sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Oliver Stone – “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” / “Wall Street: Money Never Sleeps”


Oliver Stone – “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” / “Wall Street: Money Never Sleeps”
(EUA – 2010) – (133 min. / Cor)
Michael Douglas, Shia LaBeouf, Josh Brolin, Frank Langella, Carey Mulligan, Susan Sarandon, Eli Wallach.

Em 1987, Oliver Stone realizou “Wall Street”, oferecendo-nos um belo retrato dos caminhos por onde navegava o dinheiro na década de oitenta, marcada pelo nascimento dos yuppies, ao mesmo tempo que nos dava a conhecer essa personagem sem moral chamada Gordon Gekko (interpretada por Michael Douglas).
Muitos anos depois, iremos saber em “Wall Street: O Dinheiro Não Dorme” / “Wall Street: Money Never Sleeps”, que o famoso investidor, que entretanto fora preso acusado de fraude e lavagem de dinheiro, cumpriu oito anos de prisão pelo seu crime, iniciando-se precisamente a película com a sua saída da prisão.


Enquanto aguarda pela chegada da filha que lhe prometera ir buscá-lo, irá descobrir que foi abandonado por todos, porque ninguém o irá buscar, uma sequência aliás bem retratada por Oliver Stone, que de imediato nos dá uma poderosa imagem deste século xxi em que vivemos com a chegada da limusina, que não se destina a Gordon Gekko (Michael Douglas).

Winnie Gekko (Carey Mulligan), a filha do investidor, recusa-se a vê-lo, acusando o pai de ser o responsável da morte do irmão, que vivia dependente da droga e que acabaria por morrer vítima de uma overdose. No entanto, iremos saber que ela vive com um jovem corretor de Wall Street, que trabalha para a Keller Zabel Investments, partilhando ambos uma vida de luxo.


Oliver Stone dá-nos assim, mais uma vez, de forma perfeita os bastidores de Wall Street e das famosos Bancos de Investimentos, com os seus célebres fundos, revelando a sua marca habitual, que reside na velocidade da montagem, mas se durante o filme os momentos altos se revelam nessa viagem seguindo o rasto do dinheiro no mundo contemporâneo, já a relação entre os dois jovens irá revelar-se o ponto fraco da película, porque tanto Carey Mulligan como Shia LaBeouf, o jovem corretor de sucesso que verá a Firma onde trabalha destruída por boatos, não conseguem agarrar as personagens, por muito credíveis que elas sejam. Compare-se a interpretação de Charlie Sheen no primeiro filme “Wall Street”, com a de Shia LaBeouf e fica tudo dito.


Já o trio constituído por Michael Douglas (Gordon Gekko), Frank Langella (Louis Zabel) e Josh Brolin (Bretton James), quando surgem no écran, enchem o filme de intensidade e genialidade, revelando-se com eles os momentos mais intensos de “Wall Street: Money Never Sleeps”.
Ao fazer um retrato da crise económica que abalou a América em 2008 e se tem prolongado pelo mundo fora, como todos sabemos, Oliver Stone pretende dar-nos a sua visão da nova crise do capitalismo e se não introduzisse o romance dos dois jovens na película e se centrasse apenas na questão económica, teria certamente realizado um dos seus filmes mais memoráveis, mas certamente as célebres razões de bilheteira obrigaram-no a estabelecer o segmento dos dois jovens, que na verdade não têm pernas para andar, numa obra deste calibre.


Michael Douglas, ao retornar a personagem Gordon Gekko, está como peixe na água, oferecendo-nos uma imagem credível do investidor e especulador que pretende vingar-se do que lhe sucedeu, ao mesmo tempo que faz a ponte com o anterior filme e quando Gordon Gekko diz numa conferência que “a ganância era uma coisa boa e agora é legal”, conta-nos em breves palavras e de forma bem simples os caminhos traçados pelo capitalismo hoje em dia, bem conhecido de todos aqueles que têm acompanhado a crise económica, com as diversas falências de Bancos e Fundos, ao mesmo tempo que os seus gestores se retiram da ribalta, mas continuam a receber chorudos bónus ou reformas milionárias.


“Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” / “Wall Street: Money Never Sleeps”, apesar de ser datado de 2010, permanece uma película bem actual, fruto do estado do mundo, embora Oliver Stone, pudesse ter ido muito mais longe na sua análise da situação económica norte-americana. Ficamos assim com um bom filme, com a habitual marca do cineasta, tendo excelentes interpretações, excepto os dois jovens actores, mas que infelizmente ficou a um passo da chamada obra-prima. Recorde-se que sobre este mesmo tema o cineasta/argumentista J. C. Chandor realizou o genial “Margin Call” / “O Dia Antes do Fim”, datado de 2011 e com um elenco inesquecível: Jeremy Irons, Kevin Spacey, Simon Baker, Stanley Tucci entre outros.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Luc Besson – “Vertigem Azul” / “The Big Blue” / “Le Grand Bleu”



Luc Besson – “Vertigem Azul” / “The Big Blue” / “Le Grand Bleu”
(França/Itália/EUA – 1988) – (168 min. / Cor - P/B)
Jean-Marc Barr, Jean reno, Rosanna Arquette, Sergio Castellito.


O nome de Luc Besson, hoje em dia, é por demais conhecido do grande público, sendo o seu filme mais célebre “O 5º Elemento”, obra fundamental numa dvdteca de ficção-cientifíca, embora nos dias de hoje seja "Arthur e os Minimeus" a concentrarem todas as atenções, dos mais pequenos aos adultos. Mas o que nos trás hoje aqui é uma das suas aventuras aquáticas intitulada “Vertigem Azul” / “Le Grand Bleu” ou “The Big Blue”, como ficou conhecida no mundo inteiro.


A infância do cineasta esteve desde sempre ligada ao mar, sendo este a sua grande paixão, tendo até como sonho de adolescente o tornar-se biólogo marítimo especializado em golfinhos, o seu ex-libris, já que a sua companhia de produção inicial se chamava precisamente “Les Films du Dauphin”, nascendo duas películas desse amor: “Vertigem Azul” (o filme de ficção, do qual foi também argumentista); “Atlantis”,  o documentário (rodado nos mesmos locais do filme de ficção e composto apenas de imagens e música de Eric Serra (*), as palavras estão ausentes.)


A sua primeira obra foi uma curta-metragem intitulada “L’Avant Dernier”, datada de 1981 e protagonizada por Jean Reno, o seu actor favorito. Depois foi a estreia na longa-metragem com “O Último Combate” / “Le Derniére Combat”, passado num universo apocalíptico, onde a civilização deu lugar ao caos e à barbárie. Filmado num preto e branco rigoroso, esta obra tem diversos pontos de contacto com a séria australiana “Mad Max”.
Dois anos depois regressaria num filme estilizado e perfeitamente oposto ao anterior, intitulado “Subway”, com personagens habitando no interior do metro/subway, mas com um toque de futurismo e uma fotografia muito próxima do modelo instituído pelo cineasta Jean-Jacques Beineix, autor no verdadeiro sentido da palavra de obras como “A Diva e os Gangsters” / “Diva” e “A Lua na Valeta” / “La lune dans le caniveau”. Por outro lado foram “convocados” como protagonistas Christopher Lambert e Isabelle Adjani, então no apogeu no mundo das estrelas francesas.


Em 1988, ou seja três anos depois, nasce este “Vertigem Azul”, o filme mais pessoal do realizador onde o mar, os golfinhos, a amizade e a competição de dois mergulhadores irão constituir o “centro do mundo”. Recorde-se que foi devido a um acidente ocorrido aos 17 anos, a razão que impossibilitou Luc Besson de se tornar o biólogo marítimo que tanto ambicionava.
“The Big Blue” conta-nos a amizade entre dois miúdos possuidores de um ambiente natural e íntimo chamado mar, mais precisamente o mar mediterrâneo. Enzo e Jacques são dois amigos que mergulham de óculos e barbatanas pesquisando as águas e os seus habitantes, mas a morte do pai de Jacques Mayhol (Jean-Marc Barr), mergulhador de profissão, origina a perda de contacto entre ambos.


E a vida continua (como diria Abbas Kiarostami), até ao dia em que Jacques Mayhol a trabalhar para uma expedição científica, mergulhando em águas geladas e nadando por debaixo do gelo é comparado pelo chefe da expedição a um golfinho, aliás será ele humano ou golfinho?
Durante essa expedição Jacques, amante do mar, conhece Johanna (Rosanna Arquette) que se apaixona por ele e mais tarde o segue até Taormina na Itália, inventando um pretexto para o reencontrar e acompanhá-lo no campeonato de mergulho.
Nas águas azuis de Taormina, Jacques e Enzo (Jean Reno) reencontram-se, sendo o italiano campeão do mundo de mergulho. Embora entrando na competição, Jacques Mayhol não pretende competir, mas sim encontrar o desejo profundo do oceano, esse espaço mágico onde o corpo humano se adapta ao seu novo ambiente, “the big blue”, decididamente a sua casa.
Johanna compreende que não tem uma mulher a lutar pela posse do seu corpo amado, mas sim a beleza de um oceano maravilhoso onde habitam sereias, as verdadeiras amantes de Jacques Mayhol, essas mesmas sereias personificadas pelos golfinhos que ele tanto ama, terminando por descobrir que ele é mais um golfinho em busca de um lugar no oceano azul, do que um ser humano desejando constituir família e viver à superfície. A cor da força do amor é decididamente “blue” e aquática.


“Vertigem Azul” / “The Big Blue”, a obra tão amada por Luc Besson, surgiu inicialmente com uma duração de 119 minutos na distribuição internacional, embora em França a versão exibida tivesse 132 minutos. Todos sabemos como são as imposições dos distribuidores americanos mas, graças ao dvd, foi lançada no mercado uma versão de 168 minutos, o célebre “Director's Cut”, que nos oferece “Le Grand Bleu” em todo o seu esplendor, recuperando a magia do cinema e introduzindo personagens esquecidas na mesa de montagem.
“The Big Blue” teve uma importância tão grande para Luc Besson que, três anos mais tarde, voltou aos mesmos locais para rodar o célebre documentário “Atlantis”, dedicado inteiramente aos golfinhos e à vida marítima. De certa forma o seu sonho de criança, interrompido na adolescência, tornou-se realidade através do cinema. “Vertigem Azul é uma história de Amor de um Homem pelo Oceano e o seu desejo de viver com os seus irmãos golfinhos: a beleza do oceano mora por aqui!

(*) – O seu compositor de “serviço”.

Edward Hopper - "Lighthouse Hill"


Edward Hopper - "Lighthouse Hill", (1927)
Óleo sobre tela, 71,8 x 100,3 cm.

Robert Altman – “Volta Jimmy Dean, Volta Para Nós” / “Come Back to the 5 & Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean”


Robert Altman – “Volta Jimmy Dean, Volta Para Nós” / “Come Back to the 5 & Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean”
(EUA – 1982) – (109 min. / Cor)
Cher, Sandy Dennis, Karen Black, Kathy Bates, Susie Bond, Marta Heflin, Mark Patton.

«A mitologia das estrelas não pode ser considerada como uma ilhota atrasada
no seio de uma modernidade racional. Pelo contrário,
foi o desenvolvimento da vida urbana moderna
que a suscitou e fez evoluir…
Esta mitologia tem tanto a ver com a antropologia fundamental
como com a sociologia do século xx.»

Edgar Morin (*)



Um dos fenómenos no cinema norte-americano foi o nascimento dos “cult-movies” e o crítico cinematográfico Danny Pearly estabeleceu uma lista de cem filmes que indica como os mais amados e vistos pelos cinéfilos, que os defendem apaixonadamente. Esta lista, à qual posteriormente acrescentou mais títulos, encontra-se em constante evolução. Nela figuram títulos tão diversificados como “Citizen Kane” / "O Mundo a seus Pés" (Orson Welles), “O Vício” / "Trash" (Andy Wahrol/Paul Morrissey), “O Dragão Ataca” / "Enter the Dragon" (Robert Clouse), “Emmanuelle” (Just Jaeckin), “Singing in the Rain” / "Serenata à Chuva" (Gene Kelly/Stanley Donen) e “Johnny Guitar” (Nicholas Ray).


“Volta Jimmy Dean, Volta Para Nós”/ "Come Back To The 5 & Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean", um desses “cult-movies”, é a encenação fabulosa da memória mitológica do maior ídolo de sempre da História do Cinema.
Robert Altman, que durante a sua longa carreira sempre interrogou a América, as suas Instituições, os seus comportamentos humanos e os seus Mitos (*), relembra James Dean, esse “Movie Icon” incontornável em qualquer Galáxia, através do olhar feminino, em seis corpos e uma imagem translúcida:


Mona (Sandy Dennis) – O rosto marcado pelos desgostos de um filho atrasado mental: Jimmy Dean (dito filho de James Dean) é centro de atracção durante três anos. Isolada no seu segredo de estrela sem luz, vítima da memória (im) possível das recordações fabricadas, o seu amor é a coragem de viver o sonho da paixão.

Sissy (Cher) – Olha a vida com fulgor, vibra a cada instante, esconde a realidade até as imagens fugirem da sua máscara, oferecendo um quadro povoado de tristeza. O seu amor é a vontade de lutar pela permanência na terra.

Joe/Joanna (Karen Black) – Ela era ele, que as amava, cantando e dançando. Ele que era na realidade o pai de Jimmy Dean. Ela, Joanne caminhava para a recusa de Mina, impossibilitada de reviver o passado. O seu amor é a identidade como alucinação da memória.


Juanita (Sudie Bond) – Dona do centro de atracções Dean, é viúva e recorda o passado com falsa indiferença. O seu amor é o cansaço do quotidiano, mas ainda o desejo de não adormecer nas esquinas da vida.

Edna (Marta Heflin)– Casada, seis filhos, mais um a caminho, símbolo da fragilidade, abandonada, perdida, ainda tem forças para olhar o mundo. O seu amor é a arte de sobreviver.

Stela (Kathy Bates) – Sempre bem disposta, o divertimento é a falsa razão da sua existência. O seu amor é a fabricação artificial da vida.

Jimmy Dean (Mark Patton) – Vinte anos, atrasado mental, é utilizado pela comunidade como divertimento. Foge no carro do pai, inocentemente, um Porsche amarelo, não sabendo sobreviver.


Olhar este “cult-movie” não é só recordar James Dean, mas também amar o universo das mulheres que iluminam a memória da sua imagem, assim como relembrar esse maravilhoso cineasta chamado Robert Altman.

(*) – Sobre os Mitos no cinema recomendamos a leitura do incontornável livro de Edgar Morin intitulado “Estrelas de Cinema” / “Les Stars”

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Jean-Pierre Melville – “O Segundo Fôlego” / “Le Deuxiéme Souffle”


Jean-Pierre Melville – “O Segundo Fôlego” / “Le Deuxiéme Souffle”
(França – 1966) – (144 min. - P/B)
Lino Ventura, Paul Meurisse, Christine Fabréga, Pierre Zimmer.


O ano de 2007 viu o “polar” renascer em terras francesas, através da mão de Alain Corneau, que não é um perfeito desconhecido para o cinéfilo, basta recordar essas obras intituladas “Série Negra” / “Série Noire”, "França Sociedade Anónima” / “France société anonyme”, “Todas as Manhãs do Mundo” / “Tous les matins du monde” ou o nosso “Nocturno Indiano” / “Nocturne indien”, para estarmos perfeitamente identificados com o cineasta, porque se trata precisamente de um autor. E alguns estarão a pensar, porque razão se está a falar de Alain Corneau (que nos deixou em 2010), a propósito de um filme de Jean-Pierre Melville? A razão é simples. Como alguns já devem se ter apercebido, o penúltimo filme de Corneau é um “remake” de “Le Deuxième Souffle” de Jean-Pierre Melville, um dos seus filmes mais célebres, ele que foi o cineasta do "polar" por excelência.


No filme de Alain Corneau temos Daniel Auteil na personagem que pertenceu a Lino Ventura, a bela Mónica Bellucci, loura como convém, para interpretar a personagem de Manouche que foi de Christine Fabréga, enquanto o célebre comissário Blot interpretado por Paul Meurisse nos chega através da presença de Michel Blanc e, por fim, essa personagem enigmática de seu nome Orloff, em tempos vestida por Pierre Zimmer, surge pela mão desse grande actor que é Jacques Dutronc. Mas como estamos aqui para falar do filme de Melville, deixamos este pequeno aperitivo do filme de Alain Corneau e regressamos ao Jean-Pierre.

Jean-Pierre Melville

“O Segundo Fôlego” foi a última película a preto e branco do cineasta, nascida de um argumento escrito por José Giovanni, outro nome cuja obra merece ser descoberta. Ao ler o argumento, Jean-Pierre Melville viu de imediato a figura de Lino Ventura a vestir a pele do gangster ultrapassado, o célebre Gustave Minda, conhecido no meio por “Gu”, ora a película começa precisamente com a fuga de “Gu” da prisão, uma fuga que se revela tortuosa até chegar junto de Manouche, a fim de preparar a sua partida do território francês. Mas sendo ele um dos mais famosos ladrões, tem a competir com ele o melhor dos melhores, o comissário Blot (magnifico Paul Meurisse), que não olha os meios para atingir os fins e que trata os gangsters por tu, indo ao território inimigo sozinho, demonstrando um sangue frio absoluto.


Estamos assim perante uma dupla de gangster/policia, num duelo de peso e será com isso precisamente que iremos deparar ao longo do filme, com duas interpretações extraordinárias, por um lado temos a contenção e os princípios da velha guarda de Gustave Minda e por outro lado o cinismo e a eficácia de Blot.
O comissário põe toda a França em busca do famoso foragido, enquanto este decide participar num último golpe a fim de obter dinheiro para a sua fuga do país. Se o assalto corre bem, o pior vem sempre depois com as desconfianças e as suspeitas como é habitual, especialmente quando pelo meio está metido um homem com uma moral muito própria no mundo da noite, chamado Orloff, essa figura enigmática, também ela com alguns princípios.


Quando tudo parecia perfeito, Gustave Minda é detido e após cair na estratégia da polícia, que faz passar os seus homens por gangsters, é montada uma operação para o mostrar como denunciante, lançando-se a notícia no meio. E será esse desejo de limpar o seu “bom-nome de gangster” que o levará a ir buscar forças para fugir da polícia e demonstrar a todos que foi vítima de um golpe muito baixo das forças da ordem. “Gu” pretende limpar o seu nome, mas ao ser cercado pela polícia vê o fim a aproximar-se e será o comissário Blot a deixar cair no asfalto a agenda onde o seu colega de profissão confessava a forma pouco ortodoxa como fez passar os seus homens por gangsters, manipulando a verdade dos factos. Será precisamente ao insistir com o jornalista para apanhar a agenda, que o enigmático comissário Blot reescreve a história de Gustave Minda, o último gangster!


Jean-Pierre Melville consegue oferecer-nos um filme fabuloso, não só pela forma como dirige os actores, mas também pelo ritmo que oferece na montagem, não existindo tempos mortos no filme. Mesmo quando vamos assistindo aos preparativos do assalto, percebemos que estamos a viver o tempo interior dos personagens, passando de simples espectadores a profundos intervenientes na película com direito a fazermos o nosso próprio julgamento e para tudo isto é fundamental o contributo de José Giovanni, que em tempos viveu no meio, sendo até preso e condenado, mas isso já é outra história.

Edward Hopper - "Church in Eastham"


Edward Hopper - "Church in Eastham", (1934 - 35)
Aguarela, 50,5 x 63,4 cm.

Wim Wenders – “As Asas do Desejo” / “Der Himmel Uber Berlin”



Wim Wenders – “As Asas do Desejo” / “Der Himmel Über Berlin”
(Alemanha/França – 1987) – (127 min. - P/B - Cor)
Bruno Ganz, Solveig Dommartin, Otto Sander, Peter Falk, Curt Bois.


Quando Wim Wenders começou a pensar na história para um filme passado em Berlin, que fosse uma espécie de homenagem à cidade, conversou longamente com o escritor e cineasta Peter Handke, que iria escrever a história e ambos perceberam que seria muito importante dar espaço à improvisação, porque a essência da própria cidade convidava a isso. Por outro lado, Wim Wenders inspirou-se nas “Elegias de Duíno” de Rilke e nos quadros de Klee, para melhor trabalhar a sua concepção da película. E, a pouco e pouco, foi nascendo da colaboração destes dois homens a história dos anjos que habitavam Berlin. Mas nada melhor do que dar a palavra ao cineasta.


“Se eu tivesse que antepor um prefácio, ou uma espécie de “pré-história” à minha história, ela soaria mais ou menos assim:
Quando Deus, infinitamente desiludido fez preparativos para se afastar para sempre da terra e abandonar a humanidade ao seu destino, aconteceu que alguns dos seus anjos o contrariaram e intervieram em favor da causa dos homens: devia dar-se-lhes ainda mais uma oportunidade.
Deus, irado com o seu protesto, desterrou-os para o então mais terrível lugar do mundo: Berlin.
E depois, afastou-se.
Tudo isto teve lugar no tempo que hoje se designa por “últimos anos da guerra”
E assim, estes anjos caídos na “segunda queda dos anjos”, estão presos, desde então, nesta cidade, para sempre, sem esperança de salvação ou mesmo regresso ao Céu. Estão condenados a ser testemunhas, eternamente, nada mais do que espectadores, sem poder sequer influir o mínimo sobre os homens ou intervir no curso da história. Nem sequer um grão de areia pode ser movido por eles…”


E será assim que iremos encontrar dois desses anjos, Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander), a vaguear pela cidade de Berlin, acompanhando o movimento da cidade ao mesmo tempo que vão escutando o pensamento dos habitantes da cidade com quem se cruzam, sem nunca serem vistos. Apenas as crianças, devido à sua inocência, possuem o poder de sentir a sua presença, mas ao crescer irão perder esse mesmo poder, ao mergulharem na luta quotidiana da sobrevivência.
Acompanhamos as suas deambulações pela cidade, numa espantosa fotografia a preto e branco, fruto do saber desse grande director de fotografia chamado Henri Alekan.

Por vezes Damiel e Cassiel trocam opiniões sobre o que viram ao longo do dia e continuam a estudar a essência da alma humana, mesmo quando Damiel encontra um homem em vias de cometer suicídio e lhe coloca a mão no ombro, numa tentativa de lhe frustrar os seus intentos, mas infelizmente ele não tem o poder de impedir o suicídio, e esse homem mergulha do alto do prédio rumo ao asfalto, num adeus trágico à sua condição de ser humano.
Vamos assim percorrendo as ruas e o interior de edifícios públicos, como a biblioteca e o hospital, escutando as memórias dos que por lá se encontram, como se elas fizessem o retrato de um país, reflexo do estado do mundo.


Até chegar esse dia em que Damiel se cruza com um circo que se encontra na cidade e se apaixona pela trapezista Marion (Solveig Dommartin), passando a frequentar o circo todas as noites. Mas não é só ela que lhe desperta a atenção, também uma equipa de filmagens que se encontra a realizar um filme lhe chama a atenção e, ao cruzar-se com o actor principal da película, o célebre Columbo (Peter Falk), irá descobrir que ele o vê, porque se trata de um antigo anjo que decidiu renegar a sua condição celestial e mergulhou na terra, passando a ser humano. Um humano portador desses pequenos prazeres que são beber um café, fumar um cigarro, ler um jornal ou simplesmente desenhar algo, sentindo a textura dos materiais. E será esse desejo de ser mortal que irá levar Damiel a mergulhar de um edifício rumo ao asfalto, em busca desse desejo maravilhoso de partilhar sentimentos com as pessoas que irá encontrar, em busca desse amor que se encontra presente no corpo dessa trapezista que tem medo de cair do trapézio e perder o direito à sua condição humana.


Damiel irá assim descobrir, lentamente, todos os pequenos prazeres de que lhe falou o ex-anjo, não escondendo a sua admiração, como se fosse uma simples criança a criar o seu pequeno universo, até nascer o momento em que se irá cruzar na vida da bela Marion, por quem está apaixonado
Wim Wenders conta-nos esta história como se fosse um conto de crianças escrito para adultos, que buscam a redenção dos seus pecados, em busca de uma oportunidade para recomeçar uma nova vida, sendo o rosto de Bruno Ganz sinónimo dessa ingenuidade que, em criança, todos possuímos à medida que vamos descobrindo o mundo que nos rodeia.
Quando Damiel (Bruno Ganz) mergulha, em busca da sua condição humana, o filme passa a cores e assim, pela primeira vez, ele tem contacto com a paisagem, essa mesma paisagem que lhe irá oferecer a oportunidade de ele a transformar, nessa busca perfeita do amor.


“As Asas do Desejo” / “Der Himmel Über Berlin” não é só uma película profundamente alemã, basta escutar as memórias/pensamentos das pessoas com quem os anjos se cruzam, mas também uma obra que nos transmite questões que nos levam a interrogar o mundo em que vivemos, porque o destino das nossas vidas vive na palma da nossa mão, respirando em cada segundo o sentido desta nossa pequena viagem pelo universo.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Lawrence Kasdan – “Grande Canyon – O Coração da Cidade” / “Grand Canyon”


Lawrence Kasdan – “Grande Canyon – O Coração da Cidade” / “Grand Canyon”
(EUA – 1991) – (134 min. / Cor)
Kevin Kline, Danny Glover, Steve Martin, Mary McDonnell, Marie-Louise Parker, Alfre Woodard.

“Grand Canyon” de Lawrence Kasdan, é o regresso dez anos depois a uma espécie de sequela de “Os Amigos de Alex” / “The Big Chill”, ou seja nos anos noventa, embora as personagens sejam bastantes diferentes e o meio onde se movem é essa grande metrópole conhecida como a cidade dos anjos / Los Angeles.
Desta feita não temos só a história de cada uma das seis personagens da película, mas também uma certa desilusão acerca dessa cidade, que albergou o cinema, por parte de Lawrence Kasdan, que surge aqui muito crítico e bastante negativo.


Tudo começa quando o carro de Mack (Kevin Kline) se avaria, ficando só e perdido na noite de L.A. e inevitavelmente surge um daqueles gangs retratados no magnifico filme de Dennis Hooper “Reds and Blues” para literalmente lhe “fazerem a folha”, se me é permitida a expressão. E quando tudo parece perdido surge o reboque de Simon (Danny Glover), que consegue “levar a água ao seu moinho” e evitar a violência, que estava prestes a nascer e que seria certamente mortífera, para Mack.
Nasce assim uma relação de amizade entre dois homens de cores diferentes (como se a cor fosse importante) e classes sociais bem distintas e será através deles que iremos conhecer as pessoas que constituem a essência das suas vidas.


Lawrence Kasdan regressa assim ao seu melhor, apresentando-nos de forma perfeita cada uma das personagens da película, sejam elas principais ou secundárias, na sua essência: o sonho de Simon (Danny Glover); o amor de Claire (Mary McDowell) pelo recém-nascido encontrado na rua, à espera de ser salvo por uma mãe que o ame; a bela e frágil Dee (Marie-Louise Parker) amante de Mack (Kevin Kline) eternamente à espera até que o amor lhe surge, no interior de uma farda e a história de Simon e Jane (Alfre Woodard) em que o amor simplesmente acontece.


Por fim teremos a partida deste grupo de pessoas, verdadeiro retrato de uma grande Metrópole, a caminho de um outro horizonte, longe da cidade de betão e das suas “free-ways”, em que quase toda a gente é “bela e bronzeada”, para descobrir na beleza do Grand Canyon, o belo sabor da natureza, o maravilhoso sabor da liberdade e contemplar sossegadamente, sem ruídos estranhos, o amor nascido, nas linhas cruzadas da amizade. 

"Grand Canyon" - Lawrence Kasdan

Edward Hopper - "Portrait of Orleans"


Edward Hopper - "Portrait of Orleans", (1950)
Óleo sobre tela, 66 x 106 cm.

Peter Greenaway – “O Livro de Cabeceira” / “The Pillow Book”


Peter Greenaway – “O Livro de Cabeceira” / “The Pillow Book”
(Ing/Fra/Hol – 1995) – (126 min. / Cor)
Vivien Wu, Ewan McGregor, Ken Ogata, Hideki Yoshida, Yoshi Oida.

O cinema do cineasta britânica Peter Greenaway, desde os seus inícios, tem mantido uma relação estreita com a pintura, área da qual o cineasta é originário, ao mesmo tempo que tem trabalhado de forma intensa as novas tecnologias proporcionadas pelo digital em perfeita harmonia com o cinema. E desde logo “O Livro de Cabeceira” / “The Pillow Book” transporta-nos a esse momento mágico em que a tecnologia e o cinema se fundem para criar uma nova linguagem no écran, oferecendo ao espectador uma experiência até então nunca vista.


Desta feita Peter Greenaway decide convidar-nos a conhecer a história da jovem Nagiko (Vivien Wu), que vive obcecada em criar o seu “Pillow Book” / Diário, fruto da infância passada com o pai, um escritor que gostava de escrever no próprio corpo, usando também o rosto da pequena filha, para nele inserir os célebres caracteres da literatura japonesa, o que levará Nagiko a eleger o seu corpo como a superfície perfeita onde a arte dos caracteres se irá fundir com as histórias que a sua tia (Hideko Yoshida) lhe lia em criança, a partir de um livro escrito no século x.
E será esta paixão pelos livros que um dia a irá fazer cruzar-se com Jerome (Ewan McGregor), ao mesmo tempo que fortes suspeitas começam a surgir nela sobre o relacionamento mantido entre um editor e o seu pai.


Peter Greenaway, em “The Pillow Book” / “O Livro de Cabeceira”, consegue levar a sua arte e o seu cinema de autor, bem característico, a um nível tão elevado, que o mais comum dos mortais fica de imediato fascinado pelas complexas imagens que vão surgindo no écran, ao mesmo tempo que nos vai oferecendo a sua história de amor e vingança, transmitindo em simultâneo o enorme fascínio que lhe transmite a Arte Oriental da escrita e o livro como elemento preponderante da sua difusão, revelando em algumas sequências o seu conhecido olhar sobre o corpo, como elemento erótico e narrativo, transmitindo-nos mais uma vez a genialidade do seu cinema, em que a célebre máxima: “o cinema é a fusão de todas as artes” se aplica de forma perfeita.

Embora “O Livro de Cabeceira” / “The Pillow Book” já tenha tido edição em dvd, e sido exibido no pequeno écran, o que é sempre de saudar, a sua visão numa sala de cinema será sempre a mais indicada, pois só ali o espectador consegue usufruir em plenitude a magia e complexidade desta obra-prima da Sétima Arte.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Steven Spielberg – “O Império do Sol” / “Empire of The Sun”


Steven Spielberg – “O Império do Sol” / “Empire of The Sun”
(EUA – 1987) – (152 min. / Cor)
Christian Bale, John Malkovich, Miranda Richardson, Joe Pantoliano, Masato Ibu.

No ano de 1987 Steven Spielberg decidiu, mais uma vez, apostar numa criança para o seu novo filme, o jovem actor chamava-se Christian Bale e o filme “Império do Sol” / “Empire of the Sun”, era baseado num romance do famoso escritor de ficção-cientifica J. G. Ballard, que assinava assim uma história fora da esfera literária que o tinha consagrado. No entanto, outro nome pouco conhecido, na época, surgia no elenco, Mr. John Malkovich (que tanto gosta deste nosso país) para além de Miranda Richardson.


Xangai é invadida pelos japoneses a 8 de Dezembro de 1941 e o jovem Jim Graham (Christian Bale) vê-se separado dos pais durante a fuga precipitada levada acabo pelos europeus e norte-americanos a viver na cidade, das tropas do Império do Sol Nascente, sendo o jovem Jim Graham obrigado a lutar pela sua sobrevivência numa cidade que bem conhece, mas que se tornou hostil e, de fuga em fuga, acaba por ser capturado pelos japoneses e enviado para um campo de concentração, onde irá descobrir as “regras” da sobrevivência.


Durante a sua vida no campo de concentração japonês, o jovem Jim Graham começa a ficar fascinado pelos caças japoneses (os famosos zero), que descolam do campo de aviação confinado com a zona prisional, onde ele se movimenta com sabedoria, terminando por estabelecer uma amizade silenciosa com um jovem piloto japonês, que, ao ver como a Guerra se encontrava perdida, irá fazer o célebre sacrifício supremo de “kamikaze”, num gesto derradeiro de homenagem ao Imperador do Japão.
A Guerra acabará por ter o seu fim, mas o reencontro de Jim Graham com os pais não será imediato.



”O Império do Sol” / “Empire of the Sun” revela-se uma película de uma contenção fantástica, ao mesmo tempo que Steven Spielberg demonstra a sua genialidade, embora seja sempre de realçar o trabalho do conhecido Tom Stoppard, na adaptação cinematográfica do genial livro de J. G. Ballard e não nos esqueçamos que aqui nasceu um actor chamado Christian Bale!

Edward Hooper - "Self-Portrait"


Edward Hopper - "Self-Portrait", (1925 - 30)
Óleo sobre tela, 63,8 x 51,4 cm.