quinta-feira, 30 de março de 2017

René Magritte - "La clairvoyance (autoportrait)


René Magritte - "La clairvoyance" (autoportrait) - (1936)
Óleo sobre tela, 54,5 x 65,5 cm.

John M. Stahl - “Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession”


John M. Stahl  - “Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession”
(EUA – 1935) – (98 min. - P/B)
Irene Dunne, Robert Taylor, Betty Furness, Sara Haden, Charles Butterworth.



A memória do cinema, por vezes, é bem madrasta para cineastas que ofereceram a sua vida à Sétima Arte. E não é preciso ir muito longe para falar nesse homem chamado John M. Stahl, que nos ofereceu a Arte do Melodrama nesses longínquos anos trinta, e a sua genialidade era tão grande que, vinte anos depois, os mesmos Estúdios Universal que o acolheram durante a sua carreira, fizeram os “remakes” de três das suas principais obras: “Magnificent Obsession”, Imitation of Life” e When Tomorrow Comes”, sendo essa tarefa de revisão entregue a outro Mestre do Melodrama: Douglas Sirk.


Porém, quando se fala dos geniais melodramas de Sirk, que tanto influenciaram a obra de Rainer Werner Fassbinder, o americano John M. Stahl fica quase sempre no esquecimento, surgindo apenas como autor de uma primeira versão das obras. Estamos assim perante uma das grandes injustiças da História do Cinema, sendo a outra o esquecimento de Frank Borzage, mas há muitas mais, referimos apenas estes dois nomes porque eles estão definitivamente associados a esse género chamado melodrama, que nunca foi muito amado pela crítica cinematográfica: o esquecimento a que foi votado pela Academia de Hollywood esse melodrama contemporâneo intitulado “As Pontes de Madison County” / “The Bridges of Madison County”, realizado por Clint Eastwood, fala por si.

John M. Stahl iniciou a sua actividade em 1918, ainda nessa época heróica do cinema mudo e, até à sua morte em 1950, fez quarenta filmes, bem demonstrativos do seu saber, sendo também um dos fundadores da Academia de Hollywood, mas quando morreu foram poucos os que se lembraram dele.


Rock Hudson e Jane Wyman - o remake
Robert Taylor e Irene Dunne - o original

“Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession” é na verdade um produto da Universal, que sempre cultivou a Arte do Melodrama, esse género que levava as plateias a puxar do lenço para limparem as lágrimas, perante as tragédias que se desenrolavam no grande écran, tantas vezes o espelho perfeito de vidas anónimas, que ainda hoje se cruzam connosco.

Ao contrário de Douglas Sirk, que explorou no seu “remake” todas as potencialidades deste melodrama, pondo grande ênfase na questão da operação de Helen Hudson, John. M. Stahl tirou bom partido do facto da protagonista ser a fabulosa Irene Dunne, que mais tarde iria constituir com Cary Grant uma fabulosa dupla, e introduziu momentos de pura comédia, a um passo da tragédia, como veremos na chegada ao hospital de Helen (Irene Dunne) e Joyce Hudson (Betty Furness). Por outro lado a presença de Robert Taylor nesta película (ainda sem o famoso bigode), serviu de rampa de lançamento para o actor, que aqui começa na comédia e rapidamente vive o melodrama em todo o seu fulgor.


O Dr. Hudson é um homem que gosta de ajudar os outros e pratica uma espécie de filosofia que convida a manter secreta essa mesma ajuda, pedindo apenas que, em troca, a pessoa realize um acto idêntico perante o seu semelhante. Mas infelizmente o Dr. Hudson morreu de paragem cardíaca, devido ao facto de único aparelho que existia na clínica ter sido requisitado para socorrer o playboy e milionário Bobby Merrick (Robert Taylor), que tinha caído no lago, perdido de bêbado, após horas de farra.


John M. Stahl e o esplendor do preto e branco!
Douglas SirK e as suas famosas cores!

Merrick recupera dessa noite sem regras, na clínica do Dr. Hudson, onde a consternação é geral pela morte do médico, e o destino fará com que se cruze com Helen Hudson, a esposa do clínico falecido, e fique fascinado por ela, embora esconda a sua identidade, devido aos acontecimentos recentes, mas a tragédia espreita na estrada e ela irá ficar cega para sempre…


John M. Stahl

Estamos assim perante esse perfeito território trágico, que John M. Stahl tão bem explorou e, quando revemos este filme, descobrimos nele a verdadeira essência do melodrama, nesses dourados anos trinta, hoje em dia tão esquecidos.
(Re)vermos a obra de John M. Stahl é a melhor homenagem que poderemos prestar a este cineasta e será sempre de referir que a edição em DVD que a Costa do Castelo fez nos oferece as duas versões de “Sublime Expiação”,  a de John M. Stahl e a de Douglas Sirk! 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Chick Corea / Gary Burton - "Lyric Suite For Sextet"


Chick Corea / Gary Burton
“Lyric Suite For Sextet”
ECM Records

Uma das fórmulas musicais que celebrizaram o trabalho de Manfred Eicher como produtor à frente da editora alemã ECM Records, foi precisamente os álbuns de duetos no interior do jazz e se muitos ainda hoje guardam na memória trabalhos como “Ruta And Daitya”, que nos oferecia Keith Jarrett e Jack DeJohnette (já aqui abordado) ou os dois trabalhos discográficos, “Sargasso Sea” e “Five Years Later”, que juntaram Ralph Towner e John Abercrombie ou ainda o surpreendente “Dança das Cabeças” (também já aqui abordado), que nos convidava a descobrir o universo de Egberto Gismonti e Nana Vasconcelos, entre outros belos “duelos” no interior do jazz, mas os mais célebres de todos serão os "encontros" que nos foram proporcionados pelo pianista Chick Corea e o vibrafonista Gary Burton, que logo no seu primeiro "encontro"/álbum intitulado “Crystal Silence”, surpreenderam o universo musical em 1972, para seis anos depois surgirem de novo num trabalho que iria dar continuidade ao anterior, que foi baptizado simplesmente de “Duet”, corria então o ano de 1978 e a ECM Records afirmava-se já como a mais original editora europeia de jazz. Mas cinco anos depois, ou seja em 1983, os dois músicos decidiram surpreender-nos novamente e desta feita apelaram à contribuição de um quarteto de cordas, constituído por Ikwhan Bae e Carol Shive nos violinos, Karen Dreyfus na viola e Fred Sherry no violoncelo e assim Chick Corea ofereceu-nos uma das mais belas obras discográficas da sua longa carreira musical, o trabalho “Lyric Suite For Sextet”. São sete belos temas todos bem diferentes, mas que se escutam como um todo, havendo espaço para todos brilharem, seja em dueto piano e vibrafone, solo de um dos dois intervenientes ou através das texturas criadas pelos instrumentos de cordas. No entanto, seria injusto não destacar o romantismo do tema “Brasília”, a mais bela de todas as composições criadas por Chick Corea para este álbum, de um lirismo absoluto e que vos convido a descobrir. Gravado a 1 de Setembro de 1983, “Lyric Suite For Sextet” de Chick Corea e Gary Burton revela-se um belo encontro entre dois géneros musicais oriundos de áreas bem distintas: o jazz e a denominada música erudita. 

Virginia Woolf - "As Ondas" / "The Waves"


Virginia Woolf
“As Ondas”
Relógio D’Água, Pag. 240

Sempre que estou junto do mar recordo-me deste maravilhoso livro de Virginia Woolf, porque ao escutar as sonoridades oriundas da orla marítima vejo as seis crianças deste livro a correrem no areal e a brincarem com os seus pensamentos e depois sinto que o narrador deste livro se revela como uma dessas crianças-nocturnas que habita o interior do ser humano, guardando as memórias de uma vida, para depois brincar com elas no interior dos sonhos. Mas “As Ondas” também nos oferece uma certa musicalidade que só Virginia Woolf, no seu radicalismo de escrita, conseguiria fazer nascer. Uma outra escritora, Marguerite Yourcenar, referiu-se a esta obra-prima da Literatura em termos profundamente musicais, comparando-a à famosa Arte da Fuga de J. S. Bach.
Ao acompanharmos o percurso dos seis protagonistas do livro, três rapazes e três raparigas, terminamos por nos reencontrarmos no outro lado do espelho da vida, a rever o que tem sido a nossa passagem pela vida, sempre com as ondas no horizonte. Estamos perante o mais belo romance desta genial escritora, que nunca foi à escola, porque era mulher, mas que deixou o seu nome, Virginia Woolf, gravado para sempre na História da Literatura.


(...) Ao aproximarem-se da praia as ondas erguiam-se, tomavam forma e desfaziam-se arrastando pela areia um ténue véu de espuma branca. A ondulação detinha-se, partia de novo, suspirando como alguém que dorme e cujo sopro vai e vem sem que a sua consciência saiba. Pouco a pouco, a barra escura do horizonte clareou como as impurezas de um vinho antigo que se depositassem na garrafa, deixando transparecer o seu vidro. Lá ao fundo, também o céu se tornou translúcido, como se nele se houvesse desprendido um sedimento branco, ou o braço de uma mulher reclinada no horizonte erguesse ao alto uma lâmpada. Faixas de branco, amarelo e verde alongaram-se sob o céu como longas folhas de um leque. Depois a mulher ergueu a lâmpada ainda mais alto: o ar inflamado pareceu cindir-se em fibras vermelhas e amarelas, elevando-se da superfície verde num frémito ardente, como as chamas envoltas em fumo de uma fogueira. Pouco a pouco, todas as fibras numa única massa incandescente e o cinzento do céu transformou-se num milhão de átomos de um suave azul. A superfície do mar tornou-se transparente e as grandes linhas escuras quase desapareceram no ondular das águas e na sua cintilação. O braço que sustinha a lâmpada continuou a subir devagar até que uma grande labareda surgiu. 

Um disco de fogo ardeu no rebordo do horizonte e o mar à sua volta tornou-se um esplendor de ouro. (...) 

Virginia Woolf  

in "As Ondas"

René Magritte - "Les valeurs personneles"


René Magritte - "Les valeurs personneles" - (1951/52)
Óleo sobre tela, 80 x 100 cm.

Gregory Hoblit – “A Raiz do Medo” / “Primal Fear”


Gregory Hoblit – “A Raiz do Medo” / “Primal Fear”
(EUA – 1996) – (129 min. / Cor)
Richard Gere, Laura Linney, Edward Norton, Frances McDormand, John Mahoney, Alfred Woodard, Joe Spano.

“A Raiz do Medo” / “Primal Fear” marca a estreia no cinema de Gregory Hoblit, que entra por uma surpreendente porta grande ou não fosse ele um dos responsáveis pela “Balada de Hill Street” / “Hill Street Blues”, a par do célebre Steven Bochco e da famosa série “L.A. Law”.
Partindo do romance de William Diehl, o cineasta irá construir um “thriller” de primeira água, onde iremos conhecer um famoso advogado de Chicago, Martin Vail (Richard Gere, numa das melhores interpretações da sua longa carreira), que gere a sua celebridade movimentando-se como ninguém nos “ Media”, ao mesmo tempo que co-habita os territórios do poder a par com os criminosos que defende com êxito, sempre tendo em vista o dinheiro que pode ganhar com isso.


E quando o conhecido Arcebispo Rushman (Stanley Anderson) é assassinado por um jovem acólito, de forma brutal, recebendo o cognome de “o carniceiro” pela Imprensa, de imediato Martin Vail (Richard Gere) oferece-se para defender o jovem Aaron (o então desconhecido Edward Norton, que nos irá surpreender com a sua interpretação ou não fosse ele um dos maiores actores da sua geração), já que vê naquele caso macabro a forma perfeita de aumentar ainda mais a sua popularidade, começando a defender a inocência do seu tímido cliente, partindo do princípio que poderia existir um terceiro agressor.


Tendo em conta o escândalo, o Procurador-Geral Shaughnessy (o veterano e excelente secundário John Mahoney), decide pedir a pena capital para o acusado, encarregando Janet Venable (Laura Linney, também ela sempre excelente) de tratar da acusação, recomendando desde logo que não poderá haver falhas no processo. A bela Janet Venable, antiga advogada estagiária de Martin Vail, com quem tinha tido um caso irá ,por todos os meios ao seu alcance, levar esses mesmos objectivos a bom porto. Mas nos bastidores encontram-se poderosas forças económicas, envolvidas na especulação de terrenos, com o intuito de criarem condomínios de luxo, sociedade essa ligada à Igreja através do próprio Arcebispo.


Durante a investigação efectuada pelos membros da equipa de Martin Vail, irá ser encontrada uma cassete filmada pelo próprio Arcebispo, onde se vê o acusado com mais um acólito a ter relações sexuais com uma rapariga, originando desde logo um enorme escândalo, ao mesmo tempo que o acusado começa a revelar perante a psicóloga (Frances McDormand), que o interroga filmando as sessões, possuir uma dupla personalidade, o que irá baralhar, decididamente, as regras do jogo, conseguindo Martin Vail (Richard Gere) levar “a água ao seu moinho”, manipulando tudo e todos, em busca dessa celebridade  que tanto ama e os “Media” adoram.


“A Raiz do Medo” / “Primal Fear” oferece-nos um "thriller" emocionante, à medida que as cartas do jogo vão sendo conhecidas, envolvendo o espectador de forma perfeita no filme, onde nunca é demais salientar o trabalho dos protagonistas, aliás o elenco, se virem bem, é de luxo e depois temos uma excelente direcção de actores, vejam-se as sequências no tribunal, para no final, após o julgamento e a decisão tomada pela justiça, sermos todos surpreendidos pela verdade dos factos! Tentem ver este filme magnifico e não se esqueçam de fixar o nome do realizador, porque aqui estamos perante um grande cineasta, facto que nos será comprovado pelos filmes seguintes de Gregory Hoblit. 

terça-feira, 28 de março de 2017

Terje Rypdal - "Whenever I Seem To Be Far Away"


Terje Rypdal
“Whenever I Seem To Be Far Way”
ECM Records

O guitarrista norueguês Terje Rypdal sempre teve uma enorme afeição pela denominada música erudita, tendo começado a ter lições de piano aos cinco e a escolher o trompete aos oito anos de idade como o seu instrumento de eleição,  sendo assim bem natural ter confessado um dia que uma das suas maiores influências musicais tenha sido esse nome incontornável da história do jazz chamado Miles Davis e este álbum intitulado “Whenever I Seem To Be Far Way” é o espelho disso mesmo, gravado em Oslo em 1974, para a editora de Manfred Eicher, ECM Records, ele representa uma dessa moedas com cara e coroa bem diferentes, mas com o mesmo valor.

Assim, se no lado A do álbum iremos encontrar o seu habitual grupo Odyssey nos temas “Silver Bird Is Heading For The Sun”, com uma famosa entrada do melotron, na época bastante usado pelos grupos rock, e depois a surgirem as sonoridades bem conhecidas do grupo, com o inevitável destaque para a sua guitarra eléctrica, já no tema seguinte, bastante mais curto e intitulado “The Hunt”, temos logo a abrir e a marcar decididamente o tema a bateria do famoso Jon Christensen, um dos nomes mais solicitados da casa ECM Records, para depois entrarmos no som característico da década de setenta do guitarrista Terje Rypdal e do seu grupo Odyssey.


Mas, ao virarmos o disco de vinil para escutarmos o lado B com o tema “Whenever I Seem To Be Far Away” (Image for electric guitar, strings, oboe and clarinet), que dá título ao trabalho discográfico, surge-nos algo de totalmente diferente, porque aqui vamos encontrar Terje Rypdal a ser acompanhado pela Sudfunk Symphony Orchestra, dirigida por Mladen Gutesha e logo nos primeiros compassos iremos deparar com algo de profundamente meditativo e onde iremos descobrir ao longo da audição solos de Christian Hedrich na viola, Helmut Geiger no violino e Terje Rypdal em guitarra eléctrica, este último sempre em crescendo, levando-nos até esse Paraíso sempre tão fascinante e onde habitam os mestres da guitarra eléctrica, revelando-se o norueguês precisamente um dos seus grandes criadores. Aliás, quem o viu em Lisboa, entende bem o que estou a escrever.

Por outro lado convém referir que Terje Rypdal estudou composição e tem desenvolvido intensa actividade também neste campo, com inúmeras peças para música de câmara e coral, algumas delas já gravadas precisamente na ECM Records, para além das suas seis sinfonias. A nossa proposta para uma primeira abordagem da outra faceta musical de Terje Rypdal é precisamente este belo e melancólico tema intitulado “Where I Seem To Be Far Away”, uma verdadeira pérola da sua discografia, já disponível em cd e com uma capa lindíssima.

Yukio Mishima - "O Tumulto das Ondas" / "Shiosai"



Yukio Mishima
“O Tumulto das Ondas”
Relógio D’Água, Pag.174

Foi através de um texto de António Mega Ferreira (*) publicado no JL – Jornal de Letras, na época em que ele era chefe de redacção, que descobri o escritor Yukio Mishima, o alvo era a publicação em Portugal de “O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar” e desde então tenho lido tudo o que encontro do autor japonês, depois temos o celebre filme que Paul Schrader realizou, sobre o qual já aqui escrevemos, e essa obra incontornável que Margueritte Yourcenar escreveu sobre o escritor e disponível no nosso país graças à editora Relógio D’Água que também é responsável pela edição deste belo e singular romance intitulado “O Tumulto das Ondas” com ilustrações de Catarina Baleiras. Estamos perante um belo romance que nos narra a história de amor entre Shinji, um jovem pescador pobre e a bela Hatsue de outra condição social, mas que não será impedimento para que a chama do amor surja de mansinho e os leve a unir esforços para ultrapassar as barreiras que os separam do Paraíso. Como já é habitual nestas pequenas crónicas aqui fica um pequeno trecho deste belíssimo  livro de Yukio Mishima.



“O Tumulto das Ondas”


(...) "Agora, já Shinji podia entrar livremente em casa de Miyata Terukichi. Um dia que voltava, apresentou-se à porta da casa com uma camisa de colarinho aberto, de brancura impecável, e com as calças acabadas de passar a ferro; em cada mão trazia uma dourada... 
Hatsue esperava-o, já pronta. Os dois jovens haviam prometido ir ao templo de Yashiro e ao farol para anunciar o noivado e transmitir os agradecimentos. 
Iluminou-se a entrada de terra batida mergulhada na meia escuridão do crepúsculo. Hatsue surgiu, vestida com aquele quimono de Verão, branco, com grandes campainhas, que comprara ao vendedor ambulante. A brancura do vestido brilhante, mesmo em plena noite. 
Shinji ficara à espera, apoiando-se com uma mão à porta da entrada; baixou o olhar para Hatsue quando esta apareceu e, sacudindo uma das pernas calçadas com socos de madeira, como quem espanta os insectos, murmurou: 
- Os mosquitos são terrívéis! 
- São, não são? 
Os dois jovens subiram a escadaria de pedra que levava ao templo de Yashiro. Em vez de correrem por ali acima como poderiam ter feito, preferiram subir lentamente os degraus, com os corações banhados de alegria, como para saborearem o prazer de cada degrau."(...) 

Yukio Mishima
in "O Tumulto das Ondas"

(*) - O Texto de António Mega Ferreira sobre Yukio Mishima que refiro, poderá ser encontrado no livro "A Borboleta de Nabokov". (Ed.Noticias) 

René Magritte - "La fée ignorante"


René Magritte - "La fée ignorante" - (1956)
Óleo sobre tela, 50 x 65 cm.

Delmer Daves – “O Comboio das 3 e 10” / “3:10 To Yuma”


Delmer Daves – “O Comboio das 3 e 10” / “3:10 To Yuma”
(EUA – 1957) – (92 min. – P/B)
Glenn Ford, Van Heflin, Leora Dana, Henry Jones, Robert Emhardt, Richard Jaeckel.

O cineasta Delmer Daves, apesar de se ter formado em Direito pela Stanford University, nunca irá exercer a profissão, iniciando-se no cinema num trabalho menor em “The Covered Wagon” (1927). Mais tarde passou a actor e pouco tempo depois começou a colaborar na escrita de argumentos, passando rapidamente a ser reconhecido pelo seu enorme talento. Filmes como “A Floresta Petrificada” / “The Petrified Forest” (1936) e “Ele e Ela” / “Love Affair”, devem tudo ao saber do argumentista, tendo-se Delmer Daves estreado na realização com “Rumo a Tóquio” / “Destination Tokyo” (1943), tendo Cary Grant e John Garfield nos protagonistas.


No entanto será nesses géneros, hoje um pouco esquecidos, o “Western” e o denominado “Film Noir”, que este cineasta irá dar nas vistas, continuando, muitas vezes a assinar os seus próprios argumentos, ao mesmo tempo que gostava de produzir os seus próprios filmes, para assim ter um maior controlo sobre todos os aspectos da produção das películas, impedindo desta forma as tão famosas intromissões de terceiros ou seja os patrões do Estúdio.


“O Comboio das 3 e 10” / “3:10 to Yuma” é um dos seus filmes mais famosos, um “Western” que, de certa forma, irá beber da mesma fonte que o célebre “High Noon” / “O Comboio Apitou Três Vezes” de Fred Zinnemann, oferecendo a Glenn Ford, que aqui interpreta a personagem Ben Wade, um dos seus melhores desempenhos, na figura de um famoso chefe de uma quadrilha, que não olha a meios para atingir os seus fins, embora tente evitar danos colaterais ou se preferirem vítimas inocentes, revelando sempre uma enorme eficácia nos assaltos que planeia e será isso mesmo que iremos ver logo no início do filme, com o assalto à diligência que transporta o ouro.


Mas antes deste acontecimento fulcral para o desenvolvimento da acção, iremos conhecer um homem e a sua família, Dan Evans (Van Heflin), que luta na sua parcela de terreno contra a seca que atinge a região onde vive. E será esse mesmo homem que irá presenciar o assalto na companhia dos dois filhos pequenos e que irá desempenhar um papel primordial em “3:10 to Yuma”, ao aceitar levar o perigoso bandido até ao comboio, que o irá conduzir até ao presídio, depois deste ter sido capturado, em virtude de ter decidido ficar para trás, para cortejar a jovem empregada de um saloon.


Dan Evans (Van Heflin) irá aceitar essa missão, na companhia de Alex Porte (Henry Jones), conhecido como o eterno bêbado do lugarejo, mais o dono da companhia das diligências, que lhes oferece 200 dollars em troco da difícil missão, verba que irá retirar da miséria Dan Evans e a sua família.
Ao longo do filme iremos ter o retrato psicológico dos dois homens, o temível Ben Wade e o pobre Dan Evans, num temível duelo de palavras, percebendo de imediato o fora-da-lei as razões que levam aquele homem a aceitar a mortífera missão. Estamos assim perante o célebre “Western Psicológico”, que irá fazer furor nesses anos, ao mesmo tempo, que Delmer Daves consegue envolver o espectador de forma perfeita na trama do filme.

Delmer Daves

Em 2007, o cineasta James Mangold, realizou um “remake” deste filme, com Russell Crowe e Christian Bale nos protagonistas, mas o original, no seu soberbo preto e branco, continua a suplantar o “remake”, graças ao saber desse grande cineasta chamado Delmer Daves.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Keith Jarrett - "Arbour Zena"



Keith Jarrett
“Arbour Zena”
ECM Records

Tenho que confessar que este é um dos meus álbuns favoritos de Keith Jarrett e o primeiro vinil que comprei da ECM Records. Descobri “Arbour Zena” no programa de Rádio “Forum”, da responsabilidade do saudoso Jorge Lopes(*), que para além de ser a mais famosa voz da RTP na área das transmissões de Atletismo, foi também na Rádio o maior divulgador da música da ECM Records no século passado.

Ao iniciarmos a audição deste intemporal trabalho discográfico de Keith Jarrett, datado de 1976 e que recentemente teve uma nova edição, somos invadidos pela cordas da “Radio Symphony Orchestra” de Stuttgart, dirigida por Mladen Gutesha e depois surge-nos o piano de Jarrett pontuando o movimento das cordas, até chegar o contrabaixo de Charlie Haden, que irá convidar a orquestra de cordas a navegar pelas linhas que vai elaborando, sempre acompanhado de forma envolvente e melodiosa pelo piano de Keith Jarrett, ao longo de “Runes”, passando por momentos de um solo mágico e inesquecível, até chegar o saxofone de Jan Garbarek a concluir a primeira viagem deste trabalho discográfico.

Já o segundo tema do álbum “Arbour Zena”, dedicado a Pablo Casals and The Sun e intitulado “Solara March”, surge de forma profundamente melancólica com uma abertura soberba do contrabaixo de Charlie Haden, sempre acompanhado pela orquestra de cordas e só depois nos irá surgir o piano de Jarrett a respirar melancolia por todas as teclas, entrando num soberbo diálogo com Haden, mas quando estamos a chegar a metade deste tema, o piano de Keith Jarrett surge em crescendo e entra o saxofone de Jan Garbarek, repleto de vivacidade e cor, que irá contagiar os restantes intervenientes, sempre numa perfeita harmonia.

A terceira peça deste genial “Arbour Zena” irá contar apenas com a participação de Keith Jarrett no piano e Jan Garbarek nos saxofones soprano e tenor, acompanhados pela respectiva Orquestra de Cordas, dirigida por Mladen Gutesha, que nos irá oferecer ao longo da quase meia-hora do tema “Mirrors” uma inesquecível viagem por um universo neo-romântico, convidando o ouvinte a contemplar o mundo que o rodeia, através de acordes de uma beleza transcendental.
O romantismo que respira das três faixas que compõem “Arbour Zena” levou-nos a elegê-lo como o ponto de partida da viagem musical desta semana: o encontro entre o jazz e a denominada música erudita, nessa bela encruzilhada, que muitas vezes nos conduz a maravilhosas descobertas.

(*) – De Jorge Lopes e do seu programa “Forum” iremos falar em breve nas Crónicas da Galaxia.

Peter Handke - "A Tarde de um Escritor" / "Nachmittag eines Schriftstellers"


Peter Handke
“A Tarde de um Escritor”
Editorial Presença. Pag. 90

Quando escutamos alguém a falar no nome de Peter Handke, de imediato surgem na nossa memória as películas de Wim Wenders nascidas a partir dos argumentos desta voz singular da denominada nova literatura alemã, em que a solidão é tantas vezes personagem, basta recordar filmes como “As Asas dos Desejo”, “Movimento em Falso”, “A Mulher Canhota” ou “A Angustia do Guarda-Redes Perante o Penalty”, estes dois últimos nascidos primeiro no formato de novela e só depois transformados em argumento cinematográfico. Peter Handke, ao longo dos anos, tem trabalhado a palavra através de uma actividade ímpar, que tem alternado entre a literatura, o teatro e o cinema, recorde-se que também ele já realizou quatro películas. Mas o que nos interessa aqui é precisamente o seu trabalho literário, mais concretamente o magnifico livro “A Tarde de um Escritor”, que surge dedicado a Francis Scott Fitzgerald e onde a solidão humana se encontra bem presente, ou não fosse essa mesma solidão a oficina ideal do escritor, como um dia referiu Paul Auster numa entrevista.

Em “A Tarde de um Escritor” iremos descobrir uma profunda reflexão sobre a existência humana nas sociedades contemporâneas, essa difícil arte de existir tantas vezes incógnito no interior da sua própria escrita, oferecendo sempre um pouco de si mesmo às personagens que vai criando, até chegar esse momento em que a ficção e a realidade se diluem de forma perfeita nas palavras que vai construindo, em busca dessa linguagem perfeita que aquece os dias matando o frio das pequenas solidões. Aqui vos deixo dois trechos deste incontornável livro de Peter Handke intitulado “A Tarde de um Escritor”.



“A TARDE DE UM ESCRITOR”

"Desde que, durante quase um ano, o escritor viveu com a ideia de ter perdido a língua, cada frase que escrevia, sentindo ainda por cima o ímpeto da possível continuação, era para ele um acontecimento. Cada palavra que, não dita, mas escrita, dava origem à outra palavra, fazia-o respirar fundo e ligava-o de novo ao mundo; só com esse apontamento feliz começava para ele o dia, e então também bem podia ser que nada mais acontecesse até à manhã seguinte." (...) 

(...) "O escritor já ía a meio caminho do portão do jardiim, quando de repente se voltou. 
Correu para dentro de casa, precipitou-se lá para cima para o quarto de trabalho e substituiu uma palavra por outra. Só agora sentia no quarto o cheiro do suor e via a húmidade nos vidros. 
De repente deixou de ter tanta pressa. De repente devido a essa nova palavra, toda a casa vazia deu a impressão de calor e de bem-estar.(...) 


Peter Handke
in "A Tarde de Um Escritor"