.

domingo, 30 de outubro de 2016

Orson Welles - "The War of The Worlds" - (A Emissão de Radio)


Aqui vos deixo a emissão histórica radiofónica de Orson Welles, "The War of the Worlds", baseada no famoso livro de H. G. Wells, que espalhou o pânico na América.

Na crónica anterior, Orson Welles e a Guerra dos Mundos - A Verdade dos Factos", relatamos o que sucedeu durante e depois a transmissão radiofónica, que irá conduzir Orson Welles à celebridade e ao maravilhoso terrritório da Sétima Arte.

Bom domingo!

Orson Welles e a Guerra dos Mundos

A Verdade dos factos do dia 30 de Outubro de 1938


A data escolhida para a emissão foi o dia 30 de Outubro de 1938. A América estava cada vez mais preocupada com a Europa, perante o renascimento da Alemanha, que com a sua máquina de Guerra ameaçava tudo e todos. Como sabemos, a Guerra Civil de Espanha tinha servido para testar a eficácia do armamento alemão, mas os americanos também estavam cada vez mais preocupados com os discos voadores.


O Planeta Marte aterrorizava o cidadão comum, não eram só os filmes de série-B que cada vez mais se centravam na temática marciana com uma invasão da terra, mas também eram cada vez mais os cidadãos que diziam ter avistado disco voadores no céu, alguns até afirmavam ter sido raptados por extra-terrestres, mas depois de libertados a maioria não se recordava de nada do que se passara, embora alguns ainda tivessem as forças suficientes para descreverem pormenorizadamente esses seres malignos que pretendiam conquistar o nosso planeta.



Foi neste clima de medo que Orson Welles e a sua equipa habitual do “Mercury Theatre”, anunciou na rádio que iria transmitir uma peça intitulada “A Guerra dos Mundos”, adaptada ao tempo presente e baseada no famoso romance de H.G.Welles.


No entanto todas as pessoas que ligaram os rádios depois das 20 horas já não tiveram oportunidade de escutar o aviso de Orson Welles, não nos esqueçamos que na época se viviam os famosos dias da rádio, tão bem retratados no filme de Woody Allen.
Após o início da peça, o jovem Orson Welles, desconhecendo que acabara de entrar para a História, sentou-se na sua cadeira e acompanhou calmamente a emissão, como fazia habitualmente.


A emissão começou para cerca de 32 milhões de ouvintes e o locutor anunciou que um meteorito vindo do planeta Marte tinha caído em New Jersey, dele estavam a sair tropas marcianas que possuíam o raio da morte que iria aniquilar a humanidade. O relato do avanço das tropas marcianas na América continuou, até que um comunicado do Ministério do Interior foi emitido a aconselhar a calma à população norte.americana, recomendando determinadas medidas, para se salvaguardarem dessas terríveis criaturas, que tinham invadido o planeta.
New Jersey estava praticamente devastada e a superioridade das armas marcianas era de tal ordem que não se encontrava forma de deter o seu avanço, ao mesmo tempo eram anunciadas quedas de outros meteoritos de onde desembarcavam cada vez mais tropas marcianas. A América estava Perdida!!!!


O pânico instalou-se nas cidades e milhares de pessoas começaram a invadir as estradas e os campos, em fuga dessa estranha morte vinda do espaço. Entretanto as ruas de New York começaram a ficar repletas de pessoas em perfeito estado de choque à espera do pior, entretanto a emissão radiofónica anunciava que os marcianos se aproximavam da Quinta Avenida enquanto o rio East já se encontrava repleto de cadáveres, ao mesmo tempo as igrejas começaram a albergar as muitas almas que ainda acreditavam que um milagre seria possível.


Orson Welles, Joseph Cotten e Ray Collins dão por terminada a emissão teatral dessa noite e só então se apercebem que tinham provocado o pânico generalizado “coast to coast” em toda a América.
Nos estúdios da CBS os telefones não paravam de tocar e a polícia na rua era forçada a recorrer à violência para impedir as pilhagens que já se tinham iniciado. Foi necessário que todas as estações de rádio começassem a emitir boletins noticiosos informando que nada se tinha passado, apenas se tratando da adaptação teatral de um famoso livro escrito por H. G. Wells e transposta com enorme realismo para esse memorável dia 30 de Outubro.


A celebridade de Orson Welles tinha acabado de nascer, o “wonder-boy” tinha colocado a América à beira de um ataque de nervos. Mas o autor do livro, o célebre H.G.Wells, enviou de Londres um telegrama a Orson Welles, discordando das “liberdades criativas” usadas por este na sua adaptação teatral para a rádio do conhecido livro, tendo o clima ficado de tal forma escaldante entre o escritor e o encenador, que H.G.Welles depois de saber pormenorizadamente o sucedido na América instaurou um processo a Orson Welles já que, no pânico generalizado, centenas de pessoas ficaram feridas ou foram agredidas e roubadas.

Orson Welles subiu ao trono e a RKO deu-lhe total liberdade criativa para ele fazer um filme, algo inédito nessa época em que os Grandes Estúdios reinavam com mão de ferro. A película seria “Citizan Kane” / “O Mundo a Seus Pés” e a sua importância na História do Cinema é conhecida de todos, quanto ao romance de H.G.Wells, ele continua a ser uma das obras-primas da literatura de ficção-cientifica.

Mas o pânico que a emissão teatral de Orson Welles espalhou em toda a América nessa noite memorável, da qual hoje se comemora mais um aniversário, ficou para sempre na História da Rádio, haja ou não marcianos no Planeta Vermelho! (ou será que eles vieram para a Terra e todos nós somos seus descendentes?)

sábado, 29 de outubro de 2016

Mudança da Hora!


Esta madrugada, ao chegar às 2 horas do dia 30 de Outubro, atrase o relógio uma hora, para assim entrar na hora de Inverno. Dia 30 vai ter mais uma hora, aproveite para dormir, como fazem os nossos amigos Charlie Brown e Snoopy!

Bom Fim-de-semana!

Edward Yang – “Yi Yi”


Edward Yang – "Yi Yi"
(TAIWAN/JAPÃO – 2000) – (173 min./ Cor)
Nien-Jen Wu, Elaine Jin, Issei Ogata, Kelly Lee, Jonathan Chang.

Apesar de ser um nome pouco conhecido do grande público, Edward Yang constituiu com Tsai Ming-Liang e Hou Hsiaou-Hsien, o centro fundador de uma nova vaga do cinema de Taiwan, ultrapassando as suas fronteiras para surpreender o mundo cinematográfico.


A sua ligação apaixonante pelo cinema, apesar de desde tenra idade se sentir fascinado por ele, deu-se após descobrir a película “Aguirre, O Aventureiro” / "Aguirre der Zorn Gottes" de Werner Herzog. Mantendo sempre uma forte ligação com o pequeno écran, Edward Yang, através dos seus filmes, soube sempre explorar com acutilância as pequenas histórias do quotidiano, vidas de gente anónima, que sonha e ama, que luta em busca de um sentido da vida, perdendo e vencendo batalhas, sofrendo e amando de forma quase incógnita, no interior do turbilhão das cidades.

Edward Yang

“Yi Yi”, a sua derradeira obra, surge-nos como um verdadeiro testamento do cineasta, falecido em 2007, porque possui precisamente essa magia de nos oferecer a história de uma família ao longo de três horas, não se apercebendo o espectador do filme da sua duração, tal é a intensidade que lhe é oferecida pelo cineasta, num argumento mais-que-perfeito da sua autoria. Começando tudo num casamento, concluindo-se a narração com um funeral, oferecendo-nos desta forma a passagem do tempo de uma forma brilhante.


Estamos assim perante o trajecto de três gerações de uma família, bem distintas nos seus valores, que irão fascinar o espectador, através de uma eficiente e complexa teia de relações, em que nos é dado o olhar que todos possuem do mundo em que vivemos, desde a avó até ao neto, essa criança que gosta de tirar fotografias às pessoas quando elas se encontram de costas, focando de preferência a zona de trás da cabeça do ser humano, ou se preferirem a nuca, esse território bem distante da nossa própria visão, até aos filhos envolvidos nas suas paixões perdidas e que buscam uma resposta para o seu insucesso ou passando pela luta nos negócios irremediavelmente votados ao fracasso ou falência se preferirem.


“Yi Yi” de Edward Yang revela-se uma verdadeira pérola escondida no interior do oceano do cinema contemporâneo, que é urgente descobrir, por todos aqueles que amam a Sétima Arte em todas as suas vertentes.

Peter Jackson – “Amizade Sem Limites” / “Heavenly Creatures”


Peter Jackson – "Amizae Sem Limites" / "Heavenly Creatures"
(ING/ALE/NZ – 1994) – (99 min. / Cor)
Kate Winslet, Melanie Lynskey, Sarah Peirse, Diana Kent, Clive Merrison.

Alguns anos antes de Peter Jackson adquirir a celebridade mundial através de “O Senhor dos Anéis” / “Lord of the Rings”, construiu com a sua esposa e colaboradora, Frances Walsh, um argumento baseado num facto verídico, o assassinato perpetrado por duas jovens, ocorrido em 1952 na Nova Zelândia. Convém referir que a vítima seria a mãe de uma das adolescentes, que mantinha uma relação pouco habitual para a época, com uma amiga de origens sociais bem diferentes.


“Amizade Sem Limites” / “Heavenly Creatures” conta-nos a história de Juliet (Kate Winslet) nascida numa família abastada que mantém uma estranha relação com a literatura e que um dia irá conhecer a sua alma gémea na colega Pauline (Melanie Lynskey), cujos pais pouca atenção lhe dedicam, refugiando-se na leitura e nos sonhos tornando-os realidade, ao mesmo tempo que desenvolve um profundo afecto por Juliet, que lhe corresponde da mesma maneira, terminando por arquitectarem a morte da mãe de Juliet, que se opunha à amizade que despontava entre as duas raparigas.


A forma como Peter Jackson nos relata esta história, em que a fantasia dá lugar a uma dura realidade, na qual a transgressão é olhada de forma suspeita, reflecte de forma perfeita a época em que se desenrola este drama, onde o desejo transgressor se liberta das amarras sociais, terminando por ser condenado pelo olhar familiar que tudo faz para impedir a relação entre Juliet e Pauline.
A forma como Peter Jackson nos oferece o reino de sonho habitado pelas duas jovens, nascido da sua imaginação fértil, em oposição à sociedade dessa época, surge de forma brilhante e transgressora.

Se apenas conhece a obra de Peter Jackson após a feitura de “O Senhor dos Anéis” / "Lord of the Rings", descobrir “Amizade Sem Limites” / "Heavenly Creatures"  é uma bela surpresa, porque aqui nasceu essa actriz genial chamada Kate Winslet. 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Wong Kar-Wai - "Disponível Para Amar" / "In the Mood for Love" - Trailer


Boa noite e bom fim-de-semana!

Wong Kar-Wai – “Disponível Para Amar” / “Fa Yeung Nin Wa” / “In The Mood For Love”.


Wong Kar-Wai – "Disponível Para Amar" / "Fa Yeung Nin Wa" / "In The Mood For Love"
(HONG-KONG/FRANÇA – 2000) – (98 min. – Cor - P/B)
Maggie Cheung, Tony Leung, Chiu Wai, Ping Law Siu.

“Disponível Para Amar” / “In the Mood For Love” é o mais intimista filme de Wong Kar-Wai, que mais uma vez convoca o seu actor “fetiche” ou se preferirem “alter-ego”, Tony Leung, presença habitual nas suas películas, para contracenar com a bela Maggie Cheung; recorde-se que ela, ao longo da película, irá oferecer-nos uma espantosa “passagem de modelos”, fruto de um guarda-roupa profundamente belo e sofisticado.


Estamos em Hong-Kong, na década de sessenta do século xx e, lentamente, vamos conhecer a vida dos habitantes de um bloco de apartamentos, onde duas almas se vão cruzar, destinadas ao amor, mas incapazes de dar esse passo, que as poderá conduzir à paixão, descobrindo a felicidade tão ambicionada. Ambos são casados e desconfiam que são traídos pelos respectivos conjugues e à medida que se vão cruzando nas escadas, que dão acesso aos respectivos apartamentos, ou nas ruas que circundam a zona, sempre acompanhados pelas belas melodias de Nat King Cole, os dois amantes cultivam um amor platónico, repleto de sensibilidade e ternura, mas também possuído desses pequenos medos que os impede de dar o passo tão ambicionado, que tantas vezes origina a união perfeita entre dois seres.


Filmado com um saber único pelo cineasta e contando mais uma vez com o australiano Christopher Doyle na fotografia, Wong Kar-Wai transmite ao espectador momentos únicos, que se abeiram perigosamente do melodrama, no bom sentido da palavra, à medida que os encontros entre os dois vizinhos se intensificam e uma amizade estreita se fortalece e quando esse passo decisivo, tão desejado pelo espectador se avizinha, iremos descobrir que é tarde demais porque, como todos sabemos, o amor é feito de pequenos actos que decidem uma vida, muitas vezes uma palavra dita no momento certo, um pequeno gesto ou um simples olhar, alteram para sempre o rumo de uma vida.


“Disponível Para Amar” / “Fa Yeung Nin Wa” / “In The Mood For Love” é decididamente a obra-prima da filmografia de Wong Kar-Wai, um cineasta que nesta película nos faz recordar esse Mestre do Melodrama chamado Douglas Sirk.

Fred Zinnemann – “O Comboio Apitou Três Vezes” / “High Noon”


Fred Zinnemann - "O Comboio Apitou Três Vezes" / "High Noon"
(EUA – 1952) - (89 min. - P/B)
Gary Cooper, Grace Kelly, Katy Jurado, Thomas Mitchell.

“O Comboio Apitou Três Vezes” / “High Noon” surgiu no panorama cinematográfico como um “western” revisionista, onde os antigos ideais que estabeleceram o confronto entre o bem e o mal dariam lugar a um confronto psicológico, em que o heroísmo dará lugar ao medo e à dúvida, porque o herói já não era o homem que nada temia, mas sim um ser de carne e osso, com o medo a invadir-lhe a alma.


Este “western”, que conta com uma interpretação soberba de Gary Cooper no protagonista, é profundamente politizado, porque esse xerife, deixado à sua sorte pelos habitantes do pequeno povoado de Hadleyville, incluindo a sua própria mulher (Grace Kelly), uma quaker que não pretende assistir à sua morte, representa esses homens que ao caírem na teia do senador McCarthy eram acusados de simpatias esquerdistas, em processos sumários, na célebre caça às bruxas em Hollywood, e foram de imediato abandonados por amigos, colegas de profissão e às vezes pela própria família, com receio de a mesma acusação pender sobre eles. O xerife Kane (Gary Cooper) representa assim esses homens que recusaram fugir e decidiram enfrentar sozinhos os temíveis adversários, contando apenas com a coragem e abnegação, fruto da sua inocência e perseverança nos valores em que acreditavam. (*)
E não será por acaso que o produtor de “High Noon” / “O Comboio Apitou Três Vezes” é Stanley Kramer, que nunca escondeu as suas tendências liberais e que ofereceu um novo fôlego à produção, sempre ostentando o seu rótulo de independente.


Kane (Gary Cooper) irá enfrentar, no dia do seu casamento, um perigoso pistoleiro que em tempos prendera e que vem a caminho da povoação para o seu derradeiro ajuste de contas com a lei. No apeadeiro, o seu irmão e dois outros cúmplices aguardam a sua chegada e a passagem do tempo irá marcar psicologicamente toda a acção da película, à medida que vamos assistindo à passagem das horas.
Abandonado por todos, depois de se ter recusado a fugir, Kane irá defrontar os quatro homens, quando chegar essa hora fatal do meio-dia, terminando por sobreviver e sair vitorioso do duelo, transformando-se num herói.
Mas para este homem é demasiado tarde e, num gesto de desprezo pelos que o rodeavam, atira a estrela de xerife para essa poeira que esconde a passagem do tempo e parte com a dor a dilacerar-lhe a alma, para nunca mais voltar.
“High Noon” / “O Comboio Apitou Três Vezes” surge assim, no interior do “western” clássico, como uma lufada de ar fresco, prenúncio de uma revitalização do género.



(*) – Recorde-se que o célebre Senador Joseph McCarthy só foi afastado e a sua célebre comissão de investigação extinta, quando decidiu acusar o próprio Dwight D. Eisenhower de simpatias esquerdistas, um momento que ficou bem retratado no magnifico filme realizado e interpretado por George Clooney, “Boa Noite e Boa Sorte” / “Good Night and Good Luck”, onde poderemos assistir ao célebre duelo, tal como num western, entre o jornalista Edward R. Murrow (David Strathairn) e Joseph McCarthy.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Anthony Minghella, - “O Paciente Inglês” / “The English Patient”


Anthony Minghella - "O Paciente Inglês" / "The English Patient"
(EUA / ING – 1996) – (162 min. / Cor)
Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Willem Dafoe, Juliette Binoche, Colin Firth.

Anthony Minghella nasceu em 1954, filho de pais italianos e após triunfar na televisão, iniciou uma carreira como encenador no West End Londrino, tendo de imediato alcançado um enorme sucesso.
A sua segunda película para o cinema, intitulada “Um Fantasma do Coração” / “Truly Madly Deeply”, com Alan Rickman no protagonista, revelava já toda a sua sabedoria no tratamento cinematográfico, mas seria com “O Paciente Inglês” / “The English Patient”, baseado no extraordinário romance de Michael Ondaatje, que todos nós lhe iremos fixar o nome para sempre, ao mesmo tempo que nos revelava dois talentos inesquecíveis, nessa arte difícil da interpretação: Ralph Fiennes e Kristin Scott-Thomas, até então nomes desconhecidos do grande público.


O relato deste épico contemporâneo é-nos oferecido em dois tempos diferentes, revelando Anthony Minghella um perfeito saber na montagem dos acontecimentos. Uma coluna das tropas aliadas encontra um piloto desfigurado e queimado junto a um avião, sendo entregue aos cuidados da enfermeira Hana (Juliette Binoche que irá ganhar o Oscar pela sua interpretação), que irá montar uma espécie de hospital num mosteiro.
O piloto, que se encontra às portas da morte, revela uma profunda amnésia sobre o seu passado, desconhecendo a sua própria identidade, mas lentamente iremos descobrir que se trata do Conde Almansy (Ralph Fiennes), que desde início dos anos trinta trabalhava para a Royal Geographical Society, no deserto do Sahara, mapeando o território, em conjunto com outros exploradores, verdadeiros aventureiros que adoravam as areias tórridas do deserto.


E será assim, que ele se irá cruzar com Katharina Clifton (Kristin Scott Thomas), com quem irá estabelecer um “affair”, que provocará uma enorme paixão entre ambos, ao mesmo tempo que se inicia a Segunda Guerra Mundial, levando as forças alemãs e aliadas a elegerem o célebre deserto como um dos mais importantes palcos de guerra, tendo o célebre general Rommel do lado alemão e os generais Montgomery e Patton do lado aliado.
A história de amor entre o Conde Almasy e Katharina, que é casada com Geoffrey Clifton (Colin Firth), irá levá-lo a diversas traições em troca de combustível para a ir resgatar das areias do deserto, mas o destino irá provocar a sua separação para sempre.
Por outro lado, durante o período em que o Conde Almasy se encontra no mosteiro às portas da morte, surge um canadiano (Willem Dafoe), que anteriormente fora vítima de tortura por parte dos alemães e que conhece o Conde, vendo nele o principal responsável pela sua prisão.
“O Paciente Inglês” / “The English Patient” irá assim contar-nos a história de um amor proibido, ao mesmo tempo que nos relata a tentativa do oficial canadiano para obter dos lábios do explorador a sua confissão.


Curiosamente, a produção desta película, que foi coroada de Oscars como muitos devem estar recordados, sofreu imensos percalços durante a produção, especialmente pelo facto de não possuir nenhuma estrela americana a interpretar a figura da bela Katharina Clifton. No entanto Kristin Scott Thomas levou a bom porto e com enorme talento esta película de Anthony Minghella, que apostou no talento da actriz desde a primeira hora e, ao revermos este filme, percebemos que só ela poderia desempenhar esta figura fulcral no romance, revelando em simultâneo a fragilidade e sensualidade da personagem.

A luta tenaz que Anthony Minghella travou para a concretização de “O Paciente Inglês” / “The English Patient” contou desde a primeira hora com o inabalável apoio desse produtor independente chamado Saul Zentz, responsável por filmes como “Amadeus” e “Voando Sobre um Ninho de Cucos” / “One Flew Over the Cuckoo’s Nest”, mas também seria o magnifico trabalho do grupo de actores ,que dirigiu com mão de Mestre, que tornaram inesquecível esta película.

Dany Boon – “Bem-vindo ao Norte” / “Bienvenue Chez Les Ch’tis”


Dany Boon – "Bem- Vindo ao Norte" / Bienvenue chez les Ch'tis"
(FRANÇA – 2008) – (106 min. / Cor)

Kad Merad, Dany Boon, Zoe Felix, Anne Marivin.

Muitas vezes, ao vermos os famosos trailers, há filmes que nos ficam na retina e assim sucedeu com “Bem-vindo ao Norte”  / “Bienvenue chez les Ch’tis” de Danny Boon, que vimos pela primeira vez numa sala de cinema e depois já revimos por diversas vezes no dvd, Recordo-me que a sala estava esgotada, caso raro para uma primeira sessão, mas mal o filme começou percebemos porquê.
As gargalhadas começaram a surgir espaçadas e pouco depois, quando esse funcionário dos CTT chamado Philippe Abrams (Kad Merad) vê frustradas as suas tentativas de ser transferido para a famosa Cote d’Azur, no intuito de fugir da turbulenta relação com a esposa, o riso torna-se contagiante na plateia.


Depois de se ter fingido ser deficiente perante um inspector dos correios em busca da tão desejada transferência, acaba por ser castigado e é enviado para o Norte, para uma pequena povoação chamada Bergues, para chefiar a estação dos correios local.
Ainda a caminho da desconhecida povoação será multado pela polícia, mas quando informa o agente que vai para Bergues, ele acaba por lhe perdoar a infracção, porque o seu destino é na verdade horrível. Mal chega à povoação, as boas-vindas são dadas por uma intensa carga de água.


Na primeira noite fica alojado na casa de Antoine Bailleul (Dany Boon), seu colega nos CTT, que vive com uma mãe possessiva e no dia seguinte ao chegar ao emprego pensa estar no fim do mundo. Mas o pior é a forma de falar dos habitantes, que dão uma entoação às palavras que o deixam em estado de choque, porque o célebre “ch’tis” só é falado ali e ele quase é obrigado a reaprender a sua língua natal. Com o passar dos dias vai descobrir que se encontra num território de eleição e começa a adorar a povoação e os colegas, embora diga o contrário à mulher quando vai a casa ao fim-de-semana. Esta começa a ficar desconfiada quando percebe que o bom do Philippe (Kad Merad) vai cada vez menos ter com ela ao fim-de-semana e decide ir viver com ele para Bergues. Encostado à parede, Philippe será salvo “in extremis” pelos colegas e alguns habitantes da aldeia, que recriam uma Bergues que não existe, na antiga cidade mineira e todos assim irão transformar a visita de Julie (Zoe Félix) num verdadeiro inferno.


Dany Boon que, para além de ter escrito e realizado o filme, interpreta a personagem de Antoine, o jovem carteiro dominado pela mãe, cria uma obra onde os gags se sucedem de forma perfeita, respirando um ar puro que não se via à muito tempo no cinema. “Bienvenue chez les ch’tis” / “Bem-vindo ao Norte” foi um sucesso estrondoso em terras gaulesas, o que lhe abriu as portas para o mercado internacional. E quando vimos esta película só podemos dizer que ela respira cinema por todos os poros. Tudo ali surge de forma natural, com um perfeito sentido de mise-en-scéne e uma direcção de actores de primeira água.



Estamos assim perante uma comédia, onde o humor é fabuloso e muito bem trabalhado ao nível dos diálogos, revelando-se esta película como irmã de filmes que bebem da mesma seiva criativa como “O Gosto dos Outros” / “Le Goût des outres” de Agnés Jaoui e “Jet Lag” de Daniéle Thompson , que demonstram bem como o cinema francófono continua a dar cartas a nível internacional, indiferente ao monopólio das grandes distribuidoras norte-americanas. Acompanhar a vida atribulada de Philippe Abrams (Kad Merad) em Bergues, na película “Bienvenue chez les Ch’tis” / “Bem-vindo ao Norte”  é na verdade uma aventura cinematográfica gratificante.



PS – Dany Boon nasceu no Norte de Franç,a na região retratada e dedica o filme à sua mãe, uma verdadeira representante dessa linguagem típica denominada ch’tis. Tendo em conta o sucesso internacional da película, já foi feito um “remake” em Itália, intitulado “Bem-vindo ao Sul” / “Benvenuti al sud” realizado por Luca Miniero e que conta no elenco com a participação de Dany Boon.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Oliver Parker – “Um Marido Ideal” / “An Ideal Husband”


Oliver Parker – "Um Marido Ideal" / "An Ideal Husband"
(ING/EUA – 1999) – (97 min. / Cor)
Cate Blanchett, Jeremy Northam, Julianne Moore, Rupert Everett, Minie Driver, John Wood.

Oliver Parker, conhecido actor do teatro britânico, também se tem dedicado à realização cinematográfica e ainda recentemente vimos a sua adaptação ao cinema do célebre romance de Oscar Wilde, “Dorian Gray”. Já “Um Marido Ideal” / “An Ideal Husband”, o segundo filme assinado por ele, leva ao écran uma das mais famosas peças de Oscar Wilde, que retrata de forma perfeita o século xix britânico, com as suas convenções e intrigas, no interior da alta sociedade, que ele tanto gostava de analisar.


Sir Robert Chilten (Jeremy Northam) possui um amor profundo pela esposa Lady Gertrude Chilten (Cate Blanchett), ao mesmo tempo que desempenha funções no governo de Sua Majestade, revelando-se um orador e um político acima de qualquer suspeita, mas quando a Baronesa Lara Chevely (Julianne Moore) reaparece na sua vida para exercer chantagem, usando uma carta que coloca em causa a famosa honestidade de Sir Robert, ele fica decididamente preso na teia criada por ela. Será no entanto o seu amigo Lord Arthur Goring (Rupert Everett), um famoso dandy, para quem o ócio e as mulheres são o seu objectivo supremo na vida, que o irá tentar salvar dos apuros em que este se encontra. Já Lady Chevely, que em tempos nutriu uma profunda paixão pelo político, tudo fará para este deixar a esposa, criando uma situação complexa que o levará a crer que a sua esposa o trai com o famoso dandy (Rupert Everett).


O filme de Oliver Parker transporta de forma fidedigna para o grande écran a famosa peça de Oscar Wilde, onde somos confrontados não só com as intrigas mas também com uma sucessão de acontecimentos em que o equivoco fala sempre mais alto, levando os protagonistas da história a aumentarem de tamanho a teia em que se encontram envolvidos, teia essa bem urdida pela bela e cínica Lady Chevely (Julianne Moore).
A direcção de actores de Oliver Parker é soberba e todos eles nos oferecem interpretações que cativam o espectador ao longo da trama. Curiosamente, numa noite em que todos se encontram no teatro, a peça que se encontra em palco é “A Importância de se Chamar Ernesto”, onde no final iremos ver o seu autor Oscar Wilde, a receber os entusiastas aplausos do público, esse mesmo Oscar Wilde, que depois dos escândalos rebentarem, seria preso e esquecido por muitos, morrendo depois em França, abandonado por todos os que o rodeavam.


“Um Marido Ideal” / “An Ideal Husband” é um filme com brilhantes prestações de todos os interpretes, que navega no alto-mar do teatro, conduzido pela mão segura de Oliver Parker, que nos oferece uma película cheia de charme ou não fosse ela baseada na peça desse dramaturgo imortal,chamado Oscar Wilde, que nos deixou algumas das mais belas peças de Teatro de sempre.