segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Alfred Hitchcock - "Rebecca"


Alfred Hitchcock – "Rebecca"
(EUA -1940) – (130 min.- P/B)
Laurence Olivier, Joan Fontaine, Judith Anderson, George Ssanders.

Quando Alfred Hitchcock realizou “Pousada na Jamaica” / “Jamaica Inn”, já tinha um desejo interior de adquirir os direitos de “Rebecca” para fazer a adaptação literária da célebre obra de Daphne du Maurier, mas quando pretendeu fazer essa compra, percebeu que a verba exigida era demasiado elevada para a sua bolsa e seria esse grande produtor de Hollywood, chamado David O’ Selznick, que acabaria por comprar os direitos, para depois propor ao cineasta a realização do projecto.
Recorde-se que David O’Selznick, cujo “O” não tinha qualquer significado, ou seja não existia no nome, surgindo mais como um toque aristocrático tão ao gosto do futuro produtor de “E Tudo o Vento Levou” / “Gone With the Wind”, sempre gostou de intervir nas filmagens dando as suas sugestões sobre a realização, muitas vezes não como simples recados, mas como ordens a seguir, tendo Hitchcock sempre sabido contornar este poderoso obstáculo.


Ao partir para os Estados Unidos em 1939 a convite de Selznick, Hitchcock iria marcar encontro com o sucesso porque, como devem estar recordados, “Rebecca” conquista o Oscar para o Melhor Filme. Alfred Hitchcock iniciava assim uma longa carreira no Novo Mundo, que seria repleta de obras-primas, sendo esta “Rebecca” precisamente uma delas.
Manderley, a célebre Mansão de Max de Winter, irá ter ao longo do filme uma presença constante, tal como a famosa Rebecca de quem apenas iremos conhecer o retrato, como se ela permanecesse viva no interior daquela casa, vigiando todos os passos da frágil e submissa Mrs. de Winter (Joan Fontaine, de uma beleza avassaladora).


Quando Max de Winter (Laurence Olivier) conhece a futura esposa está a contemplar o mar, mas nunca saberemos se ele se encontra a meditar perante a paisagem ou se prepara para se suicidar, devido ao passado recente que o atormenta. Esse passado que se chama Rebecca, a bela esposa que o traía e o desprezava, recusando-se sempre a ser mãe, ostentando uma beleza perturbante e sedutora para todos os que conviveram com ela. Aliás Mrs. Danvers (Judith Anderson), a governanta da casa, que tinha um amor profundo pela patroa, nunca irá perder uma ocasião para criticar a intrusa Mrs. de Winter (Joan Fontaine), ao mesmo tempo que irá manter sempre viva a memória da sua senhora, como se tratasse de uma relação de amor entre duas mulheres.


Por outro lado, o argumento do filme teve que ser alterado devido aos códigos de produção então vigentes, porque no livro de Daphne du Maurier Max de Winter mata a mulher, enquanto no filme ela se suicida quando descobre que se encontra gravemente doente, embora Alfred Hitchcock nos consiga oferecer o sentimento de culpa através da forma de agir de Max de Winter, aliás bem patente quando começa a ser investigado e vai a tribunal, sempre debaixo do olhar cínico de Jack Favell (George Sanders, esse fabuloso actor que nos ofereceu das maiores interpretações na história do cinema e que acabaria por se suicidar num quarto de hotel em Barcelona).


“Rebecca” possui assim todos os ingredientes que caracterizaram o cinema de Alfred Hitchcock, onde iremos acompanhar o duelo entre duas mulheres: a nova Mrs. Winter (Joan Fontaine) e Mrs. Danvers (Judith Anderson), bastando recordar esse momento em que Mrs Denvers convence a nova Mrs. de Winter a vestir-se como Rebecca para grande consternação de todos os presentes na casa. Duelo esse que só poderá terminar com a morte de uma delas, como irá suceder quando o incêndio consome Manderley e Mrs. Danvers decide ali morrer, para assim partir para a sua tão amada Rebecca, transformando-se Manderley num monte de cinzas onde a memória do passado permanecerá viva, para todos os antigos habitantes da Mansão.

Alfred Hitchcock, Joan Fontaine e Laurence Olivier

Alfred Hitchcock realiza assim de forma perfeita a sua primeira obra-prima em território americano, não resistindo a uma breve aparição (cameo), como passará a ser apanágio do cineasta ao longo da sua carreira.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Tony Scott - “Imparável” / “Unstoppable”


Tony Scott – "Imparável" / "Unstoppable"
(EUA – 2010) – (97 min. / Cor)
Denzel Washington, Chris Pine, Rosario Dawson, Kevin Dunn, Ethan Suplee.

Os britânicos Tony Scott e Ridley Scott marcaram ao longo dos anos o cinema contemporâneo com o seu estilo inconfundível e se alguns não gostam deles, nós por aqui somos fans dos seus filmes. E a derradeira película assinada por Tony Scott, o excelente e incisivo “Imparável” / “Unstoppable” possui uma eficácia narrativa memorável, ao levar ao grande écran a história verídica ocorrida em 2001 nos Estados Unidos da América de um comboio de mercadorias descontrolado, com matérias altamente inflamáveis (combustível e gás venenoso), rumo aos subúrbios de Filadélfia.


Curiosamente se Ridley Scott tem eleito como o seu actor preferido o australiano Russell Crowe, já o seu irmão Tony Scott optou, com enorme sucesso, pelo contributo sempre excelente do actor norte-americano Denzel Washington, que mais uma vez dá bem conta do recado em “Unstoppable”.
Tony Scott começa o seu último filme por, no início da película, introduzir o espectador no interior da vida familiar de cada um dos protagonistas, ambos a trabalharem numa companhia ferroviária e de imediato nos apercebemos como eles são dois homens comuns. 


Frank (Denzel Washington) é um viúvo com duas filhas adolescentes e com uma carta de dispensa (ou se preferirem despedimento) da companhia onde trabalha há vinte e oito anos, já Will (Chris Pine) vive com o irmão depois do tribunal o proibir de se aproximar da casa da esposa, encontrando-se impedido de ver o filho. Por outro lado o ambiente laboral não é o melhor com o desemprego a rondar os mais antigos maquinistas.


Tony Scott

Frank e Chris, que nem morrem de amores um pelo outro. irão trabalhar juntos nesse dia e quando tudo parece decorrer normalmente, para além de algumas pequenas questiúnculas, são alertados para a existência de um comboio descontrolado, sem maquinistas, com materiais inflamáveis a bordo, que se dirige na mesma linha onde eles se encontram, a uma velocidade superior ao normal. 
Apesar de todos os esforços despendidos pelos controladores das vias para fazer parar o perigo que se aproxima da cidade, a composição torna-se imparável aumentando a sua velocidade à medida que o tempo passa e serão estes dois maquinistas que, contra todas as ordens em contrário dos seus superiores hierarquicos, irão tentar impedir o desastre iminente.


Tony Scott, após nos introduzir na vida familiar dos dois protagonistas de forma perfeita, como referimos no início,  irá incidir a sua acção na luta travada por todos para impedir a catástrofe que se anuncia e a forma como ele nos oferece os acontecimentos, quase em tempo real e as opções que toma na filmagem da poderosa composição em movimento imparável possui um rigor absoluto.


Ao vermos “Imparável”, a memória evocou-nos esse maravilhoso filme da autoria de Andrei Konchalovsky intitulado “Comboio em Fuga”, com Jon Voigt e Eric Roberts nos protagonistas, sendo curioso vermos como foram bem diferentes a forma como os dois cineastas retrataram o movimento do conhecido “cavalo de ferro”, já que se trata de dois realizadores de escolas bem diferentes, mas cuja eficácia e genialidade ficaram bem patentes em ambas as películas.


“Imparável” de Tony Scott afigura-se como um dos melhores trabalhos do cineasta de “Déjà Vu”, que aqui revela uma eficácia e uma contenção na forma como trabalha o material cinematográfico em todas as suas vertentes. Após o final do filme, só poderemos dizer: Isto é Cinema!

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Jack DeJohnette – “Special Edition”


Jack De Johnette
"Special Edition"
ECM Records

Quando nos dias de hoje alguém pergunta: quem é o maior baterista de jazz no activo? A resposta só pode ser uma: Jack DeJohnette!!!
É claro que este tipo de perguntas nunca se devem fazer e muito menos dar-se-lhes resposta porque o jazz, como todos sabemos, é a mais democrática de todas as músicas, como é bem possível observar nos concertos.
The Wizard, como muitos chamam a Jack DeJohnette, nasceu em Chicago em 1942 e estudou piano desde os quatro anos até aos 14, quando decidiu experimentar a bateria, para nunca mais a largar, embora continuasse a ter aulas privadas, onde as suas mãos continuavam a navegar pelas teclas do piano.

Mas demos a palavra ao músico e compositor para conhecermos melhor como nasceu o seu universo musical: «Quando era criança escutava todo o tipo de obras e nunca fazia distinção entre elas. Tinha lições de piano e ouvia ópera, música country, blues e jazz, enfim escutava todo o tipo de música que me vinha parar às mãos. E ainda hoje continuo a acreditar que a música é simplesmente um género universal».

A sua estreia deu-se no quinteto de John Coltrane, tendo depois dado nas vistas nesse célebre quarteto liderado por Charles Lloyd, que expandiu a sua música para além do território americano, conquistando um enorme sucesso na Europa, tendo até dado um concerto em Moscovo na década de sessenta que se tornou histórico e que se encontra disponível em cd. Aliás nunca é demais lembrar que o pianista deste quarteto se chamava Keith Jarrett.

Depois Jack DeJohnette, tal como a maioria dos incontornáveis nomes da sua geração, fará parte dessa tribo mágica liderada por Miles Davis, que irá oferecer novos caminhos ao jazz, nesse álbum incontornável intitulado “Bitches Brew”.
Mas será na Europa e mais uma vez pela mão de Manfred Eicher, o mais importante produtor europeu, que Jack DeJohnette vai começar a gravar na editora alemã ECM, sendo o seu álbum de estreia “Ruta and Daytia” constituído exclusivamente por duetos com Keith Jarrett, que aqui assinava o seu segundo trabalho para a ECM Records.


Inicia-se então a mais fabulosa aventura de um baterista de jazz, com Jack DeJohnette a criar um som único nos trabalhos em que participa, ao mesmo tempo que vai estudando as sonoridades tiradas dos pratos da bateria, para depois propor um desenho próprio e exclusivo deles à Paiste, que os irá fabricar exclusivamente para ele, nascendo assim o famoso som do baterista. Mas o seu génio vive, acima de tudo, pela forma como toca a bateria, criando ora ritmos avassaladores ora melodias mágicas com a utilização das vassouras.

E foi com naturalidade que começaram a surgir trabalhos seus em que era o líder, criando duas formações histórias: Special Edition e New Directions, para além desses três trios que o tornaram célebre em todo o mundo: Gateway (na companhia de John Abercrombie e David Holland), o mais recente, "Trio Beyond" (que inclui John Scofield e Larry Goldings) e o mais famoso de todos, o Trio Standards (este último considerado o maior trio clássico de jazz da actualidade, com Keith Jarrett no piano e Gary Peacock no contrabaixo, a criarem com a bateria de DeJohnette a mais fascinante leitura do American Song Book)


O álbum de hoje possui o título de “Special Edition” e foi o trabalho de estreia deste grupo constituído por David Murray no saxofone tenor e clarinete baixo, Arthur Blythe (que tivemos a oportunidade de ver ao vivo em Cascais, já lá vão uns bons anos) no saxofone alto e Peter Warren em contrabaixo e violoncelo, ocupando-se Jack DeJohnette da bateria, piano e melódica.

“Special Edition” oferece-nos três originais de Jack DeJohnette e dois temas clássicos de John Coltrane, “Central Park West” e “Índia”, e se no primeiro a bateria está ausente, optando DeJohnette pela melódica, oferecendo-nos uma leitura de uma beleza mais-que-perfeita, já no segundo tema será o piano a abrir as honras da casa, para mais tarde a bateria surgir em todo o seu esplendor e magia, sempre na excelente companhia dos restantes músicos.
Já os três temas de sua autoria “One For Eric” (dedicado a Eric Dolphy), “Zoot Suite”, que se irá tornar num dos temas mais conhecidos e inventivos da sua carreira, com a famosa entrada do contrabaixo do Peter Warren, que irá abrir caminho a um território musical por explorar, e “Journey to The Twin Planets” que termina esta primeira aventura do quarteto Special Edition.


“Special Edition” foi gravado em Março de 1979, no Generation Sound Studios em New York, tendo sido editado na ECM em 1980 e nesse mesmo ano os leitores da célebre revista “Downbeat” elegeram-no como o disco do ano.
Hoje “Special Edition”, para além de ser o mais belo cartão de visita de Jack DeJohnette devido ao colorido e invenção dos temas e expressividade deste músico, transformou-se num clássico da modernidade na história do jazz. Vale a Pena Escutar “Special Edition”.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Paul Auster – “Homem na Escuridão” / "Man in the Dark"


Paul Auster
"Man in the Dark"

Asa, Pag. 160

Paul Auster, desde que foi descoberto em Portugal através da sua célebre “Trilogia de Nova Iorque”, que foi editada na época (1990) pela Difusão Editora, que reúne três novelas: “Cidade de Vidro”, “Fantasmas” e “O Quarto Fechado à Chave”, tem conquistado uma legião de leitores que tem vindo a aumentar de dia para dia, ao mesmo tempo que a totalidade da sua obra tem vindo a ser editada pela Asa, com uma regularidade digna de saudar.
Quem viu a noite temática que o Canal franco-alemão Arte dedicou ao escritor e também cineasta, percebeu que estava decididamente perante uma das mais fascinantes personagens do mundo literário contemporâneo. 


Quando olhamos para a sua já extensa obra em que as melhores memórias da sua vida “Inventar a Solidão”, se aliam à genialidade dessa obra-prima intitulada “O Livro das Ilusões”, passando pela sua actividade crítica em “Experiências com a Verdade”, descobrimos um verdadeiro universo Paul Auster, onde habitam personagens solitárias e marginais, com os seus pequenos mundos e vícios, a lutarem pelo direito à existência, num universo onde a solidariedade, a paz e o amor, deram lugar ao ódio, à guerra e ao egoísmo.


Paul Auster, no livro “Viagens no Scriptorium”, que antecedeu precisamente “Homem na Escuridão”, conduziu-nos a um labirinto cuja saída parecia ser inexistente. Mas como todos sabemos, ao entrarmos no labirinto, poderemos sempre sair pela porta por onde entrámos e regressar à magia da escrita e parece que foi mesmo isso que Paul Auster decidiu fazer durante a escrita de “Homem na Escuridão”, quando por volta das três da manhã o despertador desse crítico literário chamado August Brill cai no chão e se parte, abandonando no meio da escuridão do seu quarto a narração dessa América que, no novo milénio, viu diversos Estados abandonarem a célebre União e declarar a Secessão como muitos anos antes sucedera, nesse tempo em que o General Grant e o General Lee conduziram uma guerra civil sem tréguas, que daria origem a essa tragédia chamada Gettysburg.


A história que seguimos dessa América em guerra consigo própria, através da narração de August Brill e desse anti-herói chamado Brick, cuja missão é precisamente localizar e liquidar o narrador, ocupa cerca de metade do livro, mas quando esse despertador que não possui os habituais ponteiros luminosos se parte, tudo muda de figura em “Homem na Escuridão” e mergulhamos num outro estilo, numa outra vida: a história e as /memórias de August Brill e dos seus entes queridos. Entramos assim, através do escuro, num outro livro que lentamente nos irá iluminar a vida do narrador, transformando a sua narração num retrato perfeito deste mundo em que vivemos. A sua leitura é de tal forma contagiante que não conseguimos largar o livro até chegar ao último parágrafo.


Aqui vos deixo algumas palavras de Paul Auster que nos apresenta August Brill, o narrador de “Homem na Escuridão”: «Crítico literário reformado, setenta e dois anos, vive nos arredores de Brattleboro, Vermont, com a filha de quarenta e sete anos e a neta de vinte e três. A mulher dele morreu o ano passado. O marido da filha deixou-a há cinco anos. O namorado da neta foi morto. É uma casa de almas feridas, sofredoras e, todas as noites, Brill permanece acordado na escuridão, tentando não pensar no seu passado, inventando histórias acerca de outros mundos.»

“Homem na Escuridão” de Paul Auster é um livro que bem merece ser redescoberto!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Ridley Scott - “Blade Runner” / "Perigo Iminente"





Ridley Scott – "Blade Runner"
(EUA – 1982) – (117 min. / Cor)
Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Darryl Hannah, William Anderson, Edgar James Olmos, Joanna Cassidy, Brion James, Emmet Walsh.


Em 1982 o cineasta britânico Ridley Scott realizou um memorável filme de ficção-cientifica intitulado “Blade Runner”, que deixou os espectadores estupefactos, tornando-se ao longo dos anos um dos maiores “cult-movies” de sempre, também devido ao facto de o realizador ao longo dos anos continuar a amar a sua obra, tendo surgido muitos anos depois um “Director’s Cut” e por fim o “Final Cut”, com uma montagem diferente e uma nova sequência.


Curiosamente, na época da sua estreia, o filme não foi um grande sucesso e a crítica cinematográfica até se dividiu na apreciação da obra e se ainda hoje essa divisão permanece até entre nós, mas “Blade Runner” continua a ser uma obra incontornável no género. E nestas coisas convém sempre recordar que o célebre “Alien” tinha sido o filme anterior do cineasta, uma obra que gelou de medo as plateias e deu origem a esse duelo/saga entre a Tenente Ripley e o célebre monstro (nasceram quatro “movies”). Para aqueles que desejam conhecer o labor do cineasta, gostaríamos de referir duas obras anteriores de Ridlay Scott que merecem uma visita: “The Duellist”, um filme baseado num conto de Joseph Conrad, datado de 1977, cuja acção se passa no tempo de Napoleão e que tem como protagonistas Harvey Keitel e Keith Carradine e esse conto gótico, tão desconhecido, intitulado “Legend” com Tom Cruise no protagonista. Filmes que merecem ser redescobertos, agora que o dvd e a fibra óptica já fazem parte do nosso quotidiano.


O visionamento de “Blade Runner” é uma experiência única, quando essa Los Angeles do ano 2019 surge no écran largo, acompanhada por aquela que será a melhor banda sonora de Vangelis, e entramos nesse universo em que o sol parece ausente para sempre, enquanto uma chuva quase permanente invade a cidade, por entre o fumo e a publicidade de uma sociedade profundamente capitalista, que usa replicantes para as piores tarefas no espaço, onde a lei é uma simples recordação do passado. Se pensarmos que quem nos governa é essa entidade sem rosto denominada Mercados e o politicamente correcto é a ideologia à qual “juramos fidelidade”, sem conhecer também o rosto dos seus “filósofos”, poderemos pensar que até estamos muito próximos deste futuro.


Na primeira versão que vimos, aquando da estreia de “Blade Runner”, o filme apresentava um final imposto pelos produtores (Bud Yorkin, também realizador) em que vimos Deckard (Harrison Ford) e Rachel (Sean Young) a partir para um outro território numa fuga em busca do direito a uma vida, ao mesmo tempo que no início da película podíamos escutar Deckard a narrar a sua história. Estas duas partes foram retiradas no “Director’s Cut” e introduzida a célebre sequência do unicórnio, esse sonho implantado na memória do detective, terminando as versões do cineasta com a saída dos protagonistas do bloco de apartamentos que albergava a bela Rachel, uma replicante em busca da existência.


Ao introduzir a sequência do unicórnio, Ridley Scott abriu uma porta que se encontrava quase fechada para o espectador: seria Deckard também um replicante muito mais evoluído construído para combater o crime possuindo, como Rachel, as memórias de alguém já morto? Ao longo dos anos Ridley Scott foi falando sobre o filme, deixando as suas pistas e se Rachel era possuidora das memórias da sobrinha de Tyrell, esse mestre da genética, já Deckard seria na realidade a sua obra-prima, daí o ter sido convocado por Bryant para matar os replicantes que chegaram à Terra em busca dessa pergunta que nos atormenta ao longo da nossa existência, quando pensamos nela: quanto tempo nos resta de vida?

Philip K. Dick, esse génio da Literatura de ficção-cientifica, "beatnick" de gema a viver na sua “caravana” na costa Californiana, criou um conto profético que nos conduz à meditação. Porque o que buscam os replicantes não é a imortalidade mas um pouco mais de vida e quando nós sabemos que a duração deles é de apenas quatro anos, compreendemos a angústia de Roy (Rutger Hauer), o líder do grupo de replicantes “subversivos”.
Roy (Rutger Hauer), nesse duelo final com Deckard (Harrison Ford) no prédio onde habitava J.F. Sebastian (William Sanderson), trava o derradeiro combate para que foi programado, sabendo já a resposta para as suas dúvidas existenciais. Ao vermos na película a morte a tomar conta de Roy, ele larga essa pomba branca que segura na mão, deixando-a seguir o seu rumo, como se ela fosse portadora da sua alma, transportando no seu voo as suas memórias implantadas pelo criador, sempre tão presentes através dessas fotografias que todos eles guardam religiosamente.


Se olharmos o universo de “Blade Runner”, percebemos que ele é demasiado negro e doloroso, mas se pensarmos no mundo que hoje nos rodeia, tantos anos após a feitura da película e recordarmos essa esperança de paz anunciada com a chegada do novo Milénio, percebemos que os avanços da humanidade se traduzem em um passo em frente e dois à retaguarda.
Por outro lado, nunca poderemos esquecer que Roy ao encontrar-se com o seu criador, o poderoso Tyrell, termina por matar quem o concebeu esmagando-lhe o rosto, ao mesmo tempo que lhe dá o beijo da compaixão. E será essa mesma compaixão transformada no gesto que perdura, que o levará a salvar Deckard de cair no abismo, após o confronto final.
“Blade Runner” de Ridley Scott permanece uma das mais belas obras-primas da Sétima Arte, nesse género tão difícil que é a ficção-cientifica, continuando a surpreender e a maravilhar gerações de espectadores.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Entrevistas da "Paris Review" / "The Paris Review"


E. M. Forster, Graham Greene, William Faulkner, Truman Capote, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges, Jack Kerouac.
"Entrevistas da «Paris Review»"
Tinta da China, Pag. 345



A Literatura também possui as suas revistas famosas e a “Paris Review”, a par da Granta, é precisamente uma delas, tendo-se a primeira tornado famosa pelas suas entrevistas aos maiores nomes da Literatura.
Neste livro estão reunidas dez entrevistas realizadas nas décadas de 50/60 e nelas iremos mergulhar na famosa oficina do escritor.


E. M. Forster abre o livro e as portas da sua casa para receber o entrevistador e ao longo desse encontro mergulhamos no templo do autor ficando a saber, entre muitas coisas, que nem sempre a acção retratada num livro serviu de local para a sua feitura, como nos confessa Forster a propósito de “Passagem Para a Índia”, que seria mais tarde adaptado ao cinema por David Lean.



Já o encontro com Graham Greene, realizado também na sua casa, aborda o catolicismo da sua obra, vindo-nos de imediato à memória “O Fim da Aventura” com a inclusão do milagre e do pecado e a inevitável justiça de Deus. Um dado curioso neste encontro que ficamos a saber pela boca do escritor é que num concurso efectuado por uma revista junto dos seus leitores, convidando-os a imitar a escrita de Graham Greene, o escritor  decidiu concorrer utilizando um pseudónimo, tendo obtido o segundo lugar.


William Faulkner é outro dos escritores que abriu as portas à “Paris Review”, oferecendo uma das mais belas entrevistas inseridas no livro. Não só fala dos seus livros e do seu método, como nos conta sem pudores como conseguiu editor para o seu primeiro livro. A sua relação com o cinema também é motivo de interesse, oferecendo-nos o olhar de Hollywood de forma bastante mordaz.


Por seu lado Ernest Hemingway recebe o entrevistador da “Paris Review” com enorme relutância, sentindo-se a dificuldade do génio em ser confrontado pelo entrevistado na sua casa, situada na ilha de Cuba. O autor de “O Velho e o Mar” surge aqui muitas vezes não escondendo uma certa amargura por pessoas com quem conviveu, em especial Gertrud Stein, cujo relato dos encontros tidos na sua casa de Paris, não foram nada do agrado do escritor, que tão bem a retratou no seu "Paris é Uma Festa".


Lawrence Durrell, por seu lado, revela-se um maravilhoso conversador, oferecendo-nos um dos mais belos retratos que um escritor possa fazer de si, falando da sua infância sem pudores e da forma como desde sempre o universo literário o fascinou. Ficamos a saber como nasceu e foi escrita a sua obra literária mais famosa: “Quarteto de Alexandria”, que nasceu para fazer frente às dificuldades económicas então vividas, assim como foram criados os seus famosos livros de viagens, a maioria deles tendo por fundo as ilhas Gregas, aliás o escritor conta-nos que após ter publicado “Chipre, Limões Amargos”, achou por bem não regressar à ilha devido ao ambiente tumultuoso que então se vivia. Uma entrevista perfeita para figurar ao lado da sua obra, devido ao sabor das suas palavras.


O “enfant-terrible” Truman Capote surge aqui também apresentando-se em todo o seu esplendor, nunca fugindo às perguntas do entrevistador, oferecendo-nos momentos de um humor único. Fala-nos do seu método e confessa a sua paixão pela literatura, não encontrando problemas em ler livros de outros autores enquanto escreve as suas obras, ao mesmo tempo que se revela um leitor compulsivo dos jornais diários.


Outra das entrevistas mais belas deste livro é efectuada ao prémio Nobel Boris Pasternak, que irá conversar calmamente com a filha de uns amigos, falando não só da sua obra, mas da pátria onde vive. Ao longo das conversas efectuadas (foram várias durante alguns dias), a entrevistadora relata-nos de forma soberba o ambiente que se vive na casa deste grande vulto das letras, cuja obra mais célebre é o famosíssimo “Dr. Jivago”, como muitos devem estar recordados. A simplicidade das suas palavras e a modéstia que vive nelas é de uma ternura pela vida que nos deixa a todos profundamente seduzidos.


Saul Bellow por seu lado fala essencialmente da sua obra e muito em especial de “Herzog”, esse livro incontornável, que o transportou até ao pico da fama.


Jorge Luis Borges oferece-nos outro dos momentos mais belos do livro, conversando tranquilamente com o entrevistador no seu local de trabalho, confessando o seu interesse pelo inglês e norueguês antigo, ao mesmo tempo que mergulhamos maravilhados nas suas palavras percorrendo esse universo único descoberto pelo mundo ao ler a sua obra mágica. Como não podia deixar de ser ficamos a saber como ele luta com a falta de visão, ao mesmo tempo que nos fala do seu interesse pelo cinema.


A terminar este conjunto de dez entrevistas a autores que mudaram para sempre os caminhos da Literatura vamos encontrar Jack Kerouac na sua casa, sempre vigiado pela esposa Stella que faz uma verdadeira selecção de quem pode ou não falar com o escritor beatnick. Ficamos a conhecer a forma inteligente como o entrevistador se introduz no seu lar e, de imediato, percebemos que o maior nome da geração "beat" se encontra sobre o efeito de anfetaminas, mergulhando em respostas por vezes desconcertantes, mas profundamente reveladoras. Como não podia deixar de ser ficamos a conhecer um pouco melhor alguns dos episódios da sua convivência com Alan Ginsberg e outros nomes famosos da geração a que pertenceu, ao mesmo tempo que nos são oferecidos pormenores desconhecidos de como foram nascendo os seus livros.

Mergulhar na leitura destas entrevistas é equivalente a uma viagem pelo interior da Literatura do século xx, nas suas mais diversas vertentes, uma viagem que se apresenta profundamente gratificante para o leitor, que inevitavelmente é convidado a (re)descobrir a obra destes homens, que mudaram para sempre o universo Literário.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Keith Jarrett - “Tokyo Solo 2002”


Keith Jarrett  - "Tokyo Solo 2002"
Kaname Kawachi - (Japão - 2005) - (111 min. / Cor)
ECM Records

Este concerto de Keith Jarrett, realizado por Kaname Kawachi, é uma verdadeira pérola musical que merece ser referida e dada a conhecer aos amantes do cinema, já que cineastas como Jean-Marie Straub com a sua “Crónica de Anna Magdalena Bach” e Ingmar Bergman e a sua “Flauta Mágica” abordaram o universo da música, já para não falar em Jean-Luc Godard e o seu “Sympathy for The Devil” ou “One Plus One”, ou seja temos aqui a música barroca através de Bach/Straub, a Ópera pela mão de Bergman/Mozart e o rock através da leitura de Godard/Rolling Stones. Chega assim a altura de olhar o jazz através da visão de Kawachi/Jarrett.


“Tokyo Solo 2002” representa o 150º concerto a solo de Keith Jarrett no Japão, onde o mágico do piano nos oferece um dos seus melhores concertos e Kaname Kawachi nos dá uma magnífica lição de como realizar um concerto solo, num grande auditório, no caso concreto o Metropolitan Festival Hall de Tokyo (ou Tóquio se preferirem). E aqui encontramos a forma sublime como a câmara se aproxima do músico em plena improvisação, oferecendo-nos o pulsar da arte do artista, mas também o respirar do seu instrumento, sempre de uma forma perfeita com deambulações lentas onde o grande plano e o traveling habitam em perfeita harmonia com o raccord. Estamos assim perante a arte de dois mágicos, recorde-se que Kaname Kawachi convive com a música de Keith Jarrett já há longos anos e são diversos os concertos a solo e a trio já registados por ele.


Para aqueles que não são dados a estas andanças do jazz (recorde-se que a música de Keith Jarrett ultrapassa as fronteiras do jazz), basta olhar a memória cinéfila e o filme de Nanni Moretti “Caro Diário”, onde encontramos o cineasta nas suas deambulações na sua vespa pelo território onde Pier Paolo Pasolini encontrou a violência da morte e então escutarmos os célebres acordes do “Koln Concert” / “Concerto de Colónia”, para sermos invadidos pela sensibilidade pianística do compositor/intérprete. Esse mesmo tema surge também no início desse esquecido filme realizado por Nicolas Roeg, intitulado “Bad Timing”.


Já essa obra barroca intitulada “Spheres”, onde o piano dá lugar ao órgão, invadiu obras como “Fandango” de Kevin Rynolds e “Sorcerer” de William Friedkin, assim como no filme “Bella Martha” de Sandra Nettelbeck. Mas será na película “I Remember Me”, um documentário de Kim A. Snyder, onde poderemos escutar com mais profundidade a obra de Keith Jarrett numa banda sonora, já que a obra aborda a doença que atingiu o pianista denominada como “sindroma da fadiga crónica” que o impediu de tocar durante alguns anos, pensando muitos na época que ele nunca mais voltaria a pisar um palco, como Gary Peacock e Jack DeJohnette (seus companheiros do trio de jazz Standards) que o confessaram no documentário da BBC, tendo Keith Jarrett regressado às gravações com a obra mais intimista da sua carreira, intitulada “The Melody At Night With You”, que ele inicialmente gravou numa cassete-audio com imensas dificuldades físicas, já que não conseguia tocar seguido pouco mais de uns breves minutos, tendo oferecido esse “registo caseiro” à sua mulher Rose Anne no dia do seu aniversário, gravações essas compostas por “standards” que seriam editadas em 1999 pela sua editora de sempre, a alemã ECM de Manfred Eicher.


Este pianista, nascido a 8 de Maio de 1945 em Allentown, desde miúdo que se apaixonou pelo piano e foi até um dos seus irmãos, Scott Jarrett (compositor), que no documentário “Keith Jarrett: The Art of Improvisation” que a BBC lhe dedicou, recordou que por vezes iam dar com ele a dormir debaixo do piano. Hoje, Keith Jarrett é considerado por unanimidade como o maior pianista de jazz vivo e sempre com o seu estilo inconfundível e basta ver neste filme a forma como a música brota não só das suas mãos, mas também do seu corpo, para entendermos como a sua arte de improvisação em concerto solo é única.


Foi em 1973, com a edição dos “Solo-Concerts" Bremen/Lausanne”, que o mundo descobriu esta sua faceta, mas seria dois anos mais tarde, em 1975, que todos nós ficaríamos em transe após escutarmos o célebre “Koln Concert”, que ficou para sempre como o disco mais vendido da história do jazz. Convém também referir que Keith Jarrett é um músico que estudou composição com Nadia Boulanger em Paris e que foi um concerto de Dave Brubeck a que assistiu como espectador que lhe abriu os horizontes, começando a tocar nessa célebre “escola” dos Jazz Messenger de Art Blakey, passando depois pelo quarteto de Charles Lloyd (um dos grupos de jazz mais acarinhados por outras tendências - rock/folk - nos finais dos anos sessenta na Califórnia), bastando recordar o célebre trabalho “Forrest Flower” como símbolo de uma geração. Depois, como não podia deixar de ser, passou pelo grupo de Miles Davis onde tocou piano e órgão eléctricos, embora seja sempre no piano que a sua arte se irá expandir pelo universo.


Hoje em dia, o trio de jazz standards composto por Keith Jarrett, Gary Peacock e Jack DeJohnette, é o mais célebre trio de jazz do mundo, quem os viu no CCB sabe do que falamos e por outro lado nunca é demais referir que Keith Jarrett também tem abordado o universo clássico da música com grande sucesso, não só como intérprete (Bach, Handel, Mozart, Shostakovich, entre outros), mas também como compositor. Por tudo isto aqui fica o nosso convite para descobrirem este maravilhoso registo de Kaname Kawachi de “Tokyo Solo 2002” e entrarem no universo deste grande pianista chamado Keith Jarrett.

Nota: “Tokyo Solo 2002” está editado pela ECM. O concerto está dividido em duas partes onde as cores da improvisação brilham como um verdadeiro arco-íris. A terminar temos três "encores": o mais que famoso "Danny Boy" que todos conhecemos mal escutamos os primeiros acordes e dois "standards" dessa maravilhosa Bíblia intitulada "The Great American Song Book": "Old Man River" de Jerome Kern e "Don't Worry About Me" de Rube Bloom.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

John Ford - “Mogambo”


John Ford – "Mogambo"
(EUA – 1953) – (115 min. / Cor)
Clark Gable, Ava Gardner, Grace Kelly, Donald Sinden, Philip Stainton, Eric Pohlmann.



Quando se fala do Cinema Clássico Norte-Americano por terras de África, de imediato nos vêm à memória três filmes de outros três Mestres. São eles “A Rainha Africana” / “The African Queen” de John Huston, de 1951, “Mogambo” de John Ford datado de 1953 e “Hatari” de Howard Hawks realizado em 1962. Por outro lado também sabemos que tanto Ford como Huston decidiram fazer estes filmes para usufruírem de tempo para os seus safaris, como se fossem ambos caçadores brancos de coração negro, como de certa forma nos demonstrou Clint Eastwood, nessa maravilhosa película intitulada precisamente “White Hunter, Black Heart”, que nos relata os bastidores das filmagens de “A Rainha Africana”.



No entanto são os filmes de Ford e Hawks que se aproximam mais um do outro, pela comunhão do tema, já que ambos retratam um grupo de homens que se dedica à captura de animais para os jardins zoológicos, sendo o filme de Hawks bastante diferente do de John Ford. A razão e simples: o facto de “Mogambo” se tratar de um “remake” de “Terra Abrasadora” / “Red Dust”, essa obra-prima realizada por Victor Fleming em 1932, tendo também Clark Gable (aqui sem bigode) como protagonista. E se o filme de Fleming respira erotismo por todos os poros, o de John Ford segue-lhe as pisadas, embora de forma mais subterrânea.


Em “Red Dust” iremos descobrir uma Jean Harlow de uma sensualidade avassaladora, enquanto em “Mogambo”, apesar de todos entendermos o que a Honey Bear Kelly (Ava Gardner) pretendia do Marajá, o assunto é apresentado numa forma mais “soft”.
O modo como Ford filma Ava Gardner, oferecendo-nos o seu lado de “fera amansada”, revela-se quando vemos a forma como ela age com Victor Marswell (Clark Gable), porque ambos sabem que são feitos da mesma carne e são donos de cicatrizes bem fundas, provocadas pelo amor. Essas mesmas cicatrizes que John Brown-Pryce (Philip Stainton) percebe existirem por debaixo da branca pele de Honey. Ela é uma mulher em busca de um espaço para sobreviver e Marswell percebe isso mesmo, mas prefere recusar a sua companhia dando-lhe dinheiro para a viagem de regresso a Nova Iorque.


Embora não sejam carne da mesma carne, Marswell (Clark Gable), ao conhecer a esposa do antropólogo Donald Nordley, sente-se de imediato atraído por ela, apesar da sua relação inicial ser conturbada. Vejam a forma como ele gostou de levar aquela bofetada de Linda Nordley (Grace Kelly), que ainda os irá aproximar mais um do outro.
Mas quando tudo parecia correr sobre carris, com a partida de Honey Bear Kelly (o nome fala por si), eis que ela regressa, depois de o barco onde seguia se ter avariado. Nasce de imediato um triângulo verdadeiramente explosivo, que John Ford dirige com mão de Mestre. Os diálogos entre Linda e Honey são de uma inteligência profunda, ao mesmo tempo que estão recheados de subentendidos, que todos escutam em silêncio.
E se Victor Marswell segue com atenção aquele duelo feminino, tal como os seus colegas de aventura, já Donald Nordley, o marido de Linda, parece estar mais interessado em estudar o habitat dos gorilas do que proteger a mulher da tentação. Mas será mesmo isso ou estaremos perante um homem extremamente inteligente, que só age no momento certo?

“Mogambo” de John Ford oferece-nos o duelo de duas mulheres tão diferentes e distantes, pela posse do mesmo homem, como se estivéssemos num “western”. Homem esse que prefere optar por alguém diferente dele, porque acredita que os contrários se atraem. Aliás ele explica a Linda (Grace Kelly), que a razão de nunca se ter casado pode muito bem ser ela. E aqui temos que reconhecer que a beleza de Grace Kelly, nesta película, se encontra no seu auge. Ela é na verdade um vulcão pronto a explodir. Já Ava Gardner, essa “fera amansada”, surge aqui como a mulher certa para viver naquele ambiente, porque sabe melhor do que ninguém como sobreviver na selva da vida, lutando até ao limite das suas forças pelo homem que ama.


Apesar de “Terra Abrasadora” nos oferecer um conflito mais melodramático (convém dizer que a acção do filme de Fleming se desenrola na Indochina), em “Mogambo” temos também esse género a respirar no interior dos fotogramas, em virtude de John Ford optar pela chegada desses momentos de solidão e silêncio, para os revelar ao espectador em todo o seu esplendor. Veja-se quando Honey vai “passear” à chuva pela selva, depois de descobrir que Marswell e Linda se encontram perdidamente apaixonados; o encontro de Linda (Grace Kelly) e Marswell (Clark Gable) nas cataratas; ou esse momento sublime em que Honey (Ava Gardner) se confessa ao padre da missão e nós não ouvimos as suas palavras, mas conhecemos os seus pensamentos.


John Ford, nesta obra-prima do cinema, dá-nos um retrato avassalador das relações humanas, através da luta de duas mulheres na conquista do mesmo homem. Luta essa que, como iremos ver, até poderá conduzir a um “crime”. Um crime calculado e pensado ao pormenor, como se fosse um acidente. Mas quando Donald Nordley (Donald Sinden) fala de Linda de forma apaixonada, Marswell perde a coragem das palavras e refugia-se no silêncio.
E nessa mesma noite em que Linda (Grace Kelly) se decide oferecer a Marswell, irá encontrá-lo com Honey Bear Kelly (Ava Gardner) nos braços, perdido de bêbado, porque na verdade, ele sente que perdeu a sua oportunidade de ficar com Linda Nordley e ela não lhe irá perdoar o seu fracasso.


Atingimos assim o clímax do filme, com Linda a disparar sobre Marswell e o marido dela a chegar ao acampamento para pedir justificações do que se está a passar.
A civilizada e tímida Linda Nordley (Grace Kelly), mostra aqui o seu rosto de felina a lutar pela posse do corpo amado, esse território chamado Marswell (Clark Gable), que a tinha atraiçoado, ao desistir de lutar por ela, depois de perceber que os seus mundos eram muito mais distantes do que ele pensava.

E será mais uma vez essa aguerrida fera amansada chamada Honey Bear Kelly (Ava Gardner), que dará as explicações mais esfarrapadas para salvar a honra da dama ferida, perante todos, acusando o homem que ama de ser o responsável pelos acontecimentos. Percebemos assim, mais uma vez, como por vezes são insondáveis os caminhos que conduzem ao amor.


Esta obra-prima chamada “Mogambo”, que é filmada num esplendoroso Technicolor, oferece-nos personagens em carne viva, que nos agarram do primeiro ao último minuto do filme, revelando que o território do melodrama pode ser trabalhado num registo fora do habitual, como mais uma vez se prova, pelo génio desse cineasta chamado John Ford.