quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Robert Wise versus Orson Welles


"The Sound of Music" / "Música no Coração"
de Robert Wise

Todos nós associamos o nome de Robert Wise a um dos filmes que mais tempo esteve em cartaz nos cinemas Portugueses, falamos de “Música no Coração”/”The Sound of Music”, que vi quatro vezes durante esse ano. Mas voltemos atrás no tempo.
Tudo começou no dia 10 de Setembro de 1914, numa povoação do estado de Indiana, cujo nome é o da célebre espingarda “Winchester”. Robert Wise foi cedo para Hollywood e rapidamente se introduziu nos Estúdios como mensageiro do departamento de montagem, por acaso conhecem o célebre livro de Budd Schulberg “O Que Faz Correr Sammy”? Recomendo a sua leitura!

Lentamente, o futuro cineasta subiu degrau a degrau na profissão e foi aprendendo os seus segredos, mesmo aquela terrível “moral” em que os patrões dos Estúdios têm sempre razão e os seus desejos são ordens para se cumprirem, mesmo que elas sejam conducentes a destruir obras-primas do cinema.


Robert Wise

Quando a RKO deu carta branca a Orson Welles para realizar “Citizen Kane” e ofereceu todos os meios disponíveis para o “wonder-boy” realizar os seus sonhos no grande écran, nunca pensou que ele iria, de uma forma pouco discreta, retratar a vida do mais poderoso magnata da imprensa da época e os resultados não se fizeram esperar.

Robert Wise foi o responsável pela fabulosa montagem do filme, mas as indicações eram de Orson Welles. E quando o filme perdeu a corrida dos Óscars para o belíssimo “O Vale era Verde”/ ”How Green Was My Valey” de John Ford, ninguém conseguiu contestar o sucedido em virtude de estarmos perante duas obras-primas do cinema mas, como todos sabemos,  a película de Orson Welles ofereceu um Novo Mundo ao Cinema, como outrora David Wark Griffith fez, esse criador da linguagem cinematográfica que terminou os seus dias a passear a sua solidão pelas ruas de Hollywood, esquecido e ignorado por todos.


"Citizen Kane" / "O Mundo a Seus Pés"
de Orson Welles

Quando Orson Welles terminou a rodagem de “The Magnificent Ambersons”/”O 4º Mandamento”, a película que realizou após a feitura de “Citizen Kane” / “O Mundo a Seus Pés” e partiu para o Brasil para rodar o documentário “It’s All True”, enviava semanalmente memorandos para Robert Wise, acerca da forma como a película deveria ser montada.

Mas Orson Welles nunca imaginou que os executivos do Estúdio se iriam assustar com a metragem de 132 minutos de “O 4º Mandamento” / “The Magnificent Ambersons” e iriam encarregar Robert Wise de eliminar cerca de 40 minutos da película, refazer novas sequências e criar um novo final de acordo com as regras de Hollywood, ou seja o célebre “Happy-end”, tão querido dos Estúdios! E Robert Wise assim fez, sem pestanejar, seguindo as ordens ditadas pelos executivos da RKO.


"The Magnificent Ambersons" / "O 4º Mandamento"
de Orson Welles

Depois de Orson Welles se ver impossibilitado de concluir o documentário “It’s All True”, devido à morte do protagonista (um pescador), o cineasta regressou a Hollywood, para se ver confrontado com um filme que imediatamente reconheceu ter sido profundamente mutilado, destruindo a ideia que estava implícita na sua realização. As relações entre Orson Welles e Robert Wise terminaram e a carreira de Welles, esse magnifico “wonder-boy” terminara no interior do sistema dos Estúdios, passando de “wonder-boy”, ao mais famoso dos “mavericks” da História do Cinema (*).



"It's All True" de Orson Welles, rodado no Brasil

Após o trabalho de corte e montagem efectuado por Robert Wise, o produtor e cineasta Val Lewton oferece a cadeira de realizador ao técnico de montagem, nascendo “”Curse of the Cat People”/”A Maldição da Pantera”. Mais tarde seguiram-se filmes como “Body-Snatcher” / “O Túmulo Vazio”; “The Set-Up”/”Nobreza de Campeão” até que o seu nome ficou ligado a um dos grandes clássicos da ficção cientifica “”The Day the Earth Stood Still” / ”O Dia em que a Terra Parou” (1952) e a carreira de realizador de Robert Wise prosseguiu com uma média de um filme por ano, abordando os mais diversos géneros até que, no início dos anos sessenta, mais concretamente com a ajuda imprescindível do coreógrafo Jerome Robbins e do maior compositor norte-americano do século XX, Leonard Bernstein, o realizador criou um dos mais belos musicais de sempre, o célebre “West Side Story”/”Amor Sem Barreiras”, uma obra imortal no interior do género e cuja direcção é forçosamente atribuída a estas três figuras, tal é a interligação entre elas, já que ninguém consegue imaginar o filme sem a música de Bernstein, a coreografia de Robbins ou a sólida direcção de actores de Wise.


"West Side Story" / "Amor Sem Barreiras"
de Robert Wise

Os Óscares não se fizeram esperar. Mas nessa mesma época eles voltariam de novo às mãos de Robert Wise através de um outro musical, desta feita “The Sound of Music” / "Música no Coração", com uma Julia Andrews e um Christopher Plummer inesquecíveis, que fizeram as delícias dos corações de quem viu o filme. Com o nome mais que firmado, “Yang-Tsé em Chamas”/ “The Sand Pebbles” e “A Ameaça da Andrómeda” / “The Andromeda Strain” foram quase uma espécie de despedida do cineasta.


"The Sand Pebbles" / "Yang-Tsé em Chamas"
de Robert Wise

Os anos setenta estavam aí, o mundo mudava e os Estúdios foram obrigados a adaptar-se aos ventos da História. Nascia então uma nova geração de cineastas formados nas cadeias de televisão, fazedores de filmes de baixo orçamento e com um novo público disposto a receber de braços abertos os seus filmes. Foi assim que, numa espécie de volte-face fruto de tempos passados ou paixão pela ficção-cientifica (cada um que tire as suas conclusões) que, após ter realizado ”Amor Sem Promessa” / “Two People”, Hindenburg” e As Duas Vidas de Audrey Rose” / “Audrey Rose”, Robert Wise em 1979, decide levar ao cinema “Star Trek”/”O Caminho das Estrelas”, com o sucesso que todos conhecemos, mas os “wonder-boys” já andavam por aí maravilhando as audiências e os "mavericks" do cinema também não se esqueceram dele.


"Star Trek" / "O Caminho das Estrelas"
de Robert Wise

Em 1989, num período em que os "remakes" tinham decididamente entrado na moda, Robert Wise decide fazer o "remake" de “West Side Story”, com o título “Roof Tops” / “Telhados de Nova Iorque”, mas a película não atingiu os objectivos pretendidos, revelando-se um insucesso comercial e muito poucos se recordam dela hoje em dia, apesar de ter passado no nosso País.

Robert Wise é o co-autor de “West Side Story” e o realizador de “A Música no Coração”, fez dezenas de filmes ao longo da sua carreira, subiu a pulso na profissão e deu o seu melhor, mas no momento em que deveria ter batido com a porta, disse "sim, podem contar comigo" aos executivos dos Estúdios, terminando com a carreira de Orson Welles em Hollywood, mas e se tivesse dito "não contem comigo", a história teria sido alterada?
Possivelmente outro "funcionário" dos Estúdios teria sido encarregue dessa missão espinhosa pelos seus patrões, não nos esqueçamos que o homem que terminou "Macao" de Joseph von Sternberg, se chamava Nicholas Ray.


Robert Wise durante a rodagem de "Star Trek"

Ao longo da sua carreira. Robert Wise transportou consigo este fardo silenciosamente, até ao dia em que confessou numa entrevista, já no final da vida, que tivera uma conversa com Orson Welles, muitos anos depois, sobre o sucedido com "O 4º Mandamento" / “The Magnificent Ambersons” e que este lhe tinha perdoado.

(*) - Recomendamos vivamente a leitura do livro que Peter Bogdanovich escreveu sobre Orson Welles.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

William Hurt – O Homem Tranquilo – Parte 2 – The End


"The Accidental Tourist" / "O Turista Acidental"

Lawrence Kasdan irá convidar William Hurt para mais dois filmes, a comédia negra “Amar-te-ei Até Te Matar” / “I Love You to Death” e esse filme da minha vida “O Turista Acidental” / “The Accidental Tourist”,  não me perguntem quantas vezes li o livro, a edição portuguesa está em “farrapos”, de forma que me socorri nos últimos anos de uma edição americana que leio e releio nas férias com um prazer infinito, depois há o filme e aqueles personagens desamparados à beira do abismo que amamos profundamente.


"I Love You to Death" / Amar-te-ei Até te Matar"

E continuando nos livros com o William Hurt, vamos encontrá-lo nesse verdadeiro “movie” sobre fumo e cigarros realizado e escrito por esse nome único das letras americanas que se chama Paul Auster e ali, na famosa Brooklin, descobrimos o Bill fumando a interpretar em “Smoke” um personagem chamado Paul Benjamin, precisamente o pseudónimo com que Paul Auster assinou o seu primeiro policial intitulado “O Jogo dos Enganos”/”Squeeze Play”.


"Smoke" / "Fumo"

Depois, nunca será demais chamar a atenção sobre  essa obra-prima do James Brooks sobre os “jogos” do audiovisual, informação televisiva (que tão maltratada anda por esse mundo fora, quase sempre ao lado do grande poder económico), intitulado “Edição Especial” / “Broadcast News”, com Holly Hunter e Albert Brooks a acompanharem William Hurt nas sua ascensão meteórica na cadeia de televisão, na qual muitas vezes um sorriso substitui melhor uma palavra e na qual a encenação das notícias  e reportagens termina muitas vezes com os laços que ligam amizades de longa data.


"Broadcast News" / "Edição Especial"

Este magnifico filme bem merece na verdade ser reavaliada por todos nós à luz do que se passa no audiovisual deste século XXI, onde proliferam os canis informativos, nessa caixa que, decididamente, mudou o mundo.


"Un Divan a New York" / "Um Divã em Nova Iorque"

Nesta pequena viagem pelo cinema na companhia de William Hurt, nunca nos poderemos esquecer de duas personagens tão distantes como as que encontramos em “Alice” de Woody Allen e o psicanalista de “Um Divã em Nova Iorque”/”Un Divan a New York” de Chantal Akerman, e cujo duelo entre ele e Juliette Binoche é uma verdadeira comédia de enganos, que nos deixa à beira de um maravilhoso ataque de lágrimas de tanto sorrir ao acompanhar o desenrolar da história. Senão conhecem aqui vos deixo um breve resumo: um psicanalista e uma bailarina “desempregada” trocam de casa durante um período de férias (algo que hoje em dia está muito na moda), ele acaba por não se adaptar a Paris... My God, como é possível!!!! E ela começa a escutar os pacientes que a procuram, julgando que ela é a psicanalista que o substitui nas férias e os resultados revelam-se um sucesso para os diversos doentes, após ela seguir o conselho generoso de uma amiga. Assim basta ter um ar sério perante o paciente deitado no divã e dizer... hum, hum... e depois estender a mão para receber o respectivo pagamento, mas depois o romance surge, porque o Dr. Henry Harriston (William Hurt) decide descobrir o que se passa e faz-se passar por doente, mas isso  já é outra história, que não vos conto, procurem o filme da Chantal Akerman e divirtam-se!!!


"Dark City"

Muitos ainda se recordam da figura do cientista interpretado William Hurt em “AI: Artificial Intelligence” do Kubrick/Spielberg,  mas poucos se lembram do inspector Frank Busmtead de “Dark City”, esse extraordinário filme de ficção-científica, assinado pelo Alex Proyas, que está a passar nos canais de cabo da nossa televisão e que já foi editado em DVD, revelando-se uma das maiores surpresas no género, ao mesmo tempo que se transforma num verdadeiro cult-movie.

No  ano de 2006 , William Hurt na película de David Cronenberg “A History of Violence”, volta a ser nomeado para o Oscar do Melhor Actor Secundário, anteriormente  tinha também sido nomeado para o Oscar de Melhor Actor com as películas “Filhos de Um Deus Menor” e “Edição Especial”.


"Robin Hood"

Com a explosão dos canais televisivos e o sucesso das séries, que tantos actores de cinema têm cativado, William Hurt, também se deixou seduzir e nunca é demais referir a sua participação em “Damages” / “Sem Escrúpulos”, uma das nossas séries favoritas do pequeno écran e se ele tanto surge em pequenas aparições no cinema como sucede em “Syriana”, "Robin Hood" ou em “O Bom Pastor” / “The Good Sheppard” realizado por Robert de Niro, também gostamos de o ver em “Mr. Brooks” onde nos surge com o “alter-ego” ou a má consciência, no verdadeiro sentido da palavra, de Kevin Costner.

Ao finalizar esta pequena viagem pela carreira deste extraordinário actor chamado William Hurt, aqui vos deixo o convite para descobrirem os seus filmes, especialmente aqueles a que nos referimos, pois como perceberam falámos dos nossos favoritos.

The End

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

William Hurt – O Homem Tranquilo - Parte 1


Quando alguém me fala de William Hurt, dois filmes iluminam de imediato a minha memória: são eles “O Turista Acidental”/”The Accidental Tourist” a mais bela e fidedigna adaptação de uma obra literária, da autoria de Anne Tyler, cuja edição portuguesa editada já lá vão uns anos, esgotou e nunca mais viu a luz do dia e a estreia de Lawrence Kasdan como cineasta no thriller fatal “Noites Escaldantes”/”Body Heat”, mas depois há essa obra pouco conhecida, ou direi antes muito pouco vista, porque lá falada ela foi, refiro-me a “O Beijo da Mulher Aranha” / “Kiss of The Spider Woman” que lhe iria oferecer o Oscar para o melhor actor e que interpretação ele nos ofereceu!!!!


"Body Heat" / "Noites Escaldantes"

A sua casa é simples e gosta de manter uma certa distância entre ela e Los Angeles. Chama-se William Hurt, costuma passear calmamente nas ruas, sem ser reconhecido e define-se como um típico vizinho do lado. Com as suas “jeans” e “t-shirts”, vivendo sossegadamente, sem ter o nome e a fotografia nas páginas dos jornais e revistas da especialidade, continuando a poder usufruir plenamente da sua vida privada, ao contrário de muitos colegas de profissão, completamente engolidos pela máquina promocional.
Ao contrário do seu colega John Hurt, não gosta de entrar em profundidade nos personagens, permanecendo neles depois das filmagens. Simplesmente altera o seu comportamento durante a representação, oferecendo o seu melhor e, quando a interpretação termina, regressa ao seu pequeno mundo.


"The Big Chill" / "Os Amigos de Alex"
(um filme comovente sobre a amizade de uma geração)

Ao interpretar a figura de um homossexual em “O Beijo da Mulher Aranha” / “The Kiss of The Spider Woman”, realizado por Hector Babenco, o actor William Hurt viu o seu magnífico trabalho galardoado pelos seus pares da Academia de Hollywood, com o merecido Oscar para o melhor actor.
Embora aconselhado por alguns amigos a não aceitar o papel, William Hurt como um bom jogador de poker não virou a cara, participando no maior desafio da sua carreira. Aliás uma personagem idêntica já tinha sido interpretada por William Hurt na peça “Fifth of July”. Para ele foi com a película “Making Love” de Arthur Hiller (o cineasta de “Love Story”) que o grande público “descobriu” no grande écran o retrato de uma outra realidade, que até então vivia no “armário”, não o preocupando nada a sua representação, seja no cinema ou no teatro.


"Gorky Park" / "O Mistério de Gorky Park"

Foi com “Viagens Alucinantes” / “Altered States”de Ken Russell, que William Hurt começou a ser notado no cinema, ao mesmo tempo que dividia a sua carreira entre o grande écran e o palco. “Noites Escaldantes”/”Body Heat” de Lawrence Kasdan ao lado da bela Kathleen Turner, tornaram-no num nome citado com regularidade entre a imprensa da especialidade e a crítica cinematográfica e a sua colaboração com Lawrence Kasdan continuou nesse retrato de uma geração chamado “Amigos de Alex” / “The Big Chill”. Depois fez par com Sigourney Weaver em “The Janitor” / “Os Olhos da Testemunha”, realizado por Peter Yates, para mais tarde nesse território gelado da Rússia, fazer par com Joanna Pacula no fabuloso thriller “O Mistério de Gorky Park” / “Gorky Park”, realizado com mestria por Michael Apted.


"The Kiss of The Spider Woman"
 / "O Beijo da Mulher-Aranha"

Como podemos ver William Hurt tem revelado todo o seu enorme talento com uma simplicidade e um rigor digno de aplauso, cativando de imediato o espectador, seja qual for o género cinematográfico abordado, oferecendo-nos sempre interpretações inesquecíveis.

Na película de Hector Babenco, “O Beijo da Mulher Aranha”/ “The Kiss of the Spider Woman”,o actor William Hurt ao vestir a pele de Molina, compartilha o seu espaço no território prisional, com Valentin (Raul Julia), um jornalista, preso político. O que está em causa neste filme de Hector Babenco (cineasta falecido recentemente) é a luta pela sobrevivência, num meio prisional hostil, entre dois homens completamente distantes e diferentes um do outro. Será quando Molina decide abandonar o seu universo e entrar no mundo de Valentin, que encontra a violenta amargura da morte.


"Children of a Lesser God" / 
"Filhos de um Deus Menor"

Depois de terminadas as filmagens de “O Beijo da Mulher Aranha”, William Hurt regressa a casa e parte novamente para o palco, esse sua outra paixão, entretanto a peça “Filhos de Um Deus Menor”/”Children of a Lesser God” é adaptado ao cinema e William Hurt lá está fascinado pelo tema, novamente vestindo uma outra personagem e encontrando um novo amor, dentro e fora do plateau, mas que, como sabemos, não iria durar muito tempo.

(continua)

domingo, 28 de agosto de 2016

Ryuichi Sakamoto - "The Sheltering Sky"


Aqui vos deixo um dos mais belos temas criados por Ryuichi Sakamoto para a banda sonora de "The Sheltering Sky", filme de Bernardo Bertolucci que em Portugal teve como título "Um Chá no Deserto", baseado no soberbo livro do escritor norte-americano Paul Bowles, que viveu grande parte da sua vida radicado em Tanger (também ele compositor), cuja edição portuguesa se intitula "O Céu Que Nos Protege". 

Leiam o livro, vejam o filme e escutem a música, pois todos eles, embora sejam autónomos, formam um dos mais belos trios criativos que conheço.

PS - Os King Crimson criaram, para o seu álbum "Discipline", aquele que considero ser o seu mais belo tema instrumental na formação de quarteto, dedicado a Paul Bowles e intitulado precisamente "The Sheltering Sky",

Bom fim-de-semana

A Memória do Cinema Independente


"Stranger Than Paradise" / "Para Além do Paraíso" 
de Jim Jarmusch.

O cinema Quarteto em Lisboa foi uma sala pioneira na oferta de um novo olhar nos “movies” e por ali passaram diversas gerações de cinéfilos, ao longo das tardes e noites, consumindo bom cinema: havia o cinema europeu e as novas vagas, os clássicos e esse "estranho objecto de desejo" chamado cinema independente.
O hoje em dia tão badalado cinema "indie", já possuidor de um Festival Internacional muito bem cotado, o "Sundance", cujo responsável máximo é o actor Robert Redford, bem como uma imprensa que navega nas suas águas, divulgando as suas produções, assim como diversos sites na net. Mas, naquele tempo, as "coisas" eram diferentes e foi com grande espanto que descobrimos cineastas e actores.


"Estilhaços" / Smithereens” 
de Susan Siedelman

"Estilhaços" / Smithereens” de Susan Siedelman era uma surpresa, aquilo a que hoje se chama "um filme simpático" da produção “indie”, diríamos até que a personagem principal seria a irmã gémea de "A Coleccionadora" / “”La collecttionneuse” de Eric Rohmer. Susan Siedelman, de seguida, faria o célebre "Desesperadamente Procurando Susana" / “Desperately Seeking Susan”, rampa de lançamento de Madonna na Sétima Arte, mas que terminou por nos oferecer uma actriz chamada Rossana Arquette.

Depois era aquela película do então desconhecido Jim Jarmusch, "Strange Than Paradise" / “Para Além do Paraíso”, com o John Lurie, toda filmada em planos fixos e a preto e branco. Era na verdade o cinema minimal, na sua fórmula mais bela, numa película cheia de equívocos e onde quase nada acontecia, para além da excelente banda sonora da responsabilidade do próprio John Lurie e executada por um Quarteto de Cordas.(1)


"Working Girls" / "As Profissionais de Sonho"
de Lizzie Borden

Nesta nossa viagem da memória, verdadeira caixa de Pandora, encontramos duas outras películas perturbantes: "Working Girls" / “As Profissionais do Sonho” de Lizzie Borden e "Subway Riders" / “Os Viajantes da Noite” de Amos Poe. A acção da primeira película passava-se, quase na totalidade, no interior da casa onde as "ladys" recebiam os "gentlemen"; depois de as conhecermos, acabamos por seguir o percurso de uma delas e descobrir o tipo de relações estabelecidas. Curiosamente não vamos encontrar um estudo sociológico sobre essas "houses", para álibi de "intelectual", mas sim um olhar sincero e sem preconceitos sobre uma certa sociedade cínica e hipócrita.


"Subways Riders" / "Os Viajanyes da Noite"
de Amos Poe

Por fim chegamos ao mais amado, "Subway Riders" / “Os Viajantes da Noite”, memória perfeita e mágica do “film noir”, onde as citações são um verdadeiro jogo para o cinéfilo, além da espantosa fotografia e da música de Robert Fripp e da sua guitarra Fripptronics, retirada do famoso álbum "Let The Power Fall", sendo os actores principais o próprio realizador e o inevitável John Lurie, que na película será confundido com o saxofonista assassino.

(1) - Existe em cd uma interpretação genial do Balanescu Quartet da banda sonora do filme "Stranger Than Paradise".

sábado, 27 de agosto de 2016

Os Livros e a Biblioteca


Ernest Hemingway

Em cada casa existe uma biblioteca, por muito poucos que sejam os livros que por ali habitam e, muitas vezes, quando retiramos um livro do móvel e olhamos a capa, de imediato essa maravilhosa máquina denominada memória nos oferece essa viagem ao passado, que muitas vezes nos ajuda a compreender o presente.
A capa do livro, muitas vezes, até parece que nos sorri, nascendo então esse desejo de abrir o livro e começar a ler as palavras que o escritor um dia decidiu oferecer-nos, perpetuando desta forma o seu labor literário, tantas vezes efectuado durante a noite, pela madrugada fora, em busca da escrita perfeita.


Lawrence Durrell 

“O mar está novamente agitado hoje, com rajadas de vento que despertam os sentidos. Em pleno Inverno, a Primavera começa a sentir-se. Toda a manhã o céu esteve de uma pureza pérola; há grilos nos recantos sombrios; o vento despoja e fustiga os grandes plátanos… “. Assim começa o primeiro volume de “O Quarteto de Alexandria/Justine” que Lawrence Durrell decidiu oferecer ao mundo, uma obra que influenciou decididamente a Literatura e que nos relata a passagem do tempo, através do olhar/vida de quatro personagens nessa Alexandria que fascinou tantos escritores.


Jean-Paul Sartre

Na nossa biblioteca temos livros que amamos ao correr do tempo, livros que chamamos de cabeceira, porque a sua leitura nos oferece um enorme prazer, como é o caso da obra de Lawrence Durrell ou a obra monumental de Marcel Proust, a brilhante escrita de Umberto Eco, sempre com esse olhar bem incisivo sobre a sociedade contemporânea ou o labor literário e a magia de Philippe Sollers e a pouco e pouco criamos esse hábito de abrir o livro e ler um pouco, antes de o sono nos convidar ao sonho. E como é belo adormecer a ler palavras fascinantes como estas, escritas por Proust no seu quarto forrado a cortiça devido aos ataques de asma: “Os lugares que conhecemos só pertencem ao mundo do espaço em que os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia por entre impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de uma determinada imagem não passa da nostalgia de um determinado momento e as casas, as estradas, as avenidas, são infelizmente fugazes, como os anos.”.


 Rolland Barthes

O tempo, esse grande escritor, oferece-nos um olhar que se transfigura à medida que vamos navegando no território literário e sempre que retiramos um livro da estante, entramos nesse território do sonho, que nos é oferecido pelo escritor e descobrimos esse enorme prazer do texto de que um dia nos falou Rolland Barthes.
Nas páginas que constituem o livro descobrimos personagens que nos fascinam e são muitas as vezes, em que ficamos simplesmente maravilhados com a sua existência, por vezes até as reencontramos num écran de cinema, mas quase sempre acabamos por descobrir um herói diferente daquele que habitava o universo do escritor. Os traços da personagem criada pelo autor estão ausentes da tela e sentimos a fraude perante o nosso olhar. Resta-nos então regressar à leitura da obra e apaziguar os sentimentos, (re)vivendo essa arte da escrita que tanto nos fascina.


 Umberto Eco

Muitas vezes, ao entrar em casas de amigos, o meu olhar dirige-se de imediato na direcção da Biblioteca, em busca dos títulos dos livros, no intuito de descobrir as águas em que eles se encontram a navegar e não é raro encontrar aquela obra que sempre desejei ler, mas que nunca tive até então oportunidade, muitas vezes porque o livro está esgotado. E de imediato sinto o desejo de o pedir emprestado, porém, sinto-me inibido em fazer o pedido, apesar da amizade que nos une, porque os livros são como os filhos. Desejo então tornar-me um copista da Idade Média fechado numa sala a queimar a vista à luz da vela, enquanto transcrevo as palavras mágicas oferecidas ao mundo pelo escritor, para que elas perdurem para as gerações que hão-de vir.


 Philippe Sollers

Decido procurar o livro que tanto desejo ler nas livrarias, mas só encontro as novidades editoriais e, quando pergunto pelo seu paradeiro, respondem-me que está esgotado ou foi retirado do catálogo e nesse momento sinto a tristeza invadir-me. Mas não desisto da busca e percorro os alfarrabistas, mas a resposta permanece negativa. Encho-me de coragem e peço o livro emprestado e passo um fim-de-semana na sua companhia, roubando horas ao sono, perfeitamente deliciado e ao chegar à última página, sinto-me feliz e tranquilo, apesar de saber que esse livro maravilhoso vai regressar para a biblioteca dos meus amigos. Na semana seguinte trocamos impressões sobre a obra mas, ao sair, sinto um vazio, apesar da minha memória ter ficado mais completa, porque li aquele livro, embora sinta a sua falta na minha biblioteca, até que nasce esse dia em que ele se encontra comigo num outro país, numa daquelas livrarias em que o universo das letras habita o espaço perfeito.


Regresso a casa feliz e de imediato mergulho na sua leitura e, quando a termino, ofereço-lhe um lugar na minha Biblioteca. Ele ali fica sorrindo, convivendo com os irmãos numa harmonia perfeita, essa harmonia tantas vezes esquecida pelo mundo que nos rodeia.

Bom fim-de-semana e boas leituras!

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Era uma vez o Cinema!


Quando George Méliès pretendeu comprar a invenção dos Lumiére, Antoine Lumiére respondeu-lhe: "Sr. Méliès a nossa invenção não é para ser vendida. Pode ser explorada durante algum tempo como curiosidade científica, mas não tem nenhum interesse comercial."
Os factos desmentiram as palavras ditas. E uma nova Indústria nasceu. O cinema era o espectáculo das multidões, a evasão do quotidiano (1), a aquisição do comportamento das imagens e dos heróis (2).


Quando o cinema deixou de ser mudo (3) e passou a ser sonoro, foi uma verdadeira revolução, muitas estrelas nasceram, mas outras viram os seus dias no firmamento terminarem devido à "falta de voz", época excelentemente retratada em "Singing in the Rain" / “Serenata à Chuva”.
Com o final da Segunda Grande Guerra, o cinema começou a perder a magia que arrastava as multidões. A origem da quebra de audiências centrava-se no decréscimo da natalidade, motivada pela Guerra, e no seu futuro rival, que entretanto tinha nascido, a televisão, essa caixa que irá mudar o mundo, como todos sabemos.


A televisão, dizia a publicidade, "é o cinema em sua casa" e os resultados não se fizeram esperar. A indústria cinematográfica perdeu cerca de metade dos seus espectadores. A "economia" de que a TV era portadora reforçou essa tendência.
A resposta encontrada pela Sétima Arte foi o Cinerama e o Cinemascope em 1952, mas os tempos já eram outros e o mercado das imagens tornava-se competitivo, ao mesmo tempo que os Estúdios perdiam o seu poder de tudo controlar, já que a lei “anti-trust” terminou com o monopólio de que eram detentores, sendo obrigados a vender as salas de cinema que controlavam e as respectivas distribuidoras de que eram detentoras.


.No entanto a Sétima Arte, ao mesmo tempo que ia perdendo os seus adeptos, com o passar dos anos, viu renovada a sua audiência. Já não era o público de meia-idade que a procurava, pois esse estava em casa no conforto do lar a ver as imagens oferecidas pela televisão, mas sim os jovens em busca de novas paisagens, nascendo uma geração de cinéfilos que ofereceu muitos cineastas ao grande écran, bastando recordar as origens das novas vagas, fossem elas francesa, a célebre ”nouvelle vague”, depois a alemã nascida com o Manifesto do Festival de Oberhausen ou americanas com a chegada dos ”movie-brats” ao grande écran.


A passividade de que tantas vezes a televisão é portadora foi recusada pela juventude de então, em busca de novas experiências, que optou por eleger as imagens que desejava ver projectadas nos écrans. O nascimento dos Multiplex, com as suas numerosas salas, provocou uma oferta muito maior, aumentando a procura do cinema.


Com o nascimento do formato vídeo, novos dados foram lançados na paisagem audiovisual, ao mesmo tempo que o sonho de inventar e estudar as imagens tornava-se mais acessível. Entretanto, o formato Super-8 foi atingido pelo Inverno.

O vídeo acabou por se tornar autónomo, no interior das imagens, já que ele irá ser também um elemento cinematográfico, como foi o caso de diversas aproximações fílmicas entretanto surgidas: "Número Dois"/ “Numero Deux” de Jean-Luc Godard, "Mistério de Oberwald" / “Il mistero di Oberwald” de Michelangelo Antonioni e "Do Fundo do Coração" / “One From the Heart” de Francis Ford Coppola ou essa obra ímpar intitulada "Morte em Veneza" / “Death in Venice” de Tony Palmer, segundo a ópera de Benjamin Britten e do romance de Tomas Mann.


Quando a Industria discográfica lançou o cd, muitos sonharam num formato idêntico para substituir o vídeo já que, como era o nosso caso, nunca aceitámos a manipulação e mutilação do plano e o vídeo ao usar o processo "pan-and-scan" para encher os televisores das nossas casas, que adulterava a maioria das obras cinematográficas.
Antes de surgir o famoso dvd, a industria lançou o “laser-disc” no mercado, mas sem grande sucesso, excepto em alguns países do continente Asiático, com economias prósperas e nos quais as salas de cinema são um refúgio perfeito da humidade.


Nasce então, após intermináveis negociações a nível económico, no que diz respeito ao formato, o dvd, com as suas célebres quatro zonas, para mal da cinéfilia, que rapidamente entrou nos nossos lares e se tornou numa peça de estimação dos cinéfilos, alguns deles repletos de extras, incluindo os célebres comentários dos realizadores. E mais tarde, como sabemos, irão nascer os famigerados canais por cabo, são centenas e muitos dedicados ao cinema, onde é possível encontrar inúmeras pérolas da Sétima Arte, assim como na Net, que através do YouTube e de sites de referência, nos proporcionam um leque enorme de opções cinematográficas, para nosso encantamento!


(1) - Duas recomendações sobre o tema: o livro de Howard Fast, "Max O Imperador de Hollywood"; o filme de Peter Bogdanovich "O Vendedor de Sonhos".

(2) - Um livro fundamental: "As Estrelas de Cinema" do Edgar Morin, 

(3) – E que tal uma leitura pelas "Reflexões" do René Clair, um divertimento acerca do que foi escrito sobre a arte do mudo e a arte do sonoro, onde o próprio autor e cineasta "dá a mão à palmatória!"

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Tim Robbins – “América Anos 30” / “Cradle Will Rock”


Tim Robbins – "América Anos 30" / "Cradle Will Rock"
(EUA – 1990) – (132 min. / Cor)
Emily Watson, Bill Murray, Hank Azaria, Susan Sarandon, Vanessa Redgrave, John Turturro, Joan Cusack, Ruben Blades, John Cusack.

O nascimento do dvd proporcionou ao público ter contacto com muitos filmes que não são lançados nas salas, surgindo directamente no formato dvd. E as razões na origem dessa situação são tantas, que decidimos falar do caso concreto do filme de Tim Robbins “Cradle Will Rock” / “America Anos 30” que, após ter fracassado nas bilheteiras americanas, esteve presente no Festival de Cannes em busca do tão desejado balão de oxigénio europeu, que infelizmente não iria conseguir obter. Por estas razões a obra-prima de Tim Robbins acabaria por ser lançada directamente no mercado de dvd, ficando arredada da magia da sala de cinema.


"América Anos 30"/"Cradle Will Rock” é simplesmente um fabuloso filme! Temos a Emily Watson, o John Cusak, o Bill Murray, a Susan Saradon, o Ruben Blades, o John Turturro e a Vanessa Redgrave, o fracasso na América foi natural pelo tema incómodo abordado, aliás a memória muitas vezes revela-se bastante incómoda para determinadas gerações e muitos de nós conhecemos, por via indirecta, o que foi a caça às bruxas do senador McCarthy, graças a filmes como "Na Lista Negra" / “Guilty by Suspicion” de Irwin Winkler, “Good Night, Good Luck” / “Boa Noite e, Boa Sorte” de George Clooney ou “O Testa de Ferro” / “The Front” de Martin Ritt, mas que tinha havido anteriormente, na época do Roosevelt, uma caça às bruxas nos meios teatrais é algo muito pouco conhecido, tal como o episódio do famoso mural de Diego Rivera encomendado por Nelson Rockefeller e a célebre frase da Frida Khalo no “MOMA – The Museum of Modern Art”, na época em que a pintora mexicana foi descoberta pelo grande público americano.


A película de Tim Robbins, "América Anos 30" / “Cradle Will Rock” (1), aborda precisamente todos estes temas, revelando-se uma obra-prima cinematográfica demasiada incómoda para muito boa gente, daí talvez o silêncio que se abateu sobre ela, terminando assim com a carreira de cineasta de Tim Robbins, que continuou com o seu sempre excelente trabalho como actor, realizando neste novo século apenas alguns episódios de séries de televisão.


Aqui vos deixo a sugestão para descobrirem o genial "América Anos 30" / "Cradle Will Rock" e se gostarem deste filme do Tim Robbins, procurem "O Candidato" / “Bob Roberts – Candidato ao Poder” realizado e interpretado pelo próprio Tim Robbins, uma das obras mais fascinantes da História do Cinema, que nos é apresentada como um documentário (enfim, um falso documentário), que se revela um verdadeiro exercício de inteligência, e porque não (re)ver também "A Última Caminhada" / "Dead Man Walking", esse magnifico manifesto contra a pena de morte nos EUA e onde Sean Penn nos oferece uma das melhores interpretações da sua carreira.


Tim Robbins, o cineasta, realizou apenas três filmes, "Bob Roberts - O Candidato ao Poder" / "Bob Roberts",  "A Última Caminhada" / "Dead Man Walking"e "America Anos 30" / "Cradle Will Rock", revelando-se um verdadeiro e magnifico autor, que bem merece ser descoberto!


(1) – Algumas das personagens representadas no filme de Tim Robbins são bem reais, como é o caso de Orson Welles e John Housemann, entre outros.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Eric Rohmer – O Cineasta da Palavra


"A Minha Noite em Casa de Maud"
/ "Ma Nuit Chez Maud"

Foi numa noite fria e chuvosa que, na minha pré-adolescência, entrei acompanhado por um familiar no cinema Império para ver o meu primeiro Rohmer, intitulado “A Minha Noite em Casa de Maud”, que se iria tornar no mais amado dos seus filmes. Na sala principal era exibido “Luís da Baviera” de Luchino Visconti, enquanto o conto moral do cineasta francês era apresentada na sala Estúdio. Vivia-se o tempo da cinéfilia e as salas de cinema eram verdadeiros Templos, onde se descobriam autores.


Eric Rohmer

Quando alguém se interroga entre as diferenças existentes entre um realizador e um cineasta, o melhor exemplo de autor que conheço é-me oferecido precisamente por Eric Rohmer, cujo nome de baptismo é Maurice Schérer, usado inicialmente para assinar os primeiros artigos escritos sobre a Sétima Arte, que desde muito cedo se revelou a sua grande paixão, que irá, no entanto, esconder durante largos anos dos pais, até realizar a sua primeira curta-metragem.


"Paulina na Praia" / "Pauline à la Plage"

Foi na célebre revista de cinema “Cahiers du Cinema”, dirigida nessa época das capas amarelas por André Bazin, o verdadeiro pai de toda uma critica de cinema, que Eric Rohmer começou a dar nas vistas, com o seu trabalho teórico, sendo um dos seus mais belos escritos intitulado “O Celulóide e o Mármore”. Mais tarde irá escrever a sua tese abordando o cinema do cineasta que mais amava, o alemão F. W. Murnau, nascendo “L’organisation de l’espace dans le “Faust” de Murnau”, ao mesmo tempo que dava início à escrita dos seus contos que irá organizar em séries, sendo a primeira constituída pelos “Seis Contos Morais” , que mais tarde irão conhecer a magia do écran de cinema.


"O Joelho de Claire" / "Le genou de Claire"

Nestes contos maravilhosos, Eric Rohmer transforma os mais banais diálogos do quotidiano em perfeitas obras-primas literárias, ao mesmo tempo que expõe as suas teses filosóficas, como sucede com os “Pensamentos” de Pascal, através da boca dos diversos personagens que vai criando, como irá suceder em “A Minha Noite em Casa de Maud” / “Ma nuit chez Maud”, que foi um dos maiores sucessos comerciais do cineasta.


"O Raio Verde" / "Le Rayon Vert"

Desde o início Eric Rohmer criou uma certa estrutura literária, organizando as suas películas como capítulos de um mesmo livro, embora elas se revelassem autónomas e singulares. Nascem assim naturalmente, sobre o mesmo signo, as séries “Seis Contos Morais” / “Six contes moraux”, “Comédias e Provérbios” / “Comedies et proverbes” e “Contos das Quatro Estações” / “Contes des quatre saisons”, revelando todas elas um maravilhoso e coeso trabalho de escrita cinematográfica.


"Conto de Verão" / "Conte d'Été"

Mas se pensam que ele ficou prisioneiro desta fórmula estão profundamente enganados, porque Eric Rohmer como artesão e livre-pensador criou entre este conjunto de filmes magníficos ou séries, se preferirem, obras cinematográficas tão diferentes e distantes como “A Marquesa D’O” / “Die Marquise von O”, onde tem uma breve aparição, “O Agente Triplo” / “Triple Agent”, onde a presença da palavra é verdadeiramente avassaladora e fascinante, “Les rendez-vous de Paris” / “Os Encontros de Paris”, a mais bela homenagem que se pode fazer a uma cidade, “A Inglesa e o Duque” / “L’Anglaise et le Duc”, que iria surpreender tudo e todos pela forma como foi concebido, até chegar a esse filme repleto de juventude e naturalismo que foi a sua derradeira obra “Os Amores de Astrea e Celadon” / “Les amours d’Astrée et de Céladon”, que nos revelavam um cineasta possuidor de uma juventude e inocência, profundamente surpreendentes.


"Os Amores de Astrea e Celadon" /
"Les Amours d'Astrée et de Céladon"

Quando estava prestes a completar 80 anos Eric Rohmer decidiu partir, deixando-nos como herança a magia do seu cinema, esse mesmo cinema que possui como protagonista a beleza da palavra, cabe a nós cinéfilos divulgar o seu trabalho cinematográfico às novas gerações, para que elas descubram um dos mais fascinantes cineastas da denominada Nouvelle Vague.