sábado, 30 de abril de 2016

Ernest B. Schoedsack / Merian C. Cooper - "King Kong"


Ernest B. Schoedsack / Merian C. Cooper – "King Kong"
(EUA – 1933) - (99 min. - P/B)
Fay Wray, Robert Armstrong, Bruce Cabot.

Quando comparamos o filme “King Kong” de 1933 com o “remake” levado a cabo por Peter Jackson, percebemos de imediato a grandeza da película realizada por Ernest B, Schoedsack e Merian C. Cooper. E se Naomi Watts é bela e espantosa, a sensualidade de Fray Wray, que veste a pele da actriz desempregada Ann Darrow no filme de 1933, bate-a aos pontos. Depois temos essa luz e sombra que habita o filme e subjuga o espectador de forma perfeita, sempre com o perigo a rondar os participantes da perigosa expedição. E quando Fray Way é levada por King Kong percebemos que estamos perante o velho mito da bela e do monstro. Mas o monstro, esse enorme gorila, também possui os seus sentimentos, protegendo a bela dos perigos que espreitam a cada momento nessa selva inóspita e perigosa, que lhe serve de refúgio.


Usando maquetes e um boneco articulado, Willis O’Brien oferece-nos em todo o seu esplendor a magia do cinema.
E quando encontramos King Kong, esse rei dos reis, aprisionado em New York a servir de espectáculo a um público incrédulo e sedento de sangue, percebemos que ele só se poderá revoltar, procurando no alto do Empire State Building a salvação impossível, levando com ele não uma presa, mas sim a mulher que admira pela sua beleza, terminando abatido pela esquadrilha de aviões que o irá defrontar, numa das mais espectaculares sequências do filme.


“King Kong”, que na época custou cerca de 750.000 dollars, uma quantia astronómica e fora do habitual, continua nos dias de hoje a fazer as delícias dos cinéfilos e de todos os amantes do cinema, demonstrando mais uma vez que a História do Cinema esconde maravilhosas pérolas cinematográficas que bem merecem ser redescobertas e reavaliadas pelas gerações mais novas.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

David Leavitt – “Dança de Família” / “Family Dancing”


David Leavitt
"Dança de Família"
Teorema, Pag. 232

David Leavitt, ao contrário de Bret Easton Ellis e Tama Janowitz, foge das mundanidades como o diabo foge da cruz, é pouco visto em público, preferindo a intimidade do seu luxuoso apartamento, compartilhado com o também escritor Mark Mitchell, à corrida vertiginosa dos noctívagos.

Começou muito novo a escrever e passou pelos corredores de Yale. Os contos são o seu género máximo, embora seja o romance e a novela que lhe absorvem parte do tempo, de qualquer forma todos nos lembramos quando em Portugal surgiram de uma assentada “As Mil Luzes de Nova Iorque” / “Bright Lights, Big City” de Jay McInerney, e “ Menos Que Zero” / “Less Than Zero” de Bret Easton Ellis e esse soco no estômago intitulado “Dança de Família” / “Family Dancing” de David Leavitt... e dizemos soco no estômago porque, pela primeira vez, era editado com pompa e circunstância um livro cujo tema era a comunidade gay que então despontava em S. Francisco e na Big Apple, e as suas “short-stories” eram na verdade surpreendentes.


Este trio de escritores era visto então como os novos escritores norte-americanos célebres, jovens e ricos, saídos directamente das universidades e expoentes máximos dos então pouco conhecidos cursos de escrita criativa.

David Leavitt é um dos mais brilhantes escritores da sua geração, transportando nas suas short-stories toda a sensibilidade do mundo. “Dança de Família” / “Family Dancing”,  o seu primeiro livro editado pela Teorema em Portugal, a sua novela sobre Florença intitulado “Florence, A Delicate Case” e “The Man Who Knew to Much” são os nossos eleitos, porque eles podem ser lidos e relidos vezes sem conta. Curiosamente, em todos os debates e conferências em que participa, o escritor defende sempre a comunidade a que pertence, dividindo presentemente o seu tempo entre a escrita e o ensino (escrita criativa), pelo meio ficou uma polémica com a célebre “New Yorker”.


A sua novela “A Linguagem Perdida dos Guindastes”/”The Lost Language of Cranes” fez furor aquando da sua publicação, numa época em que ainda não tinha sido exibido nos cinemas a película “Long Time Companions” /  “Companheiros de Sempre” de Norman Renè e no “mainstream” apenas nos tinha chegado “Os Rapazes do Grupo”  / “The Boys in the Band” de William Friedkin (cineasta sempre à frente da sua época e cujo reconhecimento crítico acaba por ficar sempre esquecido nas revistas da especialidade). Felizmente o seu romance “Martin Bauman”, um retrato quase autobiográfico da Nova Iorque no início dos anos oitenta, não foi atirado para aquela bancada de tão mau gosto criada nas livrarias, na qual as afinidades afectivas dos escritores estão acima da qualidade das obras literárias produzidas, revelando como o “politicamente correcto” pode bem ser, por vezes, tão mesquinho e provinciano.


David Leavitt retratado pelo pintor Arnold Mesches

No cinema David Leavitt viu o seu famoso livro “Family Dancing” / “Dança de Família”, a sua obra de estreia, ser adaptada para o grande écran, tendo participado na feitura do argumento em colaboração com Ryan Shiraki que também assina a realização da película.Anteriormente o seu “The Lost Language of Cranes” / “A Linguagem Perdida dos Guindastes”, tinha visto a luz da caixa que mudou o mundo, através da realização de Nigel Finch, tendo Brian Cox e Eileen Atkins nos protagonistas, corria então o ano de 1991. Por outro lado o próprio David Leavitt, em 2002, foi o responsável do argumento cinematográfico de “Food of Love”, película realizada por Ventura Pons.


A sua obra “The Man Who Knew to Much”, uma biografia de Alan Turing, revelou-nos toda a sua genialidade ao narrar a vida surpreendente do génio que decifrou o código Enigma criado pelos nazis e que foi fundamental para a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Alan Turing, essa mente brilhante que tratou a inteligência artificial e o computador por tu, irá ser perseguido ao longo da vida pelas autoridades do seu país e David Leavitt oferece-nos em “The Man Who Knew to Much” um relato literário ao nível de “A Sangue Frio” / “In Cold Blood” de Truman Capote.

A escrita de David Leavitt revela-se uma viagem literária surpreendente, conduzindo o leitor por caminhos nunca dantes navegados, mas onde o brilhantismo e a sensibilidade andam de mãos dadas.

Ulu Grosbard - “Profundo como o Mar” / “The Deep End of the Ocean"


Ulu Grosbard – "Profundo Como o Mar" / "The Deep End of The Ocean"
(EUA – 1999) – (106 min. / Cor)
Michelle Pfeiffer, Treat Williams, Whoopi Goldberg, Jonathan Jackson

“Profundo Como o Mar” / “The Deep End of the Ocean” foi um daqueles projectos em que Michelle Pfeiffer se envolveu por completo, já que o assunto era demasiado importante para ela.

O veterano cineasta Ulu Grosbard, responsável por filmes como “Encontro com o Amor” / “Falling in Love”, oferece-nos a história de uma mãe que perde o filho pequeno numa festa, passando uma vida a culpabilizar-se pelo sucedido, apesar de ter um marido que tudo faz para o seu bem-estar ser o melhor possível, embora nunca consiga que ela esqueça o filho perdido, até que muitos anos depois a criança é descoberta, vivendo feliz num outro lar.


Recorde-se que este tipo de situações acontece com regularidade nos Estados Unidos, o desaparecimento de crianças infelizmente não é raro. “Profundo Como o Mar” / “The Deep End of The Ocean” é um perfeito show de Michelle Pfeiffer na arte de bem representar e a forma como ela aborda a personagem que interpreta é de uma sensibilidade inesquecível, já a realização apesar de sem rasgos de genialidade, acaba por cumprir, ao oferecer-nos uma forte direcção de actores, onde todos brilham, desde os protagonistas, até ao mais secundário dos secundários.


“Profundo Como o Mar” / "The Deep End of Love" revela-se uma película que, sem rasgos de genialidade, nos oferece por outro lado um tema acutilante, onde as interpretações terminam por ser a sua mais valia.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Brian Eno & Jah Wobble – “Spinner”


Brian Eno & Jan Wobble
"Spinner"
All Saints Records

“Spinner” de Brian Eno & Jah Wobble (ex-membro dos Public Image, Ltd), possui uma história bastante complexa no seu interior, já que inicialmente os temas criados por Brian Eno destinavam-se à banda sonora da película “Glitterbug” do cineasta britânico Derek Jarman, cujo filme seria apenas concluído após a sua morte em 1994.

Os temas foram sendo criados por Brian Eno, ao longo das noites passadas no seu Estúdio, vendo filmes de Derek Jarman, no entanto Eno irá abandonar o projecto da banda sonora, terminando por enviar as gravações para Jah Wobble, que as irá trabalhar de forma profunda, quase como se fosse um produtor, inserindo a sua conhecida marca através das linhas do seu baixo eléctrico que irão pontuar de forma envolvente “Spinner”, contando com o contributo, sempre de assinalar, de Mark Freda e Justin Adams entre outros.


Curiosamente, ao escutarmos o álbum “Spinner” sentimos uma distância enorme entre os temas “Where We Live”, “Garden Recalled” e “Space Diary 1”, assinados unicamente por Brian Eno, cuja marca é bem conhecida na denominada Ambient Music e que não possuem a intervenção de Jah Wobble, dos restantes temas em que encontramos o trabalho dos dois músicos em busca de atmosferas, que por vezes nos fazem recordar alguns dos mais belos momentos do grupo alemão “Tangerine Dream”.

“Spinner”, no entanto, possui no seu interior uma agradável surpresa ou melhor uma verdadeira pérola que Brian Eno irá desenvolver no álbum “The Drop”.


Após escutarmos o último tema do trabalho “Spinner”, o poderoso “Left Where it Fall”, instala-se o silêncio durante alguns minutos, continuando o disco a rodar e aqui aconselhamos o ouvinte a não desligar o aparelho, porque após seis minutos de silêncio, que nos convidam inevitavelmente à meditação, iremos ser confrontados por uma música profundamente envolvente e minimal, criada por Brian Eno, que nos leva a mergulhar nesse belo território do sonhos, recorde-se que não existe qualquer referência ao título deste tema no disco, nem qualquer nota a falar nele.

Esta deslumbrante e melodiosa música em que o piano convive com os sintetizadores, irá ser mais desenvolvida por Brian Eno no trabalho “The Drop”, estendendo os seus dez minutos iniciais para os 33 minutos que iremos descobrir em “The Drop”, sendo a mesma baptizada de “Iced World”, revelando-se uma das mais belas composições criadas por Brian Eno ao longo da sua carreira.


 Tilda Swinton no filme "Gitterbug" de Derek Jarman

“Spinner”, de Brian Eno & Jah Wobble, termina por se revelar como o encontro entre duas personalidades, que embora cultivem universos diferentes, obtém uma perfeita conjugação musical, criando atmosferas que nos convidam a percorrer a paisagem em busca do olhar sincero da natureza. E como não podemos seguir, devido a motivos geográficos, o passeio dado por Jah Wobble através do Lea Valley, escutando os temas deste disco nos auscultadores, sugerimos um passeio a pé ao longo da costa com o mar a servir de paisagem. na companhia deste belo e envolvente “Spinner”.

Quentin Tarantino - “Pulp Fiction”


Quentin Tarantino – "Pulp Fiction"
(EUA – 1994) – (154 min. / Cor)
John Travolta, Tim Roth, Samuel L. Jackson, Bruce Willis, Uma Thurma, Ving Rhames.

“Pulp Fiction” proporcionou a John Travolta um segundo fôlego na sua carreira de actor, que até então andava um pouco perdida, ao mesmo tempo que Quentin Tarantino se tornava um cineasta de culto, após as boas indicações dadas com “Cães Danados”.

Partindo de um argumento bastante complexo de Roger Avery e do próprio Quentin Tarantino, que receberiam o Oscar de Hollywood, mergulhamos logo no início num conjunto de memórias que nos enviam para o “film noir”, reciclado de forma visceral e violenta, repleto de alusões cinematográficas e onde o calão e as referências sexuais se revelam de forma aberta, cativando as plateias mais novas que viram na película o seu filme de culto.

Ao longo de “Pulp Fiction”, com uma montagem circular e temporal, repleta de avanços e recuos, iremos descobrir as diversas personagens que vivem nas margens do sistema, embora algumas delas em busca de redenção.


A dupla de gangsters constituída por Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) é memorável, não só pelos seus diálogos mas também pelo seu comportamento ao longo da película, a que não falta o célebre e fortuito acidente, nunca visto até então.

 Por outro lado a violência existente na película revela-se subsidiária dos filmes de gangsters de Hong-Kong e da série-B norte-americana (ou melhor de B a Z), que Tarantino tão bem conhece e admira.

“Pulp Fiction” possui no seu interior todas as marcas que tornam o cinema de Quentin Tarantino, cinema de autor.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Michael J, Fox – “Um Homem de Sorte” / "Lucky Man: A Memoir"


Michael J. Fox
"Um Homem de Sorte"
Bizâncio, Pag. 320

O nome de Michael J. Fox é conhecido de todos, principalmente devido ao seu grande êxito “Regresso ao Futuro” / “Back to the Future” e também à sua participação na série “Quem Sai aos Seus” / “Family Ties”.

“Um Homem de Sorte” / “Lucky Man” não é mais um filme seu mas sim um livro, escrito na primeira pessoa, em que nos relata a sua vida desde que nasceu até ao sucesso de uma carreira no cinema, que foi “subitamente” interrompida devido à doença de Parkinson Jovem.


Os actores da famosa série "Family Ties" / "Quem sai aos Seus" 
e a passagem do tempo

A sua narrativa oferece-nos a história de alguém que partiu ainda em adolescente à conquista do sonho de ser estrela de cinema e quando já estava a desistir e a regressar a casa, devido ao insucesso, descobriu finalmente que a sua estrela brilhava e foi tudo tão rápido, como muitos anos depois os tremores que nasceram no seu dedo, sintoma da doença que nascia. A outra parte deste livro fala-nos do problema clínico de Parkinson Jovem, daí a sua catalogação em Medicina, no entanto a forma viva e pessoal como é narrada a doença, quase como metáfora para apenas citar essa obra genial de Susan Sontag, permite uma leitura apaixonante, fugindo ao trágico.


Michael J. Fox no célebre filme "Back to the Future" / "Regresso ao Futuro",
uma película inesquecível!

Este livro editado em  Portugal pela Bizâncio, apresenta-nos um Michael J. Fox jovem e incisivo nas questões que coloca e elas tanto são assuntos como a fama de uma estrela e a sua vida atribulada na Meca do Cinema, como a história de um homem famoso em luta contra uma doença, que o tornou igual a todos os outros, mas também diferente porque as suas convicções o transformaram no nome de uma causa.

Esse mesmo homem que lutara por um lugar ao sol no firmamento estrelar, trabalhando simultaneamente numa série “Quem Sai aos Seus” / “Family Ties” e numa película “Regresso ao Futuro” / “Back to the Future”, sobrevivendo então com apenas três horas de sono.


A arte de ser famoso nunca foi tão bem descrita como nestas páginas de um humor perfeito, sem qualquer mágoa ou pesar, apenas a passagem de um tempo que lhe ofereceu uma razão para viver no interior do seu núcleo familiar com a maior das intensidades.

Michael J. Fox, com “Um Homem de Sorte” / “Lucky Man”, oferece ao leitor o mapa da estrada da felicidade, como se de um filme se tratasse. Infelizmente a cura da doença de Parkinson ainda está distante, mas a acção de Michael J. Fox para a resolução do problema tornou-se muito importante e a fama do seu nome, como ele refere, contribuiu no bom sentido, para uma luta mais intensa com o problema.

Steven Spielberg - “Sempre” / “Always”


Steven Spielberg – "Sempre" / "Always"
(EUA – 1989) – (122 min. / Cor)
Richard Dreyfuss, Holly Hunter, Brad Johnson, John Goodman, Audrey Hepburn.

Quando Steven Spielberg se aventurou pela primeira vez no território romântico deixou muitos surpreendidos, embora optasse por fugir ao melodrama, decidiu refazer a comédia romântica outrora tão em voga no Cinema Clássico e oferecer a Richard Dreyfuss o papel que outrora tinha pertencido a Spencer Tracy, convocando por outro lado Audrey Hepburn (*) para surgir como estrela em cartaz, nesse filme mágico que se chamou “Always”/”Sempre”.


Recorde-se que Audrey Hepburn, depois de se ter “retirado oficialmente do cinema”,  já tinha feito uma aparição lindíssima, por detrás dos seus óculos escuros, em “Romance em Nova Iorque” / “They All Laughed” de Peter Bogdanovich. Mas em “Always” / “Sempre” a história de amor de Dorinda (Holly Hunter) com Ted (Richard Dreyfuss) mesmo depois de ele morrer, irá prolongar-se através de uma outra alma gémea, enviada pelo destino.


“Sempre” / “Always” revela-se uma maravilhosa película romântica, que vai beber no cinema clássico a seiva dos Mestres do género, nunca se esquecendo Steven Spielberg por introduzir o célebre sentido de humor que sempre caracterizou esse género de  filmes, usando a personagem criada por John Goodman para esse mesmo  efeito.
Steven Spielberg oferece-nos em “Always” uma bela homenagem ao cinema clássico.


(*) - No entanto a imagem preferida de Audrey Hepburn, na nossa memória, pertence a essa novela escrita por Truman Capote e intitulada “Breakfast at Tiffany’s” ao lado de um inesquecível George Peppard, apesar de o seu filme mais citado ser o maravilhoso “Sabrina” com Humphrey Bogart e William Holden, nas personagens que muitos anos depois Sydney Pollack haveria de homenagear num “remake”, contando com Harrison Ford, Julia Ormond e Greg Kinnear nos principais papéis.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Paul Motian – “Conception Vessel”



Paul Motian
"Conception Vessel"
ECM Records

Paul Motian nasceu em Filadélfia a 25 de Março de 1931 e começou a tocar bateria aos 12 anos de idade, tendo surgido no circuito do jazz ao lado do pianista Thelonious Monk em 1954, participando mais tarde (1959/1964) nos trios de Bill Evans e de Paul Bley (1963/1964). Quando Keith Jarrett surgiu a gravar em nome próprio, acompanhou o pianista nessa aventura de 1967 a 1976, fazendo também parte do célebre quarteto americano.


Quando a ECM surgiu no mercado, na década de setenta, foi um dos primeiros músicos a participar nesse projecto de jazz europeu, gravando em 1973 o seu primeiro álbum como líder, intitulado “Conception Vessel”.
Em “Conception Vessel”, Paul Motian oferece-nos seis temas, todos eles bastante distintos, mas que nos permitem ter um belo retrato do universo do baterista, que também assina a totalidade dos temas.

“Georgian Bay”, o tema de abertura, tem Paul Motian acompanhado por Charlie Haden no contrabaixo e Sam Brown na guitarra acústica, percorrendo paisagens próximas das raízes dos blues.
Já em “Ch’I Energy” encontramos Motian em solo absoluto, demonstrando todo o seu poder criativo.
Em “Rebica”, voltamos a ter o trio do primeiro tema, com Sam Brown na guitarra eléctrica, navegando de forma perfeita no seu swing bem característico.


Ao chegarmos aos temas “Conception Vessel”, que dá título ao álbum e “American Indian: Song of Sitting Bull”, descobrimos Paul Motian em dois duetos bem diferentes com Keith Jarrett, já que no primeiro Jarrett apenas toca flauta, invadindo as raízes da música popular, enquanto no segundo o encontramos no piano, onde o diálogo piano versus bateria é soberbo e repleto de melancolia, antecedendo de certa forma os duetos que ambos os músicos irão desenvolver nos espectáculos ao vivo do quarteto americano liderado por Keith Jarrett.

A fechar o álbum, descobrimos “Inspiration From a Vietnamese Lullaby”, onde a então desconhecida World Music encontra o jazz, através da flauta de Becky Friend e o violino de Leroy Jenkins, acompanhados pela pontuação do contrabaixo de Charlie Haden e a bateria de Paul Motian, que usa como ninguém a percussão e as suas célebres vassouras, sendo de uma beleza absoluta o diálogo entre a flauta e o violino.


“Conception Vessel”, o primeiro trabalho de Paul Motian como líder, convida-nos a visitar as raízes da música popular e o seu estimável encontro com o jazz, em mais um excelente trabalho de produção do alemão Manfred Eicher.

Paul Nwman - “O Confronto” / “Harry & Son”


Paul Newman - "O Confronto" / "Harry & Son"
(EUA – 1984) – (120 min. / Cor)
Paul Newman, Robby Benson, Ellen Barkin, Joanne Woodward.

Paul Newman pertence à geração de actores que passaram a realizadores, continuando com o seu estatuto inicial ou seja de estrela de cinema, tal como sucedeu com John Cassavetes, Robert Redford, Robert Duval ou Kevin Spacey.
“Harry & Son”/”O Confronto” foi a sua quinta película atrás das câmaras e nela se aborda essa relação, por vezes tão complexa, de pai/e filho ou seja o confronto de duas gerações, forçosamente distintas entre si.


Na época da sua feitura Paul Newman contava a bonita idade de sessenta anos e realizava, interpretava, produzia e escrevia o argumento desta película, uma das mais comoventes queo cinema contemporâneo nos ofereceu..
Chamámos a atenção para ela hoje aqui para que a memória do cinema não se perca neste século XXI, que se arrisca a viver sem memórias, tendo em conta a forma como os media tratam a cultura. “O Confronto” / “Harry & Son” revela-nos o saber desse genial cineasta,  por vezes tão desconhecido, chamado Paul Newman.


Pelo caminho ficou esse tão desejado filme que Paul Newman e Robert Redford ambicionavam fazer juntos, como testamento da sua longa amizade, mas o tão desejado argumento nunca chegou a bom porto, pelo que para recordarmos esta dupla fabulosa de actores e realizadores (ambos abordaram as duas áreas) teremos sempre “A Golpada” / “The Sting” e “Dois Homens e Um Destino” / “Butch Cassidy e Sundance Kid”.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

John Ford - “O Homem que Matou Liberty Valance” / “The Man Who Shot Liberty Valance”


John Ford – “O Homem que Matou Liberty Valance” / “The Man Who Shot Liberty Valance” 
(EUA – 1962) – (123 min. - P/B)
John Wayne, James Stewart, Vera Miles, Lee Marvin, Edmond O’Brien.

“O Homem Que Matou Liberty Valance” / “The Man Who Shot Liberty Valance” representa o “western” nostálgico por natureza, já que nele o herói (James Stewart) um advogado de Leste que serve no “saloon”, vê-se perdidamente confrontado com esse “oeste selvagem” protagonizado por Liberty Valance (interpretado por um Lee Marvin inesquecível) e apenas um homem pode fazer frente à selvajaria de Valance, o rancheiro Tom (John Wayne), esse mesmo rancheiro que se encontra apaixonado por Hallie (Vera Miles) que trabalha no saloon, mas a presença e os modos delicados de Ramson (Stewart) começam a apoderar-se do coração de Hallie.


“O Homem Que Matou Liberty Valance” fala-nos, acima de tudo, da chegada da “civilização” ao velho Oeste, mas será essa mesma “civilização” que irá rescrever a história, publicando a lenda e ignorando a verdade dos factos.


Nunca John Wayne esteve tão bem, como na sequência em que Tom (John Wayne) destrói a casa construída para albergar o amor da sua vida, cheio de amargura e raiva após ter perdido a mulher amada, ele que afinal até tinha morto Liberty Valance na escuridão da noite, para salvar o indefeso Tom.
“The Man Who Shot Liberty Valance” surge assim como um dos mais belos “westerns” da filmografia de John Ford.

domingo, 24 de abril de 2016

Robert Flaherty - “Nannook o Esquimó” / “Nanook of the North”



Robert Flaherty – "Nannook o Esquimó" / "Nannook of the North"
(EUA – 1922) – (50 min. - Mudo - P/B)


Robert Flaherty é um dos pioneiros do documentarismo, que desde muito cedo se sentiu fascinado pelo cinema. No início de 1913 decide filmar a vida dos esquimós, compartilhando o seu quotidiano, fascinado por aquela gente que luta diariamente pela sobrevivência.


No entanto as condições em que era guardada a película não eram as melhores e o impensável aconteceu naturalmente, quando um incêndio destruiu o trabalho do cineasta. Inconformado pelo sucedido, Robert Flaherty decide, anos depois, retomar as filmagens graças ao apoio da firma francesa Revillon e, com a ajuda de Nanook e da sua família, oferece-nos o seu olhar sobre a vida deste povo que vivia bem longe da dita “civilização”.


A forma como os esquimós encararam as filmagens, demonstrando um naturalismo fabuloso, irá contribuir decididamente para o sucesso do filme de Robert Flaherty. Estreado em 1922, transforma-se rapidamente num êxito estrondoso, continuando a ser nos dias de hoje um dos grandes marcos do documentarismo.


Na época da sua estreia, em Nova Iorque, eram vendidas nos cinemas peças ditas oriundas dessa região, mas os actores não profissionais desta película nunca viram as suas condições de vida alteradas e,dois anos depois das filmagens Nanook, o célebre protagonista do filme, irá morrer na terra que o viu nascer ao frio e à fome.

sábado, 23 de abril de 2016

Robert Wiene - “O Gabinete do Dr. Caligary” / “Das Kabinette des Doktor Caligari”


Robert Wiene – "O Gabinete do Dr. Caligari" / "Das Kabinette des Doktor Caligari"
(ALEMANHA - 1919) - (78 min. / Mudo - P/B)
Werner Krauss, Conrad Veidt, Lil Dagover, Friedrich Feher.

O nome de Robert Wiene fica associado à Sétima Arte através deste espantoso filme, que nos oferece cenários até então nunca vistos no cinema. O expressionismo tem assim aqui a sua obra-prima, através dos espantosos cenários construídos para o filme, em que as ruas e as casas possuem espaços totalmente inovadores, oferecendo-nos uma visão deformada da realidade. No início da película vamos encontrar um jovem a relatar a sua aventura a um ouvinte atento, desconhecendo o espectador o verdadeiro lugar onde estes se encontram. Tudo começa numa feira em que era exibido uma estranha personagem sonâmbula, que irá estar ligada a misteriosos desaparecimentos de pessoas, sendo a namorada do protagonista uma das vítimas. Acima de tudo, o que se pretende, é demonstrar como a diferença é encarada como loucura. Ao vermos esta película, percebemos como ela na época já apontava os caminhos que espreitavam perigosamente a Alemanha.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Tama Janowitz – “Escravos de Nova Iorque” / "Slaves of new York"


Tama Janowitz
"Escravos de Nova Iorque"
Teorema. Pag. 332

Tama Janowitz começou primeiro por descobrir os restaurantes frequentados pelo papá da Pop Art, o célebre Andy Warhol e depois entrava neles com um grupo de amigas, distribuindo os seus contos/”short-stories” pelos clientes. Andy Warhol simpatizou com ela e gostou do que leu, descobrindo o talento que navegava na sua escrita, deu-lhe a mão e o sucesso bateu à porta da então jovem escritora.
Os seus contos foram publicados em diversas revistas, sendo mais tarde reunidos em livro. Como todos sabemos os americanos cultivam essa grande arte que é a “short-story” e nela todos participam, desde os mais novos a darem os primeiros passos na escrita até aos consagrados.

"Escravos de Nova Iorque" / "Slaves of New York" de James Ivory
segundo o livro de Tama Janowitz

“Escravos de Nova Iorque” / “Slaves of New York” foi o seu primeiro grande êxito, também já passado para o cinema, através da mão do genial James Ivory, esse cineasta americano, que alguns julgam ser inglês. A película nascida do livro “Slaves of New York” / “Escravos de Nova Iorque” é uma verdadeira delícia e Tama Janowitz até tem um “cameo”, mas melhor ainda é mesmo lerem o livro com as personagens desse fabuloso, mítico e estranho mundo da Arte nova-iorquina a desfilarem perante o nosso olhar cândido, como se tratasse de uma passagem de modelos com muito ácido, crack e coca à mistura, mas também a magia da Arte Contemporânea!


“Vou lá para cima descansar um bocado” disse Ginger. “Estou a ficar com dores de cabeça. Quando puderes Marley, vai até lá acima ao quarto. Há lá um Roy Lichenstein de que penso hás-de gostar.”

Tama Janowitz, nos seus livros seguintes, continuou a debruçar-se sobre o meio artístico nova-iorquino de uma forma cristalina, sem qualquer tipo de concessões, revelando-se uma perfeita conhecedora desse universo, ao mesmo tempo que apurava a sua escrita sedutora.


Jay McInerney, Tama Janowitz e Bret Easton Ellis

“A Certain Age”, outro dos seus livros, conta-nos a história da bela e solteira Florence Collins, que aos 32 anos decide repensar o mundo que a rodeia. Um livro a não perder, tal como sucede com o também famoso “A Cannibal in Manhattan.
Descobrir a escrita de Tama Janowitz revela-se o mergulho perfeito no interior da vida nocturna dessa grande metrópole chamada New York.

Joel Coen e Ethan Coen - “Crueldade Intolerável” / “Intolerable Cruelty”


Joel Coen e Ethan Coen – "Crueldade Intolerável" / "Intolerable Cruelty"
(EUA – 2003) – (100 min. / Cor)
George Clooney, Catherine Zeta-Jones, Geoffrey Rush, Richard Jenkins, Billy Bob Thornton.

Perante o carisma que cobria os irmãos Coen no início do novo milénio, os Estúdios não hesitaram em entregar-lhes um argumento que andava perdido pelos gabinetes há longos anos, tratava-se de “Crueldade Intolerável”/”Intolerable Cruelty”, sendo o par protagonista constituído por dois nomes sonantes do firmamento de Hollywood: George Clooney e Catherine Zeta-Jones.


Marylin (Catherine Zeta-Jones) é uma caça fortunas, que acusa o marido de adultério, para lhe ficar com o vil metal e Miles (George Clooney) o advogado da dita fortuna, mas quando todos se encontram com os respectivos advogados para tratarem do divórcio, a tal faísca ou a seta de Cupido se preferirem, irá tomar conta do coração de Miles e apesar de ele sair vencedor no processo, Marylin passará a dar as cartas nesse jogo terrível do amor, usando a sua beleza para se vingar do belo advogado, que lhe fez perder uma fortuna.


Mais uma vez Joel e Ethan Coen nos oferecem uma película repleta de um humor corrosivo, onde Catherine Zeta-Jones está simplesmente deslumbrante, ao lado de um George Clooney que mais uma vez goza com o seu próprio estatuto de estrela de Hollywood, uma situação que surge de forma bem incisiva sempre que temos os famosos irmãos por detrás das câmaras ou se preferirem vejam “Confissões de uma Mente Perigosa” / “Confessions of a Dangerous Mind”, o primeiro filme realizado por George Clooney, que também interpreta.


“Crueldade Intolerável” / “Intolerable Cruelty” revela-se assim uma comédia que não nos cansamos de rever, devido à conhecida genialidade de Joel e Ethan Coen.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

David Byrne – “The Catherine Wheel”


David Byrne
"The Catherine Wheel"
Sire

A 22 de Setembro de 1981, no Winter Garden Theatre de Nova Iorque, a conhecida coreógrafa Twyla Tharp estreava a sua última produção intitulada “The Catherine Wheel” com música de David Byrne, que irá contar com a inevitável colaboração de Brian Eno, assim como do guitarrista Adrien Belez, que já anteriormente tinha trabalhado com David Byrne, durante a digressão dos Talking Heads.


Twyla Tharp e David Byrne

A colaboração de David Byrne com Brian Eno deixa aqui os seus frutos, depois desse extraordinário álbum assinado pelos dois músicos, que ofereceu novos mundos ao mundo, que me seja perdoada a redundância, mas foi mesmo isso que fez “My Life in the Bush of Ghost”, que explorou a montagem de sons, palavras e música de forma até então nunca tentada, obtendo uma conjugação de sonoridades onde a palavra e a música surgiam em toda a sua plenitude, obrigando o ouvinte a meditar naquilo que os seus ouvidos escutavam.


David Byrne e Brian Eno

Mais uma vez, em “The Catherine Wheel”, David Byrne aborda nas poucas canções do álbum os seus temas habitais das neuroses do quotidiano e essa selva de cimento que se transforma muitas vezes num verdadeiro campo de concentração, onde os seus habitantes não conseguem sobreviver sem esses bens de consumo tão queridos da sociedade contemporânea como o automóvel, a casa, ou as amantes e as drogas. São setenta minutos de música e meia-dúzia de canções, bem reveladoras do saber deste extraordinário poeta e compositor, que nunca pára de nos surpreender.


Twyla Tharp

Já Brian Eno, em “The Catherine Wheel” , repete com enorme saber a colagem dos diversos temas, tal como tinha feito em “The Lamb Lies Down on Broadway” dos Genesis, oferecendo uma verdadeira viagem ininterrupta de 70 minutos por um universo que vai beber muito da sua sabedoria a essa fabulosa trilogia musical sobre a sociedade contemporânea, que foram os três álbuns charneira dessa banda chamada Talking Heads (“More Songs About Buildings and Food”, “Fear of Music” e “Remain in Ligjt”), que teve em David Byrne, o líder incontestado e mentor de um dos grupos rock mais fascinantes do século XX.


David Byrne

Ao escutarmos “The Catherine Wheel” mergulhamos mais uma vez numa música intemporal, que poderia ter sido feita nos dias de hoje, apesar de o álbum estar datado de 1981, o que demonstra bem o poder criativo deste músico chamado David Byrne.

Nota; O bailado "The Catherine Wheel" de Twyla Tharp foi editado em DVD,