quinta-feira, 31 de março de 2016

Albert Camus – “O Estrangeiro” / "L'Étranger"


Albert Camus
"O Estrangeiro" 
Livros do Brasil, Pag. 88

De todos os livros escritos por Albert Camus ao longo da sua vida, o mais célebre de todos é “O Estrangeiro” / “L’Étranger”, datada de 1942 e que Luchino Visconti irá levar ao cinema em 1967, com Marcello  Mastroianni na figura de Meursault (a personagem central do romance) e Anna Karina a dar rosto a Marie Cardona.
Albert Camus que nasceu em Argel, teve uma infância onde a falta de meios económicos era uma constante já que o pai morrera na Primeira Grande Guerra; foram dois dos seus professores que conseguiram convencer a sua mãe a deixar que ele fosse fazer os estudos liceais, quando o seu destino era ir trabalhar na oficina do tio, para ajudar no sustento da família. A sua obra literária e filosófica irá ser marcada decididamente pela doença que o acompanhou ao longo da vida: a tuberculose, levando-o sempre a interrogar-se sobre esse frágil fio que nos liga à vida e nos separa da morte.


 “O Estrangeiro” / “L’Étranger” de Albert Camus, quando viu a luz do dia das livrarias, revelou-se um enorme sucesso do público e da crítica, tendo Jean-Paul Sartre escrito o seguinte: “Mal saíra dos prelos, O Estrangeiro de Camus obteve a maior aceitação. Toda a gente dizia que «era o melhor livro desde o armistício». No meio da produção literária desse tempo, este romance era, ele próprio, um estrangeiro. Chegava-nos do ouro lado da linha, da outra banda do mar; falava-nos do Sol, nessa amarga Primavera sem carvão, não como uma maravilha exótica mas sim com a cansada familiaridade daqueles que por de mais o gozaram; não era sua preocupação o sepultar mais uma vez o antigo regime nem o penetrar com o sentimento da nossa indignidade; ao lê-lo lembrávamo-nos de que outrora haviam existido obras que pretendiam valer por si próprias e que não queriam provar o que quer que fosse.”.

Marcello Mastroianni no filme de Luchino Visconti "O Estrangeiro", a genial adaptação ao cinema do livro de Albert Camus

Quando olhamos a história da vida de Mersault, essa personagem quase anónima criada por Albert Camus, que habita nos intervalos da chuva, descobrimos esse reino do absurdo em que o mero acaso de um gesto termina com uma vida e uma condenação que pretende ser um exemplo, nessa Argel ainda colónia francesa, em que tudo irá servir para condenar o estrangeiro na sua própria pátria.
Desde o facto de não ter chorado no funeral da mãe, até o ter ido com uma mulher no dia seguinte ao cinema ver um filme com o Fernandel (uma comédia!), serve de acusação. Mas a forma como este anti-herói aceita o seu destino, tão profundamente kafkiano, oferece-nos o triunfo do absurdo.
Recorde-se que o mundo e a vida para Mersault já não tem qualquer significado e a forma como ele encara o seu destino demonstra bem que ele já não se reconhece como ser humano, ficando indiferente a tudo e todos, simplesmente esperando a hora da partida.
Se olharmos o mundo sentados numa esplanada, vendo a vida a passar, quantos Mersault se cruzam connosco, indiferentes à passagem das horas.


Albert Camus e Jean-Paul Sartre, que mantiveram uma sólida amizade durante dez anos (1942-1952), irão ficar conhecidos para a História como os amigos desavindos, após a publicação por Camus de “O Homem Revoltado” / “L’Homme Révolté” em que critica a União Soviética, após esta ter invadido a Hungria.

Em 1957 Albert Camus recebeu o Prémio Nobel da Literatura e, curiosamente, no discurso de agradecimentos não se esqueceu de referir os dois professores que em Argel convenceram a sua mãe a  deixá-lo prosseguir com os estudos, revelando desta forma bem simples o homem que sempre foi: um humanista. Três anos depois, em Janeiro de 1960, irá sofrer um acidente rodoviário, quando o carro que conduzia de regresso a Paris se despistou provocando a sua morte de imediato. Na sua mala trazia um romance autobiográfico, que confessara aos amigos mais próximos, cujo destino seria ficar por terminar. Albert Camus é uma figura incontornável do Universo Literário e as suas obras permanecem uma excelente fonte de meditação sobre a existência humana e o mundo que nos rodeia.


quarta-feira, 30 de março de 2016

Mike Oldfield – “Tubular Bells”


Mike Oldfield
"Tubular Bells"
Virgin

Mike Oldfield, quando gravou o imortal álbum “Tubular Bells” em 1973, tinha apenas 19 anos, mas antes disso suceder formara um duo de música folk com a irmã Sally Oldfield (que irá participar em alguns dos seus futuros trabalhos ao mesmo tempo que se irá lançar numa carreira a solo, com o famoso álbum de estreia “Waterbearer”), mas será com o trabalho “Shooting at the Moon” que Mike Oldfield irá dar nas vistas, convém desde já referir que neste álbum tocam com ele Kevin Ayers, Robert Wyatt, Mick Fincher, Lol Coxhill e David Bedford, que irá manter também uma colaboração musical com o guitarrista.


E “Shooting at the Moon” irá terminar por ser a ante-câmara que irá conduzir Mike Oldfield até à criação de Tubular Bells, tocando quase a totalidade dos instrumentos que se podem escutar neste álbum, que viria a fazer história no interior da Música durante a década de setenta do século passado. Mas ao contrario do que se possa pensar, foi bastante árduo e espinhoso o caminho de Mike Oldfield, para chegar ao sucesso.
“Tubular Bells” foi gravado nos Estúdios de Oxforshire de Richard Branson, com um magnifico trabalho de produção da responsabilidade de Tom Newman e Simon Heyworth, que perceberam de imediato que se encontravam perante algo que iria revolucionar a música rock,


Após a conclusão da gravação, tanto Mike Oldfield como Richard Branson partiram em busca de uma editora que lançasse “Tubular Bells” no mercado discográfico, mas todas elas recusaram editá-lo, não percebendo que se encontravam perante um diamante com texturas até então nunca escutadas, onde os instrumentos de cordas e as teclas criavam uma simbiose única no panorama musical da época.
E será então que Richard Branson, cansado de tantas respostas negativas, decide criar a sua própria editora discográfica, baptizando-a com o nome “Virgin”, que se tornaria famoso em todo o mundo pelas mais variadas razões, ao mesmo tempo que “Tubular Bells” se tornava o álbum de estreia da editora, ostentando uma das mais belas capas de sempre da indústria discográfica.


É assim que um álbum de estreia de um músico desconhecido, que escolheu o período nocturno do Estúdio para gravar “Tubular Bells”, irá surpreender o mundo com sonoridades até então nunca escutadas, onde o rock e a folk mais tradicional andam de mãos dadas, criando paisagens “pastorais”, como sucede na abertura da segunda parte de “Tubuar Bells” e onde se respira o então pouco conhecido minimalismo no lado 1 do álbum que foi, aliás, gravado numa semana, ao contrário do que sucedeu com o lado 2, que levou um período de tempo muito mais longo a ser concluído, mas que se saldou com 16 milhões de exemplares vendidos.


Ao escutarmos nos dias de hoje “Tubular Bells” de Mike Oldfield continuamos a sentir na pele, com a mesma intensidade, esses maravilhosos acordes de piano que abrem o álbum e que levaram o cineasta William Friedkin a usá-los como banda sonora do filme “O Exorcista”.
Muita água correu sobre as pontes do universo musical de Mike Oldfield ao longo dos anos, tendo levado o músico a criar duas novas versões intituladas “Tubular Bells II” e “Tubular Bells III”, mas será sempre o magnifico “Tubular Bells” surgido em 1973 que continuará na memória de todos aqueles que o descobriram nessa época.

 “Tubular Bells” de Mike Oldfield permanece uma obra incontornável da música contemporânea.

Jean-Luc Godard - “Paixão” / “Passion”


Jean-Luc Godard – "Paixão" / "Passion"
(FRANÇA/SUIÇA – 1982) – (88 min. / Cor)
Isabelle Huppert, Hanna Schygula, Michel Piccoli, Jerzy Radziwilowicz.

Escrever sobre um filme de Godard é a impossibilidade que se instala na escrita. E dizemos impossibilidade, porque o seu cinema é uma paisagem de imagens e sons, palavras e luz, onde as citações (históricas) se cruzam, transparentes, de tal forma que a sua metamorfose é inatingível no universo da escrita.
(Escre)ver “Paixão” só é (im)possível retirando fragmentos de imagens da memória do cinema. Jean-Luc Godard é o autor exemplar, desde o momento em que inventou o primeiro fotograma de “Opération Béton” (1954 - seu primeiro filme). Desde esse dia o seu cinema constrói as mais belas composições, como se estivéssemos perante um compositor apaixonado pela música de câmara, compondo os seus quartetos até chegar esse momento capital em que nasce essa obra monumental intitulada "Histoires du Cinéma" / "Histórias do Cinema", que está para a Sétima Arte como "A Canção da Terra" estava para Mahler(*). Só assim é possível compreender o cinema de Jean-Luc Godard, que ao longo dos anos tem interrogado o estado do mundo, a situação do cinema e a condição humana. Como disse George Sadoul: “há um cinema antes e depois de Godard”.


Alguns fragmentos de “Paixão”:

Primeiro Fotograma – O azul é a cor da Paixão. Uma linha pura, branca, talvez virgem, como Isabelle, invade o azul do céu e introduz os heróis de Godard, sem palavras, somente o som de “uma imagem justa, justamente uma imagem”.

Segundo Fotograma – Jerry, cineasta polaco, reconstitui em Estúdio alguns quadros célebres (Delacroix, Goya, etc), mas não tem uma história. O produtor exige uma história. Mas a luz de Jerzy é a luz do Cinema e não a luz da Pintura. As filmagens não avançam.

Terceiro Fotograma – Hanna possui um hotel, vive com o marido, dono de uma fábrica, onde Jerzy, seu amante, recruta figurantes. E quando o cineasta a convida a participar no filme, ela recusa, porque despir-se perante uma câmara é estar demasiado próximo do amor, é essa impossibilidade que se instala no seu corpo.


Quarto Fotograma – Isabelle é operária, trabalha na fábrica do marido de Hanna. Acaba por ser despedida. Ela também ama Jerzy e o cineasta é um homem dividido na paixão. Daí a razão de ele dizer que “é preciso inventar a paixão antes de a vivermos”.

Quinto Fotograma – O patrão, marido de Hanna, é perseguido pelos credores e as operárias, mas acaba sempre por dominar a situação, excepto a sua própria condição de marido/e poder.


Sexto Fotograma – Quando Hanna e Isabelle se encontram pela primeira vez é o conflito que se instala, ainda a luta de classes ou talvez não? Mas a imagem que nos envia para essa situação de luta é o retrovisor do carro de Hanna, paisagem cinzenta, deserta, que se confunde com a distância que separa Jerzy do seu país.

Sétimo Fotograma – A luz ilumina e esconde o rosto de Isabelle, enquanto o discurso político se instala, mas a luz transforma o olhar na pintura e os planos que a câmara fixa são os quadros que se criam, não com o discurso, mas sim com a paixão.


Oitavo Fotograma – Hanna olha o vídeo como um espelho, onde o seu corpo é o reflexo da imagem que Jerzy deseja, manipula, corrompe, possuindo a paixão que trabalha.

Nono Fotograma – Hanna e Isabelle partem juntas, Jerzy também parte. Destino, o mesmo: Polónia. O presente talvez passado, o presente ainda futuro.

 “Paixão” é um filme que não tem “história”. Mas no cinema há sempre uma história, será que estamos necessariamente no cinema? Será o cinema uma fábrica ou simplesmente um local onde se contam histórias?


- Conheces o filme “Paixão” de Jean-Luc  Godard?
- Não! Qual é a história?

(*) - E aqui não há o receio Mahleriano da condição trágica em que Beethoven escreveu a sua derradeira Sinfonia, porque Jean-Luc Godard continua a ser o "enfant terrible" da Sétima Arte.

terça-feira, 29 de março de 2016

Egberto Gismonti – “Dança das Cabeças”


Egberto Gismonti
"Dança das Cabeças"
ECM Records

A música do Egberto Gismonti e o seu violão de oito cordas, assim como o genial trabalho na precursão de Nana Vasconvelos, surge neste primeiro álbum gravado para a editora alemã ECM de Manfred Eicher como uma verdadeira lufada de ar fresco e depois há sempre esse piano em que Gismonti investe toda a sua sabedoria, criando as mais belas melodias em que assistimos ao casamento entre a música popular brasileira e o jazz, pontuada muitas vezes pelo seu saber bem erudito.


Logo a abrir o álbum, com esse tema intitulado “Quarto Mundo” (que também irá encerrar a primeira parte do álbum, que se encontra dividido em duas partes bem distintas, mas que se completam de forma perfeita), somos surpreendidos pelas sonoridades da selva Amazónica, com o canto dos seus pássaros acompanhado da música que sai de uma flauta bem mágica que se escuta no seu interior até surgir o famoso violão e o berimbau acompanhado de todo o tipo de precursão, já que o brilhante Nana Vasconcelos (falecido muito recentemente) até usava o seu próprio corpo e voz como mágicos instrumentos e assim embalados pelo famoso violão de Egberto Gismonti e a genialidade com que Nana Vasconcelos tocava o seu berimbau percorremos o denominado lado A do álbum perfeitamente maravilhados.


Quando damos início ao lado B, surge esse “Tango” maravilhoso, que nos revela um pianista e compositor espantoso, que navega pelas teclas do piano de forma mágica, oferecendo-nos melodias, em solo absoluto, até então nunca encontradas.
Ao regressarmos ao dueto dos dois músico,s através de uma leitura bem particular do tema “Fé Cega Faca Amolada” de Milton Nascimento, somos testemunhas da cumplicidade mais-que-perfeita existente entre estes dois músicos de eleição, fechando este lado B com “Dança Solitária”, um tema em piano solo que encerra de forma brilhante este obra-prima da música intitulada “Dança das Cabeças” que, quarenta anos após a sua gravação, continua a deixar surpreendido o ouvinte, tal é a sua força e magia.   

                                                             
Egberto Gismonti é um dos maiores músicos da Música Popular Brasileira, que nos oferece texturas provenientes da música popular em perfeita consonância com o jazz e a denominada música erudita. 
Escutar “Dança das Cabeças”, de  Egberto Gismonti e Nana Vasconcelos, é uma gratificante viagem que recomendamos a todos os que gostam de partir para novos universos musicais, por vezes tão pouco divulgados e que bem merecem ser descobertos.

Frank O’Hara – “Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço” / "Lunch Poems"


Frank O'Hara
"Vinte e Cinco Poemas à Hora de Almoço"
Assírio e Alvim, Pag. 120

Conheci a poesia de Frank O'Hara numa antologia organizada por Manuel de Seabra sobre os novos poetas americanos e a sua poesia. O livro editado pela "Futura" em 1973 ainda me acompanha nos dias de hoje, e o poema de Frank O’Hara intitulado "A Industria Cinematográfica em Crise", surgiu como se alguém me tivesse dado um soco no estômago, fiquei simplesmente sem respiração e nunca mais me esqueci dele e de todos os poetas americanos da sua geração e consequentemente da Literatura Beatnick.
Em boa hora a editora Assírio e Alvim editou uma colectânea de Poemas de Frank O’Hara e de novo foi possível, de forma mais ampla, mergulhar na maravilhosa poesia deste autor que é urgente descobrir.


Depois, ao saber como a vida está apenas presa por um ligeiro fio, fraco e frágil, decidi contemplar as ondas do mar com o meu olhar no silêncio dos dias e muitas vezes descobri marcas de pés na areia húmida da praia e inevitavelmente pensei que o Frank tinha estado nesse dia naquele lugar, esse lugar que ele pisou pela última vez e cuja beleza não o deixou ver a viatura que o iria levar do nosso convívio, mas os poetas – sejam aprendizes ou consagrados – nunca esquecerão este homem, cuja poesia nascia dos temas mais simples e das pessoas anónimas que com ele se cruzavam nas ruas de Nova Iorque, enquanto ele seguia para o seu local de trabalho no Moma.


Nascia assim o seu convívio com a pintura e os seus artistas, Jasper Johns, De Konning, Rauchenberg, entre outros, já na poesia encontrou em Kenneth Koch e John Ashbery a amizade (ambos já publicados entre nós), mas nunca constituíram um grupo homogéneo como os Beat de S. Francisco, devido talvez à sua singularidade, embora todos eles fossem beber a poesia a Walt Whitman – o Pai de toda a Moderna Poesia Norte-Americana e também Mestre de Álvaro de Campos, recordam-se da sua “Saudação a Walt Whitman”? .


O cinema, o teatro e a pintura acabaram também por surgir como matéria-prima para os seus poemas, assim como o jazz. Ler hoje Frank O'Hara é um daqueles prazeres que nos enche a alma de alegria, já que por vezes a vida insiste em nos oferecer a amargura e a tristeza. Beber a sua poesia através deste livro de poemas nas noites frias de Inverno, ou numa outra estação mais quente saborear a frescura das suas palavras, numa esplanada de uma praia no final do dia, revela-se na verdade um daqueles prazeres que nos enche a alma e nos leva a acreditar no universo poético deste magnifico livro de Frank O’Hara intitulado “Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço”

segunda-feira, 28 de março de 2016

Howard Hawks - “Rio Bravo”




Howard Hawks – "Rio Bravo"
(EUA – 1959) – (137 min. / Cor)
John Wayne, Dean Martin, Angie Dickinson, Walter Brenan, Ricky Nelson, Ward Bond.


“Rio Bravo” foi o terceiro “western” dos cinco realizados por Howard Hawks, surgindo nesse ano de 1959, numa época em que o célebre sistema dos Estúdios estava a findar.
Numa entrevista o cineasta afirmou que pretendia fazer um “western clássico”, em oposição ao “western psicológico” que estava a fazer escola por esses dias. E nada melhor do que convocar para esse efeito o mais célebre “cow-boy” de sempre, John Wayne, que aqui veste a pele do xerife John T. Chance. John Wayne esse que conheceu a fama ao protagonizar a película “Cavalgada Heróica” / Stagecoach”  de John Ford, mas aqui será a interpretação de Dean Martin que ficará na memória de todos na figura de Dude, o mais cativante personagem do filme, já que a sua composição de homem refém da bebida é, sem dúvida alguma, a sua melhor interpretação no cinema.


Quando no início do filme o encontramos no bar, preso da humilhação, hesitando em tirar o dollar do escarrador, para beber o whisky que tanta falta lhe faz, percebemos que aquele antigo ajudante do xerife chegou ao ponto mais baixo da sua existência. E ao longo da película iremos assistir à sua luta contra o vício, sempre oferecida por Howard Hawks de forma perfeita e dolorosa, porque sentimos o que vai na alma de Dude (Dean Martin).


Ao prender Joe Burdette pela morte de um homem, John T. Chance (John Wayne) vai enfrentar o irmão do assassino, o poderoso rancheiro Nathan Burdette que tudo fará, com a ajuda dos seus pistoleiros, para libertar o irmão. Desta forma iremos assistir ao longo de seis dias à luta de quatro homens para impor a lei nesse Oeste ainda selvagem, onde a perícia do mais rápido ditava tantas vezes a lei.
John T. Chance, para além de Dude, conta com o velho Stumpy (Walter Brennan em mais uma excelente interpretação) e um jovem pistoleiro de nome Colorado (Ricky Nelson), que entretanto se lhes juntou, porque gosta de acção.


Durante esses dias iremos também conhecer um outro duelo, tantas vezes mais perigoso, entre John T. Chance (John Wayne) e a jovem Feathers (Angie Dickinson) que por ali ficou em busca de um lugar para viver, percebendo-se bem qual a sua profissão. Ela, que também conhece as agruras da vida, irá seduzir com sucesso o velho xerife, tendo ficado célebre a sequência em que surge terrivelmente sensual, com as suas meias pretas.


Ao longo da película, Howard Hawks pontua o dramatismo com o humor, aligeirando desta forma a dramatização, através do casal mexicano que dirige o hotel. E quando por fim a lei vence, percebemos que o homem que a personifica caiu decididamente na teia que a bela Feathers foi tecendo em seu redor.


Mais de meio século depois, “Rio Bravo” de Howard Hawks permanece como um dos mais belos “westerns” que Hollywood nos ofereceu, revelando a quem o vê a essência desse genial cinema clássico norte-americano..

Nota: – Muitos anos depois o cineasta John Carpenter irá evocar este filme ao realizar “Assalto à 13ª Esquadra” / "Assault on Precinct 13".

domingo, 27 de março de 2016

Fripp & Eno – “No Pussyfooting”


Fripp & Eno 
"No Pussyfooting"
Editions EG

Quando, em 1973, o guitarrista dos King Crimson Robert Fripp e Brian Eno, que na época tinha lançado o brilhante “Here Come The Warm Jets”, juntaram esforços e criaram o álbum “No Pussyfooting”, muitos  ficaram surpreendidos por estarem perante uma música até então desconhecida.
O álbum que é composto apenas por duas faixas,”The Heavenly Music Corporation” no lado 1 e “Swastka Girls” no lado 2, do antigo vinil, oferece uma viagem por territórios até então nunca explorados.


Tudo nasceu no famoso Estúdio de Brian Eno, onde a manipulação dos sons através das guitarras e sintetizadores, criados de forma intensa e envolvente, com diversos loops a serem trabalhados na mesa de gravação, origina o sistema que Robert Fripp irá intensificar denominando-o Fripptronics e que irá dar origem mais tarde a esse fabuloso trabalho a solo do guitarrista, intitulado “Let The Power Fall”, surgindo um dos temas desse álbum mítico na banda sonora da película “Subway Riders”  / “Viajantes da Noite” de Amos Poe.
Muitos anos depois, o som denominado Fripptronics pelo guitarrista irá dar lugar aos famosos Soundscapes, nascidos no álbum “1999”, “Soundscapes” esses que serão desenvolvidos ao longo de diversos trabalhos discográficos, nos últimos anos, por Robert Fripp.


As sonoridades surgidas em “No Pussyfooting” reflectem estruturas melódicas e discordantes invadindo o espaço, ao mesmo tempo que os solos vão surgindo devidamente integrados.
Em 2008 surgiu no mercado um duplo cd, com uma nova versão, contendo o disco original de 1973 e assistindo-se a diversas manipulações do mesmo na mesa de gravação, sendo possível escutar os dois temas em sentido inverso, ou seja do final para o início, ao mesmo tempo que nos é oferecida uma espécie de nova versão de “The Heavenly Music Corporation” a “meia-velocidade”, aumentando a sua duração para o dobro, criando desta forma novas sonoridades, que alteram de forma profunda a estrutura dos temas.


“No Pussyfooting” de Fripp & Eno permanece uma das experiências mais inovadoras de sempre, levadas a cabo por estes dois músicos de excelência, revelando um vanguardismo que supera a passagem do tempo, permanecendo um verdadeiro trabalho de culto.

sábado, 26 de março de 2016

“Encontro com o Amor” / “Falling in Love” – Ulu Grosbard


Ulu Grosbard - "Encontro com o AMor" / "Falling in Love"
(EUA - 1984) – (106 min. / Cor)
Robert de Niro, Meryl Streep, Harvey Keitel.

Quando dois actores como Robert de Niro e Meryl Streep se encontram em “Falling in Love”, não é o trabalho do cineasta que nos interessa, mas sim o trabalho dos actores. Escrevemos desta forma porque o que nos motiva na visão do filme não é a realização de Ulu Grosbard, que faz o “remake” do fabuloso “Breve Encontro” / “Brief Encounter”  (1945) de David Lean, adaptando-a de forma muito livre aos tempos modernos.


Poderíamos até dizer que Ulu Grosbard simplesmente nos informa que os nova-iorquinos gostam muito da 5ª Avenida e da Rua 57, comprando os seus livros na Livraria Rizzoli, além de o Natal ser a melhor época para encontros, isto para além de nos fornecer os horários dos comboios que partem de Ardsley/Dobbs Ferry, mas vamos ao que nos interessa… o trabalho dos actores!


“Encontro com o Amor”/”Falling in Love” não é só um daqueles filmes para se programar para ver no Natal com a família, ele é acima de tudo um soberbo trabalho de Meryl Streep e Robert de Niro habitando as armadilhas do amor, enquanto o tempo passa e o futuro desconhecido se aproxima. Recorde-se, para quem não conhece a genial película do britânico David Lean, que “Breve Encontro” / “Brief Encounter” possui um final bem diferente do escolhido pelos Estúdios Americanos, nele não há “Happy Endings”, como nos canta Liza Minelli em “New York New York” de Martin Scorsese, mas sim o melodrama na sua essência, devastador e comovente.


Quando duas pessoas se encontram, depois de se cruzarem diariamente sem se ver, desenvolvendo os sentimentos necessários à construção de um grande amor, é impossível não interrogar o momento presente e o seu núcleo familiar. Será que vale a pena arriscar uma vida dupla ou uma nova vida? A resposta está no argumento do filme, mas é na vida diária, no mundo turbulento de que fazemos parte, que iremos encontrar esse rosto perdido no meio da multidão, sorrindo para nós através de um olhar cristalino, perdição de uma vida por um lado, mas oferecendo por outro o grande amor da nossa vida.


“Encontro com o Amor” / “Falling in Love” não é mais um melodrama moderno de Hollywood, revisitando os Clássicos, mas sim uma película para sentir e viver ao lado desses dois grandes actores chamados Meryl Streep e Robert de Niro.

"Happy Endings"

sexta-feira, 25 de março de 2016

Fernando Pessoa – “Poesia de Álvaro de Campos"”


"Fernando Pessoa - Heterónimo" - Costa Pinheiro, 1978

Fernando Pessoa
"Poesia de Álvaro de Campos"
Assírio & Alvim, Pag. 672

Conheci o Engenheiro Álvaro de Campos numa noite de Natal em que ele me foi apresentado por Fernando Pessoa e, desde então, este heterónimo viajante das palavras entrou no meu imaginário e com ele participei em viagens através de mares nunca antes navegados. Conheci piratas e naveguei em paquetes, conheci uma rapariga inglesa loira míope, acompanhante forçada de uma tia, a caminho de Durban e convivi em noites soalheiras com um casal oriundo do novo mundo que me apresentou a poesia de Walt Whitman, como se ela fosse essa erva que acompanha o caminhante ao longo dessa estrada longa que atravessa a América de uma costa a outra, com o Pacífico de um lado a invadir o areal e as ondas do Atlântico a oferecerem a sua musicalidade às estrofes dos poetas.


"Os óculos do Poeta Álvaro de Campos - Heterónimo de Fernando Pessoa" - Costa Pinheiro, 1980


De todos os poemas descobertos nessa véspera de Natal, o meu favorito, aliás já conhecido, intitula-se “Tabacaria” e começa assim “Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
Durante décadas li este poema sempre profundamente apaixonado, assim como um outro que se iniciava com “Cruz na porta da Tabacaria”. Ao longo do tempo sempre associei estes dois poemas ao mesmo heterónimo, o saudoso Engenheiro Álvaro de Campos, tal como sucedia com a edição da Ática que me foi oferecida nesse longínquo ano de 1970 e que durante estes anos tem sido um dos meus livros de cabeceira. Ao lado de Marcel Proust e de Lawrence Durrell.

"Fernando Pessoa, ele mesmo com a minha chávena de café, um pincel e um lápis meus e a sua caneta" - Costa Pinheiro, 1980

Mas um dia fui presenteado com uma nova edição da Poesia de Álvaro de Campos organizada pela estudiosa Teresa Rita Lopes, que nos oferece um volume onde descobrimos poemas até hoje desconhecidos do mundo e que, adormecidos na famosa Arca, permaneciam escondidos de todos. Tenho que confessar o meu fascínio por este volume de cerca de 650 páginas, no entanto fiquei verdadeiramente perplexo com a ausência desse poema de Álvaro de Campos “Cruz na porta da Tabacaria”, em virtude de Teresa Rita Lopes não considerar como autor do poema o heterónimo Álvaro de Campos. Ao sair uma edição excelente da Tinta da China intitulada “Obra Completa de Álvaro de Campos” organizada por Joaquim Pizarro e António Cardiello (que também recomendo) verifiquei que o poema “Cruz na Porta da Tabacaria” fazia parte do volume e era atribuído a Álvaro de Campos, tal como sucedia na edição da Ática de “Poesias” de Álvaro de Campos.

António Costa Pinheiro

Como a liberdade de pensar é um dos bens que mais amo, porque penso, logo existo, como aprendi no programa radiofónico “O Homem no Tempo”, emitido em finais dos anos setenta no FM do RCP e onde escutei poemas do Engenheiro numa maravilhosa montagem radiofónica de João David Nunes, decidi colocar neste maravilhoso trabalho encetado pela investigadora Teresa Rita Lopes o poema que considero em falta, atribuindo-lhe a página 326-A, sem qualquer polémica, e assim usufruir o pequeno prazer de ler a poesia de Álvaro de Campos, ao mesmo tempo que recordo os belos quadros dedicados por António Costa Pinheiro ao poeta, hoje em dia um pouco esquecidos (este  genial pintor faleceu em Munique em 2015), mas que permanecem bem vivos no meu pequeno universo. Aqui vos deixo o poema “Cruz na Porta da Tabacaria” do Engenheiro Naval Álvaro de Campos e alguns quadros da autoria de António Costa Pinheiro dedicados a Fernando Pessoa:


 "O chapéu - heterónimo do poeta Fernando Pessoa" - Costa Pinheiro, 1980



Cruz na Porta

Cruz na porta da Tabacaria!
Quem Morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da Tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou

Mas ao menos a ele alguém o via.
Ele era fixo, eu, o que vou.
Se morrer, não falto, e ninguém diria.
Desde ontem a cidade mudou.


Álvaro de Campos

quinta-feira, 24 de março de 2016

Wim Wenders - “O Amigo Americano” / “Der Amerikanisch Freund”




Wim Wenders – "O Amigo Americano" / "Der Amerikanische Freund"
(ALE/FRA – 1977) – (125 min. / Cor)
Dennis Hooper, Bruno Ganz, Lisa Kreuzer, Gerard Blain, Nicholas Ray, Samuel Fuller, Daniel Schmid, Peter Lilienthal, Jean Eustache.


Foi com “O Amigo Americano” / “Der Amerikanisch Freund” que Wim Wenders se tornou conhecido e amado por muitos cinéfilos, este cineasta alemão oriundo da crítica, convoca para este filme Nicolas Ray, um cineasta por quem tem uma enorme admiração, oferecendo também pequenos papéis a outros realizadores como Samuel Fuller, Jean Eustache, Daniel Schmid, Peter Lilienthal e Gerard Blain (lembram-se dele em “Hatari!” de Howard Hawks?), para além de Dennis Hopper também ele cineasta (recordam-se de “Easy Rider” ou “Out of the Blue?), embora seja mais conhecido como actor.


Por outro lado, foi nesta película que descobrímos o enorme talento desse actor chamado Bruno Ganz que, embora seja suíço, fez a sua carreira no denominado “Novo Cinema Alemão” e, certamente, muitos se recordam dele nessa “Cidade Branca” chamada Lisboa, que Alain Tanner nos ofereceu um dia, para já não falar nessa sua espantosa interpretação de Hitler em “A Queda”.
Depois nunca é demais mencionar a presença de Lisa Kreuzer, um dos grandes nomes femininos do Cinema Alemão Contemporâneo que com Hanna Schygulla, Eva Mattes e Barbara Sukowa, deram rosto a inúmeras personagens desse cinema que nos maravilhou desde que nasceu através do célebre Manifesto de Oberhausen, onde foram traçadas as linhas pragmáticas do que se viria a chamar o “Novo Cinema Alemão”.


Partindo de um romance de Patrícia Highsmith, recorde-se que ela é a autora do famoso “O Desconhecido do Norte-Expresso” que Hitchcock adaptou ao cinema, Wim Wenders deu vida a essa personagem imoral chamada Tom Ripley (Dennis Hopper), havendo mais dois filmes nascidos desse anti-herói, onde John Malkovich e Matt Damon também nos ofereceram o rosto da célebre personagem do romance policial.


Iremos assim encontrar Tom Ripley nessa Nova Iorque onde ainda viviam as famosas Torres Gémeas, no apartamento de Derwatt (Nicolas Ray), a ver como decorrem os trabalhos do famoso pintor, para mais tarde o encontrarmos em Hamburgo, numa das suas actividades favoritas, a especulação e vigarice no mundo da Arte, vendendo quadros deste pintor que o mundo da Arte julga ter falecido. Mas a vista do pintor já não é a mesma e Jonathan Zimmermann, um pequeno restaurador de Hamburgo que assiste ao leilão, percebe que aquele azul (o célebre azul cobalto que o tornou célebre) já não é o mesmo.


Ripley, na sala, escuta o comentário de Zimmermann e, depois de lhe ser apresentado, toma a decisão de o usar nos seus outros negócios escuros, por onde anda a mão da máfia.
Jonathan tem uma doença no sangue incurável, sendo o seu tempo de vida muito reduzido e Tom Ripley decide, através de um gangster francês, torná-lo num assassino, em troca de o levar a outros especialistas para analisarem o seu estado de saúde, ao mesmo tempo que lhe paga pelos trabalhos efectuados, garantindo Jonathan desta forma uma “almofada económica” para a sua família.
Mas, como sucede nestas coisas, nada corre como previsto e Tom Ripley será forçado a ajudar o restaurador nos seus trabalhos muito pouco artísticos, nascendo desta forma uma espiral de violência que irá mudar para sempre a vida de todos os intervenientes.


Usando o seu habitual director de fotografia, Robby Muller, e com montagem de Peter Przygodda (outro nome forte da equipa), Wim Wenders oferece-nos um retrato de Hamburgo e da sua noite, com uma cor que nos deixa surpreendidos, ao mesmo tempo que a banda sonora de Jurgen Knieper (fixem o nome), vai dramatizando a acção da película pontuando de forma soberba o desenrolar dos acontecimentos, basta repararem nas sequências passadas no Metro Parisiense para ficar tudo dito.


Mais uma vez, como é regra em Tom Ripley, ele encontra sempre o inocente que vai usar em proveito próprio, saindo sempre ileso desse mundo do crime em que é um verdadeiro Príncipe Perfeito.
Recordar “O Amigo Americano” / “Der Amerikanisch Freund” não é só encontrar o melhor cinema de Wenders, mas também mergulhar nesse universo criado por Patrícia Highsmith, em que o herói é o assassino, esse mesmo assassino que irá sempre sobreviver a todos os seus planos maquiavélicos, como o que delineou para usar o pacato Jonathan Zimmermann.


Wim Wenders e Dennis Hooper durante a rodagem

Redescobrir o período alemão de Wim Wenders é uma aventura profundamente fascinante que recomendamos.